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Nunca é tarde para o recordar

156930867O dicionário refere que fenómeno é tudo o que nos impressiona de um modo qualquer, tudo o que é extraordinário, raro ou novo, coisa surpreendente, isto é: Agostinho.

Joaquim, ou “Quim Cambalhotas” para o pelotão português, fazia contrastar toda a sua falta de técnica, e consequentes quedas que lhe valeram a alcunha supramencionada, com uma força física e mental fora do comum.

Um atleta de paradoxos, não fosse ele o melhor ciclista português de sempre sem saber “andar de bicicleta”… não fosse ele o melhor ciclista português de sempre e ter começado a pedalar somente aquando da sua vigésima quinta primavera.

Como um aluno que passa da escola primária para o ensino universitário, Agostinho passou rapidamente por todas as categorias ganhando pontos suficientes para participar na Volta a Portugal. Na antevisão da prova disse “Vou tentar fazer umas coisas, mas não penso ir muito longe, não tenho experiência”. O resto é história que o próprio escreveu em estradas portuguesas e sobretudo francesas, o que lhe valeu uma alcunha mais simpática: “O emigrante da bicicleta”.

O ciclista natural de Brejenjas era uma autêntica força da natureza, por vezes indomável, e entre as suas etapas de glória e sacrifício encontram-se escondidos episódios peculiares, que o distinguem dos demais.

Respeito, consideração? Ou acanhamento e vergonha? Talvez um misto de tudo isso, num contra-relógio do Tour. Agostinho, depois de dobrar dois ciclistas (nada de novo até aí), aproxima-se do terceiro e repara que se trata de Raymond Poulidor. Para espanto de todos, não ultrapassa o francês. Apesar dos esforços do mecânico e do diretor da equipa, que gritavam do carro pedindo que ultrapassasse o “eterno segundo”, nada o demoveu. Sentimento semelhante o deve ter tomado, quando seguia em fuga com Eddy Merckx e o belga esqueceu-se de se alimentar ficando “esgotado”. Mais uma vez o português surpreendeu e esperou pelo adversário que estava em quebra.

Por outro lado, não gostava de dar “a parte fraca”. Característica evidenciada numa fuga do Tour, contudo, nesta situação foi Agostinho quem se esqueceu de se alimentar e percebeu que não iria conseguir acompanhar o ritmo da fuga. O espectável seria que o português fosse perdendo aos poucos o contacto com os da frente, mas quem lá esteve não foi isso que presenciou. Agostinho para completamente, olha para trás, como que esperando pelo seu chefe de fila para o ajudar e alimenta-se calmamente. No dia seguinte, a imprensa gaulesa enalteceu o gesto, quando, na verdade, se tratou de uma camuflagem de fraquezas. Também em estradas portuguesas nos brindou com decisões desta índole. Numa prova Porto-Lisboa, o ciclista português estava a sentir dificuldades (que só se vieram a saber à posteriori) e sem dizer nada à sua equipa, chega ao Turcifal e corta para Torres Vedras. Quando questionado pelos jornalistas acerca do seu surpreendente desvio e abandono, respondeu que tinha uma carta para entregar à Ana Maria, sua mulher.

Façamos o exercício de nos colocarmos na pele do seu diretor de equipa… não deve ter sido fácil. Mas para saborear os triunfos deste fenómeno, também era preciso saber lidar com a sua espontaneidade, com estas “coisas à Agostinho”.

Todas as suas conquistas, a celeridade com que se impôs neste desporto, a humildade que não se desvaneceu com os maiores feitos e a imprevisibilidade que demonstrou nos mais diversos contextos, fazem dele um desportista atípico, ímpar, que marcou o ciclismo português e aquela que, ainda hoje, é a prova mais importante do mundo: La Grand Boucle.

PS: Agora perguntam-me: Porquê hoje, porquê em novembro?
– Porque escrever estas linhas no dia do seu aniversário ou falecimento seria demasiado previsível. Da mesma maneira que o título no início também o seria. Ei-lo aqui:

“A” de Atípico, “A” de Agostinho

 Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): João Romero

VM
Author: VM

10 Comentários

  • Luis ES
    Posted Novembro 14, 2016 at 8:13 pm

    Grande texto sobre uma das maiores figuras do desporto em Portugal no século passado! Obrigado por estas histórias João Romero.

  • Wonderkid
    Posted Novembro 14, 2016 at 3:02 pm

    Muito bom texto João Romero. Os meus Parabéns! Nunca é tarde para recordar o maior ciclista Português.

  • Pedro Raimundo
    Posted Novembro 14, 2016 at 12:25 pm

    O melhor ciclista de 3 semanas e trepador que Portugal já viu. Só não ganhou uma grande volta porqur nunca foi lider de equipa, caso contrario, na minha opinião, até tinha ganho mais que uma. Ficam as grandes histórias e a lenda do grande Agostinho.

  • J Silver
    Posted Novembro 14, 2016 at 12:15 pm

    Bonito texto. Gostaria de ler mais episódios particulares desta lenda.

    • Joao Romero
      Posted Novembro 14, 2016 at 8:14 pm

      Obrigado J Silver.
      Há também um episódio engraçado que ocorre na Volta a Portugal.
      Numa certa etapa o Agostinho encosta para fazer as necessidades e quando volta ao pelotão repara que o seu rival Mendes (do Benfica) tinha aproveitado a sua paragem para atacar. Revoltado com a situação, sem meias medidas, ataca também, alcança o seu rival e diz-lhe ‘agora apanha-me se conseguires’!
      Agostinho ganhou essa etapa.

      • RGUIA
        Posted Novembro 14, 2016 at 10:28 pm

        João, sou frequentador desde pequeno da região oeste e conheço alguns senhores já com mais idade que contam algumas histórias do Agostinho.

        Dizia-se que ele andava sempre com uma pasteleira para trás e para a frente antes de se ter dedicado ao ciclismo e que o homem era um verdadeiro poço de força! Outros contam que chegava a dobrar os pedais da bicicleta tal era a força que fazia, que não sabia descer como deve de ser (subir era com ele). Há também uma história na volta a Portugal onde ele já era camisola amarela e dizem que ele se chateou com o ritmo do pelotão e foi-se embora, acabando a etapa em primeiro lugar isolado.

        Nada disto sei se é verdade ou mentira, mas cresci a ouvir este tipo de histórias sobre o Agostinho através de malta que diz que o conheceu (bastante plausível).

        • JoaoRomero
          Posted Novembro 14, 2016 at 11:10 pm

          RGUIA, a dos pedais não sei, mas o resto confere. Trabalhava no campo e ia para o trabalho numa pasteleira e é nessa altura que João Roque (ciclista do Sporting) o leva a uma pequena prova. A da fuga é realmente incrível: 7ª etapa da Volta de 1973, entre Abrantes e Figueira da Foz de 202 km. Descola do pelotão ao 5º km e ganha a etapa com uma vantagem de 18 minutos (197 km’s em fuga!!); foi a sua forma de responder a quem dizia que só ganhava voltas graças ao CR.

  • Peter Sagan
    Posted Novembro 14, 2016 at 11:52 am

    Não é com bifes e batata frita que se sobe os Alpes, acho graça aos tugas que criticam o Amstrong mas veneram o Agostinho, se o Lance tomasse metade do que o Agostinho tomou não teria ganho 7 tours mas sim uns 14.

    • Ribeiro
      Posted Novembro 14, 2016 at 4:58 pm

      O Agostinho tomava substâncias proibidas? É uma pergunta inocente, é que não fazia ideia (também não acompanho assim tanto a modalidade).

      • João Romero
        Posted Novembro 14, 2016 at 10:52 pm

        Ribeiro o Agostinho tomava Ritalina, uma substância que era permitida no Tour, mas proibida na Volta a Portugal. Acontece que numa Volta a Portugal numas análises que faz a meio da prova acusa positivo, o que levaria a um castigo de 2 minutos no tempo da geral, mas “alguém” não queria a sua vitória e então esconderam esses resultados. O Agostinho ganha a volta com 8 minutos (creio ser este o valor) de avanço mas no dia seguinte sai a bomba que se tinha dopado e retiram-lhe a Volta.

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