Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

“O pior sítio da terra”: K2, a última fronteira

“O K2 é uma montanha selvagem que tenta matar-te”
George Bell, alpinista norte-americano

Na fronteira entre a China e o Paquistão ergue-se um colosso. Uma parede que tem levado o ser humano ao sonho e à morte. Um apelo à ambição e à coragem que pode conduzir ao delírio. Um traiçoeiro caminho de 8611 metros que, podendo levar à eternidade, recorda-nos que a vida não é eterna. Por cada quatro pessoas que chegaram ao seu cume, uma morreu tentando. É o segundo ponto mais alto do planeta, a única montanha com mais de 8 mil metros que nunca foi escalada no inverno. É o K2, a última fronteira da aventura.

A primeira vez que um “8 mil” foi escalado no inverno foi em 1980, quando, a 17 de fevereiro, os polacos Krzysztof Wielicki e Leszek Cichy atingiram o cume do Evereste. A partir daí todos os colossos do planeta foram sendo escalados durante a altura mais agressiva do calendário. Todos menos um. O K2 vai resistindo, tendo-se assistido, durante o inverno que acaba de terminar, a novos episódios de tentativas frustradas de entrar para a história.

Localização do K2

A primeira expedição que tentou atingir o cume do K2 no inverno realizou-se em 1987-88 e foi liderada pelo polaco (nação que deu vários dos melhores alpinistas de sempre) Andrzej Zawada. Iniciou-se aí um historial de tentativas que culminou nas realizadas na estação que agora termina por uma equipa formada por russos e cazaques e outra por espanhóis, polacos e nepaleses. Todas fracassaram, não tendo nenhuma ficado sequer relativamente perto do cume (a que chegou mais alto foi a de Marcin Kaczkan, Piotr Morawski – polacos – e Denis Urubko – cazaque – em 2003, com 7650 metros) e deixando para trás um rasto de deserções, doenças e algumas mortes. Mas…O que leva a que, numa época de tanta riqueza tecnológica e possibilidades de preparação minuciosa de expedições, o K2 continue a ser impossível de escalar no inverno?

“Fazer o K2 no inverno é uma das atividades mais duras que se podem fazer na terra”
Sebastián Álvaro, aventureiro e escritor espanhol

Se alguém quisesse criar um local que dificultasse ao máximo a escalada, esse local seria, certamente, muito parecido ao que é o K2 no inverno. Esta montanha é um mortal cocktail de adversidades. Conhecido por “montanha selvagem” e caracterizada no mundo do alpinismo como sendo de “humor muito variável”, tudo no K2 invernal dificulta a ascensão. “Só chegar ao campo base é um desafio enorme”, diz Alex Txikon, reputadíssimo alpinista espanhol que acaba de liderar mais uma frustrada tentativa de chegar ao cume no inverno. Txikon refere-se aos 96 quilómetros de caminhada através de montanha áspera e coberta de neve que é necessário percorrer para atingir o campo base, normalmente situado nos 5000 metros. Assim, desde o início a expedição enfrenta um desgaste muito relevante.

A inclinação do K2, aqui sendo escalado por Adam Bielecki

Mas essa nem é a maior dificuldade. A inclinação de toda a ascensão é um obstáculo bem maior. Ao contrário do Evereste, o K2 quase não tem setores planos, não sendo possível ‘andar’ até ao topo. Todas as suas vertentes são muito íngremes e representam um desafio de escalada como poucos, no qual qualquer erro é fatal. Os últimos 600 metros (recordemos que o máximo a que se chegou no inverno foram a 7650 metros, ou seja, a quase 1000 metros do cume) são especialmente complicados, formando uma verdadeira parede de gelo. É aí que se localiza o ‘gargalo’ ou ‘bottleneck, um sector de subida especialmente perigoso e onde ocorrem a maior parte dos desastres nas ascensões que se realizam noutras épocas que não no inverno (dado que nunca nenhum ser humano esteve lá no inverno). Por exemplo, em 2008 11 pessoas morreram num desastre no ‘gargalo’. Agora imagine-se tentar subi-lo no inverno.

E, se falamos em K2 no inverno, temos de falar de um inimigo mortal. As condições atmosféricas a que um alpinista se tem de enfrentar para atingir o cume do K2 invernal são um enviado especial da morte. “É o inferno”, diz Cory Richards, fotógrafo da “National Geographic”. Desde logo, os -65ºC que se podem fazer sentir levam a que o mais pequeno dos erros tenha consequências catastróficas: uma luva caída pode levar ao congelamento de uma mão em minutos; tocar com pele nua num bloco de gelo pode arrancar uma camada de pele. O inverno é também uma altura de pressão barométrica baixa, o que leva a que haja menores quantidades de oxigénio disponível.

Ainda assim, se tivéssemos de eleger o melhor amigo da morte que existe no K2 invernal, esse seria o vento, o qual é, provavelmente, a maior diferença entre efectuar a escalada na altura mais agressiva do calendário ou no verão. As rajadas no inverno podem ter força de furacões e atirar os alpinistas montanha abaixo num instante. O vento é também responsável por outra dificuldade, dado que a sua força afasta a neve e deixa rocha nua e gelo frágil a cubrir a montanha, tornando a ascensão muito técnica e mais lenta , expondo assim os alpinistas ao brutal frio (e ao desgaste psicológico de estar ‘no meio do nada’) mais tempo. Tudo no K2 parece conjugar-se para transformar este local no inferno terrestre.

Um campo base no K2

O que falta para conseguir atingir o cume do K2 no inverno? Desde logo, é consensual que é necessário uma equipa muito boa, que seja vasta e composta pelos melhores profissionais, apoiada por tecnologia de ultimíssima geração. Ainda assim, a expedição polaca de 2017-18 parecia reunir estas condições e nem perto do topo chegou. Sebastián Álvaro, aventureiro e escritor espanhol e um dos grandes especialista mundiais em preparação de expedições, considera, em declarações à rádio “Onda Cero”, que a chave pode estar na data de chegada. “Dever-se-ia realizar uma expedição que partisse para o Nepal no começo de dezembro para estar no campo base por volta do dia 20 de dezembro. Isto significaria estar um mês mais no K2 – as equipas, nos últimos invernos, têm chegado lá a meados de janeiro – sofrendo com as condições atmosféricas, mas também permitiria, por um lado, uma melhor aclimatação e, por outro, mais tempo para tentar a ascensão sem precipitações”, diz o autor de mais de uma dezena de livros relacionados com o mundo da aventura.

Alex Txikon, que já protagonizou duas tentativas falhadas de ascensão e fez parte da primeira equipa a subir o Nanga Parbat no inverno, também dá a sua opinião, na “National Geographic”, sobre as chaves do êxito no K2 invernal. “É preciso ser inteligente, rápido, suficientemente forte, ter respeito pela montanha, pelas áreas selvagens, pelas gentes locais. Tens de ter empatia e uma equipa verdadeiramente boa. Nunca esquecendo a importância de ser paciente e recordando sempre que o verdadeiro sucesso é voltar para casa com vida”, opina o basco.

O alpinismo, e o mundo da aventura em geral, sempre foi alimentado pelo sonho. O sonho de desbravar caminhos, de ser o primeiro a chegar onde nunca ninguém havia conseguido. A ambição humano sempre foi o combustível das conquistas que se foram fazendo. Num tempo em que quase todo o planeta está ‘descoberto’, em que quase todos os desafios da aventura foram alcançados, ascender ao K2 no inverno é um dos últimos marcos que resiste ao ser humano. Um bastião impenetrável onde a morte periodicamente vai recebendo visitas. É provável que, nas próximas estações, várias expedições tentem tornar-se nas primeiras em conseguir esta façanha, posto que o passar do tempo e a evolução tecnológica vão aguçando o apetite  para entrar na história. Esta proeza pode estar mais ou menos distante, mas uma coisa é certa: em 2019, o K2 invernal, a montanha selvagem com humor variável onde a morte sempre espreita, é a última fronteira a desbravar.

“O K2 é o pior sítio da terra”
Adam Bielecki, alpinista polaco

Pedro Barata

O K2
VM
Author: VM

24 Comentários

  • Rui Miguel Ribeiro
    Posted Março 25, 2019 at 5:10 pm

    Texto muito bom que li com interesse. Só me pergunto, se o recurso a altíssima tecnologia não diminuirá o nível do desafio e, consequentemente, o respectivo mérito?

  • RodolfoTrindade
    Posted Março 25, 2019 at 2:39 pm

    Leitura muito interessante. Obrigado!

  • Teixas
    Posted Março 24, 2019 at 8:58 pm

    Excelente leitura de Domingo!

    Eu nem gosto muito de alpinismo mas adorei o texto.

    Parabéns!

  • Rui Baptista
    Posted Março 24, 2019 at 6:40 pm

    Obrigado Pedro pelo texto. Frequento o “blog” há já alguns anos e nunca comentei mas este texto impeliu-me a fazê-lo.
    Aprecio imenso alpinismo principalmente por influência do nosso João Garcia.

    Desde logo (isto para os mais leigos) há uma diferença gigante no alpinismo de grande altitude (himalaismo). O uso ou não de oxigénio. O João Garcia faz sem oxigénio auxiliar o que torna a ascencao brutal. Acima dos 8000mts é a chamada “zona de morte”. Ou seja nestas altitudes o corpo está constantemente em degradação. Mesmo em repouso vais ficar mais cansado e desgastado do que estavas antes de “descansar”. Estamos a falar de cerca de um terço do oxigénio que há ao nível do mar. Recordo num dos livros do João ele tentar fazer uma descrição do ritmo de subida e tive de ler umas dez vezes e tentar simular (deitado na cama lol) e ser muito difícil sequer imaginar. Era do género um passo, respirar umas quantas vezes, outro passo, respirar umas quantas vezes. Ao fim de uma dezena de metros parar (sentar) para “descansar”. Algo absurdo. E não esquecer que falamos de um tipo que foi chamado por alguns dos seus pares como monstro de altitude.
    Isto tudo para pôr em perspectiva que falamos (neste texto do Pedro) de ascensoes com e sem oxigénio e que mesmo assim sem sucesso.

  • Ruddy
    Posted Março 24, 2019 at 5:03 pm

    Outro facto interessante sobre o alpinismo dos grandes picos é que aparentemente esta é uma modalidade inclusiva…por exemplo o everest já foi subido por pessoas amputadas, cegas, etc. Incrível!

  • Ruddy
    Posted Março 24, 2019 at 4:58 pm

    Excelente artigo.
    Embora nunca tenha feito alpinismo nem tenha interesse em fazer, gosto de seguir estas subidas.
    A respeito desta actividade, já li vários livros de pessoas (uns alpinistas profissionais outros nem tanto) que descrevem as infernais subidas (e descidas) desses monstros. Destaco:
    Graham Bowley – morte e vida no k2 (que relata a tragédia de 2008 referida no texto);
    John Krakauer – Natureza Selvagem (relata os incidentes da subida ao Evereste em 1996 e a um filme chamado Everest).

    Em ambos os casos foram subidas em Abril/Maio, nas condições “óptimas”, onde se percebem tantos os problemas associados às subidas desses monstros (doença da altitude, desidratação, hipotermia, etc), mas também os problemas (ambientes, segurança, etc) associados ao negócio dessas subidas.

    Por fim, um outro livro interessante, que se passa numa grande montanha mas que não é sobre alpinismo mas sim sobre sobrevivência é o livro Milagre nos Andes de Fernado Barrado, que retrata a história de um desastre aéreo nos Andes.

    Outros picos de 8000 metros encerram grandes histórias, mas todos dizem que o k2 é especial… não esquecer do nosso João Garcia.
    Continuação de um bom trabalho!

  • RMSO
    Posted Março 24, 2019 at 3:12 pm

    Muito bom, parabéns ??
    Tirando o João Garcia, nunca acompanhei muito este tipo de desporto/aventura ?
    Na semana passada vi o “Free Solo” na National Geographic, e fiquei totalmente rendido às façanhas destes aventureiros…

  • Daervar
    Posted Março 24, 2019 at 2:49 pm

    Excelente texto. Parabéns.

  • ACT7
    Posted Março 24, 2019 at 2:48 pm

    Sem dúvida um artigo bastante interessante e diferente, obrigado ao Pedro Barata e ao VM por partilharem outros desportos.

  • André Dias
    Posted Março 24, 2019 at 2:31 pm

    O único contacto que tive com o alpinismo foi através das notícias acerca das façanhas de João Garcia ao longo dos anos e do filme Everest do realizador Baltasar Kormákur. Logo, o meu conhecimento sobre alpinismo é muito reduzido. No entanto este texto foi uma excelente leitura, achei bastante interessante e realmente o K2 impõe respeito só pela descrição, nem consigo imaginar como será tentar chegar ao cume. Pegar numa modalidade tão pouco falada foi uma óptima iniciativa.

  • Tiago Silva
    Posted Março 24, 2019 at 2:01 pm

    Não sou fã de alpinismo, nem percebo nada do assunto, mas este texto é interessantíssimo! Parabéns Pedro Barata e espero que continue a ser publicado aqui no VM textos sobre outras áreas do desporto.

  • Joao X
    Posted Março 24, 2019 at 1:48 pm

    Obrigado Pedro Barata por um tema diferente. É muito bom haver esta diversidade no blog.
    Não sou grande conhecedor de alpinismo mas acho sempre interessante ver documentários sobre este “desporto”.
    Aconselho-vos a ver o documentário Free Solo.

    • André Dias
      Posted Março 24, 2019 at 2:34 pm

      Free Solo ganhou este ano o Oscar de melhor documentário e por acaso já o tinha na minha watchlist, este post veio dar um empurrão extra para finalmente o ver.

  • Khal Drogo
    Posted Março 24, 2019 at 1:40 pm

    Uma dúvida para quem percebe do assunto (se calhar até está referido no texto, mas não dei conta): o K2 já foi escalado sem ser no Inverno?

    • Pedro Barata
      Posted Março 24, 2019 at 1:44 pm

      Sim, já foi. A primeira vez que tal foi realizado foi a 31 de julho de 1954, pelos italianos Achille Compagnoni e Lino Lacedelli. O português João Garcia escalou o K2 em 2007.

      • Khal Drogo
        Posted Março 24, 2019 at 1:47 pm

        Muito obrigado! A minha cultura relativa ao alpinismo roça o zero eheh

        • Rui Baptista
          Posted Março 24, 2019 at 6:46 pm

          Já agora só para complementar existe um desafio em alpinismo que são os 14 8000. Significa escalar as 14 montanhas com mais de 8 000 mts de altitude (são todas nos Himalaias) desafio esse tb já completado pelo João Garcia e sempre sem oxigénio auxiliar.

          • Khal Drogo
            Posted Março 24, 2019 at 7:20 pm

            Extraordinário. É preciso coragem, resiliência e preparação física a níveis difíceis de sequer conceber.

  • j. chamberlin
    Posted Março 24, 2019 at 1:39 pm

    Não sou fã de alpinismo, mas este artigo ficou muito bom mesmo, parabéns Pedro.
    Já tinha ouvido falar desta montanha, e por mais que respeite e admire quem a tenta subir, a motivação que leva alguém a fazê-lo ultrapassa-me. Mas enfim, cada um com as suas loucuras…

    • Kacal
      Posted Março 24, 2019 at 1:53 pm

      Não acompanho Alpinismo, nem percebo nada e nem sou fã, mas a motivação deles deverá ser pelo desafio, pela competição, pelo conseguir superar-se e pela adrenalina e aventura. Acredito que sim!

      • Rui Baptista
        Posted Março 24, 2019 at 6:43 pm

        Kacal cada um terá as suas motivações mas em termos “puristas” não há (normalmente) muita competição, excepto contigo… O objectivo é superares-te mas do que superar alguém. Devido às diferentes condicionantes de cada subida (oxigénio auxiliar, sherpas de altitude, usares cordas fixas de outra expedição ou teres de o fazer tu) cada um desafia-se a superar-se.

        • Kacal
          Posted Março 24, 2019 at 8:25 pm

          Talvez não tenha ficado bem explicito no meu comentário, mas quando falei em competição referia-me precisamente a competição com nós próprios, superação pessoal. Daí subscrevo!

  • Princesa
    Posted Março 24, 2019 at 1:34 pm

    Brrilhante o texto

Deixa um comentário