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La Masia

Uma boa academia, nem sempre significa uma equipa principal repleta de jogadores “home made”. Um bom exemplo disso é o FC Barcelona. Em primeiro lugar, há que recordar que para uma academia como La Masia resultar, requer vastos anos de trabalho na mesma. É um produto de anos e anos de trabalho realizado por diferentes intervenientes que acreditam numa ideia e sistema.

Contudo, a La Masia está longe de ser aquilo que nos habituou. Retrocedendo alguns anos, recordamo-nos do malogrado Tito Vilanova quando derrotou o Levante em 2012 por quatro bolas a zero, jogando 60 min do jogo com onze jogadores que passaram pela academia do Barça. Foi a primeira vez que o clube conseguiu tal feito. Recuando um pouco mais, o que dizer de 2010? Os três melhores jogadores do mundo segundo a votação para a bola de ouro, passaram todos por La Masia: Messi, Xavi e Iniesta. Todos cresceram seguindo os ideais propagados pelo Barcelona. Seria de esperar que a equipa conseguisse dar seguimento a este fantástico momento certo? Pois segundo o panorama geral dos dias de hoje, observamos que isso não foi possível.

Onde erraram? Segundo Pep Segura, um dos antigos responsáveis pelo departamento de jovens do clube, o clube é incapaz de se livrar de jogadores. A possibilidade de emprestar jogadores não é utilizada como deveria ser. Numa equipa “B” por exemplo, de ano para ano, é esperado que uma pequena percentagem dos jogadores passe para a equipa principal. Uma boa parte de jogadores promissores mas sem qualidade imediata para alinhar na equipa “A” deveriam ser emprestados. O que fazer com os que ficam? Alguns permanecerão na equipa enquanto outros, infelizmente devem ser o seu caminho. Decisões difíceis têm que ser tomadas. Nem todos os jogadores que demonstraram potencial nos iniciados, juvenis ou juniores terão espaço como sénior. As equipas jovens do Barcelona têm entre 22 a 26 jogadores nos seus planteis. Tendo em conta que só jogam 11+3 por jogo, é fácil verificar que grande parte dos jogadores acaba a época sem minutos suficientes nas pernas. Olhando para a época 2018/19 por exemplo, a equipa “B” do Barcelona teve 24 jogadores, a sub19 teve 22 enquanto a sub18 teve 26. São demasiados atletas para tão pouco espaço, um claro contraste com o Ajax que costuma ter nos seus escalões mais jovens apenas 18 jogadores.

A famosa geração tik-taka emergiu durante um período onde os resultados não eram os melhores e como tal, as expectativas sobre os jovens jogadores que subiam à equipa principal eram baixas. Havia pouca pressão e mais oportunidades. Segundo Ivan Rakitic, atual jogador dos blaugrana, “o Barcelona atingiu um nível tão elevado, que não há espaço para testar e ver o que acontece. Os jogadores têm que ser mesmo talentosos (…) se a equipa principal fosse pior, tudo seria mais fácil”.

A pressão por resultados desempenha um papel gigante no futebol de hoje. Johan Cruyff, lenda do Barcelona, enquanto treinador do mesmo, costumava perguntar sempre aos treinadores das equipas jovens, como os seus jogadores se portaram e não qual tinha sido o resultado. Mas o mantra do Barcelona deixou de ser “temos que desenvolver os jogadores” para “temos que ganhar”. Vejamos por exemplo a equipa “B” do Barcelona. Em 2007, Pep Guardiola e Tito Vilanova tomaram conta de uma equipa historicamente má que havia sido relegada para a quarta divisão. A equipa secundária do Barça teria que subir pelo menos duas divisões de modo a ajudar os jovens a desenvolverem jogando com outros jogadores de nível superior. Para isso, Pep e Tito adotaram um método de sucesso a curto prazo. Contrataram alguns jogadores mais velhos para servir de base da equipa e integraram alguns jovens. Esta metodologia acabaria por permanecer de certo modo. O próprio mercado de transferências da equipa principal mostra um claro medo na aposta em jovens e consequentemente, na compra de jogadores feitos. Porque vender Grimaldo em Janeiro de 2015 para comprar Digne no verão seguinte? Porque comprar médios como André Gomes ou Paulinho quando tinham jovens como Carles Aleña e Sergio Roberto à espera de uma oportunidade.

Em 2010, Pep Guardiola disse “a maior vitória é dar uma estreia a um jovem da La Masia”. Muitas vezes controverso, o certo é que nos quatros anos que teve como treinador da equipa principal do Barça, Pep deu a oportunidade a um total de 27 jovens made in la masia de se estrearem. Os números do catalão ganham ainda mais expressão quando comparados com os treinadores que o sucederam. Lembram-se da vitória frente ao Levante em 2012 onde Tito Vilanova utilizou durante 60 min, 11 jogadores formados na cantera blaugrana? Pois bem, grande parte haviam sido lançados por Pep, pelo que podemos dizer que de certo modo, Tito apenas colheu os frutos que o seu antecessor havia plantado. De resto, Vilanova viria a dar a oportunidade à estreia de apenas um jovem ao longo de toda a época. Tata Martino veio depois, tendo dado a oportunidade a três jovens ao passo que Luis Enrique deu a nove. Por fim, Ernesto Valverde conseguiu concretizar a estreia de doze jogadores. Contudo, a imagem que temos é que principalmente os dois últimos treinadores mencionados, Luís Enrique e Valverde estavam demasiado focados no sucesso imediato. O Barcelona passou do 8 ao 80 quando em 2018 alinhou num jogo sem qualquer jogador formado na sua academia, algo que já não acontecia há mais de 16 anos.

Segundo Iniesta, “sempre haverão bons jogadores porque temos a melhor academia. O problema é dar-lhes esperança e confiança”. Quando um jovem de valor olha para a equipa principal e se vê constantemente tapado por jogadores que vêm de fora, a sua confiança será abalada. Essa confiança sofre ainda mais aquando das renovações de contracto. Aqui entram outros vilões nesta história: os agentes. Sempre que um agente consegue um novo contrato para o seu jogador, recebe uma comissão. Quanto melhor for o contrato, melhor será a comissão. Isto aliado aos rios de dinheiro que os clubes têm gasto na construção das suas academias inicia um efeito de “pulling” entre clubes / agentes. Vejamos o investimento do Real Madrid na sua nova academia, “La Fabrica” que movimentou até ao momento mais de €100m. Ou os mais de €220m investidos pelo Manchester City em 2014 na sua academia. Investimentos avultados como o do Real ou City, abriram as portas a várias transferências milionárias de alguns jovens como Vinícius Jr. ou Rodrygo. Por outro lado, o Barcelona tenta manter-se à parte desta nova metodologia, o que acaba por fazer com que vários jogadores abandonem o clube em prol de outros com melhores projetos ou que simplesmente paguem mais. Citando novamente Pep Segura, “nós sempre tentamos ajudar os nossos jovens. Mas jamais pagaremos o que alguns agentes exigem. Isto envolve quantias absurdas de €1m ou €2m de modo a garantir que um jogador que já nos pertence permaneça connosco. Se um jovem jogador, vê o seu clube negar-lhe um contrato, isto é uma mensagem do clube que muitas vezes é interpretada pelo jogador como “este clube acha que não sou bom o suficiente”. Ora tendo um agente para o ligar a outros potenciais empregadores que não tenham receio de pagar o que lhe pedem, é natural que os jogadores abandonem o barco.

Por fim, a instabilidade, é outro dos fatores que nos leva ao Barcelona de hoje. Antes de Joan Laporta tomar posse como presidente do clube em 2003, La Masia já era um produto de trabalho árduo feito por diversos treinadores e diretores que contribuíram para a mesma ao longo de décadas. Oriol Tort, Laureano Ruiz e Joan Martinez Vilaseca foram os primeiros a contribuir para a mesma ainda em 1979. A comercialização do futebol acelerava e rios de dinheiro eram gastos pelos clubes graças a certas pessoas / entidades. Isto dividiu o Barcelona. Deveriam continuar sendo únicos, ou seguir a corrente? Sandro Rossel abandonou o cargo de vice-presidente em 2005, alegando que Laporta estaria a desviar-se do plano original. Rossel seria no entanto eleito sucessor de Laporta em 2010. Descontente com o anterior mandato, optou por restruturar completamente a academia do Barcelona, despedindo Benaiges, Alexanko e Albert Capellas. Guillermo Amor e Alberto Puig ficariam à frente da La Masia até 2014, ano que foram despedidos em resposta ao escândalo que envolvia o Barcelona e a contratação de menores. O próprio Rossel viria a resignar devido ao envolvimento na controversa transferência de Neymar. Josep Maria Bartomeu, vice-presidente na altura, viria a se tornar no 40.º presidente do clube, procedendo igualmente com diversas alterações ao nível da estrutura, despedindo Antoni Rossich e Andoni Zubizarreta, destituindo ainda o diretor Toni Freixa. Desde a presidência de Joan Laporta, houve constantes mudanças a nível organizacional e pessoal, seja por motivos políticos, escândalos ou de resignações. Um fluxo que vai contra as ideias e princípios do Barcelona. Ideais, principalmente do Barcelona, levam o seu tempo a serem ensinadas. Treinadores e diretores simplesmente não têm tido tempo suficiente para passarem os seus conhecimentos uma vez que são constantemente interrompidos com novas mudanças. Os mais recentes desenvolvimentos envolvendo a direção de Bartomeu e a principal estrela do clube, Leo Messi, deixam antever mais que certas mudanças num futuro próximo. Esta é apenas mais uma certeza que um clima de ainda mais instabilidade irá assolar o clube. Pede-se uma mudança de paradigma urgente.

Visão do Leitor: Frederico Pinto

3 Comentários

  • LUCAAAAAAAAAAAAS
    Posted Abril 10, 2020 at 11:36 pm

    Infelizmente com o passar do tempo o Barcelona deixou de apostar na academia e perdendo pouco a pouco a sua magia. Artigo muito bom!

  • Antonio Clismo
    Posted Abril 11, 2020 at 9:16 am

    Olhando para o paradigma português, não vejo melhor altura para os clubes fazerem uma aposta ”all-in” em jogadores da formação de forma a cortar custos esta época. Algumas apostas não vão resultar, como é óbvio mas muitos vão conseguir fixar-se nas suas respectivas equipas e os dividendos dessa política vão chegar a curto-prazo.

    É a diferença entre estabilizar as finanças novamente em 2 anos ou em 10.

    A aposta na formação é muitas vezes vista como um sinal de que não se quer ganhar, ou que não se luta pelos mesmos objectivos dos que vencem campeonatos, antagónico com sucesso imediato, mas se todos os 18 clubes partirem com as mesmas condições, ninguém parte em vantagem (só aqueles com sistemas de formação mais evoluídos).

    A FPF deveria usar esta época como uma espécie de ano zero salvador, de forma a ganhar as décadas seguintes.

    Se todos os clubes apostassem em 4 ou 5 jogadores da formação em detrimento das habituais ”compras avultadas de Verão” conseguiriam canalizar 20 ou 30% dos seus orçamentos para ir pagando os estragos causados por este vírus. A valorização e a venda desses activos no futuro cobriria o resto e serviria de alavancagem para um futuro de força e sustentabilidade financeira.

    Muitos clubes não têm formações com muita qualidade (resultado de anos e anos em que não ligaram nenhuma a esta componente). E nesse ponto a FPF deveria facilitar a política de empréstimos para que mais jogadores pudessem ter oportunidade no principal palco do futebol português.
    Para quê que o Benfica precisa de ter uma equipa B com o somatório do valor do plantel é bem superior a grande parte das equipas da Primeira Liga?? Não faz sentido. Se pudessem emprestar apenas um jogador por cada clube da Primeira Liga a verdade desportiva não sairia alterada.

    Se o Benfica pudesse emprestar, digamos, 17 jogadores, um por cada clube da Primeira Liga
    O Porto e Sporting poderiam fazer igual. (Por mim não haveria problema nenhum em grandes emprestarem a grandes, por exemplo, desde que fosse bom para todas as partes).

    Excepcionalmente e só por uma época. Os clubes ajudarem-se mutuamente partilhando jogadores para promover a sua valorização máxima.

    Agora, se os mesmos erros de gestão do passado continuarem e for cada um por si, posso garantir que nem daqui a 10 anos os clubes portugueses vão ter conseguido sair deste buraco…

    Tempos excepcionais requerem medidas excepcionais.

  • Tiago Silva
    Posted Abril 11, 2020 at 10:49 am

    Muito bom artigo. Ter uma boa formação não quer dizer que tenham que apostar em muitos miúdos logo com pouca idade, mas sim desenvolvê-los de forma a tirar o melhor proveito deles. Não têm qualidade para a equipa principal? Emprestem-nos a um clube que lhes garanta minutos, ou então vendam-no com uma clausula de recompra associada, de forma em não o deixarem fugir e de forma a que se maturem e evoluem enquanto jogadores.

    O parágrafo sobre os agentes é no mouche mesmo!

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