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Euro 202(0)1 – Pouco importa, pouco importa?

Uma das principais competições de futebol está de volta este verão. Ainda que em circunstâncias atípicas no contexto da pandemia COVID-19, esperam-se grandes espetáculos e, essencialmente, uma festa do desporto-rei. Não faltam antevisões do Europeu e perspectivas das equipas, portanto decidi dedicar este espaço a uma reflexão mais teórica sobre este género de competições, com especial ênfase na selecção nacional portuguesa.

O futebol das selecções nacionais é especial por várias razões e arrisco-me a dizer que se trata efetivamente do futebol no seu estado mais puro – o talento individual sobressai ao coletivo, os jogadores jogam pelo amor à camisola e não pelos cifrões do contrato; os adeptos esquecem as rivalidades triviais e festejam em conjunto (muitas vezes juntando famílias ou grupos de amigos que não seguem o desporto de forma regular); a imprevisibilidade e a emoção são presença constante.

Todos estes factos tornam este futebol único… não propriamente melhor que o jogado nas longas temporadas de 9-10 meses do ano. Naturalmente, o melhor ou pior, é sempre subjectivo, o que sabemos é que o “futebol de clubes” é, sem dúvida, mais aprimorado, mais “justo” e mais profissional, com tudo de bom e mau que isso acarreta.

Ao avaliar a performance de uma seleção temos, portanto, de ter em conta que não o podemos fazer com os mesmos parâmetros que avaliamos um clube, tanto ao nível organizativo, como ao nível exibicional dentro do campo – o jogo é o mesmo, mas com escasso treino e poucas rotinas, aparentando-se mais com o “antigo” futebol, do século XX.

O Europeu 2020, como qualquer taça e, principalmente, como qualquer competição com eliminatórias de jogo único, terá no fator sorte uma preponderância elevada na equação do vencedor: uma grande penalidade; uma expulsão; um golo “contra corrente”; o nervosismo e a pressão; qualquer um destes fatores pode fazer pender a balança para um dos lados – nem sempre o lado do mérito.

Dito isto, podemos finalmente avaliar a nossa seleção: Portugal parte como campeão em título e engloba o segundo lote de principais candidatos na maioria das casas de apostas, o que aponta vários holofotes à participação da equipa das Quinas no Europeu. O que podemos então esperar?

Dadas as expectativas, não atingir pelo menos os quartos de final será uma desilusão, ainda que, sendo totalmente honesto, acredito que a selecção portuguesa de hoje em dia se tornou numa equipa que simultaneamente não surpreende os seus adeptos se perder com a Hungria ou se ganhar à Alemanha. Parece paradoxal esta mistura, por um lado, tem de ser dado o mérito do trabalho realizado na seleção nos últimos anos, que tornou possível batalhar com as grandes potências mundiais – previamente, um embate com França ou Alemanha era sinónimo de derrota à priori na mente dos adeptos, jogadores e treinadores. Por outro lado, a qualidade de jogo coletivo não acompanha o talento individual e a postura expectante/defensiva torna os jogos contra equipas teoricamente mais fracas, um desafio acrescido.

Por fim, falar de classificações exclusivamente seria uma avaliação superficial e é exatamente este ponto que quero deixar para reflexão com este texto. Ganhar não é sinónimo de ser melhor e perder não é sinónimo de ser pior. Encontram-se muitas vezes no caminho e quem vê o futebol de forma simples e binária tende a resumir o jogo assim – “pouco importa, pouco importa, se jogamos bem ou mal, queremos é levar a taça, para o nosso Portugal”. Na verdade importa e importa muito – jogar “bem” aproxima-nos da vitória, aumenta a probabilidade de termos “sorte”. Jogar mal e ganhar pode acontecer uma vez, como em 2016, mas não se iludam, ninguém ganha porque joga mal, mas apesar de jogar mal.

A seleção portuguesa não tem obrigação de ser uma máquina oleada a jogar tiki taka de olhos fechados, mas tem obrigação de, pelo menos, tentar não estragar o grande potencial individual dos jogadores portugueses. O que é jogar bem daria para outro texto, mas resumindo de forma simples – criar muitas ocasiões de golo e permitir poucas, quer seja com 60% de posse de bola ou 40%.

Se quisermos ser mais filósofos, a seleção nacional terá também obrigação de nos representar: queremos ser uma nação que inspira os outros pelo futebol praticado ou queremos ficar conhecidos pela selecção que ganha e faz os adeptos bocejar? Não há resposta correta ou errada e gostava que todos saíssem daqui com esta ideia, é tão válido querer ganhar “a qualquer custo” como esboçar um sorriso irónico ao ler que a Holanda de 74 ou o Brasil de 82 “perderam”.

Visão do Leitor: Pedro, o Polvo

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

27 Comentários

  • Kafka
    Posted Junho 14, 2021 at 2:16 pm

    Excelente texto

  • Amigos e bola
    Posted Junho 14, 2021 at 2:28 pm

    Fantástico texto. Dos melhores, e dos que mais me identifico. Subscrevo tudo.

    Esta é a nossa melhor seleção desde o Euro 2004. E é cada vez mais consensual que a filosofia do Fernando Santos não se adequa às características dos nossos jogadores. Deixo isto para reflexão.

    • Pedro o Polvo
      Posted Junho 15, 2021 at 10:07 am

      Obrigado! Em qualidade esta seleção tem mesmo muito potencial mas diferente de outras épocas, não tem propriamente uma base sólida de um clube como em 2004.

  • Diogo Moura
    Posted Junho 14, 2021 at 2:42 pm

    A seleção de 2004 ficou na memória por várias razões. Porque o Europeu foi em casa, porque o Scolari fez com que toda a gente colocasse bandeiras à janela, porque pela primeira vez chegamos a uma final.
    Mas a principal razão é mais simples. Começaram a jogar à bola. Contra a Espanha jogamos bem (Nuno Gomes meteu 1-0), contra a Inglaterra foi na raça! Contra os Países Baixos foi um grande jogo de futebol.
    Perdemos contra a Grécia e foi uma choradeira colectiva. Mas lá está, a seleção ficou no goto dos adeptos por termos feito boas exibições.
    Tal como a do Euro 2000! Jogamos muito contra a Inglaterra (uma recuperação épica) e ainda varremos a Alemanha com um Hat-trick do Sérgio Conceição e a rodar elementos.
    Daí em diante, o Euro mais memorável foi mesmo o de 2016 porque ganhamos. Mas ganhamos mal. Ficamos em terceiro no grupo, borramos a cueca contra a Croácia e passamos a Polónia nos penaltis.
    Contra Gales foi a melhor exibição.
    A final… Bem, se o Gignac não manda ao poste a história seria outra e provavelmente o Fernando Santos não estava actualmente a comandar a seleção.
    Mas isto para dizer que o que fica na história é quem ganha. Mas no coração e na memória é o jogo jogado. As seleções de 2000 e 2004 são icónicas por serem tomba gigantes. Não por jogarem mal contra equipas do mesmo patamar ou até inferiores e ganharem. É uma questão de carisma!
    O Euro16 foi uma exceção. Não creio que volte a acontecer tão cedo.
    Nota: não referi mundiais porque o Post é dedicado a Europeus.

    • Meshuggah_SLB
      Posted Junho 14, 2021 at 5:19 pm

      Para além do excelente texto do Pedro, O Polvo, concordo totalmente com este comentário.

      Para além disso, gostava de acrescentar que, apesar de não ser tão falado, acho que fizemos uma prestação muito agradável em 2012 e que nem sempre as pessoas falam / recordam.

      Tínhamos uma equipa algo desigual (acho que era ela por ela com a equipa de 2016, mas admito que estou a falar de cabeça), calhámos no grupo da morte da altura – Dinamarca, Holanda e Alemanha – começámos por perder com os alemães num primeiro jogo muito pobre, mas contra a Dinamarca, depois de estarmos a ganhar por 2-0 e nos termos deixado empatar, ainda ganhámos no fim com um charuto do Varela.

      No fim, quando precisávamos de ganhar à Holanda, começámos a perder e demos a volta numa das melhores exibições de que me lembro do Cristiano pela selecção.
      Nos quartos ganhámos com mais um golo do Cristiano à Rep. Checa, num jogo que dominámos, e só fomos travados pela Espanha, que era, à epoca, a melhor selecção do mundo.

      Porque recordo este Europeu? Numa equipa que nem vinha a jogar nada de especial, e com alguns “patinhos feios”, tendo calhado num grupo complicado, passámos, tendo a melhor versão que recordo do Cristiano em todas as fases finais até hoje (também marcou 3 golos no Euro 2016 e até 4 no Mundial 2018, mas o Cristiano de 2012 era mais influente e claramente um dos 2 melhores do mundo e apareceu em bom nível na competição) e fomos a única selecção que, se não estou em erro, durante aquele período de ouro de 4 anos, levou a fortíssima Espanha a penalties, nos quais podíamos perfeitamente ter ganho.

      Não sendo tão “defensivos” como em 2016 (basta ver que sofremos golos em todos os jogos da fase de grupos), certamente vivemos também muito do grupo / coletivo (até porque o Paulo Bento, fora o trabalho, a meu ver, consistente no Sporting, nunca se revelou grande espingarda e também era algo medroso), que se mantinha muito coeso e, durante aquele mês, se tornou difícil de derrotar.

      Abraço

      • masterDC
        Posted Junho 14, 2021 at 8:00 pm

        Esse Euro 2012 foi fantástico e apesar de não termos uma equipa com grandes nomes, tinhamos uma grande equipa que só foi eliminada nos penaltis pela melhor Seleção do mundo na altura. Esse Euro para mim foi o melhor Euro do Ronaldo.

        Podiamos ter ganho nos penaltis e ter chegado à final, mas infelizmente não aconteceu. As grandes penalidades são e serão sempre decisões estudadas e trabalhadas e não baseadas em sorte. Poderá haver sempre um penalti falhado ou marcado com alguma sorte mas no geral são marcações trabalhadas, que exigem conhecimento e treino.

        No nosso caso somos atualmente muito fortes nesta componente. Temos na minha opinião um dos melhores defensores de penaltis da competição e também uns batedores exímios como o Cristiano, o Bruno, o Rúben Neves ou SO, para além de que Jota, Félix, André Silva ou até Renato também sabem bater. Sendo nós uma Seleção que joga de empate em empate, nas competições a eliminar poderá ser fundamental.

        • Meshuggah_SLB
          Posted Junho 14, 2021 at 11:05 pm

          master DC,

          Sem dúvida, também acredito mais no trabalho e prática (basta ver que a seleção alemã tem um rácio de vitórias em penalties que, se não for o melhor de sempre está lá perto e acredito que tenha muito a ver com ser algo trabalhado).

          Acho que mais do que o fator sorte, o extra para além do trabalho tem essencialmente a ver com a capacidade mental de cada jogador, por ser um momento do jogo de enorme pressão.

          Para além dos nomes que disseste, acrescento o João Mourinho (andar bater, tu bates bem c****** e se falhares, que se f*** :D)

        • Sobe Alges
          Posted Junho 15, 2021 at 8:41 am

          Para mim, a seleção de 2012 também foi das melhores que já vi. Essa e a de 2004. Foram das vezes que Portugal melhor jogava futebol. Se tem calhado ganharmos nos penalties à incrível seleção espanhola da altura, quem sabe…

  • cratera
    Posted Junho 14, 2021 at 2:58 pm

    Temos de matar de uma vez por todas este falso, e ridiculo, binomio de jogar bem/jogar mal. Ha feio e bom (Inter de Mourinho) e bonito e mau (Arsenal de Wenger), tal como tambem ha bom e bonito (Barcelona de Guardiola) e feio e mau (estao prontos? Portugal).

    Portugal tem um futebol feio e mau. Concede demasiadas oportunidades, treme defensivamente mesmo contra Irao ou Marrocos, e nao cria as oportunidades que devia, atendendo ao talento que tem ao seu dispor.

    • Pedro o Polvo
      Posted Junho 15, 2021 at 10:10 am

      Como disse no texto, é um tema interessante para outro artigo. É difícil resumir tudo em poucas palavras. Só um apontamento, discordo quanto ao Arsenal de Wenger – talvez tenha tido um reinado longo demais mas acho que quanto mais tempo passa, mais valor irão dar ao seu trabalho.
      Cumprimentos

      • cratera
        Posted Junho 15, 2021 at 11:48 am

        Sem duvida, o Wenger marcou uma era, mas na fase descendente o Arsenal era tudo muito bonito mas a equipa era super fragil. Bom futebol e fazer bem as coisas, seja defender, seja atacar, por bonito ou feio que seja.

        Cumprimentos e que acabemos todos a sorrir hoje, com futebol bonito, feio, bom, mau… hehe

  • che
    Posted Junho 14, 2021 at 5:37 pm

    Texto fantástico. No que toca ao talento vs qualidade de jogo é de facto um paradoxo faz lembrar a Itália da década de 90: imenso talento individual, jogar fechado como se fosse uma equipa do meio da tabela.

    • Pedro o Polvo
      Posted Junho 15, 2021 at 10:11 am

      Obrigado che!
      Eram outros tempos, impossível comparar…mas percebo a referência!

    • hortalica
      Posted Junho 15, 2021 at 10:18 am

      Analisa os últimos campeões de grande competições.

      Europeu: Portugal a jogar fechado.

      Mundial: França após perder o Europeu para Portugal, passou a jogar mais fechada e acabou a ser campeã mundial. Nota-se diferenças entre França 2016 e França 2018, são mais defensivos e deixam o adversário ter a bola em certos momentos.

      Copa América: O Brasil tem jogado mais fechado que o habitual. Preocupam-se muito mais com o momento defensivo que as restantes equipas sul americanas.

      Se quiseres ainda se pode colocar a Taças das Nações que Portugal também fechou-se na final.

  • Nome sem Caracteres Ilegais
    Posted Junho 14, 2021 at 7:44 pm

    Essa primeira frase escrita a negrito…não só concordo como gostava que a frase aparecesse como notificação no telemóvel ou PC do pessoal que, de cada vez que há um jogo da seleção, usam palavras como “palhaçada”, “farsa” e expressões como “brincar às seleções”.

    A mim custa-me especialmente, pois sempre gostei mais de ver seleções a jogar do que clubes (embora tenha havido exceções).

    • Pedro o Polvo
      Posted Junho 15, 2021 at 10:14 am

      Acho que se perguntarem a qualquer jogador internacional qual o seu momento mais marcante ou emocional da carreira, a grande maioria vai responder com um episódio onde representou a seleção nacional. Veja-se o exemplo do CR7.
      Cumprimentos!

  • Manchester Is Red
    Posted Junho 14, 2021 at 7:45 pm

    Mesmo o adepto mais “casual” será capaz de dizer exactamente quem jogou no Euro 2004 apesar do desaire.

    Nem todos são capazes de dizer quem foi campeão europeu em 2016.

    Ganhar é óptimo. Jogar mal com tanto talento é criminoso.

    • Nome sem Caracteres Ilegais
      Posted Junho 14, 2021 at 11:37 pm

      Manchester Is Red
      Olhe que não é bem assim, não senhor…ainda outro dia deixei um conhecido de olhos arregalados quando lhe disse que Fernando Couto e Rui Jorge tinham estado no Euro 2004 a representar Portugal. E mais exemplos haverá, provavelmente.

    • Pedro o Polvo
      Posted Junho 15, 2021 at 10:22 am

      Há mais fatores na equação como por exemplo termos sido a nação organizadora. Mas a ideia é a mesma – há mais vida para além das vitórias e o que recordamos como momentos de concretização ou felicidade nem sempre correspondem exclusivamente aos títulos.

  • Joao Silvino
    Posted Junho 14, 2021 at 8:17 pm

    Bom texto!

  • Joaquim O
    Posted Junho 15, 2021 at 10:54 am

    Concordo com o texto. Quero apenas salientar que esta reputação de uma equipa que joga mal mas que continua a ganhar já não é relevante desde o Munidal 2018, onde fomos derrotados nos oitavos pelo Uruguai, e empatamos com o Irão.

    No entanto, ainda temos essa imagem de equipa que “vai ganhando”. Creio que este Euro irá definitivamente enterrar essa ideia.

    • Nome sem Caracteres Ilegais
      Posted Junho 15, 2021 at 12:24 pm

      Joaquim O
      Primeiro, isso das reputações vale o que vale. A expressão “ser vítima da reputação” existe por alguma razão…

      Segundo, essa lógica só funciona se fingir que a Liga das Nações não existe. Quer goste quer não, é uma competição oficial. E Portugal tem ou não tem ganho várias vezes aí? Que diabo, até ganhou o troféu da última vez. E isso aconteceu DEPOIS do Mundial 2018.

      E eu também podia falar dos apuramentos…

  • Vegeta
    Posted Junho 16, 2021 at 10:33 am

    Pedro o Polvo, belo texto..
    Posso perguntar qual a melhor seleção portuguesa que viste jogar?
    A minha foi a do Euro 2000.

    • Pedro o Polvo
      Posted Junho 17, 2021 at 2:04 pm

      Obrigado!
      Na minha opinião, euro 2004.
      Como já afirmei, faz diferença ter por trás um grupo que seja da mesma equipa e já jogue de “olhos fechados”. Espanha entre 2008-2012 foi outro bom exemplo.

      • Vegeta
        Posted Junho 18, 2021 at 12:48 pm

        Adorava essa Espanha.
        Sim, percebo claramente, o que dizes na seleção isso sempre fez a diferença.
        Só perguntei, porque apesar disso, sempre achei que em 2000, foi a melhor mas aceito perfeitamente a de 2004, e acho que a discussão tem de ser sempre entre estas 2.

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