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Futebol, música para os meus ouvidos

1Futebol e Música são, à partida, duas áreas bem distintas. Mas se desviarmos a nossa atenção para ambas, reparamos que os seus elos de ligação são por demais evidentes.

Podia falar dos jogadores que fora dos relvados têm o dom de se exprimir através da música (Olá Helton!), das músicas que são adotadas e adaptadas para expressar os valores de um determinado emblema e que são impossíveis de dissociar do mesmo, ou até dos cânticos com que os adeptos brindam a equipa e os jogadores mais queridos, faça chuva ou faça sol.

Mas há, sobretudo, música dentro das 4 linhas! A cada desmarcação, a cada corte ou simulação, há música. Ritmo, poesia, melodia… podiam ser excelentes definições de futebol, se por um breve segundo futebol tivesse definição.

O jornalista Tavares da Silva percebeu exatamente isso quando, nos anos 40, um quinteto de jogadores do Sporting se destacou dos demais pela arte, harmonia e entrosamento que demonstrava em campo, dando-lhe o nome de “Os 5 violinos”.

Mais recentemente, Ronaldo de Assis Moreira, para o mundo do futebol Ronaldinho, afirmou que “futebol e música andam lado a lado” e fez questão de materializar esta mesma simbiose. A sua seleção (com expoente máximo no mundial de 2002), para além de ganhar, fazia de cada performance um concerto de samba.

Também Klopp, aquando da sua longa e bela passagem pelo Dortmund e antes de receber o Arsenal numa partida da Liga dos Campeões, fez uma analogia curiosa sobre esta matéria. O alemão recorreu à música para salientar as diferenças entre ele e Wenger: “Ele gosta de ter a bola, muitos passes… é como uma orquestra. Mas é uma canção silenciosa não é? Eu prefiro heavy metal. Não é futebol sereno, é futebol de luta. É disso que eu gosto. Dia de chuva, campo pesado, toda a gente com a cara suja e, quando vão para casa, ninguém consegue jogar durante quatro semanas”.

Hipérboles à parte, o treinador alemão remete-nos para aquela célebre questão: “A força da técnica ou a técnica da força?”. A verdade é que o sucesso pode ser alcançado em qualquer uma destas formas de abordar o jogo e uma não é mais válida que outra. Se por um lado Guardiola, Wenger… gostam de orquestras que deem primazia à técnica e elegância, por outro, treinadores como Klopp e Simeone, fazem da intensidade e da garra, armas essenciais deste futebol “heavy metal” em que se disputa cada bola como se da última se tratasse.

Quer numa orquestra clássica quer num grupo de heavy metal, é possível existir bateria, baixo, piano, viola, instrumentos de sopro, etc, o que muda é a forma como se toca. Tal como nos músicos, há jogadores que têm características mais propensas para determinados estilos, mas também não é menos verdade que muitos nos surpreendem com a sua capacidade de adaptação a formas de jogar tão diferentes, que nos deixam boquiabertos por se destacarem em equipas focadas quer em organização ofensiva/defensiva quer em múltiplas transições.

Nesse sentido, através de diferentes critérios, olho para o relvado e vejo músicos dos mais diversos instrumentos.

Bateristas… é no meio campo que os vejo, a marcarem o ritmo de jogo da equipa. São eles que interpretam os momentos do jogo como ninguém e percebem se devem levar a equipa para a frente ou, pelo contrário, temporizar o jogo. Modric e Iniesta são exemplos de bateristas do mais alto gabarito.

À semelhança do que acontece na arte musical, quando há baterista, também há baixista. Por norma, é o músico que passa despercebido, poucos notam a sua presença, todavia, a sua ausência gera um enorme vazio. São os ditos jogadores underrated, que são transversais a todas as posições, ora vejamos: Muller, Navas, Casemiro, Khedira, James Milner e José Fonte, todos baixistas por excelência.

Outro critério que distingue alguns atletas é sua a polivalência e sendo o piano considerado o instrumento mais versátil, urge referenciar um leque de pianistas (não confundir com os famosos “carregadores de piano”, dos quais falarei mais à frente) que dão imenso jeito a qualquer treinador: Alaba, Lahm, Blind, James Milner, Sergi Roberto ou o nosso Rafael Guerreiro.

Quanto aos instrumentos de sopro, só poderiam pertencer aos atletas que parecem ter três pulmões! No futebol moderno este “instrumento” assume especial preponderância e esse facto não tem passado despercebido a grandes clubes, como o Chelsea. Num passado recente contava com Ramires nos seus quadros e no presente conta com o campeão Kanté. Trata-se de jogadores de campo inteiro, que participam tanto no momento defensivo, bloqueando e intercetando o jogo adversário, como no momento ofensivo jogando perto da grande área. São também denominados de “carregadores de piano”, na medida em que se sacrificam pelos seus colegas e fazem os jogadores mais talentosos sobressair.

Por último, os guitarristas. Como se cada desequilíbrio criado equivalesse a um solo na guitarra, ou como se o Ronaldinho pudesse ser comparado ao Jimmy Hendrix. Quando perguntamos a uma criança qual o jogador que almejam um dia ser, por norma, são os guitarristas a sua resposta, uma vez que são sinónimo de espectáculo, fazendo vibrar as plateias. No futebol contemporâneo nomes como Messi, Cristiano, Neymar, Hazard, Alexis Sánchez ou Di Maria desempenham essa função com sublime distinção.

Os jogadores referidos são só alguns exemplos, sendo que alguns, com Messi à cabeça, tocam mais do que um dos instrumentos supracitados.

Na verdade, há música e músicos para todos os gostos dentro de um campo de futebol, o importante é que cada equipa esteja afinada pelo mesmo diapasão e nos proporcione bons concertos. Só assim descobriremos a bela sinestesia que é ver, cheirar, saborear… música num relvado.

 Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): João Romero

VM
Author: VM

10 Comentários

  • Almeida
    Posted Outubro 25, 2016 at 6:42 pm

    O FC Porto tem tido alguns músicos nos últimos tempos: Helton, Quintero, Pablo Osvaldo…

  • André Serpa
    Posted Outubro 25, 2016 at 6:42 pm

    Messi é multi instrumentista, tipo Jonny Greenwood dos Radiohead.

  • Wonderkid
    Posted Outubro 25, 2016 at 5:48 pm

    Muito bom! Sendo a música e o futebol as maiores paixões da minha vida, fiquei deliciado com este texto.

  • pduarte
    Posted Outubro 25, 2016 at 4:40 pm

    Excelente texto, um regalo para os olhos. Uma simbiose na sua plenitude. Parabéns!

  • joao
    Posted Outubro 25, 2016 at 4:25 pm

    Um texto lindo!
    É um dos meus sonhos ainda conseguir organizar um torneio de futebol com musica: Cada jogador escolhe uma musica. Já estive perto mas acabou por não se concretizar.
    mas já joguei assim, e é lindo ver as jogadas serem realizadas ao ritmo da musica:

  • lauze22
    Posted Outubro 25, 2016 at 3:48 pm

    Muito bom texto! Parabéns. Sem dúvida que dá para fazer esta comparação. Deixo também os maestros(treinadores) que mais gosto: Simeone, Hiddink, Klopp, Guardiola e Wenger(c’mon o homem mete as suas equipas a jogar bom futebol, o que é aquilo que um adepto de futebol gosta de ver. Se sentisse o Arsenal como sinto o Sporting se calhar não estaria no meu TOP)

  • Manuel Teixeira
    Posted Outubro 25, 2016 at 3:42 pm

    Os da fanfarra são aqueles que batem na mãe: Bruno Alves, Pepe, Materazzi, Chiellini…

    Os dos ferrinhos são aqueles que jogam mas ninguém sabe para o que é que servem: Mathieu, Elias, Montolivo…

    Os vocalistas são os que falam mais do que o que jogam: Piqué, Arbeloa, Hugo Viana…

  • Joao Madureira
    Posted Outubro 25, 2016 at 3:41 pm

    Ainda faltam os vocalistas!

    Estes lideram o grupo. Dão-lhe uma voz, uma direção, e milhões cantam com eles.

    Aqui coloco Puyol, Xavi, Gerrard, Ferdinand, Henry, Totti, Maldini, entre outros.

    Os capitães.

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