Liverpool FC e Manchester United FC são uma das maiores rivalidades no mundo do futebol. O confronto entre os dois maiores emblemas de Inglaterra (pelo menos em histórico) é marcado pela intensidade e pelos bons momentos, onde ganha quem tem mais “vontade”. No entanto, 2021/2022, mostrou uns “Reds” muito acima dos rivais, batendo-os sem a mínima dificuldade. 0 x 5 em Old Trafford e 4 x 0 em Anfield. Desde 2018 que os “Diabos Vermelhos” não vencem o seu principal inimigo para a Premier League, ainda que tenham obtido alguns empates. Vale a pena recordar que a situação há uns anos era bem diferente, quase oposta à de hoje em dia. O Liverpool só voltou a ser campeão na época 2019/2020, trinta anos depois da sua última conquista. Durante esse período, o United esteve na mó de cima, através do gigantesco trabalho de Sir Alex Ferguson, que obteve por treze vezes o título inglês. A sua despedida em 2012/2013, corresponde à temporada do último campeonato conquistado pela equipa.
Se outrora o Liverpool era alvo da troça dos adeptos, a situação inverteu-se. No entanto, é na cidade dos Beatles, que poderá estar a inspiração para os rivais. Há que olhar ao processo evolutivo começado em 2015/2016, duas temporadas depois da escorregadela de Gerrard. O cansaço da relação entre Brendan Rodgers (11 jogos e 3 vitórias) e Liverpool levou ao término da mesma, a 4 de Outubro de 2015, abrindo as portas a Jurgen Klopp, que havia realizado um excelente trabalho ao serviço do Borussia Dortmund. O alemão era unanimemente considerado um dos melhores técnicos da Europa, podendo ser a salvação dos “Reds”. O plantel que lhe foi “oferecido”, tinha bastantes lacunas, não havendo superestrelas definidas, com um nível de meio de tabela. Nomes como Mignolet, Clyne, Lovren, Milner, Henderson, Leiva, Allen, ou Sturridge, tinham direito a somar muitos minutos, porém se os colocássemos em algum plantel dos candidatos ao título, não seriam seguramente titulares. Firmino estava a iniciar o seu percurso no clube e Coutinho somente deu o salto qualitativo com o futebol do “Normal One”. Tiago Ilori e João Carlos Teixeira eram os representantes portugueses, bem longe da qualidade do atual luso do elenco (Diogo Jota).
Olhando para a classificação na Premier League, 2015/2016 fica marcado por um oitavo lugar para os de Klopp, uma classificação fraca para o clube, mas que representou na perfeição a qualidade e profundidade da equipa que existia. A época somente ficou abrilhantada pela presença na final da Europa League, perdida para o Sevilla FC, sendo também finalista na Capital One Cup, perdendo nos penaltis contra o Manchester City FC. No entanto, a partir daí foi sempre a subir. Até ser campeão, em 2019/2020, foram obtidos dois quartos lugares e um segundo, com uma vitória e uma derrota em finais de Champions League pelo meio. O regresso da “Orelhuda” a Anfield foi mais veloz que o título interno, com um hiato temporal bem menor (2004/2005). A estratégia de contratar o alemão revelou-se vencedora, estando o segredo na confiança proporcionada ao alemão. O projeto para voltar a ganhar era de longo prazo, tendo sido oferecido bastante tempo para os objetivos serem alcançados. Houve a consciência que não se podia ganhar no final da primeira época, nem da segunda. Não havia plantel para tal, muito menos mentalidade. Klopp voltou a incutir a ideia de que em Liverpool mora um clube vencedor, além de tradicional. Contratou uma série de jogadores ao longo do tempo, realizando-se um trabalho espetacular na área, porque o dinheiro foi bem investido (excelentes mexidas de Michael Edwards). Mané, Salah, Alisson, Van Dijk, Fabinho ou Jota vieram dar um upgrade brutal ao plantel sobrando, ao dia de hoje, muito poucos jogadores de 2015/2016. Os dois mercados de 2021/2022 refletem bem as boas movimentações ao longo deste período, mesmo que não haja títulos conquistados. Foram contratados Ibrahima Konaté e Luis Díaz, que chegaram para suprimir algumas falhas no plantel. Foram alvos precisos e “tiros” acertados (então o colombiano tem tido um impacto brutal desde a sua chegada a meio da temporada, integrando-se na perfeição).
O Manchester United terá de ter atitudes semelhantes, para voltar ao topo. Não se pode exigir o título para 2022/2023, apesar de este ser o grande desejo dos adeptos, que estão cansados de ver os rivais a ganharem. Há que pensar no longo prazo, como foi feito com Klopp. Ten Hag na teoria é uma boa escolha. Fez um trabalho de qualidade em Amsterdão, levando o Ajax a sonhar inclusive com finais de Champions League, algo que não se verificava há alguns anos. É manifestamente complexo levar uma equipa fora dos “Big 5” às rondas mais longínquas da competição. Internamente foi cumpridor, com três Eredivisie e duas Taças dos Países Baixos. Se houver espaço e tempo para as ideias do neerlandês serem postas em prática, os resultados obtidos, poderão (e deverão) ser altamente positivos. A estabilidade dada tem que ser maior que a oferecida a Mourinho, Solskjaer (este com demasiado tempo no cargo, mas pressionadíssimo pelos adeptos) ou Moyes, que rapidamente passaram a bestas.
O que deve ser pedido à direção é investimento. John Henry ofereceu-o ao seu treinador, os Glazer terão de fazer o mesmo. Além de profundas alterações no scouting, é necessário contratar os alvos certos, que são obrigatoriamente caros. É necessário vender muitos jogadores e contratar para os seus lugares, mesmo que não seja tudo realizado na mesma janela de transferências (semelhante à revolução necessária no SL Benfica), já que vai ser difícil colocar certos elementos que possuem um salário dantesco, em comparação com aquilo que jogam. As chegadas de atletas a Liverpool, tampouco se realizaram somente num mercado. Poucos atletas deste plantel têm qualidade para fazer a diferença com Ten Hag. De Gea, Varane, Bruno Fernandes, Sancho, Rashford e Cristiano Ronaldo (será um dilema para o Verão a sua manutenção no plantel, sem Champions League e possivelmente Europa League) deverão manter-se no plantel, mas os restantes estarão sempre na “corda bamba”, mesmo sem estarem nos transferíveis (como no caso de Luke Shaw), podendo-se vender mediante uma boa oferta. O meio campo deverá ser o setor mais afetado, já que somente Bruno Fernandes estará garantido. Mesmo com algumas saídas certas a custo zero, como Juan Mata ou Cavani, a processo de saída jogadores vai ser bastante lento. As chegadas terão que ser reforços de peso, sempre na casa de muitas dezenas de euros, se se tratarem de titulares. Declan Rice, Antony, Timber, De Ligt, Darwin Núñez entre muitos outros já foram apontados (e desejados), sendo nenhum alvo barato. Será um trabalho árduo (e ao mesmo tempo bastante entusiasmante) identificar o melhor nome para a melhor tarefa, sempre com o aval de Ten Hag, que tem como função como líder do projeto dar a resposta final. Se existirem flops, terá quota parte na culpa, naturalmente. Há muitos mercados a explorar, principalmente em jovens promessas (especialmente o sul americano, recheado de novos valores), que serão necessárias para compor plantel, ou então para emprestar e mais tarde assumirem o protagonismo.
Mudando-se tantos atletas, com um novo treinador, naturalmente que as dinâmicas serão severamente alteradas e terá que existir um período de habituação. Por isso não se pode pedir a vitória no curto prazo, ainda para mais numa época com um Mundial a ocupar calendário e que retirará dos “Red Devils” alguns dos seus jogadores.
Joel Glazer pode fazer de Ten Hag o “novo Klopp” e do Manchester United um futuro vencedor e candidato a tudo. Só não pode é festejar já, tendo que explicar aos adeptos que vão ter de esperar mais um pouco para voltar a celebrar. Caso isto aconteça, Klopp e o seu Liverpool terá um novo alvo a abater, baseado no seu próprio projeto.
Visão do Leitor: Ricardo Lopes


6 Comentários
Fireball
Ainda nem li tudo mas essa linha do Coutinho é muito discutível. O Coutinho fez uma época de 13/14 absurda, a explosão deu-se ainda com Rodgers, e para ser sincero, acho que ele era melhor com Rodgers que com Klopp.
Kacal
Como já disseram aqui o Ten Hag não tem a “aura” de Klopp quando este chegou a Inglaterra nem provou tanto, a meu ver. Mas tem o seu trabalho feito no Ajax como cartão de visita e é bem positivo. Eu vejo-o como treinador de projecto daqueles que pode mudar um clube mas é preciso dar-lhe condições e tempo, não devem haver comparações com Klopp e sim deixá-lo fazer o seu caminho.
Af2711
Lembro-me que na primeira passagem de Ronaldo no United, raramente perdiam com o Liverpool.
Até mesmo naquele período de quezilhas entre Evra e Suárez o United tinha mais triunfos. A mudança tem que ser de mentalidade, de pensar e jogar como Manchester United. Apostar em Moyes, Van Gaal, Mourinho e Solskjaer nos últimos nove anos com algumas transferências estranhas também não pode ser o caminho. Até tiveram épocas em que terminaram bem, mas em algum momento o processo desandava e não permitia que se aproximassem do título, ou mesmo que tivesse continuidade. Desde já há perfeitamente uma base com 12-14 jogadores que deve ser mantida e Ten Hag possa misturar a ela nomes que realmente estejam à altura do Manchester United com jovens que possam receber oportunidades na primeira equipa.
Para já o objetivo mínimo da próxima época tem que ser ficar entre os quatro primeiros na Premier League, chegar longe na FA Cup e chegar às fases finais da Liga Europa.
Fireball
Pura e simplesmente nunca houve “processo” no United. O que têm em comum treinadores como Moyes, Mourinho, van Gaal e Solskjaer? Nada. Foram-se buscar nomes à toa, atirar à parede 4 perfis diferentes a ver se cola. Agora vem o 5º perfil diferente. Atirar a ver se cola. Se continuarem com a mentalidade que têm não há ten Hag que os salve. Nem ten, nem twenty Hag. A direção do United, os seus adeptos e alguns dos seus jogadores ainda têm na ideia de que o United tem direito divino a ganhar e que não é preciso fazer muito, que é uma questão de tempo até ganharem porque “são o Man Utd”.
Filipe Ferreira
De acordo.
Mas há aspetos a ter em conta: Klopp chegou a Liverpool com uma aura que Ten Hag ainda não tem. Klopp chegou ao Liverpool com uma bagagem que o Ten Hag ainda não tem. Klopp estava habituado a bater-se contra o Bayern (de Guardiola ou Jupp Heynckes). Ten Hag está habituado a lutar contra o PSV e apesar de já ter disputado eliminatórias contra grandes equipas é completamente diferente de disputar um campeonato a 38 jornadas contra as mesmas.
O Man Utd tem melhores jogadores do que tinha o Liverpool à altura, mas ainda terá que crescer e o treinador também.
Ricardo Lopes
Sem dúvida. Poderá ser uma outra razão para que exista mais paciência para o neerlandês. Klopp estava uns degraus acima (também tinha mais anos de treinador) e estava acostumado ao alto nível semana sim semana sim (a Bundesliga é big 5). Ten Hag terá agora essa experiência a nível interno, sendo o primeiro ano fundamental para ganhar essa rodagem.