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Futebol e política: dois mundos inseparáveis

Portugal é um país onde os temas preferidos para desenrolar uma conversação informal são, por larga distância, o futebol e a política. Basta sentarmo-nos num parque, numa esplanada ou em um restaurante, que haverá seguramente uma mesa a abordar um destes dois temas, tanto de maneira positiva, como pejorativa (isto especialmente quando se fala do adversário). É algo natural, parecendo que está nos genes. São os dois temas prediletos, embora o conhecimento dos jovens perante os mesmos esteja em queda abrupta. O desporto em geral também é abordado com alguma frequência, mas para grande parte da da população, o interesse pelo futebol é muito maior (fala-se muito mais do Campeonato Europeu ou do Mundial, em comparação com os Jogos Olímpicos, por exemplo). 

Existe a ideia que se tem de se separar estes dois mundos, no entanto é algo muito difícil de acontecer. Nas últimas semanas, um dos canais de informação do nosso país, resolveu dedicar alguns programas sobre esta relação, ainda que seja um facto, que esta ligação dura desde que o futebol começou a ganhar fama.

O mundo político verificou que podia aproveitar-se da fama do desporto-rei, de modo a trazer alguma popularidade. O exemplo histórico mais simples de se apresentar é a relação entre o Real Madrid e Francisco Franco. Durante a Ditadura Espanhola, os “blancos” conseguiram chegar ao topo da Europa, por muito que o seu país estivesse praticamente na miséria. Se Franco assumiu o governo vizinho em 1939, após uma sangrenta Guerra Civil, que durou três anos, Santiago Bernabéu começou o seu legado em Madrid após o ano de 1943. O ex militar franquista foi presidente do Real até ao ano de 1978, já Franco havia morrido três anos antes. Os anos 40 espanhóis foram muito duros, marcados pela fome e pelas más condições de vida, não existindo a entrada de qualquer capital externo. A comida era racionalizada, não existiam postos de emprego e era urgente uma reforma, que tardou a aparecer, nomeadamente no mundo industrial. Só com a entrada de dinheiro estrangeiro foi possível melhorar a vida dos “nuestros hermanos”, já que a maioria estava na miséria. No entanto, ao mesmo tempo o Real Madrid conseguira contratar alguns dos seus jogadores históricos e inclusive construiu o seu estádio, na época designado de Nuevo Chamartin. Assim o Real Madrid conseguiu assumir definitivamente o estatuto de melhor equipa espanhola, sendo a sua marca internacionalizada e obtendo títulos da recém-criada Taça dos Campeões Europeus, desde 1955/56 até 1959/1960. Tudo isto fora possível, pois Franco quis que a instituição se tornasse no clube do regime, injetando capital na equipa da capital e dificultando a competitividade, especialmente quando outras equipas com capacidade de ganhar títulos eram de zonas nacionalistas, como o Athletic (que até foi obrigado a mudar o nome, devido ao anglicismo) e o Barcelona. Ainda que o caso de Franco seja o mais mediático, entre as ditaduras, são conhecidas outras ligações entre ditadores e clubes de futebol, como por exemplo a Lazio e Benito Mussolini, sendo ainda hoje os “biancocelesti” considerados o clube mais fascista de Itália, tendo nos seus quadros o bisneto do ditador.

Em Portugal, não existe uma ligação entre António de Oliveira Salazar e alguma instituição (alguns boatos associam-no ao CF Os Belenenses e ao SL Benfica, porém sem suficiente fundamento histórico), porém o que é inegável é o desejo que existia da manutenção e promoção dos melhores “ativos” no nosso país. A presença de Eusébio no SL Benfica por tanto tempo, muito se deve ao antigo líder do Regime. Para Salazar e para o Estado Novo, o maior jogador da história dos “encarnados” era propriedade do estado e por isso era impensável ver o “pantera negra” a espalhar magia por outros relvados (pelo menos na sua melhor fase). Em 1962/1963, Eusébio teria alegadamente um acordo com a Juventus, porém acabou por não rumar a Itália, servindo de justificação o serviço militar, obrigatório na época. Era importante para Salazar manter uma das grandes bandeiras da nação dentro de território nacional, alimentando o nacionalismo que tanto carateriza os sistemas ditatoriais.

O processo de associar um clube a uma ideia política também não é novidade. Ao longo da história existem clubes que nos exibem esta afirmação na perfeição. Voltemos a Itália, onde surge o caso do AS Livorno, situado na costa de região da Toscana. O clube fora formado pelos trabalhadores portuários, sendo relacionado ao comunismo com muita intimidade. O Partido Comunista Italiano foi formado na cidade, o que faz com que a maioria dos habitantes da cidade se associem às ideias de esquerda. É muito habitual ver bandeiras com o símbolo comunista nas bancadas do Armando Picchi. Mesmo os próprios jogadores se associam á causa, principalmente os naturais da cidade, como Cristiano Lucarelli, que já abordou o tema em muitas entrevistas. Uma outra instituição futebolística bastante relacionada como o comunismo é o Rayo Vallecano, originário de Vallecas. Possivelmente o clube ficou conhecido para o adepto comum, devido ao caso relativo a Roman Zozulya, que não assinou pelo clube do bairro de Madrid, devido a alegadamente defender o nazismo, sendo constantemente atacado pelas claques adversárias, especialmente quando joga contra o Rayo.

Na América do Sul, exibe-se outro fenómeno de formação de um clube à volta de um movimento político, ainda que neste caso podemos associar uma cultura. O Club Deportivo Palestino foi formado no Chile, em homenagem à cultura do país do Médio Oriente, inclusive por parte de pessoas que tiveram de abandonar as suas casas e rumar a um país do outro lado do Mundo. O conflito entre Israel e Palestina está assim presente na história do futebol, mesmo que seja em outro continente. Ainda assim, o clube surgiu ates do Estado de Israel, nascendo no ano de 1920, porém ganhou notoriedade com o passar dos anos e com as dificuldades que existem no território onde reside a cultura homenageada, sendo muito popular entre as pessoas que são contra a existência de Israel.

Os conflitos políticos cada vez mais são atraídos para os estádios de futebol, devido à alta publicidade que estes conseguem trazer. Em praticamente todos os jogos verificamos cartazes a defender uma ideia, uma mensagem que é facilmente espalhada pela televisão, transmitida para todos os cantos do Mundo, podendo até os próprios jogadores ajudar nessa divulgação. No panorama político europeu, um dos casos mais graves é sem duvida a dissolução da ex-Jugoslávia, feita com algumas debilidades, originando com o passar dos anos outras desagregações dentro do território no qual se situava. A situação do Kosovo é uma das que chama mais a atenção, sendo analisada por várias perspetivas. O território que não é reconhecido por muitos países como independente (como por exemplo Espanha, onde surgiu problemas devido a fazerem parte do mesmo grupo para a Qualificação para o Mundial 2022, tecnicamente a seleção espanhola jogou contra um estado que não reconhece), soma apoios de futebolistas. No confronto entre Suíça e Sérvia, no Mundial 2018, Xerdan Shaqiri e Granit Xhaka, com origens nesse território, celebraram os golos fazendo a águia albanesa (a maioria da população kosovar é originária do país, sendo que Taulant Xhaka defende as cores da seleção da Albânia). Isto foi visto como ofensa política e os jogadores foram sancionados, pagando uma multa (que até foi paga pelo estado albanês). Do lado oposto, existe a provocação de questionar com sátira o porquê desses jogadores não jogarem pelo Kosovo. Segundo as leis da FIFA, ao participar em algum jogo oficial por parte de uma seleção principal, é impossível ser selecionável para jogar em outra.

Os sorteios da UEFA também “sofrem” devido aos conflitos das nações europeias. Equipas de Ucrânia e Rússia não se podem defrontar nas competições continentais até às fases a eliminar (pós-fase de grupos), condicionando as outras equipas que participam.

Podemos concluir que mesmo a política do passado afeta o futebol de hoje. No presente vivemos momentos como amigáveis entre seleções da Catalunha e do País Vasco, que embora não sejam independentes, gozam de uma cultura própria, conseguindo fazer seleções bastante competitivas, ainda que cingidas aos territórios das respetivas Comunidades Autónomas. Apesar de não ser previsível uma independência destas regiões (na minha opinião, as situações estão até algo estáveis em relação ao passado, especialmente na Euskadi), muitos jogadores gostam de defender as “seleções regionais”, mesmo que muitos já tenham atuado na seleção de Espanha.

No meu ponto de vista, nunca vai ser possível separar o mundo do futebol (e desportivo em geral) do mundo da política, ainda que se tenham de estabelecer algumas barreiras. Olhando para as tribunas portuguesas, o mais habitual é ver figuras de Estado presentes em muitas partidas. É mais que conhecido que António Costa e Fernando Medina são adeptos do SL Benfica e gostam de ver os jogos, por exemplo. Pessoalmente penso que a ida destas figuras ao apoio da sua equipa é muito natural, pois para quem gosta de ver futebol ir ao estádio é sempre bastante apelativo, sendo muito agradável apoiar a equipa pela qual se torce (este período de COVID-19, fez com que muita gente sentisse a falta do ambiente que se vive à beira das quatro linhas). O que se deve evitar é ultrapassar esta barreira. Fazer parte dos órgãos de um clube, é de se evitar. Ser presidente de um clube e ter um cargo político, como fez por anos Sílvio Berlusconi é algo suscetível a muitas criticas e gera desconfiança. Se ocorresse em Portugal, seria absolutamente um escândalo, aumentando a guerra que se vive no futebol português. Pedro Santana Lopes, enquanto foi presidente do Sporting, retirou-se da vida ativa política, evitando assim polémicas desnecessárias (ainda que não tenha feito um bom trabalho pelos leões). Uma outra atitude que os políticos podem e devem evitar é fazer parte das Comissões de Honra de candidatos à presidência, como ocorre sistematicamente. A ultima candidatura de Luís Filipe Vieira contou com o apoio do atual primeiro-ministro (e de outros políticos), o que na altura foi muito criticado por parte da sociedade, especialmente pelos comentadores políticos residentes nos vários canais televisivos do nosso país. Obviamente que essa polémica voltou “à baila” com os acontecimentos das ultimas semanas, relacionados com o ex-presidente do SL Benfica, que já foram esmiuçados. Caso António Costa fosse um simples adepto benfiquista, ele poderia associar-se a qualquer movimento relacionado com o seu clube, se estivesse de acordo com as ideias e medidas, o problema é que ele representa um governo e não pode, ou melhor, não deve assumir este tipo de apoios.

A política tem condições de atuar de uma maneira positiva no futebol e nos outros desportos. Um investimento no Desporto Escolar, que está praticamente ao abandono seria algo de revelante e que contaria com a aprovação da maioria da população. Cada vez mais os jovens fazem menos desporto, estando mais interessados em estar no computador ou assistir à TV, porém não existe um incentivo à atividade física, especialmente às que são menos populares em Portugal. Na China, um estudo recente, afirma que a maioria da população (52%) prefere ver futebol virtual em relação ao futebol real, havendo adeptos que sofrem tanto ou mais neste tipo de jogos como nos verdadeiros. Caso houvesse uma intervenção estatal de maneira a financiar e fomentar a prática de modalidades, essencialmente entre os jovens, deixar-se-ia de ter uma opinião tão negativa sobre a presença de políticos e da política no mundo desportivo, além de passarmos a ter uma população mais saudável.

Visão do Leitor: Ricardo Lopes

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

26 Comentários

  • DNowitzki
    Posted Julho 30, 2021 at 11:00 pm

    Estamos perante um texto que coloca em cima da mesa uma série de temas mais ou menos interessantes. Responder-lhe à letra levaria a outro tão ou mais extenso, por isso fico-me só com isto: a política e o desporto sempre andaram a par. Relembremos que uma das funções essenciais das antigas olimpíadas era política – fomentar a coesão social e política entre as cidades-estado gregas.

    Isto é, porém, muito diferente de ter «n» gente da política ligada diretamente aos clubes e/ou às suas direções. E nisto são todos iguais.

    PS. De onde vem a designação «os encarnados» para se referir ao Benfica (não ao SLV ou SLC)?

    • Miguel SADSC
      Posted Julho 30, 2021 at 11:43 pm

      Salvo erro, tenho ideia de ouvir que vinha da censura do Estado Novo à palavra “vermelhos” na sequência da Guerra Civil Espanhol, visto que a Frente Popular Comunista espanhola designava-se por vermelhos.

    • Daniel Alves
      Posted Julho 31, 2021 at 12:32 am

      Se não estou em erro, chamam encarnados ao Benfica porque na ditadura a palavra vermelho era associada aos comunistas e era por isso censurada. Daí se chamar os encarnados.
      O que queres dizer com SLV ou SLC?

    • TOPPOGIGGIO
      Posted Julho 31, 2021 at 1:43 am

      Ou porque é que o antigo estádio das Antas foi inaugurado a 28 de Maio por exemplo… Ou porque é que houve alargamento de clubes na primeira liga em 39/40 sem motivo “aparente”….

  • GoldenFCP
    Posted Julho 31, 2021 at 12:56 am

    Fica difícil legitimar os títulos do Benfica no tempo do Estado Novo quando houve situações vergonhosas destas em que o ditador intervém para beneficiar apenas um clube. Sim, porque Porto e Sporting não beneficiaram em nada com a permanência do Eusébio em Portugal, bem pelo contrario.

    • Kafka
      Posted Julho 31, 2021 at 8:57 am

      Se há clube tremendamente beneficiado pelo Estado Novo foi precisamente o teu que só não desceu de divisão porque o estado novo não deixou e obrigou a que se fizesse alargamento do número de clubes na 1a divisão só para o Porto não descer

      Depois Porto e Sporting SEMPRE tiveram vários dirigentes nas suas direcções que pertenciam também ao estado novo, ao contrário do Benfica que nunca teve um único dirigente do estado novo na sua direcção em toda a história da ditadura

      Depois o Benfica foi durante muitos anos perseguido pelo estado novo, tanto que foi obrigado a mudar de hino porque o hino da altura era segundo o estado novo conectado como contra a ditadura,…

      O Benfica foi ainda perseguido pelo Estado Novo devido à questão do vermelho que era conectado como apoio aos comunistas que eram contra a ditadura, sendo o Benfica proibido de se conectar como vermelho

      Depois o estádio das Antas foi inaugurado no dia 28 Maio, dia em que se instalou a ditadura em Portugal, ou seja, foi uma inauguração para celebrar esse dia

      Depois o Eusébio não foi proibido de ir para Itália por causa do Salazar, foi proibido de ir porque a Itália foi humilhada no Mundial 66 e a Federação Italiana decidiu fechar fronteiras à contratação de estrangeiros com vista a melhorar o futebol italiano

      Perante isto (e podia dizer ainda mais coisas), tu mesmo assim consegues ter o enorme desplante de dizer que o Benfica é que foi beneficiando em vez do Porto durante a ditadura?

      Tu só podes estar a gozar a sério

      Mais engraçado ainda de tudo é não só pores em causa os títulos do Benfica no estado Novo, como ainda legitimares os títulos todos que o teu clube conquistou nos últimos 30 anos que toda gente sabe o que aconteceu

      • TOPPOGIGGIO
        Posted Julho 31, 2021 at 9:16 am

        Eu não sei a idade do GoldenFCP mas às vezes consegue atirá-las mesmo completamente ao lado e sempre com o mesmo destinatário; PdC e FJM dificilmente fariam melhor ou com mais lata…

      • Diogo Moura
        Posted Julho 31, 2021 at 11:11 am

        Nota/Adenda: O Benfica é conhecido como “Os encarnados” por essa exacta razão. O vermelho estar associado ao Comunismo.
        O Salazar tinha muita consideração pelo Sporting e não gostava do Benfica pois o Benfica era o clube do povo. Já o Sporting era da alta burguesia e com dirigentes directamente ligados ao Estado Novo.
        Com o passar dos anos foi-se criando a narrativa do Benfica ser o clube do regime porque ganhou imensos títulos e tinham o Eusébio, o que é falso. O Benfica nunca foi um clube do regime, bem pelo contrário, foi perseguido e há N exemplos que poderíamos dar.

        • GoldenFCP
          Posted Julho 31, 2021 at 11:51 am

          Eu não disse que o Benfica era o clube do regime. Mencionei que foi beneficiado nesta situação, o que é uma pura verdade. Menos dramatismos, sfv

      • GoldenFCP
        Posted Julho 31, 2021 at 11:40 am

        O Porto era tao ajudado pelo estado novo que até ao 25 de Abril só tinha 5 títulos, enquanto o Benfica já ia com 21.
        Até o Sporting já ia com 14.
        Sim, vamos todos ir nessa treta de argumentos do dia da inauguração e tudo mais. Porque ali todos sabemos que o que mais havia em Portugal nessa altura era liberdade, o 28 de Maio era celebrado por todos os portugueses porque eram obrigados, não porque todos queriam.
        Para terminar, eu falei do Benfica ser ajudado nesta situação. E não foi uma situação qualquer. Foi uma intervenção direta do regime para um dos melhores do mundo na época permanecer em Portugal. Nacionalismo?? Talvez, agora querendo ou não Salazar com este ato beneficiou um clube e permitiu uma série de títulos ao Benfica. É só ver os titulos que o Benfica conquistou na década de 60.
        Cumprimentos Kafka

        • Diogo Moura
          Posted Julho 31, 2021 at 1:56 pm

          O Porto só começa a ganhar campeonatos a partir dos 90′. O 25 Abril já tinha sido há uns anos
          O Porto ganha campeonatos (muitos deles dúbios, toda a gente sabe disso) e apanha um Benfica a ser gerido por Damásio e Vale e Azevedo.
          Esse argumento dos títulos é digno de matemáticas do Facebook.
          Simplesmente o Benfica era um clube muito, mas muito superior ao Porto. Sem ajuda do regime.
          Essa narrativa começou a ser plantada por Pinto da Costa para tirar mérito aos enormes feitos do Benfica.

    • TOPPOGIGGIO
      Posted Julho 31, 2021 at 9:42 am

      Ou és muito novo e não te contaram direito ou és muito velho que já nem te lembras… Se “o importante é participar não importa a patacoada” então o objetivo foi conseguido. Essa ladaínha foi vendida e aos dias de hoje continua a ser debitada, mas o Benfica é que tem cartilha… Benfica ganhou com e sem Estado Novo e como disse o Kafka em baixo não teve dirigentes do Regime. Pesquisa um pouco (mais do que pelo futebol, para cultivo da história do teu país) e verás que Benfica ganhou tanto no Estado Novo como depois.

      Quanto ao texto em si acrwsito que tenha sido lapsos e não de propósito, mas num país tão pequeno e que “tudo se sabe” não creio que fosse difícil arranjar alguns exemplos que não apenas Costa e Medina, comissões de honra e tal,…

      • GoldenFCP
        Posted Julho 31, 2021 at 11:50 am

        Sim, porque precisamos de ter de nascido em 1921 e ter 100 anos para saber como tudo se passava nessa altura.
        Eu falei do Benfica ter sido ajudado nesta situação. Menti?? Ou por acaso até achas que o Eusébio saindo o Benfica ia ficar mais forte??
        Tendo em conta que pós esta intervenção o Benfica limpou os campeonatos quase todos( entre 1962 e 1972 ganhou 8, ou seja hegemonia quase completa) e muito por culpa do Eusébio, obvio que foi beneficiado.
        Como o Porto foi no caso da descida de divisão. Também foi ajudado.
        Agora o Benfica ganhou tanto antes da ditadura e depois. Certo. E o Porto que até ao 25 de Abril tinha 5 campeonatos contra 21 do Benfica e depois ganhou 24?? A ditadura nunca beneficiou o Porto ao ponto de ganhar títulos, beneficiou numa situação e por jogada de interesse. O Porto naquela altura era fraquinho que doía e era obvio que a equipa da maior cidade do norte tinha que ficar no principal campeonato. Ameaçava titulos?? Poucas vezes, era raro o ano que nao ganhava o Sporting ou Benfica. Foi uma jogada de interesse

        • MR
          Posted Agosto 1, 2021 at 9:39 am

          O que beneficiou o porto não foi ditadura nenhuma, foi a corrupção. Porque é que começou a ganhar a partir dos anos 90? A resposta está nums videos do youtube, procura por escutas apito dourado.
          Até aos anos 90 o porto era um clube médio, que cresce na base da falcatrua.
          Isto é muito simples de perceber, dificil de perceber é porque é que há pessoas que apoiam isto.

    • BrunoAfonso 12
      Posted Julho 31, 2021 at 12:25 pm

      O Benfica foi tão beneficiado na altura, que para além do que foi dito pelos users que responderam ao teu comentário, a Liga/FPF (não sei qual era a instância na altura) rejeitou adiar o jogo da taça de Portugal após a final da Liga dos Campeões de 61 (salvo erro). O jogo foi no dia seguinte a final e teve que ir com os juniores frente ao Vitória.

      E só mais uma coisa, é verdade que o Eusébio nos primeiros anos não sai porque o Salazar não o deixou sair, mas em 66 não sai porque em Italia proibiram a contratação de jogadores estrangeiros.

      E se formos ver os campeonatos ganhos após o 25 de Abril, nos anos 70 o Benfica dominou, nos anos 80 o Benfica ganha 5 campeonatos, e nos anos 90 o Benfica ganha 2 até 94. Depois deu-se o descalabro e foi por isso que ficamos tanto tempo sem ganharmos. Já a história do Porto, para além de terem alargado o número de clubes da Liga para este não descer de divisão, nos pós 25 de Abril, não preciso de falar de toda a corrupção envolvida a partir dos anos 80.

  • lipe
    Posted Julho 31, 2021 at 1:01 am

    Bom texto, abordando um tema interessante.

    Em relação ao caso português, novamente somos um caso algo peculiar a meu ver. Salazar não era um homem muito dado ao desporto e, ao que se sabe, não tinha preferência por nenhum dos então quatro grandes do futebol português. Serviu-se mais do futebol de forma a engrandecer o regime através da construção de grandes estádios como o Jamor e o 1º de Maio em Braga (então 28 de Maio) e de esporádicos apoios aos grandes clubes (especialmente ao Belenenses, existindo uma situação em relação ao Estádio do Restelo da qual não me recordo perfeitamente de momento – algo a ver com a câmara de Lisboa potencialmente se apropriar do estádio devido a dificuldades financeiras do clube).

    No que toca aos adeptos, penso que fará pouco sentido falar em política nas bancadas. Não temos, e nunca tivemos, muita expressão política entre os adeptos ou claques, pelo menos nada que se compare a países como Espanha ou Itália onde algumas claques (e até massas adeptas) são claramente de esquerda ou direita (isso em Portugal seria até impossível; para aí uns 98% dos adeptos de futebol estão divididos pelos três maiores clubes, portanto estes acabam por ser apoiados por pessoas de todo o tipo).

    Existe sim é alguma promiscuidade entre as figuras políticas e os dirigentes dos grandes clubes. É o que é. A verdade é que em Portugal os grandes são grandes demais e podem até influenciar resultados eleitorais (por exemplo, e isto é apenas uma teoria minha, baseada em nada para além de barro atirado à parede, mas não creio que na cidade do Porto se tenha votado tão pouco em Ventura por muito amor à democracia ou a Ana Gomes).

    • Ricardo Lopes
      Posted Julho 31, 2021 at 10:08 am

      Acho que a tua teoria faz algum sentido. Lembro-me de quando o André Ventura criou o Chega, muitas pessoas naquelas mini reportagens falavam que iam votar nele porque era adepto do SL Benfica. Claro que isto não representa uma maioria, no entanto é algo preocupante para a nossa política, eleitores definirem o seu voto pelas cores do clube do candidato.

  • Rosso
    Posted Julho 31, 2021 at 1:48 am

    Se nos mantivéssemos apenas nos nossos casos domésticos, veríamos que também por esses municípios fora as autarquias e o futebol se misturam muitas vezes para lá do razoável. Lembro-me, por exemplo, de Mesquita Machado, antigo “dinossauro” da CM de Braga, ser simultaneamente, acumulando com o cargo camarário, presidente da AG do Sporting de Braga e também da Federação.

    Outros casos de grande aproximação de clubes aos respectivos regimes aconteceram no antigo Bloco de Leste, em que os clubes estavam de alguma forma ligados a entidades estatais. O Dynamo de Berlin, por exemplo, era o clube da Stasi, a temível polícia política da RDA. E o Steaua de Bucareste, ligado ao exército romeno, era presidido por Nicu, filho do ditador Nicolae Ceausescu. Quando um jogador de outro clube interessava, era subitamente obrigado a fazer o serviço militar, e para continuar a jogar devia fazê-lo no clube do exécito: o Steaua. Isso aconteceu a Hagi, por exemplo.

    E já que falamos da desagregação da Jugoslávia como causa para alguns litígios no futebol actual, recordemos que o próprio futebol ajudou ao início da fractura, sobretudo no célebre jogo entre Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha (mais clubes com nomes ideológicos), que muito ajudou a despoletar o ódio entre croatas e sérvios e a guerra que se lhe seguiu, em que muitos dos paramilitares provinham das claques. Não sem que antes o Estrela Vermelha, formado por jogadores de todo o país, tivesse conquistado a Taça dos Campeões europeus, provavelmente o último brilho da Jugoslávia, que se desintegrou a partir daí.

  • Princesa
    Posted Julho 31, 2021 at 5:51 am

    Só uma nota: o estado não proibiu a saída do Eusébio.
    O que sucedeu foi que, após o mundial de 66 onde a Itália foi eliminada pela Coreia do Norte, as autoridades italianas fecharam as portas aos estrangeiros para “fortalecer” a formação de jogadores italianos

    • Ricardo Lopes
      Posted Julho 31, 2021 at 9:56 am

      A saída de Eusébio para Itália não se dá em duas fases. O que tu referes e pelo motivo abordado está totalmente correto, porém é somente em 1966. Antes disso houvera umas abordagens, especialmente da Juve, logo após 62/63 (há fontes que referem também 1964), onde ainda podia haver estrangeiros. O conhecido jornalista Alfredo Relaño escreveu um artigo sobre o tema e aborda os dois casos, no jornal As. Ainda assim o acontecimento que falas é o mais conhecido e mais uma intervenção da política no futebol.

      https://as.com/futbol/2016/07/18/mas_futbol/1468837864_421435.html (link do artigo que refiro)

  • Mantorras
    Posted Julho 31, 2021 at 7:22 am

    O futebol e a politica estao ligados.
    A politica e a religiao estao ligados.
    Os media e a politica estao ligados.
    A banca e a politica estao ligados.

  • Kafka
    Posted Julho 31, 2021 at 10:22 am

    Acho piada o autor do texto nos exemplos que dá de Portugal da ligação de políticos com o futebol, apenas referir as ligações de políticos com o SL Vieira e ignora por completo as ligações de políticos com o Porto, onde actualmente chegam ao absurdo do presidente da câmara municipal do Porto fazer parte da direção do futebol clube do Porto, isto para não falar no escândalo que é a negociata do Olival

    Claramente o autor deste texto foi altamente tendencioso e sabemos que desde já qual o seu clube, pois só assim se compreende a forma como como não mencionou as ligações de políticos ao Porto

    E não só ignorou as actuais ligações políticas ao Porto, como ignorou as ligações políticas do Porto com o regime no tempo do estado novo, como eu já frisei

    • Ricardo Lopes
      Posted Julho 31, 2021 at 11:03 am

      Se lesses os comentários que por vezes faço em algumas noticias VM saberias perfeitamente que não sou do FCP. Em momento algum o objetivo de escrever este artigo foi atacar clubes. Apenas expus algumas situações quer em território nacional como internacional. Apesar de não ser o do SL Benfica, tenho muito respeito pela instituição, assim como por todas as outras. O exemplo que refiro, neste caso a relação com António Costa, é o mais simples pelo facto de ser primeiro-ministro do nosso país. Agora se vamos a política regional, Rui Moreira e a Câmara Municipal do Porto é um bom exemplo a ser explorado. Para abordarmos a política regional, poderíamos estar aqui todo o dia a escrever sobre o auxilio recebido por parte das instituições por parte das Câmaras. Obviamente que a proximidade de Rui Moreira a Pinto da Costa é preocupante, porém tem de se admitir que o apoio a Luís Filipe Vieira por parte de algumas personalidades se tornou “grave” devido ao que aconteceu.
      Mas se queres abordar a relação entre política e FC Porto, Sporting CP ou outra instituição qualquer, a caixa de comentários serve perfeitamente para isso. O exemplo que eu usei é um em muitos. Se quisesses que abordasse mais teria muitas páginas de word para escrever e possivelmente tornaria o texto aborrecido.

  • Princesa
    Posted Julho 31, 2021 at 11:29 am

    Ricardo Lopes:
    Não conhecia essas de 63/64. Obrigada pelo esclarecimento.

    Já agora o Hermano Saraiva num dos documentários dele, conta que uma vez numa viagem Lisboa-Porto de comboio, o Américo Thomaz tentou convencer o próprio Hermano Saraiva (ministro com a tutela do desporto) a ajudar o Belenenses com as receitas do Totobola

  • Nuno R
    Posted Julho 31, 2021 at 11:36 am

    Política e desporto sempre estiveram ligados. Por cá temos exemplo recente do regionalismo do Porto.
    Em Portugal clubes e autarquias fundem-se num só
    Como os comentários mostram, nao há grande interesse em discutir futebol e política em Portugal, apenas em ter razão. Quanto ao período do Estado Novo, as doutrinas são diversas, nao tenho conhecimentos para rebater os peritos.

  • Andre A
    Posted Julho 31, 2021 at 12:03 pm

    A conclusão é que a política é o centro duma sociedade e espalha-a muita vezes, pelo que não pode ser separada de nada dentro dela, nunca será.
    Numa altura em que os movimentos politicos eram mais fortes, é perfeitamente normal que aparaçam clubes associados a eles, visto que são ambos criados por grupos de pessoas com alguma ligação entre si. Assim como existe algo mais na rivalidade Benfica Porto além dos clubes, que é a rivalidade norte/sul, facilmente vista em discursos do Rui Moreira, ou nas eleições do Presidente da Republica onde benfiquistas votaram no Ventura por ser benfiquista e no distrito do Porto foi onde teve as maiores derrotas, portanto a própria sociedade mistura politica e desporto.
    Vi uma frase uma vez que me ficou na cabeça sobre politica, “O bom e o mau da democracia, é que cada sociedade tem os políticos que merece”. Portanto a culpa dos politicos tirarem beneficios de se associarem a clubes é de quem? O voto se não for dado levianamente e for informado, com um objectivo mais profundo na sociedade que é extremamente complexa, se calhar os politicos não se associavam tanto ao futebol. As pessoas muitas vezes esquecem-se que são parcialmente culpadas por isso, mesmo os que perdem se apoiam demagogos ou que não trazem nada de construtivo à discussão além de arranjar casinhos em tudo o que mexe ou que o que os outros fazem está sempre mal, também não ajudam.

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