Se não tivesse sido ‘queimado’ (teve de ‘parar’ em duas etapas quando estavas entre os melhores) a trabalhar para o Remco, que hoje ficou de vez fora da luta (já há uns dias que transmitia más sensações), agora até podia estar na corrida um lugar entre os 5 melhores. Mas o ciclismo é isto, e no próximo ano poderá ser outro, em melhor forma, a ter de ficar para trás para ajudar o português. Ainda por cima algumas quedas, como a de Landa e Buchmann, também permitiram isto.
Egan Bernal praticamente arrumou com o Giro ao vencer a 16.ª etapa, que supostamente era a rainha mas teve de ser encurtada devido ao mau tempo. O colombiano atacou na última subida e tem agora menos 2’24” que Caruso e 3’40” que Hugh Carthy. O dia ficou ainda marcado pela prestação de João Almeida, que integrou a fuga e conseguiu chegar em 6.º, só atrás de Bernal, Bardet, Caruso, Ciccone e Carthy. O promissor português, que se livrou de trabalhar para Remco (o belga cedeu logo nas primeiras dificuldades e perdeu muito tempo), é agora 10.º na geral, a 10’01” da liderança.


39 Comentários
Pedro Barbosa
O que dizer de Bernal, sensacional em todas as medidas. Como desejo ver um Bernal vs Pogacar o mais rápido possível. Não há dúvidas que até este segundo dia de descanso o colombiano é o melhor em prova, destaca-se em quase todas as subidas tal é a facilidade em deixar “pregados” na estrada os seus adversários. Hoje foi mais uma, quando arranca no seu ritmo ninguém aguenta na roda por mais que alguns segundos, e não tem medo de seguir sozinho a partir daí. Yates volta a falhar hoje e não consegue assim assumir o papel de favorito, e arrisca-se mesmo a falhar o pódio a não ser que suba o rendimento. De destaque hoje também a EF Education que fez um grande trabalho no Passo Giau, faltando um pouco a Hugh Carthy (que ainda tentou acompanhar Bernal no seu ataque, ingloriamente e, na minha opinião, terá sido um erro) para depois seguir no mínimo com Damiano Caruso e cavar uma maior vantagem para Ciccone e Vlasov.
Em relação ao João, resultado perfeito. Inteligente na abordagem da etapa ao saltar para a fuga, o que lhe permitiu abordar a subida final no seu ritmo (e não esqueçamos que a etapa foi encurtada e bem mais fácil do que seria normalmente) e chegar à meta com os melhores. Sobe ao Top-10 na metade inferior, onde parece ser efectivamente o seu lugar e o que eu lhe previa no início do Giro, acabou foi por chegar lá de uma maneira diferente ao previsto. Discordo da interpretação que ele foi “queimado” (questiono o que se diria aqui se os papeis estivessem invertidos e o Remco não ficasse com o João naqueles momentos) porque o principal problema do português não foram as etapas em que ficou para trás com o belga mas sim a etapa 4 em que fraquejou completamente, que são momentos que acontecem a qualquer ciclista. Após esse mau dia a equipa perdeu naturalmente alguma confiança na capacidade do João de ainda lutar por algo na prova. Hoje a estratégia da equipa foi diferente (“anunciada” ontem de resto) e permitiu autonomia ao João para aproveitar o facto de estar atrasado na geral para ser mais agressivo.
Para a Quick-Step este resultado é também importante: fica compensada a perda de Remco pois ele deverá abandonar após hoje (tinha sido reportado já no final da etapa de sábado que terá dito junto da equipa que não ia conseguir continuar pois não estava a conseguir recuperar), mantém a equipa motivada e focada num objectivo que agora é unicamente lugar do João e salva um pouco a estratégia deste Giro, porque a equipa vinha sem sprinter.
Richrad
Pedro Barbosa,
Será que perante a facilidade demonstra pelo Bernal, o colombiano possa dar uma perninha no presente Tour e fazer a vida negra às ambições do Pogacar? ( Claro que o Roglic é e será sempre o principal adversário do compatriota esloveno para a prova francesa).
O Ciccone para quem tem em prova Nibali e Mollema está a fazer um Giro muito bom, claro que o jovem italiano não tem muito a provar nem pressão ( contrato até 2024, já conquistou no passado a camisola da montanha) mas não deixa de ser uma grande prestação, ao passo que o russo Vlasov está claramente a fazer um Giro de afirmação na sua carreira.
Pelo João Almeida, em termos absolutos falemos de um miúdo que em 9 meses passo do desconhecido nome do pelotão internacional para ser 7º ciclista melhor classificado mundialmente. Se o 4º do Giro passado poderia ser visto com desconfiança como um “fenómeno invulgar”, o João faz nas principais corridas WT de 1 semana: 3º no UAE ( ganho por Pogacar), 6º no T-Adriático ( ganho por Pogacar e com Bernal no meio) e 7º na Catalunha dominada pela INEOS.
Se os seus objetivos pela geral ou de liderança acabaram na etapa 4? Bem… estamos a falar de um rapaz que teve o seu primeiro dia mesmo mau na competição de elite. Perde 4 minutos? O Remco foi perdendo na passada semana minutos até os derradeiros 25 minutos de ontem.
O João teve um dia mau, um dia. Como outrora tivera Froome nesta mesma prova do Giro que acabaria por ganhar no mítico ataque a 80km como até Yates após liderar 2/3 da prova, perdeu-a no seu dia mau por… 15 minutos. O próprio Pogacar ganha no último dia o Tour perante um Roglic complemente irreconhecível ( basta ver que foi uma exepção perante o que depois fez na Vuelta).
Dias maus acontecem. O que não pode acontecer ou deveria ter acontecido foi o trabalho de bastidores da equipa da Quick-step à volta do João. Não é por ser português que defendo a ideia do mesmo jovem ter sido descartado pela equipa.
– Não é normal as declarações do diretor da equipa no ínicio da prova sobre a situação do João;
-Não é normal, o João estar à frente do Remco na geral e ser ultrapassado pelo mesmo num Sprint Intermédio;
-Não é normal, o João na 4º etapa ficar para trás sem ter o apoio mínimo da equipa;
-Não é normal, ser o João a carregar às costas o Remco em terrenos clássicos que tanto se gaba a qualidade do jovem belga.
Não é normal porque mesmo perante um dia mau do João, perante todos os acompanhamentos, baterias de testes, controlos e uso de tecnologias… defender o Remco sabendo perfeitamente que o jovem prodígio não iria sequer aguentar verdadeiramente 2 semanas de prova, muito menos as 3 semanas.
Para quem perceba um pouco deste processo fásico que leva a preparação de um atleta para uma grande volta sabe bem que a preparação do Remco estava de longe no mínimo aceitável para o atleta ter pretensões reais no Giro.
Pedro Barbosa
Olá @Richrad,
Se Bernal podia dar uma perninha já neste Tour 2021 para tentar ganhar? Nesta forma que apresenta sem dúvida, e adorava poder presenciar essa luta. Mas não está previsto e ficaremos apenas com a saliva na boca. Falei do vs. Pogačar, mas não quero ser injusto com Roglič, Thomas, ou mesmo com Lopez, Kruijswijk (e outros potenciais candidatos) porque em boa forma todos são capazes de ser extraordinários competidores. O Tour de France 2021 tem todas as condições para ser excelente.
Em relação ao João Almeida, eu quis só expor a minha discordância com a descrição de “queimado”, como se a Quick-Step estivesse a tentar impedir o João de obter um bom resultado. Essa expressão é usada coloquialmente para descrever um ciclista que sacrifica completamente o seu resultado individual para beneficio de um colega / da equipa. Isto não descreve de forma rigorosa o que se passou e passa uma mensagem errada a quem não acompanha regularmente o desporto mas apenas o João Almeida. Posso usar os teus “Não é normal” para dar a minha opinião sobre os pontos principais, se tiveres interessado em saber.
– “As declarações de Levefre”: tens razão, nada normal tão cedo na época desportiva, revelou um mau estar grande com a situação contratual do João e com o agente do português. O João não está comprometido com a equipa, o que é perfeitamente legítimo da parte dele (procurar um bom contrato e uma equipa que o valorize como líder) mas isso tem consequências. A Quick-Step tinha vindo a anunciar renovações importantes e, quando a do João não foi anunciada, eu percebi que havia ali qualquer coisa. É uma pena que tenha extravasado cá para fora daquela maneira.
– “o sprint intermédio”: a liderança da equipa foi anunciada no início como repartida entre o João e o Remco. Após o contrarrelógio, ambos estavam em posição de conquistar a camisola rosa dentro de dias. Cabia a cada um mostrar quem queria mais ter a camisola, numa espécie de competição interna. Se o João quisesse ir ao sprint intermédio para disputar os segundos em causa podia ter ido. Não o fez e tenho quase a certeza que não foi por causa de uma ordem da equipa, foi por outra razão, especulo por exemplo, terá achado que não precisava ou não fazia sentido para ele (vários ciclistas também acham o mesmo). Não entendo o problema aqui, é tão secundário. O Remco queria ter a chance de estar na liderança e, sabendo que em condições normais seria o João na etapa 4, fez pela vida.
– “4ª etapa”: já muito foi falado, e tenho pena que “nacionalismos” (não sei o que será além disto) impeçam uma análise lógica do que se passou. Foi um dia mau do João, mas se calhar as pessoas não têm noção de quão ‘mau’ foi. Era uma subida que não era diferenciadora e estava a ser feita a um ritmo acessível à maioria dos ciclistas quando o João descolou. Foi uma performance péssima (chegou a 5 mins dos favoritos) numa altura da corrida em que a equipa tinha uma estratégia ofensiva definida. E é mentira que ninguém o apoiou, o João chegou ao fim com dois colegas a ajudar, os únicos que não ficaram para trás foram o Evenepoel (natural) e o Masnada (provavelmente como apoio ao Remco). Eu até posso achar que faria diferente e parava tudo a pensar no João, porque consideraria que é importante manter o ciclista motivado para o resto do Giro, mas não vejo como criticar muito a postura da equipa face à prestação do João nesse dia. Repito, acontece a qualquer ciclista estes dias.
– “carregar o Remco”: esta também é incompreensível para mim, incompreensível a crítica porque o que aconteceu é normal. O João estava longe do Top-10 e tinha um colega a disputar a classificação geral. Após uma grande primeira semana o Remco estava claramente com intenções de disputar o Giro mas ressentiu-se do esforço e não mais recuperou a forma, com o João a dar o seu melhor para ajudar (e o português não está treinado para saber ajudar um colega pois nos momentos cruciais está sempre longe e não presta atenção). Conhecendo um pouco da personalidade do belga, ele também não ficou satisfeito com a sua condição física e de ter de precisar de ajuda, e na etapa 16 sabendo que não estava em condições não condicionou mais a prova do João. Tenho a certeza que este Giro será uma boa experiência para Remco, foi a primeira vez que “perdeu” por assim dizer.
Por último, se achas que tu és o especialista e não os preparadores físicos da Quick-Step, candidata-te à posição e demonstra esse conhecimento todo àqueles incompetentes. Claro que dentro da equipa havia dúvidas sobre a condição física e se Remco iria aguentar as 3 semanas, não és nenhum génio, por isso é que ele não era o líder incontestado com o João a gregário, que seria a hierarquia natural. Mas decidiram arriscar e provavelmente o ciclista também queria ter a oportunidade para mostrar que conseguia. Peço desculpa se pareço condescendente, mas quero deixar claro que dentro da equipa o Evenepoel tem muito mais nome, é a cara do projecto futuro e já demostrou mais no cômputo geral que o João, sendo 2 anos mais novo.
porra33
É claro que a Quickstep leu de forma errada a corrida e errou em teimar com o Remco a líder. Agora há que minimizar estragos e tentar segurar este lugar no top 10. Acredito que se tem aqueles dois dias sem ter que rebocar o Belga o João teria ali menos 2 ou 3 minutos na classificação e estaria mais perto do top 5.
De qualquer forma há que ressalvar o profissionalismo do João Almeida. Cumpriu com as ordens dos chefes e não deixa de modo nenhum a sua imagem prejudicada neste Giro.
Até sou daqueles que acha que estaria numa boa equipa para poder ambicionar a fazer o pódio numa grande volta mas toda esta questão da renovação faz com que isso seja mais incerto. Neste momento acho que deveria ir para uma UAE por exemplo para ser a alternativa à geral a Pogacar nas provas em que o esloveno não participe ou talvez pudesse ser primeira figura numa Movistar que está meio depenada, Soler e Mas não dão garantias e tem uma boa base na montanha.
Filipe__Santos
Em relação à UAE, não me parece que nas provas em que não houver Pogacar, haja um bloco de montanha suficientemente forte para elevar o nível do João. Por outro lado, com os irmãos Oliveira e o Rui Costa já na equipa (este último com “peso institucional”), pode gerar-se ali uma sinergia portuguesa que crie um ambiente propício aos bons resultados.
Também já me lembrei da Movistar, porque é de facto uma equipa que não tem um ciclista de GV mais fiável que o João, e que ao mesmo tempo tem gente que, em princípio, pode ajudar na montanha.
Problemas:
-A Movistar é aquela equipa que parece cometer todos os erros táticos possíveis. Quantas vezes ao longo dos últimos anos os vimos a dinamitar corridas que nem a INEOS, para depois o seu líder ser o primeiro a ceder.
-Soler e Mas são espanhóis. Creio que nesta fase está bastante claro que será difícil repetirem os pódios de GV que já fizeram, mas daí até deixar 2 espanhóis em segundo plano para colocar 1 português na liderança…
João Ribeiro
O Miguel Angel Lopez, ao dia de hoje, é uma opção mais fiável para uma geral de uma Grande Volta do que o João Almeida.
porra33
Acabo por concordar, a Movistar acaba por ser ali o último bastião espanhol, mas acho que o João conseguiria dar resultados interessantes à equipa e ainda por cima está lá o Nelson Oliveira e tudo.
Agora que tive mais tempo para pensar Astana e Bahrain poderiam ser opções interessantes mas também se calhar aí a exigência seria maior e o apoio ligeiramente menor, mas espero que faça uma escolha acertada para conseguir chegar onde se espera!
rvstico
Permite-me discordar no que concerne ao profissionalismo do João. Não acho de todo que seja mau profissional, do que já tive oportunidade de ver na estrada e em entrevistas é um miúdo bastante humilde e team player, não obstante, a situação do sterrato foi muito falada fora de Portugal com imensas críticas à atitude do João de ter deixado o Remco para trás (tal como lhe fizeram na etapa 4), tendo até sido sugerido que ele se arriscava a ser enviado para casa. Entendo a atitude, provavelmente se tivesse no lugar dele faria o mesmo, mas a nível de mercado é situação para o ter prejudicado.
Tenho imensas dúvidas que a Movistar seja equipa para o João, o target da equipa é mais o atleta espanhol ou latino. Não estou mesmo a vê-los a apostar num português para líder de provas. Se nem com o Rui Costa o fizeram numa altura em que ele apresentava bons resultados com etapas no Tour, gerais da volta à Suíça, campeão do mundo em ’13….
porra33
Pois, não acompanhei o que foi dito lá fora, o que é verdade é que na prática acabou por cumprir as ordens do director desportivo, se podia ter esperado mais cedo ou não é outra história. A verdade também é que em termos de declarações em nenhuma altura o João veio tentar lavar roupa suja ou coisas do género e para mim isso abona a seu favor.
Lembrei-me da Movistar porque ainda seria uma equipa que garantiria um bom suporte para o João na montanha e não tem assim tantas opções de melhor nível para já. Claro que também poderia caber em AG2R, Bahrain, EF ou mesmo Astanas, mas acho que mesmo assim seria a mais benéfica.
Quanto ao que dizes do Rui Costa, acho que na altura se ele não tem sido teimoso e tem optado por ir ao Giro por exemplo em vez de ir sempre ao Tour, poderia ter sido o líder da equipa na prova.
rvstico
Sim, nenhum dos 2 atletas nem a equipa vieram lavar roupa suja (felizmente, aquilo já tinha corrido mal o suficiente com toda a situação a terminar com o Remco frustrado a sacar o rádio fora).
Quanto à Movistar eu concordo que é uma equipa com condições para ajudar o João em alta montanha, onde discordo é na vontade/interesse comercial-publicitário em contratar um português para o papel de líder. Felizmente para ele duvido que tenha problemas em encontrar uma boa equipa.
Sim, o RC poderia ter optado pelo Giro, mas ele que nunca foi espectacular em alta montanha, tenho ideia que por norma o Giro tinha sempre subidas menos favoráveis às suas características.
Filipe__Santos
Como diz, e bem o José Azevedo quase todos os dias, “os ses nada contam, porque os outros também ses”. Já agora, as transmissões de ciclismo da Eurosport já eram das melhores coisas no desporto nacional, mas agora com os insights de um ex-corredor e diretor de topo, subiram ainda mais o nível.
Quanto à performance do João no dia de hoje as minhas sensações são mistas. Antes de ser mal interpretado, considero o João um enormíssimo ciclista, e creio que antes dos 30 anos já vai ser o melhor Português de sempre em termos de currículo. Hoje não tivemos imagens, mas creio que é quase certinho que rebocou o 2º e o 3º da geral numa descida demoníaca (e quem sabe, em parte da subida também), depois de ter andado em fuga na alta montanha com estas condições climatéricas, que ele já admitiu que não gosta. Isto diz bem da capacidade de sofrimento e do quão completo é o João Almeida (contra-relogista de excelência e provavelmente top 3 do pelotão Mundial nas finalizações em velocidade, de entre os homens que lutam por lugares da geral) .
Dito isto, a excelente subida dele hoje foi mais uma prova que pode trepar a ritmo com os melhores, mas que tão cedo não vai estar no patamar dos melhores, porque lhe falta a explosão de ataque nas altas pendentes. Seja para saltar do grupo dos favoritos, seja para responder aos ataques dos favoritos, ou como hoje, para saltar de uma fuga que estava prestes a ser condenada. Não me entendam mal, hoje Bernal dinamitaria qualquer um dos corredores em prova, fosse qual fosse a estratégia, mas é mais um exemplo das sensações que o João me dá. Ainda por cima quando para fazer Top 3 numa grande volta tem que se bater com tipos da raça de Pogacar, Bernal, Roglic, Remco (?) e mesmo Yates – o outro – ou Goeghen-Hart. Para melhorar os resultados que tem tido, é essencial que João Almeida possa passar os próximos anos a correr numa equipa com um bloco fortíssimo em alta montanha
Miguel Caçote
Duvido imenso que antes ou até depois dos 30 esteja a fazer pódios no Tour com vitórias em etapas míticas como o Alpe d’Huez. Quanto ao ser top 3 em finalizações em velocidade de entre os homens que lutam pela geral também me parece muito discutível mesmo (veja-se Roglic, Pogacar, Valverde, Michael Woods, o Alaphilippe já lutou pela geral de um Tour e a lutar por provas de uma semana tens o Sergio Higuita). O futuro do João para mim tem de passar por continuar a evoluir na alta montanha como fizeram Dumoulin e Roglic recentemente.
Filipe__Santos
Muito bem sacada essa comparação ao Dumoulin, sendo que até acho que o João Almeida tem mais capacidade na montanha do que o Domoulin quando começou a ser reconhecido. Quanto ao Roglic, embora sem certeza, tenho a ideia que ele antes de ser um voltista de respeito até já lutava por Classificações de Montanhas.
Miguel Caçote
No início da carreira o Roglic era mais um contrarrelogista, ganhou algumas classificações da montanha em provas continentais mais periféricas. Em provas World Tour ele começa precisamente por ganhar contrarrelógios no País Basco, na Romandia entre outros e os resultados nas grandes voltas sempre foram modestos até que evoluiu na alta montanha.
O João Almeida no contrarrelógio já é muito bom, agora tem de se focar em evoluir na alta montanha e na minha opinião, em melhorar naqueles aspetos que o pessoal nem dá muito por eles, mas que são importantíssimos Ora vejamos, ontem numa etapa com condições climatéricas adversas, víamos o João Almeida de calções, ao passo que todos os outros corredores tinham as pernas muito mais protegidas e outro aspeto é a alimentação. Segundo o próprio, a etapa que o fez perder tanto tempo, deveu-se precisamente a uma alimentação deficiente.
vilut
Na minha opinião, acho que o João tem potencial para um top3. Não é algo garantido, não é algo certo ou que ele consiga fazer consistentemente, mas acho algo que ele com (a continuação do excelente trabalho que tem feito e) alguma sorte poderá conseguir. É um pouco como o top10 dele actualmente. Ele está a 10 minutos do primeiro e está no top10. No final da segunda semana de uma grande volta, quantas vezes isto já aconteceu? Talvez algumas, talvez… Mas certamente não acontece sempre e poderia estar com este tempo de desvantagem e estar em 15º ou em 20º. E isto também foi fruto do infortunio de algumas quedas de potenciais top10 como Landa, Buchman, Soler e eventualmente até Hindley , Sivakov ou Groenewegen…
O João tem um potencial enorme, bate-se bem em praticamente todos os terrenos, sendo a única excepção a que disseste: pendentes altas. E eu até vou mais longe e digo que acho que a “incapacidade” de resposta e ir ao choque na alta montanha não é bem uma incapacidade. Em não o conhecendo pessoalmente para lhe perguntar directamente e dado que isto é algo que provavelmente ele não vai querer divulgar para que os rivais não o saibam, eu acho que é fruto da vontade dele em tentar manter um ritmo constante e que ele sabe que é capaz de manter até ao final… É fruto de calculismo e noção do que é capaz e não é capaz de fazer… É fruto de ele ver um Bernal a passar por ele e saber que mesmo que reaja, só o conseguirá fazer durante 200m e que a subida ainda terá uns 2k, e saber que efectivamente estiver certo na sua incapacidade, é reagir e perder 2 minutos ou não reagir, manter forças e energia e perder 1’30. Acho que lhe falta fisico para ir mais rápido, mas a incapacidade dele acho que é essencialmente a cabeça dele a fazer contas.
O João ainda vai ter que crescer, fisicamente terá que ter maior capacidade de resposta na alta montanha para não perder tanto tempo e de minimizar perdas em dias maus. Mas mentalmente parece-me lúcido e maduro, especialmente tendo em conta a idade dele. Acho que está no bom caminho para continuar a registar o seu nome entre os melhores do mundo, mesmo que nunca ganhe uma grande volta.
João Ribeiro
Ui… Será que acabei mesmo de ler “potenciais top 10” e “Groenewegen” na mesma frase?
vilut
Eish, que fail… Confesso que é um atleta que não conhecia até ao giro e acho que li algures que ele deveria ser o lider da equipa, então desde aí tenho assumido tal sem ir pesquisar mais sobre ele. Mas agora que respondeste este comentário, fui pesquisar e não podia estar mais errado neste ponto. Obrigado!
AndreChaves9
Como é que alguem que diz uma coisa destas se põe a comentar ciclismo? Incrivel.
Richrad
Hoje era o dia que o João não só subiria para o top-10 como poderia colocar-se ainda mais dentro deste top, não fosse o encurtar da etapa.
Assim, com menos de 2 montanhas pela frente, o João logo para o meio dos lobos e isso só demonstra a capacidade e vontade e estar entre os melhores que jovem português tem.
É incrível como o jovem português ( faz-me lembrar o Froome neste aspeto) não vai ao choque e consegue impor sozinho um ritmo que não o faz ficar fora da corrida e ir aos poucos apanhar quem lhe escapou.
Em relação à sua prestação no Giro, não vale a pena falar muito sobre a sua situação. Desde o inicio que o eleito era o Remco, independentemente da experiência adquirida pelo João. Começou logo na segunda etapa com o jovem belga coletar os bónus de bonificação e pela postura da Quick-step no dia mau do João, o único até ao momento.
Depois, o próprio João teve dois momentos: nas etapas seguintes trabalhou para o Remco e na etapa de gravel, “gozou” literalmente com o seu colega, ficando por momentos no grupo dos favoritos para ser “obrigado” pela equipa a ficar para trás e rebocar o Remco.
Era uma questão de tempo até o Remco encostar às boxes, o belga tem um potencial estrondoso, leva mais de 10 vitórias profissionais em 2 anos de WT mas toda a preparação para ser figura no Giro foi errada e apenas foi levada avante pelo ego tido por parte do diretor da equipa.
O futuro do João será risonho, seja na Bora, na UAE ou quiçá até na INEOS. Trabalho e trabalho e não tenho dúvidas que alcançará feitos superiores a outro fantástico atleta deste século, o grande Rui Costa.
Potter
Se o João não tivesse tido perdido tempo na quarta etapa, já nem falo do tempo que perdeu a ajudar o Remco, nunca teria tido esta oportunidade de ir para a frente da corrida nesta etapa. As restantes equipas, estando ele mais perto dos primeiros lugares, não permitiriam que fosse para a fuga.
E já se viu que também não está com melhores pernas que o Ciccone, Caruso ou Carthy. O melhor que ele tem a fazer é ir seguindo com os melhores nas restantes etapas (duvido que consiga integrar uma fuga novamente, ainda por cima o Remco hoje perdeu 24 minutos) e tentar subir lugares no contrarrelógio final.
vilut
Permite-me que discorde de dois pontos. Primeiro se o João não tivesse perdido todo o tempo que perdeu, teria tido um trabalho muitissimo mais fácil: colava-se à roda do último da Ineos, protegendo-se do vento e da chuva, e seguia com o pelotão até onde aguentasse como todos os principais candidatos fizeram. Assim, teve muito mais exposto. E em segundo, em continuação a este ponto, estaria muitissimo mais capaz de acompanhar o trio que mencionaste. Eu acho
ingrato comparar o João a esse trio directamente nesta etapa quando o João passou talvez uns 100km em fuga e esse trio esteve acompanhado. É um bocadinho diferente, mas veremos nos próximos dias. O João já não deverá apanhar nenhum deles na geral, mas quem sabe aproximar-se mesmo depois de tudo o que se passou neste Giro.
Potter
É uma maneira de ver as coisas. Eu acho que ele teria mais dificuldade em acompanhar o Ciccone e o Carthy se estivesse com eles no grupo dos favoritos.
Pessoalmente acho que o João ainda tem hipóteses de chegar a 8º. Para subir ainda mais teria que andar muito bem até ao final e os adversários terem dias muito maus nas próximas etapas.
vilut
No pelotão, não vejo porque não aguentasse ir com eles. Presumo que te refiras depois do ataque do Bernal, mas aí acho que ele iria na dele como fez depois da fuga se desfazer, portanto nesse caso não faço ideia como seria sinceramente… Ainda hoje deixa Pedrero e Formolo irem como se parecesse estar já sem forças e depois apanha-os e mete-lhes mais de um minuto de avanço até ao final. Neste aspecto, parece-me dificil analisar o João porque como a maior parte dos ciclistas reagem directamente a ataques dá para comparar visualmente a capacidade que têm em pendentes semelhantes uns relativamente aos outros.
Quanto ao teu último parágrafo, também estou com a mesma ideia. Tanto Foss como Martinez podem possivelmente ser ultrapassados, mas a partir daí só alguém tendo um dia como o João na primeira semana e mesmo assim não sei.
Louco de Lisboa
Grande etapa do João, que chegou com Hugh Carthy depois de ter feito um trabalho forte na fuga (puxou muito mais do que Nibali, por exemplo).
Curioso a inteligência do João a gerir esforço em subidas – hoje não consegue acompanhar Formolo, Nibali e Pedroso, e, passado alguns minutos, ultrapassa todos estes. Tudo porque mantém o seu ritmo ao invés de ir ao choque. Dá a sensação de ter grande maturidade apesar da tenra idade.
Fica também demonstrado que a DQS geriu muito muito mal este Giro, e que, com outro tipo de estratégia, teria João Almeida num top-5 nesta altura. Agora é fácil falar, claro, mas não deixa de ser uma realidade.
Destaque para Bernal. Está num nível acima e vai chegar ao ITT com 4 minutos de vantagem sobre os seus adversários.
DD28
O João foi queimado porque ele proprio “se queimou” na 4ª etapa. Infelizmente ai falhou, e com isso desceu definitivamente para a 2ª posição da hierarquia. Mas como dizem, e bem, o ciclismo é isto! Há quem comece muito bem e rebente e quem vá crescendo com o passar das etapas, como parece que está a acontecer com o João.
Veremos se, com menos liberdade dentro do pelotão e com a equipa a ajudá-lo, o João conseguirá continuar a subir posições e, se sim, até onde. Já Bernal só com um momento Yates é que perde esta rosa.
DD28
Respondendo a todos de uma vez.
Não disse que a DQS teve bem na 4ª etapa. Apenas que o João nessa etapa perdeu o estatuto de lider. Se em vez de 4 perdesse apenas 2 mins o resultado era o mesmo -> a equipa iria defender sempre os 20 secs do Remco e como resultado o João iria sempre ter de por o pé no chão.
Isto foi bem pensado pelo diretor da equipa? Agora é facil dizer que não, mas na altura todos fariamos quase o mesmo, isto é iriamos sempre pedir ao João para ajudar o 2º lugar da geral. O erro esteve na não defesa do João na 4ª etapa, mas ai “até” compreendo. Existiam 2 lideres e naquele dia a estrada decidiu quem estava melhor. Dado a fase precoce da competição, as esperanças da equipa no João foram comprometidas.
Sobre o ambiente… Má gestão dos ativos, simples. Se o João vai sair, a DQS só tem de o encostar das grandes voltas, caso se não queira valorizar/desenvolver um “ativo” de outra equipa. Com isto, espero que a história me prove como errado, mas penso que o João tomou uma má decisão ao querer sair da equipa. Estragou as suas hipoteses neste Giro, afetou um pouco a sua imagem e ainda vai sair para uma equipa que nao acredito que seja um melhor projecto para ele.
Rush
Correr contra a própria equipa não é fácil, e aquele dia mau foi tudo o que a Quickstep queria para forçar a ideia de que o João já não era líder (que nunca foi). Viu-se no que deu, parabéns ao Lefevere e aos diretores desportivos. Quiseram à força que um corredor que teve 9 meses parado fosse o líder, nem que para isso tenham abandado o pragmatismo que os caracteriza. Nem a Movistar toma decisões tão idiota.
O mais certo é saírem do Giro sem etapas, um top 10 que para a equipa pouca diferença faz e com o Remco, que fez muito para a preparação que teve, a ter uma prestação muito aquém das expectativas criadas pela própria equipa. A Netflix devia pegar neste fiasco.
vilut
Também concordo, a Netflix devia pegar neste fiasco. Eu não percebo como uma equipa profissional acha que um atleta que está sem competir 9 meses e tem apenas 3 meses de treinos em cima de uma bicicleta tem capacidade para competir num giro. É que eu achava impossivel, mas quando vi a numeração da equipa, vi o Remco a ir ao ataque para bonificações e a atitude da Quickstep perante a quebra do João achei-me estupido e pensei para mim: “Epa não vi os treinos, se calhar o Remco é mesmo um fenómeno que até a nível de recuperação de lesões é um extraordinário e tem feito treinos incríveis e que dão boas indicações para o Giro”. E eis que aqui estamos… O Lefevere conseguiu sabotar toda a equipa nesta competição de tal forma que levaram “dois líderes” para atacar a GC e nem se quer um top5 devem tirar acompanhado de 0 etapas.
Rush
O que se ouvia dizer era que eles estava a andar muito bem nos treinos e não duvido disso, a questão é ser capaz de manter a forma durante 3 semanas. Ele até podia estar a fazer 6 W/kg durante 30 minutos, mas sem grandes blocos de treino e corridas de preparação é impossível preparar o corpo para 3 semanas ao mais alto nível. Muito já fez depois de 9 sem competir (entre os quais esteve uns quantos sem tocar na bicicleta ou sequer andar).
rvstico
Exacto, não me levantam grandes dúvidas que o Remco estivesse a fazer treinos top, e até com mais que esses 6W/kg 30 mins. A questão é como dizes, o rapaz (que eu tenho a crença que é realmente um prodígio) esteve 9 meses sem competir, e muitos sem se meter em cima duma bicicleta.
A ida ao Giro foi literalmente a 1ª competição desde a queda em Agosto de 2021.
Na 1ª semana eu estava incrédulo com a forma dele considerando todas as condicionantes, claro que veio o 1º dia de descanso e a etapa do sterrato e o corpo não aguentou. É humano.
Rush
Era o expectável, até porque não há treino que consiga simular e intensidade das provas.
Subidas longas cima de 6 W/kg já é território de “prodígios” com o Froome ou o Alarcón.
rvstico
O que me ri com o Alarcón ahahahaah.
A verdade é que o Froome nunca foi apanhado, e tinha “sempre” dias maus no Tour, não sei se será um desses “prodígios”. Tenho dificuldade em falar dessa temática, não gosto de ver ciclismo e pensar “epa, este gajo como está a andar tem jarda”. Gosto de pensar que o ciclismo pós LA (que para mim continua a ser o melhor da sua era, poucos rivais não foram também apanhados) está maioritariamente limpo.
Há relatos do próprio RE a falar de 450 watts no ataque que lhe deu a vitória na Clásica de San Sebastián, ou do ITT Europeu em 2019 com média de 400 watts (~25 mins). Agora, tens razão que estas não são subidas longas nem esforços superiores a 30 mins.
Rush
Sim ahah. Coloquei-o junto ao Froome por bincadeira, porque, apesar de toda a estranheza de sua evolução enquanto ciclista, nunca foi apanhado.
É bem possível, ainda para mais nessa altura o Remco devia estar mais perto dos 65kg. Seja como for, e tendo em conta os watts que ele consegue fazer para o peso que tem, é só uma questão de tempo até os resultados em alta montanha aparecerem.
rvstico
É verdade que o João “se queimou” nessa etapa. Teve um dia péssimo considerando o perfil da etapa, acontece a todos. Mas nesse dia pensei que a equipa estava desejosa de uma ligeira quebra (que até foi grande – 4 mins para o Remco) do João para poder apostar fichas no Remco.
O que já se percebia desde o início, quando o 91 é o Remco e o 92 o João. Tal como comentei no post inicial do Giro, o Remco é formidável, tem tudo para marcar uma era no ciclismo mundial, mas vindo de 9 meses de paragem e sendo a 1ª volta de 3 semanas era muito complicado. É normal a equipa ter a tentação de fazer o belga o chefe-de-fila, afinal de contas o rapaz é um ídolo no país e em termos de patrocínios tem um impacto gigante. O que considero ser uma enorme falta de respeito para o João que andou 15 dias de maglia rosa e fez 4º é publicamente dizerem que será o líder e na estrada à primeira oportunidade colocar um prodígio sem competição como nº1.
Veremos como estará de pernas na quarta-feira o João, duvido que o Remco faça a última semana (pelo que (não) se viu hoje nem pernas para etapas tem) mas neste momento tem de passar a ter a equipa a trabalhar para ele caso tenham interesse num top-10. A outra hipótese é perder muito tempo na próxima etapa e tentar entrar na fuga das últimas etapas de montanha para vitória de etapas.
Louco de Lisboa
Se o João tivesse alguém na equipa para o ajudar nessa etapa em que teve menos bem, se calhar hoje tinha mais 2 minutos. A DQS apostou no Remco, saiu-lhes mal.
Louco de Lisboa
*menos 2 minutos
Medderling
O João foi abandonado pela equipa no seu dia menos bom. Ninguém ficou para trás para o ajudar na dificuldade, ninguém. É só ver as declarações do diretor da equipa e ver que o João em duas etapas foi obrigado a rebocar e perder tempo.
PedroSCP
Demonstração de força do João. Se não tivesse sido queimado pela própria equipa para alavancar um Remco em dificuldades poderia muito bem estar já num top 5/6. Vamos ver as sensações que transmite até ao final do Giro de modo a conseguir arrancar um contrato numa boa equipa e que lhe permita lutar por vitórias
Medderling
Não tivesse o azar na quarta etapa e não tivesse rebocar o Remco e estava lá para cima. Grande João!