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HISTÓRIAS SEM INTERESSE NENHUM: Não há pai para eles

“Você não é o meu pai”.

Dos milhões de frases fortes que terei ouvido a grandes desportistas ao longo da minha vida, esta é das poucas que se me gravou no cérebro, sintetizando em meia dúzia de palavras o pensamento holístico sobre quem é, o que pensa, o que motiva, o que relativiza e o que representa a personalidade de um campeão olímpico.

Na véspera, naquele inesquecível 21 de agosto de 2008, tinha sido encarregado pela organização dos Jogos Olímpicos de Pequim de conduzir Nélson Évora, em traje de cerimónia e pronto para receber a sua medalha de ouro, no dia seguinte, a determinada hora, à antecâmara do pódio do estádio Ninho de Pássaro – e fiquei fiel depositário do respectivo salvo-conduto.

Com a hora a aproximar-se na Aldeia Olímpica, sem sinal do campeão, que fora “raptado” por amigos e patrocinadores para actividades comerciais, vivi momentos de grande stress, aterrorizado pela perspectiva de falhar a importante missão, por irresponsabilidade alheia. Aquela hora foi a mais difícil de cinco anos de trabalho olímpico, mas ao soar do “gong” ele lá apareceu e ao ouvir o meu “f***-se, Nélson”, respondeu-me com aquele k.o. verbal que me trouxe de volta à terra.

“Você não é o meu pai”.
“Pois não, não há pai para ti, meu campeão!” – foi o que respondi entre dentes.

Ainda a cambalear, recompus-me do golpe e tomei conta da operação como se nada fosse. Chegámos a tempo, ainda pudemos confraternizar com outro português, Jorge Salcedo, diretor da competição e um dos profissionais mais subaproveitados do desporto português, na antecâmara dos medalhados, saboreando a “azia” do segundo classificado, o inglês Idowu, e o Nélson recebeu a medalha, ouviu o hino e entrou formal e definitivamente na História Olímpica.

O meu trabalho continuou, nos múltiplos contactos com jornalistas de todo o mundo, na manhã seguinte levei-o a uma das raras entrevistas globais da CCTV durante os Jogos (apenas um atleta por dia tinha essa distinção) e separámo-nos, por fim, dias depois, com uma derradeira conferência de imprensa no aeroporto de Lisboa.

Passaram quase 15 anos e a erupção do vulcão adormecido desde que Pedro Pichardo tomou o lugar dele no Benfica, na lista de recordistas e na galeria de campeões, ameaça reduzir a cinzas todo um património de prestígio e referência que ambos construíram com muito trabalho e dedicação, em nome de um país que os acolheu como filhos dilectos.

Esta eclosão de rivalidade doentia, com laivos de xenofobia, deixou-me mais combalido e impotente do que aquele episódio de Pequim: o Nélson Évora estava (ainda está) no meu Olimpo de intocáveis.

Em cima disso, o aparecimento do papá-treinador de Pichardo, a lembrar aquelas zaragatas de pais nas bancadas dos jogos de iniciados, não veio ajudar a suster os efeitos telúricos deste choque de titãs e sublinha a desvantagem em que Nélson ficou quando, após os Jogos do Rio de Janeiro, decidiu abdicar do seu treinador de 25 anos, o discreto e tranquilo professor João Ganço, que o considerava como um “bom filho”.

Neste caso, Nélson e Pedro, estamos todos de acordo que “não há pai para vocês os dois”: resolvam lá isso como campeões! E como portugueses, fiéis e orgulhosos depositários da nossa bandeira e da nossa honra.

João Querido Manha

5 Comentários

  • Vermelhudo
    Posted Março 14, 2023 at 3:52 pm

    “Não há pai para ti, meu campeão…”
    Foi uma maneira airosa de evitar grandes discussões, há que dar valor à inteligência emocional manifestada nessa hora.

    Nem a propósito, há coisas giras, eu tinha falado do Brain no comentário do Ricardo Carvalho e agora ele está também presente porque este tipo de episódio do género “diva” faz-me lembrar algumas festas e convívios onde o Tio Vermelhudo já foi e de quando em vez vai.

    Muitas vezes o Brain vai também comigo, escondidinho no meu casaco, só para analisar a galera. É um rato genial… na, na, na … sem dúvida… não é piada. Não estou zoando.
    Há semanas estive com maltinha assim vaidosa e manienta e o Brain lá ia falando comigo.
    Entre risinhos, e bem escondidinho, ele lá ia dando palpites do género “este bem pode esconder mas tem tendências psicopatas”, o outro “é narcisista ao extremo”. Entredentes eu lá ia analisando, respondendo e vendo.

    Depois fui para a varanda ver a Lua lá ao longe, brilhando sobre o Tejo, Lua orgulhosa e rotunda. De olhinho na galera cá em baixo.
    Sozinho, o Brain lá saiu do esconderijo e sentou-se no meu ombro direito.

    E foi giro porque falámos de alguém da festa, e eu perguntei ao Brain se achava que essa pessoa conseguiria viver sem a aprovação das pessoas que o rodeiam. Ele disse que não, que a opinião dos outros, o reconhecimento, é tudo para ele e que isso se via em pequenos pormenores como a postura corporal, etc. “Tadinho, não iria aguentar se fosse votado ao esquecimento”.

    Portanto este tipo de situações de egos não surpreendem o Tio Vermelhudo em nada, e só me cabe rir a bom rir sempre que as vejo ou que me são relatadas.
    Da minha parte, só aos Deuses vou venerando. Atletas? Tá bem… AAAAAAAAAAAAAAAhahahahahahahhahahahahahha!

  • Joga_Bonito
    Posted Março 14, 2023 at 3:26 pm

    Esta questão é complexa.

    Por um lado Évora é um ressabiado que apenas critica Pichardo porque este o ultrapassou e pulverizou os seus recordes. Em outros casos iguais, como a ele não lhe fazem mossa, ele nada diz.

    Além disso, Évora tão pouco nasceu em Portugal, pela mesma lógica tem zero moral para falar de Pichardo. Tivesse ele outra cor de pele e era logo taxado de racista.

    Por outro lado, e apesar de eu ser benfiquista e vibrar com as vitórias de Pichardo, acho errado esta ideia de naturalizar atletas que não nasceram cá. Dê-se as voltas que der, isto pouco mais é que roubar aos outros países o que eles formaram. Uma coisa é representar um clube, isso é uma questão profissional e nada há contra comprar atletas, porque os clubes não grémios desportivos profissionais.
    Agora as selecções apenas competem para mostrar quem tem melhores atletas produzidos no país. Não são clubes que procuram ganhar por ganhar, as equipas nacionais apenas têm como propósito exprimir o que cada país produziu.

    Os países de terceiro mundo estão a ser roubados do que produzem anualmente. Alguns fazem grandes investimentos em infra-estruturas e em formação para depois terem atletas que preferem optar por outros países apenas porque pessoalmente lucram mais com isso.

    Vejam as selecções que Angola, São Tomé, Cabo Verde ou Moçambique poderiam ter (no futebol) e não têm, porque todos nesses países só querem representar Portugal. Isto faz algum sentido? Se assim é então acabem com as palhaçadas de Campeonatos do Mundo, Campeonatos da Europa, Olímpicos e façam uma superliga de nações, com apenas meia dúzia de países “que interessam” e assumam que há países que não se quer que cresçam. Parem com a hipocrisia de que “todos podem competir” ao mesmo tempo que se impede que na prática todos possam competir.
    Como se espera que os países de África possam algum dia ganhar seja em que desporto for se todo o mundo só quiser representar a Europa? Algum dia alguém quererá jogar por uma Papua Nova Guiné, São Tomé ou um Luxemburgo?

    Sendo assim, na minha opinião cada país deve dispôr para competir apenas de quem nasceu lá. Conquanto eu admita que há os casos de naturalizados que até gostam mais do país de acolhimento que alguns naturais (Pepe é o caso mais exemplar) e que haja os filhos de emigrantes que sentem apego ao país de origem dos pais, não faz sentido delapidar um país do que ele produz. Que nasce num país é aí que tem a obrigação de representar a selecção e não escolher o que mais lhe convém, desculpem mas as selecções nacionais não devem ser isso.

    As seleções estão convertidas numa palhaçada de interesses pessoais que está a tornar quase impossível aos países pobres poderem competir. Ainda por cima muitos deles fazem grandes investimentos em atletas que depois lhes voltam as costas.
    Pichardo, Évora e seja quem for que não nasceu cá não deve jogar por Portugal e sim pelo país onde nasceram, senão os países mais pobres não têm chance.

    • lipe
      Posted Março 15, 2023 at 11:32 pm

      Outra vez esta conversa? O Nélson Évora veio pra Portugal com 5 ou 6 anos, o Pichardo aterrou aqui com 26 (se não me engano).

      Mas é sequer comparável? Obviamente que não. Um chegou criança, o outro chegou homem feito com toda uma carreira de enorme sucesso, tendo inclusive representado outro país.

      • Joga_Bonito
        Posted Março 17, 2023 at 9:55 am

        É o mesmo cenário. Nenhum dos dois representou o país que o viu nascer, nenhum dos dois contribuiu para engrandecer quem lhe deu vida…Qual a questão mesmo aqui?

        Se todos pensarem como o Évora e o Pichardo, então mais vale a pena acabar-se com a treta de que todos competem. Criem-se superligas em todos os desportos, com a meia dúzia de nações em que todos querem competir e admitam que o resto é entulho. Por essa tua lógica, ninguém quererá competir por uma Papua Nova Guiné ou um Luxemburgo? Como é suposto o desporto crescer assim?
        Até porque em desportos como os do Évora ou Pichardo, sendo a prova individual para cada um sequer necessitam de uma grande equipa para fazer os mínimos. As medalhas que ganharam para Portugal ganhariam pelos seus respectivos países de nascimento. Qual a diferença mesmo? A única diferença é que um país europeu paga muito mais em prémios, marketing, merchandising e benefícios a atletas de alta competição, ao passo que no 3º mundo pouco se paga mais do que uma medalha e uma bolsa para a vida…

        Dê-se as voltas que der isto não é correcto, é lesivo para o desporto e é o individualismo a falar mais alto…o problema é o politicamente correcto actual…

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