Assim como Michael Jordan está para a NBA, Tom Brady para a NFL, Maradona para o futebol, Jon Jones está para o MMA/UFC. Dana White anunciou ontem que Jon Jones retirou-se do desporto. O homem mais dominador na história do UFC. Polémico, desafiador, provocador e brilhante, Jones foi o lutador perfeito.
Com 27 vitórias em 29 lutas (10 por KO; 7 por finalização; 10 por decisão). A única derrota é por desqualificação contra Matt Hamill em 2009, devido a cotoveladas ilegais (os polémicos “12-6 elbows”, hoje um golpe legal) e tem outra no contest contra Daniel Cormier em 2017, que inicialmente fora uma vitória por KO, mas depois anulada por um teste antidoping positivo.
Foi o campeão mais jovem de sempre, conquistando o título do light heavyweight com apenas 23 anos e defendeu-o 8 vezes consecutivamente entre 2011 a 2015. Ganhou o cinturão dos heavy weight, sendo um dos poucos campeões em duas divisões diferentes na história do UFC. Foi o lutador com mais vitórias em lutas de título do UFC (14), é o detentor da maior sequência de vitórias na história dos light heavyweight e foi o único lutador da história a ter sido número 1 do ranking pound-for-pound (P4P) em duas categorias diferentes.
O legado de Jon Jones, no entanto, não se mede somente pelos feitos, mas sim pelo calibre dos seus adversários e o momento em que os defrontou. No seu cartel podemos ver vitórias sobre Maurício “Shogun” Rua, Quinton “Rampage” Jackson, Lyoto Machida, Rashad Evans, Vitor Belfort, Chael Sonnen, Alexander Gustafsson (ainda hoje polémico), Glover Teixeira e Daniel Cormier (este num quadro de rivalidade histórica digna de uma biopic hollywoodesca).
A história de Jones, considerado por muitos como o melhor de sempre, materializou-se com o seu estilo de luta, altamente completo, com o wrestling incrivelmente polido como base de formação, conjugou o facto de ter pernas e braços compridos (dados os seus 1,93m de altura e 2,15 de reach) para desenvolver um striking unorthodox, usando os joelhos e os cotovelos como armas mortíferas, estes últimos desferidos em rotações criadas através de uma criatividade ímpar.
A dominância fazia-se acompanhar de clinchs onde entravam os seus cotovelos letais e que pautavam o ritmo e a distância, e os pontapés aplicados com a malícia (oblique kicks) eram desferidos com a violência que constava no seu ADN. Os seus takedowns eram alcançados com uma facilidade tal que pareciam simples e o ground and pound era pura e simplesmente vil.
Como todos os homens que ficaram na história dos seus desportos, Jon Jones também teve os seus capítulos polémicos e demónios. Um homem complexo, que errou na sua vida pessoal e teve comportamentos reprováveis, mas que na hora de lutar era exímio, a roçar a perfeição. Ficará sempre a dúvida se a reforma fora do octógono se deve ao receio que Tom Aspinall pudesse vir a beliscar a sua história.
Independentemente de tudo, Jon Jones é simplesmente o GOAT.
Visão do Leitor: António Azevedo


17 Comentários
Zerobola
GOAT DO DOPPING
slipkorn
Jon “Bones” Jones é (foi) o GOAT .
Nunca perdeu dentro do octógono (aquela “derrota” provavelmente será mesmo revertida), e teve de tudo, desde o seu carisma e qualidade dentro do octógono até às imensas polémicas fora dele.
Dana estava quase a largar uma lágrima quando anunciou que o Jon tinha ligado a deixar a UFC… mas já se sabe, nunca digas nunca…
Teve rivalidades insanas, então a que teve com DC foi totalmente louca, recordo-me sempre Bones a levar tudo à frente, desde DC, seguranças, estruturas promocionais em que eu estava presente kkkk.
Veridis Quo
Um fenómeno e um génio no que faz, mesmo com a controvérsia que sempre trouxe com ele. O trabalho não pode desvalorizar-se, mas a sensação que o Jon Jones sempre deu foi que nasceu para isto. E com a personalidade e problemas fora do octógono que teve, terá mesmo sido uma benção que nasceu e canalizou as suas energias (ainda que sempre se tenha dispersado) para uma vertente desportiva.
Físico perfeito, técnica ímpar, dominador, inovador, completo, frio e com aquela mean streak que estes desportos precisam.
Com o tempo que se vê estes desportos, uma pessoa acabar por ficar dessensibilizada à violência e ao que de mau pode acontecer nestas lutas. Sempre que vi Jon Jones lutar, esse sentimento nunca esteve lá. A maior parte das lutas, especialmente no auge, a sensação que dava é que se ele quisesse, a vicioussness e a técnica dele podia levar as lutas para um sítio genuinamente desconfortável, tal a sua personalidade e o seu nível mesmo contra alguns dos melhores do mundo. Sempre se sentiu o perigo quando ele estava lá dentro e isso, mesmo num desporto destes, não é assim tão comum. E se uma pessoa sente isso em casa a ver num ecrã, certamente que o sentimento dentro do octógono não era agradável, mesmo considerando a mentalidade que se precisa de ter para chegar a este nível e ter estas lutas.
Os eye pokes, os oblique kicks, as restantes controvérsias deixam astericos no legado, mas nunca vi tamanha conjunção de skills, talento, capacidade atlética e, não menos importante, malícia (como diz o autor do texto) em nenhum lutador de MMA.
Verdadeiramente geracional.
Mantorras
O Jon foi um lutador absolutamente impar, com um talento fora da curva. No entanto, tudo o que é enquanto pessoa, os casos de doping, a forma como saiu de LHW quando lhe ofereceram a “invencibilidade” numa luta em que perdeu os 3 primeiros rounds para o Reyes, e a forma como, em HW, evitou o Francis, e fugiu ao Tom… o seu legado nao sera tudo o que poderia ser, porque a ultima imagem é de um troll que empatou a divisao e deixou claro que, ate ele, sabia perfeitamente que o Tom é o melhor HW do planeta. O GOAT é uma opiniao muito pessoal de cada um, o meu GOAT ele nao é de certeza.
Daervar
Acho que foi realmente o melhor, a quantidade de defesas do cinto que teve e superou, a loucura e falta de disciplina na sua vida privada, etc, etc, etc…
Teve uma ou outra dificuldade em alguns combates, era mestre a enfiar os dedos nos olhos do adversario mas tb era imparavel a demolir a maior parte dos que se atravessaram com ele.
O ko ao Machida ainda me faz impressao.
TF
Não são as divisões mais difíceis, lightweight e bantamweight são as mais difíceis e sempre serão… a competitividade nessas divisões é sempre muito alta porque é onde mais pessoas no Mundo se enquadram nessas categorias comparando com os pesos-pesados já que há pouca gente e muitos vão para outros desportos como o Basquetebol. Porém, Jon Jones apesar das suas manchas fora do ringue, é sem dúvida o GOAT do MMA pelas defesas de títulos, ser double champ e ainda o resumo que é o mais importante superando lendas como o Rua, Machida, Rampage, DC, etc.
Citizen_Erased
Mas o JJ entrou quando o UFC não tinha essas divisões ainda na sua máxima força. O WEC só entrou em 2014 por exemplo, e daí vieram aquelas hordas de campeões (Cruz, Henderson, Pettis, etc). Quando o JJ entrou, penso que as mais difíceis eram WW e LHW.
TF
Sim quando entrou mas os anos foram passando e criaram mais divisões principalmente depois da aquisição do WEC e Strikeforce e se fores a ver pela história, a qualidade dos LHW e HW diminuiu… também não havia USADA para testar os atletas, era bem comum haver atletas nessas categorias que usavam e abusavam dos esteróides ( Belfort, Arona, Randleman, etc). Com a introdução da USADA a qualidade dos pesos pesados(205 e 225 lb) diminuiu. Contudo nao tiro mérito a JJ( a meu ver continua a ser o Goat) , gostaria de ver ele lutar contra o Aspinall mas entendo a decisão já que tem 38 anos e a motivação já não deve ser a mesma.
Citizen_Erased
Há muita coisa verdadeira escrita neste texto, mas tambem se sonegam algumas coisas.
O Jones começa a construir a sua lenda ao derrotar pessoal da geração acima da sua – Machado, Shogun, Rampage, etc. Nada contra, tem exibições do outro mundo (a forma como apaga o Lyoto, com uma técnica que segundo uma pessoa que partilhava o ginásio da JW com ele, diz que aprendeu com o GSP pouco antes da luta, é brutal); consegue derrotar uma das lendas do UFC usando a mesma base que o adversário (um wrestler olimpico…), embora na segunda tenha tido uma “ajudinha”; mas no final da carreira de LHW ja tinha exibições que, por cansaço ou sobranceria, nao correspondiam ao epíteto de GOAT (e demonstrou que com lutadores da mesma envergadura – Gustafsson na primeira e Reyes – tinha bastantes dificuldades). Mas em termos de carreira nesta categoria, nada a apontar e é candidato a GOAT.
Quando sobe para HW, na minha opinião, estraga praticamente tudo. Fica parado 3 anos para “encher” segundo ele – o que nao deixa de ser verdade mas aparece com uma barriguinha do outro mundo (verdade seja dita tambem, ele nao tem corpo para ter um fisico musculado) – e, coincidentemente, apenas fica disponível quando o Ngannou abala do UFC (antes disso, quando o Ngannou adormeceu o Miocic, o próprio Dana White diz que se ele fosse o JJ, nao subiria, o que o levou a ter uma daquelas reacções normais…). Quando ganha o cinturão, contra um lutador que so sabe lutar em pé (nada contra, era quem estava disponível), aponta para o Miocic, o que tambem fazia sentido na altura. No entanto, lesiona-se, o Aspinall fica como interino; mesmo assim o combate com o Miocic segue, tem uma exibição paupérrima, embora enaltecida por muita gente porque lutou contra um gajo de 45 anos afastado há 3, e posteriormente fica a empatar a divisão durante 1 ano e meio, a tentar fugir do Aspinall este tempo todo… entretanto pede balúrdios para lutar com ele, a empresa dá o ok, e ele volta atras com a palavra, ou seja, era bluff… tendo em conta este término, nao concordo que seja o GOAT, tenho o GSP e o Khabib na frente (a forma como acabaram foi completamente diferente..)
Pipo90
O mais dominador foi o Khabib, que simplesmente não dava hipótese mal mandava a luta para o chão, acaba por ser desvalorizado por ser basicamente um “one trick poney” e as suas lutas terem pouco entretimento.
Quando a Jones, pena as polemicas fora do ringue, podia ter um palmarés ainda mais recheado, foi uma máquina.
Mantorras
Basta ver quantos rounds perdeu Khabib para entender quao dominador foi, e quao dificil sera alguem repetir este nivel de superioridade.
disturbed17
Khabib teve lá 8 anos, fez menos de metade dos combates do Jon Jones.
Khabib era o melhor no clinch, Jones era o melhor no geral, ganhava combates de qualquer maneira e feitio. Jones também venceu em 2 categorias de peso.
Se Khabib continuasse talvez pudesse vir a entrar na luta pelo “goat”, mas sendo assim a meu ver ainda tem GSP na frente dele.
Pipo90
Atenção que eu considero Khabib superior em relação ao “domíninio”, tendo em conta que o seu estilo nem dava hipóteses aos adversários de ripostar.
Jon Jones é de facto mais completo e tem uma carreira muito mais interessante, tal como referiste e é dos poucos que seria capaz de contrariar o estilo do Khabib, mas era um match-up impossível.
Citizen_Erased
O Khabib mesmo assim evoluiu bastante em pé no final, e as últimas lutas (Connor, DP e JG) nao foram aborrecidas – simplesmente chegou lá e sem ser a guilhotina do DP (Don’t be silly, jump that guilly!) Despachou os 3 com relativa facilidade
El Bandido
Tem muito que se lhe diga… Podia perfeitamente ter perdido com o Reyes, e foi apanhado múltiplas vezes com doping, especialmente durante a rivalidade com o DC… Já para não falar do medo que teve em enfrentar o Aspinall, tendo preferido enfrentar um Miocic acabado.
Então quem é o GOAT? Apesar disto tudo, acredito que o Jon Jones é um predestinado, e talvez o lutador mais talentoso de sempre, mas para mim o GOAT é o GSP, e talvez ainda ponha o Khabib à frente do Jones, visto que na minha opinião, não perdeu um único round na sua carreira na UFC.
TF
Perdeu um round só o Khabib só para corrigir e foi contra McGregor ( podes verificar nos cards que os juízes deram o segundo round penso eu a McGregor). Mas é sem dúvida o lutador mais dominante de sempre ainda por cima numa categoria que é o mais difícil… porém só fez 3 defesas de título e retirou-se cedo por isso não posso colocar à frente de GSP e Jon Jones mas não julgo quem meta já que o Homem não perdeu na carreira ( apesar das primeiras 10 lutas de Khabib foram contra adversários bem fracos com record de 50 % ou menos de vitórias).
antonioazevedo
A questão do Aspinall é apenas uma vírgula quando se analisa toda a carreira de Jones. Sobre o GOAT, entende-se que seja uma discussão com diversos pontos de vista. Mas que se analise o global: defesas de título, adversários, longevidade, feitos e cartel. Aqui nem estou a meter o tempo em que GSP, Khabib ou Jones foram n°1 P4P porque nesse aspecto teríamos que meter também Anderson Silva na discussão ou Demetrious Johnson (um dos mais underrated de sempre).
Estas discussões são sempre difíceis de ter, mas a verdade é que Jones dominou as duas divisões mais difíceis e foi double champ.