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José Mourinho, o santo e o pecador

A saída de José Mourinho do comando do Manchester United é uma notícia que parece ter sido anunciada há já largos meses. Contudo, só agora aconteceu. Como é óbvio, os problemas do clube não têm a ver apenas com as escolhas para o cargo treinador. Desde a saída de Ferguson que os técnicos não conseguem ter o mínimo de estabilidade, mesmo possuindo algum currículo e reputação. A transição para uma estrutura sem manager não tem contribuído para bons resultados da equipa. Porém, este texto não vai abordar essa temática, mas sim o próprio José Mourinho.

O português assumiu o controlo do clube inglês depois de ter passado por Benfica, U. Leiria, FC Porto, Chelsea (duas vezes), Inter de Milão e Real Madrid. O percurso foi em crescendo e ninguém consegue obter um percurso tão sólido se não tiver um mínimo de qualidade. Mourinho destacava-se como um excepcional líder de grupo e pela competência na relação com a imprensa. Criava guerrilhas nas conferências e durante as partidas apenas para retirar pressão sobre os seus jogadores, para que estes rendessem em campo. Encontrou balneários muito ambiciosos no início de carreira e foi isso, em parte, que o elevou ao patamar em que está hoje. Olhando para os primeiros clubes que orientou, ou são equipas recheadas internamente e que com ele obtêm vitórias na Europa (FC Porto e Inter), ou são históricos que precisam de recuperar a glória nacional (Chelsea). Ou seja, nunca são equipas de primeiro plano, daquelas que estão habituadas a vencer e que não têm a ambição natural daqueles que nada vencem. Por isso, o português “falhou” em clubes de topo como o Real Madrid ou o Manchester United, que precisavam de uma motivação diferente.

Por outro lado, o contexto também mudou. A sociedade evoluiu e, consequentemente, os jogadores também. Estes não já não estão apenas focados na sua profissão, há um mundo inteiro por descobrir. E Mourinho ainda não compreendeu o futebolista moderno. Passou de uma troca de galhardetes com a imprensa e agentes desportivos para ataques aos seus próprios atletas, que deixaram de dar a vida por ele em campo.

Já em termos de ideologia futebolística, Mou sempre primou pela organização defensiva, o que lhe dava uma base para desenvolver transições ofensivas letais. Criou sempre defesas sólidas, potenciando imensos jogadores para as posições mais recuadas. Definiu o seu perfil de meio campo com um médio defensivo, um de transporte e um criativo. E é precisamente nesta posição que reside uma das chaves para o declínio do setubalense. A posição de 10 puro está em vias de extinção e Mourinho ainda não se conseguiu adaptar a esta mudança. Jogadores como Deco, Sneijder ou Ozil já não funcionam da mesma forma no futebol de hoje. Cada vez mais é pedido que um médio domine imensas valências. O melhor exemplo disso é David Silva, que jogou a 10, já recuou no terreno para iniciar a construção e hoje, com Guardiola, aparece sistematicamente em zonas de finalização.

O mesmo se passa com os avançados. Atualmente, o avançado não pode ficar na área à espera para dar apenas o último toque, como faziam Drogba ou Milito. São chamados a participar mais na construção, mas a verdade é que este conceito foi abolido do dicionário do Manchester United de Mourinho. E sem criatividade não há Lukaku que lhes valha. O belga é um bom finalizador, mas se não houver quem invente oportunidades, estas não podem ser concretizadas. Mesmo os extremos já têm dificuldade em ter influência, pois jogam mais por dentro, a pé trocado, e os laterais não se sentem seguros o suficiente para quebrar a própria “organização” defensiva e assegurar largura ofensiva.

Mourinho tem de aproveitar este acontecimento para reciclar conhecimentos, adaptar o seu modelo de jogo a algumas novas tendências e conceitos e mudar a forma como comunica, quer com a imprensa, quer com o próprio plantel. Caso o ego não o impeça, deve voltar a um patamar de carreira mais baixo. Se o fizer, talvez consiga sentir de novo a dúvida, que é sempre o principal motor da aprendizagem.

Visão do Leitor: Rui M. Teixeira

VM
Author: VM

29 Comentários

  • RodolfoTrindade
    Posted Dezembro 20, 2018 at 9:58 am

    Excelente texto.

    O problema é andamos a “pedir” a Mourinho para se reinventar desde a sua última época no Chelsea e isso ainda não aconteceu nem me parece que venha a acontecer.

  • Kostadinov
    Posted Dezembro 19, 2018 at 5:24 pm

    Bom texto, mas há aí um par de aspectos com os quais pessoalmente não concordo:

    – Não qualificaria propriamente a passagem de Mourinho pelo Real como um ‘falhanço’. Em 3 anos, ganhou um campeonato contra uma das duas melhores equipas da história com o recorde de pontos em Espanha (100, também alcançado pelo Barça na época seguinte) e com o recorde máximo de golos que ainda hoje se mantém (121). Mesmo na primeira época ficou apenas a 4 pontos daquele épico Barça do Guardiola e até acabou a temporada com mais golos marcados. Para mim, mais nenhum treinador no mundo conseguiria fazer o que Mourinho conseguiu fazer, naquela altura e contra aquele Barcelona. Além disso chegou 3 vezes em 3 anos às meias da Champions: na primeira temporada foi a melhor equipa de todas na fase de grupos, arrasou Lyon e Tottenham e só caiu aos pés do Barça, eventuais campeões; na segunda voltou a ser a melhor equipa na fase de grupos (a única a conseguir 6V em 6J) e foi eliminado nas meias frente ao Bayern nos penaltis; o terceiro foi de facto o ano que correu pior, perdendo duplamente para o Dortmund, ou seja ficando em segundo nesse grupo e sendo eliminado pelos alemães outra vez nas meias, naquele que foi um dos jogos mais memoráveis na história do BVB;

    – Dizer que o Drogba é um avançado ‘último toque’ é extremamente redutor face ao tremendo jogador que ele era. Um dos avançados mais inteligentes e tecnicamente mais evoluídos (técnica não é só passar pelos adversários em drible) da história do Chelsea, e muitas vezes era ele o grande artífice dos movimentos ofensivos da equipa que em muito beneficiaram jogadores como o Lampard, o Robben, o Duff, o Gudjohnsen, o Cole, o Crespo, o Schevchenko, o Ballack, o Kalou, etc, isto no tempo do próprio Mourinho.

    De resto concordo de grosso modo com o texto.

    Fundamentalmente, do ponto de vista táctico o Mourinho do passado tinha uma capacidade única de anular o adversário pela forma absurdamente minuciosa como o dissecava e percebia as suas fraquezas. No seu auge era o melhor do mundo nesse capítulo (foi assim de resto que ganhou a Champions com o Inter). Do ponto de vista motivacional, era um líder que conseguia incutir uma mentalidade guerreira de ‘nós contra o mundo’ e que fazia os jogadores segui-lo cegamente. Além disso, as suas conferências de imprensa eram meticulosamente preparadas com tiradas incisivas e curtas que iam direitinhas à jugular e criavam um enorme ruído. Ora, ambos os aspectos (influência sob o grupo e ‘mind games’ nas conferências de imprensa) só são eficazes enquanto há vitórias. A partir do momento em que os resultados não aparecem, a aura de Special One vai perdendo mais e mais força. A aventura do Mourinho no topo do futebol seria sempre a prazo porque as suas grandes valências enquanto treinador também são a prazo, e o seu feitio enquanto pessoa muito mais imutável quando comparado com outros. Treinadores como o Pep por exemplo mostram uma constante sede e vontade de evoluir e adaptar os próprios processos, enquanto que o português nunca o quis fazer. Neste sentido, o próprio Mourinho acabou vítima do seu próprio sucesso, uma vez que a certa altura deixou de conseguir ter mão no ego e perceber (ou aceitar) os inúmeros aspectos que teria de alterar para permanecer no topo. Ao fim e ao cabo, o grande responsável pela sua queda foi o seu constante estado de negação perante si próprio.

    • Pésquerdo
      Posted Dezembro 20, 2018 at 6:02 pm

      A parte do texto original sobre o Drogba deixou-me perplexo. Assim como a expressão do dito cujo na minha foto…
      Mas de resto, concordo de uma forma geral e acho que está bem estruturado

    • Khal Drogo
      Posted Dezembro 19, 2018 at 5:40 pm

      Que saudades de Damien Duff, Joe Cole e Eidur Gudjohnsen! Adorava ver esse Chelsea a jogar. O Cech era dos melhores GR na altura, aquela dupla Carvalho-Terry praticamente intrasponível, e depois ainda havia Lampard, Robben, Makelele, Drogba…

      • Kostadinov
        Posted Dezembro 19, 2018 at 6:20 pm

        Sem dúvida, partilho totalmente desse saudosismo. Uma equipa com jogadores que, sem serem de primeira linha na sua esmagadora maioria, foram colectivamente e do ponto de vista da coesão dos melhores grupos que o futebol inglês já viu.

        • Khal Drogo
          Posted Dezembro 19, 2018 at 7:03 pm

          Sem dúvida, Kostadinov. Aproveito para acrescentar ao meu comentário inicial que concordo em absoluto com os dois pontos que (tão bem) explanou.

  • Antonio Clismo
    Posted Dezembro 19, 2018 at 5:03 pm

    Mourinho está no top5 de mehores treinadores de sempre no que conta a troféus ganhos (à sua frente tem apenas Ottmar Hitzfeld, Lobanovskiy, Lucescu e Ferguson) – Guardiola é mais novo e deverá facilmente ultrapassá-lo em títulos num par de anos.

    Qualquer um dos dois tem duas Champions no currículo (Mourinho tem a vantagem de ter duas Taças UEFA) e tem outro handicamp de ter saído sempre dos clubes quando ganhou alguma coisa a nível europeu, não tendo nenhuma supertaça europeia. Guardiola tem 3 destas.

    Das duas uma, ou volta para o Real e volta a ser comido de cebolada por esse clube ingrato. Ou assume um PSG que lhe será garante de títulos todos os anos e plantéis pelo menos para ser competitivo na Champions.

  • Lusitano
    Posted Dezembro 19, 2018 at 4:31 pm

    Excelente artigo. O Mourinho se quer continuar a ter sucesso, tem que se reinventar como treinador. O futebol está em constante evolução, e quem não consegue se adaptar, fica para trás. Para mim, o apogeu do Mourinho foi a vitória que obteve contra o Barcelona com o Inter, em Barcelona, e a subsequente vitórica na taça dos campeões. Desde aí até hoje, parece que o fogo que o animava tem gradualmente vindo a apagar-se.

  • Logen
    Posted Dezembro 19, 2018 at 4:03 pm

    Mou para mim tem dois caminhos nesta fase
    Ou assume o Real e tem plantel e dinheiro para continuar no topo ou assume uma equipa em crescimento e com margem.
    O Milan podia ser essa solução.
    Ser trabalhado para a médio prazo lutar por um dos 3 primeiros da liga italiana.
    Não é difícil fazer melhor do que tem sido feito nos últimos anos

  • TheHunter
    Posted Dezembro 19, 2018 at 3:06 pm

    Como fã de Mourinho gostei bastante e concordo com o texto. Ficou muito bom, parabéns.

  • José S.
    Posted Dezembro 19, 2018 at 2:11 pm

    Um bom texto que resume quase tudo. Não concordo também com o chelsea ter de recuperar a glória, porque nunca foi um histórico e foi o próprio Mourinho que incutiu uma filosofia mais ambiciosa (juntamente com rios de dinheiro..) e nisso tem todo o mérito.
    A minha opinião pessoal é a mesma quando se fala de Mourinho. Excelente treinador em termos mentais e liderança aliados a uma filosofia ambiciosa quando tem jogadores para isso e ambiente para isso.
    Infelizmente os tempos estão bem diferentes de à 10, 15 anos atrás.
    Aposta se mais em tiki taka, posse, colossos a fazer transições rápidas e o estilo de Mourinho foi se perdendo no tempo sem se reinventar de acordo com a modernidade.
    Mantenho o que digo, José Mourinho tem de se reinventar, ajustar ao futebol moderno e a tudo o que envolve pois agora é tudo mais aberto (Internet, redes sociais, etc…) e é impossível “proibir” seja o que for, é preciso e tem de ser na mentalidade/tactica/qualidade que tem de actuar mais.
    Mas concordo também com o user que diz que provavelmente mourinho tem de se encontrar com ele mesmo primeiro. Não sei é com a idade que tem se o fará em pleno, por isso treinar uma equipa mais de 2 linha com jogadores de qualidade mas que nunca ganharam seja de facto melhor provavelmente.
    Não sei até que ponto trabalho treinar uma seleção no momento seria o ideal… provavelmente não… Não ajustaria mourinho à actualidade e provavelmente ele não o quer…
    Milan seria uma opção mas não tou a ver devido ao inter.
    Por incrível que pareça Real Madrid é uma hipótese, mas voltariamos ao mesmo e não tou a ver Mourinho a aceitar.
    Roma, valência, até mesmo atlético se Simeone entretanto sair.
    Pessoalmente preferia vê lo no inter novamente.
    Cumprimentos

  • bojo
    Posted Dezembro 19, 2018 at 2:04 pm

    Bom artigo, mas dizer que Drogba ou Milito só encostavam à boca da baliza é uma ofensa ao futebol. Drogba foi dos melhores avançados de sempre a jogar em apoios e, não raras vezes, o Chelsea se valeu da sua capacidade para segurar jogo para lançar bolas longas e construir a partir da sua posição.

  • André Dias
    Posted Dezembro 19, 2018 at 11:49 am

    Gostei bastante do texto e concordo com quase tudo excepto “Ou seja, nunca são equipas de primeiro plano, daquelas que estão habituadas a vencer…”. O FCP já dominava internamente. O Chelsea, não sendo um grande, gastou uma quantidade de dinheiro absolutamente pornográfica para a época e tinha um excelente plantel. O Inter era tricampeão italiano. Seguiram-se Real Madrid, o maior clube do mundo, e o Manchester United o maior clube inglês e também um dos maiores do mundo.

    Mourinho fez uma excelente carreira e atingiu o topo mas não foi pela dificuldade dos desafios, foi por ter dado a esses clubes algo que lhes faltava. Com o FCP continuou a dominar internamente e conquistou dois títulos europeus, um feito incrível quando a última Champions tinha sido em 1987 e principalmente por ser ao comando de um clube português. No Chelsea conquistou o campeonato depois de um jejum de 50 anos e fez campanhas europeias muito respeitáveis. No Inter também continuou a conquistar títulos internamente e conquistou ainda a Champions, título que o clube não ganhava desde 1965. No Real conseguiu quebrar a hegemonia do Barcelona de Guardiola com um campeonato que bateu recorde de pontos e golos marcados. Os clubes já tinham cultura de campeão mas com Mourinho todos deram um passo em frente e atingiram outro patamar, embora no Real Madrid tenha faltado a Champions.

    Foi a partir da 2ª passagem pelo Chelsea que a carreira de Mou começou a ruir. O futebol passou a ser demasiado defensivo, deixou de haver uma filosofia de jogo, os choques com a imprensa sucederam-se, a relação com os jogadores nunca mais foi a mesma e em Manchester tudo isto atingiu proporções insuportáveis. Tinha esperança que fosse ele a reerguer o United mas o período 2014-2018 mostrou que Mourinho está ultrapassado ou pelo menos demasiado desgastado. Falta-lhe a inovação, garra, visão e ambição de outros tempos e em qualquer cargo que ocupe agora vai fazer mais mal do que bem. Espero que se afaste do futebol por uns bons tempos porque Mourinho não precisa de se reinventar, precisa de se encontrar novamente. Ou arrisca-se a ficar mais conhecido como coleccionador de indemnizações chorudas do que como grande treinador.

    • Explorador do Submundo
      Posted Dezembro 19, 2018 at 3:54 pm

      Como é que o Porto dominava internamente ? não era campeão há duas épocas(99/00 e 00/01) e na 3º época(01/02) do Jejum á 19º jornada(antes do Mourinho entrar) estava em 5º lugar e eliminado da Taça de Portugal. Muito longe de estar do domínio, mesma coisa que ao acabar esta época 2018/2019(com o Benfica não campeão) e dizer que o Benfica domina o futebol Português com o Rui Vitória por este ter sido campeão em 2016/2017.

      O Chelsea com o Mourinho gastou mais 15 milhões do que a época passada com Ranieri e as diferenças foram claras, O Chelsea de Mourinho fez 95 pontos, maior pontuação da história da Premier League durante 12 épocas (até o City do Guardiola esta época fazer 100) e um registo de 15 golos sofridos em 38 jornadas recorde que ainda se mantém, alem de claro ter quebrado o domínio do United e do Arsenal que eram dividiam a Premier há quase 9 épocas, isto logo na primeira época. Depois revalidou o título algo feito na história da Premier League apenas pelo Sir Alex Fergunson.

      O Inter dominava internamente é certo, mas o Mourinho não foi contratado para ganhar o campeonato foi contratado para chegar longe na Liga dos Campeões num clube que no século XXI tinha em 9 épocas tinha apenas uma meia final da Liga dos Campeões(em 2002/2003 com o Cúper) e era constantemente eliminado nos oitavos ou nos quartos de final, isto enquanto os seus maiores rivais Milan acumulavam finais e vitórias, não é á toa que o Mourinho é idolatrado ao máximo no Inter de Milão.

      No Real Madrid chegou a um clube que semelhante ao Inter, não chegava a uma meias finais desde essa mesma época 2002-2003, e que desde 2003-2004 não passava a primeira fase do mata-mata, mesmo no primeiro ano dos novos galáticos com Ronaldo,Kaká,Xabi Alonso,Benzema e afins foram eliminados pelo Lyon(que nem foi campeão em França…) e com confronto direto interno contra o melhor Barça e uma das melhores equipas da história e sacou-lhes a hipótese de fazer o triplete na primeira temporada e ganhou-lhes numa prova de regularidade a 38 jornadas o campeonato batendo recorde de pontos 100 e de golos marcados.

      Contexto importa.

      • André Dias
        Posted Dezembro 19, 2018 at 4:26 pm

        Na década anterior à chegada de Mourinho o FCP venceu 6 campeonatos, 4 Taças de Portugal e 6 Supertaças de Portugal. Para mim isto é dominar internamente, mais nenhuma equipa portuguesa se aproximou destes números. Além disso os campeonatos que referes que o FCP não ganhou foram excepções à regra, foi o 1º (e único) campeonato em toda a história do Boavista e o SCP não vencia uma liga desde 1982. Já o Benfica atravessava aquele que viria a ser o maior jejum de campeonatos da história do clube.

        Dizes que contexto importa e depois dizes que o Chelsea apenas gastou mais 15M que na época anterior com Ranieri. Nessa tal época com Ranieri foram gastos 169M de euros. Tens alguma noção do que era gastar uma quantia destas em 2003? E depois já com Mourinho, entre 2004 e 2007, foram gastos cerca de 350M. Fez um excelente trabalho no Chelsea mas não vamos ser hipócritas, ninguém gastava tanto dinheiro como eles nessa altura e conquistar títulos domésticos não era a coisa mais difícil do mundo.

        Em relação ao Inter e ao Real não vejo onde disse o contrário.

        • Explorador do Submundo
          Posted Dezembro 19, 2018 at 7:23 pm

          O que é que interessa o que o Porto ganhou nos anos 90 quando a equipa era basicamente outra ? Os únicos jogadores que fizeram parte dos títulos dos anos 90 foram o Vitor Baia e o Jorge Costa que foram dois jogadores totalmente recuperados pelo Mourinho. Os restantes foram escolhidos a dedo por ele – Nuno Valente e Derlei que estavam com ele no Leiria, Paulo Ferreira do Setúbal que tinha ligações fortes a Mourinho e Maniche foi treinado por ele no Benfica, Alenitchev era para ser dispensado depois de ter sido um flop, foi reinventado como 3º médio pelo Mourinho e o Ricardo Carvalho e Deco que já lá estavam atingiram outros níveis e patamares muito superiores.

          Sem o Mourinho estes planteis podiam do Porto podiam ter sido campeões ? podiam.

          Teriam chegado ao nível que chegaram que lhes permitiu ganhar troféus fora de Portugal e dominar o campeonato Português como foi dominado, Sem Mourinho ? Nunca.

          Conquistas títulos domésticos não era a coisa mais difícil do mundo ? Como disse 9 épocas consecutivas entre United e Arsenal, mas o que fica na memória não foi os títulos em si mas sim a maneira como foram conquistados, o Chelsea de Mourinho é uma das melhores equipas da história da Premier League.

          • André Dias
            Posted Dezembro 19, 2018 at 7:51 pm

            Portanto, o que o Porto ganhou ao longo da década anterior não interessa mas o que o que o United e o Arsenal venceram ao longo de 9 anos já conta.

            Depois achas que ganhar a PL era difícil e afirmas logo a seguir que o Chelsea de Mourinho era uma das melhores equipas da história da PL. Se é difícil ser campeão com uma das melhores equipas da história da PL então nem quero imaginar como será vencer com o Leicester. Não estou a negar que essa equipa era fantástica mas tu consegues contradizer-te no mesmo parágrafo.

            E nem percebo sequer por que razão a minha opinião te está a incomodar quando estamos de acordo em relação à qualidade de Mourinho, apenas não vou endeusar alguém que sempre teve boas condições para vencer.

            • Kacal
              Posted Dezembro 19, 2018 at 10:02 pm

              Boas condições ou não, os factos são que conquistou uma Champions num Porto que só a tinha conquistado 1 vez antes e há uns valentes anos, além de conquistar uma Taça UEFA pela 1ª vez. Reconquistou o título nacional que fugiu há uns 2 anos.

              Num Chelsea venceu o campeonato 2x consecutivas quando o Chelsea tinha 2 ou 3 campeonatos em TODA A SUA HISTÓRIA e já não vencia há décadas.

              E no Inter foi campeão europeu algo que o Inter não era há 50 anos.

              Com condições boas ou não, há muito mérito aqui.

              • André Dias
                Posted Dezembro 20, 2018 at 11:47 am

                Não me interpretes mal, Kacal. Concordo que haja muito mérito, a carreira de Mourinho é fantástica. Eu próprio indiquei alguns factos que tu referes. Só acho que não se pode atribuir este sucesso exclusivamente ao mérito de Mou já que os clubes onde trabalhou não eram propriamente underdogs e não podemos ignorar que não há um único treinador que tenha gasto tanto dinheiro ao longo da carreira como Mou.

                Fez um excelente trabalho ao serviço do Chelsea mas não acho tenha sido o seu trabalho mais difícil tendo em conta a facilidade que teve em contratar quem queria para construir um plantel totalmente do seu agrado. Na minha opinião os seus maiores feitos foram as conquistas da Liga Europa e Champions ao serviço do FCP e do Inter onde nunca ninguém os colocaria como potenciais vencedores.

                • Kacal
                  Posted Dezembro 20, 2018 at 8:28 pm

                  Sim, sim, eu percebi o teu lado, André. E também compreendo o teu ponto de vista. Mas considero o que fez no Chelsea um grande feito, obviamente não o coloco ao nível dos maiores feitos da história, nunca na vida. Não me refiro a isso, mas tu próprio disseste que Porto e Inter não eram equacionados como possíveis vencedores das respectivas competições nas respectivas alturas, é verdade, mas o Chelsea também não era um favorito, podia até ser um candidato, mas não era favorito. Tinha pelo menos Man United e Arsenal à sua frente. Repara que desde época 1999/2000 até ao Mou conquistar o título pelo Chelsea, os Blues só por 1 vez ficaram acima do 4º lugar e mesmo 4º lugar foi só 1 época, foi na época anterior a Mou chegar ao clube, ficaram em 2º atrás dos “Invencíveis” de Wenger. Depois o Chelsea tinha vencido 1 CAMPEONATO em 1954/1955 e o Mou venceu 2 em 2 anos consecutivo. Curioso os 50 anos, foram exactamente 50 anos depois do 1º e único título do Chelsea. Além desse título de 54/55, só tinham conseguido ficar no top3 umas 4x, 2 nessa era do título, 1 em 1998/1999 e 1 na época anterior a Mou chegar ao clube. Um clube assim não pode ser considerado muito mais que um candidato à Europa e sem qualquer cultura de vitória, não passava de um Tottenham, mas mais a cair para Everton. Everton que tinha e TEM mais títulos ingleses que o Chelsea. Tops3 também Leeds (1999/2000) e Newcastle (em 2002/2003) também conseguiram e não foi por isso que passaram a ser “grandes” de Inglaterra e nunca mais repetiram o feito, até desceram de divisão. O Chelsea podia ter sido apenas mais um desses casos, tudo bem que investiu bem mas há um Chelsea antes e depois de Mourinho e ele deu o impulso necessário para “rampa de lançamento” do clube para outros patamares, nisso teve muito mérito. Mesmo tendo investido muito, não faltam exemplos de treinadores que investem e ganham bola e não conseguem ser bem sucedidos. Só após o bicampeonato de Mou que ganhou mais campeonatos pelo Chelsea em 2 anos consecutivos que eles em TODA A SUA HISTÓRIA, repito. Nos 4 anos seguintes o Chelsea ficou duas vezes em 2º, uma em 3º e foi campeão mais uma vez. Ou seja, mesmo sem Mou fizeram tanto como tinham feito em toda a sua história antes de Mou portanto Mou mudou a mentalidade do Chelsea e tornou-os vencedores, venceu com eles e teve muito mérito nisso. Vencer com o Chelsea, apesar do investimento, foi um feito, podem ter havido melhores, mas foi um feito e um excelente trabalho. Só isso. O Mou actual não é o mesmo, mas a sua carreira foi formidável, quase a fazer lembrar jogador de FM.

  • Francisco Ramos
    Posted Dezembro 19, 2018 at 11:40 am

    Considero-me um fã de Mourinho, ou não tivesse sido a passagem dele pelo Porto como um dos momentos de maior glória que vive nos quase 30 anos que acompanho futebol. Graças a isso, sempre acompanhei a carreira do mesmo e festejei os seus sucessos. Com base nesse acompanhamento, percebi tal como é referido no texto (e já tinha comentado noutro post) que a vantagem de Mourinho é ser um líder de personalidades que se querem afirmar através de títulos e por isso os seus sucessos foram em clubes em que os jogadores nada tinham ganho (Porto, primeira passagem do Chelsea e Inter). Sempre que teve com lidar com jogadores recheados de títulos, perdeu sempre o balneário e os títulos ganhos já não acompanhavam a grandeza do clube. Por isso, tal como comentei com o Kacal, penso que o passo ideal seria descer um degrau para clubes como Roma, Valência, Milan (grande adormecido) ou Leverkusen, em que pode potenciar estes clubes a ganhar, numa de win-win situação. Não sei é se ele quer isso para a sua carreira. Mas esta escolha devia ser feita apenas no fim da época para este repensar e se adaptar ao futebol dos dias de hoje, independentemente do estilo que escolher praticar (Zidane ganhou em transições rápidas, Guardiola em posse).
    P.S. Penso que também exista algo mais profundo nestas convicções que até Rui Faria o abandonou, e era o seu braço direito. Por isso, aguardo a sua escolha e quem o vai acompanhar.

  • d-s3pt
    Posted Dezembro 19, 2018 at 10:55 am

    Excelente artigo, concordo com tudo o que foi dito e não podia ter dito melhor, parabéns Rui.
    Foi uma excelente análise á abordagem táctica de Mourinho, jogadores formatados para o futebol actual que nunca conseguiram assimilar as ideias antiquadas de Mourinho, e perante isto, fica a eterna questão, é mais fácil um treinador moldar as suas ideias mediante os jogadores que tem ao seu dispor ou o contrário ?! O ideal seria o meio termo, mas quando o ego se sobrepõe a tudo o resto, a taxa de sucesso não pode ser muita.
    Mourinho precisa de se reinventar e nada como uma paragem para reflectir e absorver novas ideias. Espero que assuma um projecto de 2ª linha, levar um clube adormecido á glória e prove que ainda é “special”.

  • SenyorPuyol
    Posted Dezembro 19, 2018 at 10:49 am

    Mourinho acabou a carreira nos clubes de topo. Por uma perspectiva pessoal, eu diria “finalmente”, mas pelo respeito que tenho por Mourinho enquanto profissional (não pelo treinador, nem pela personagem) digo “infelizmente”, porque tanto quero os melhores, como os mais competentes no topo, e Mourinho, apesar de detestar o seu estilo, era para mim uma dos principais rostos do segundo grupo.

    O seu texto está excelente caro Rui M. Teixeira, e mesmo por raciocínios diferentes, tiro a mesma conclusão sobre o insucesso de Mourinho, falta de adaptação aos tempos. Mourinho tem um ego demasiado grande e o acreditar que o paradigma do futebol gira em torno dele fê-lo perder o comboio da evolução do mesmo.
    É que ele já foi dos melhores, certo. Mas nunca foi um génio, na minha opinião, o seu sucesso até durou mais do que eu esperava, nisso dou-lhe todo o mérito. Saber jogar com um único sistema e com um único protótipo de jogador para cada posição e mesmo assim ter sucesso (maior ou menor) em 4 campeonatos diferentes exige competência, e tem de ser reconhecida.
    Com tudo isto, penso que está na altura de dar um passo ao lado, descansar e preparar o regresso, mas se fosse eu a aconselhar, para assumir equipas de segunda linha europeia. Pois penso que na primeira linha, e aqui repito o “infelizmente”, só piorará ainda mais.

    • Kacal
      Posted Dezembro 19, 2018 at 12:34 pm

      O Mourinho tinha coisas de génio a nível mental/psicológico, na forma como motivava os seus jogadores e era capaz de extrair o melhor deles através do psicológico, “comerem a relva” por ele. E depois com as decisões que tomava e certas histórias que teve em certos momentos, seja numa substituição, numa alteração dos marcadores de bola parada, no balneário, teve toques de génio nesse aspecto. Mas realmente em termos técnico-tácticas nunca o foi, sendo muito competente.

      • SenyorPuyol
        Posted Dezembro 19, 2018 at 2:51 pm

        Mourinho era, e penso que continua a ser, excelente nesse aspecto. Para mim, um dos melhores que vi nessa vertente em equipas de topo, isto, na minha genuína opinião, é inegável e indiscutível.

        Agora (também na minha opinião), a classificação de “génio”, mesmo em relação a essa componente, já é discutível. Digo isto porque não penso que Mourinho tenha inventado nada de novo, os “génios” para mim têm de trazer algo novo e Mourinho não o fez, “apenas” aplicou metodologias já existentes de forma impecável.
        Por um questão de conceito, pela vertente psicológica, classifico Mourinho como “genial”, não como “génio”.

        • Kacal
          Posted Dezembro 19, 2018 at 9:59 pm

          Sem duvida, SenyorPuyol. Concordo totalmente, também foi um dos melhores que vi nessa vertente em equipas de topo. E acho que ainda continua a ser excelente nessa vertente, mas terá que ir para um clube que tenha uma filosofia que encaixe melhor com o seu estilo e já agora um plantel que a absorva bem.

          Sim, se formos a ver por invenção realmente não inventou assim nada de novo, mesmo nessa vertente.

          Assim de cabeça lembro-me de 2 exemplos. Um no Chelsea em que supostamente foi meter-se no chuveiro com Drogba e disse-lhe “és o melhor avançado do Mundo”, quando ele não o era na altura, mas isso deu-lhe um “boost” e todos sabemos onde chegou Drogba após isso e o nível que atingiu. E depois no Inter onde num momento de bola parada, um livre, ele ia tirar o Pandev mas pediu para a substituição ser atrasada para deixa-lo bater o livre e assim foi e ele marcou golo. O meu génio era no sentido de ter toques de magia assim, mas talvez seja mais apropriado chamar-lhe genial, admito que sim. Aceito.

    • Sagan_RoubaixKing
      Posted Dezembro 19, 2018 at 11:05 am

      Seria interessante ver Mourinho em clubes como o Chelsea da sua primeira passagem, elementos com fundos mas sem grande sucesso nacional nos tempos recentes… aí acredito que Mourinho seria capaz de impor grande parte das suas filosofias e contratar/trabalhar jogadores dispostos a lutar com ele para chegar ao sucesso!

      • SenyorPuyol
        Posted Dezembro 19, 2018 at 2:37 pm

        Interessante seria, sem dúvida!
        Mas que equipa se encaixaria nesse perfil fora de Inglaterra? Digo fora de Inglaterra porque penso que aí, por agora, está queimado.
        O Mónaco já não investe tanto, o Valência tem sido muito pouco estável e não sei até que ponto tem ainda espaço para investimento.
        Vejo apenas Inter e Milan, acredito que Mourinho esperará pelo Inter, estou convencido que será essa a sua próxima paragem, agora, se terá sucesso ou não, isso já é outro debate.

  • Sagan_RoubaixKing
    Posted Dezembro 19, 2018 at 10:45 am

    O texto tem uma visão interessante da carreira e das principais valências de Mourinho enquanto treinador, apesar de não concordar no ponto onde refere o Chelsea como um histórico que precisa de recuperar a glória nacional porque me parece que quando Mourinho passou pelo clube na 1vez, este ainda não apresentava o estatuto que o treinador português lhe conferiu antes de sair para o Inter de Milão. Tirando este ponto, queria realçar a estrutura do meio campo utilizado pelo técnico português, que como é bem referido assenta na utilização de um 6 declarado, um 8 de transporte e de muito trabalho e rigor (que no united seria pogba caso o francês, por sua culpa ou do treinador, conseguisse “perder” algum egocentrismo e procurasse ajudar mais o colectivo, e um 10 mágico, capaz de resolver um jogo com um passe/remate/livre (a imagem típica de Deco ou Sneijder, mesmo Ozil chegou a ter esta capacidade)! Por fim, e há um aspeto a relatar não só do avançado centro, que no futebol atual não pode ser tão preso há luta com os centrais adversários, já que tem de procurar ele mesmo as suas ocasiões através de movimentação e de imaginação (algo que me parece faltar a Lukaku, que é um bom avançado mas que nesta equipa ficava muito isolado e tinha como principal função o segurar a bola no corpo a corpo), mas também o papel dos extremos no estilo de jogo de Mourinho! Normalmente, o setubalense procura que os extremos equilibrem defensivamente e que sejam explosivos a partir no contra golpe e, acima de tudo, pragmáticos na resolução do mesmo, e isto parece ser um aspeto onde os extremos deste plantel apresentam alguma limitação (mais no caso dos jovens martial e rashford) seja devido ao momento ou ao plano de jogo, que também não me parece muito bem definido porque muitas das vezes o objetivo trata-se de cruzar e rezar que Lukaku ou Fellaini façam golo. Posto isto, gostei bastante do texto e acho uma visão muito válida da carreira, dos pontos fortes de Mourinho e duma razão para que o seu trabalho no united tenha sido considerado mais um fracasso do que um sucesso (claramente que a motivação neste clube, tal como em Madrid tinha de ser diferente e nisso Mourinho não foi capaz de conferir, e quando o nosso ponto mais forte falha, existe maior risco do nosso trabalho também falhar com mais facilidade)!

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