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O declínio da finta de autor

Cresci no futebol de rua, o que me leva a considerar a finta como o elemento técnico mais bonito do jogo. Quem jogou na rua sabe que a seguir a uma cueca de sola se segue um riso malandro ou um “Uhh” como consequência da derradeira humilhação causada ao adversário.

Poucos são aqueles que conseguiram transportar a malandrice da rua para o futebol profissional e registar o seu nome na história com uma finta ou um movimento característico. Com a retirada de Robben e a sua famosa diagonal sobram já poucos artistas conhecidos pelo seu movimento característico, esta espécie está aliás em vias de extinção. Dos grandes artistas sobram Robinho e as suas famosas pedaladas, D’Alessandro e a sua “la boba”, o karaté de Ibrahimovic e Quaresma e a sua inesquecível trivela. Infelizmente todos estes profetas da técnica já viram o fim da sua carreira mais longe.

Desde cedo houve muitos futebolistas que deixaram uma marca no futebol mundial pela sua técnica e criatividade. A rotação de Cruyff; a roleta de Zidane; a cuauhteminha de Blanco; a foquinha de Kerlon; o penálti de Panenka são exemplos de gestos técnicos que perpetuaram o nome dos seus executantes nos anais da história do futebol, contudo nos tempos mais recentes tenho mais dificuldade em encontrar nomes para inserir nesta lista para o futuro. Talvez possamos associar o cabrito do Neymar, a letra de Di María ou Jiménez, o calcanhar de Giroud, ou o toque sem olhar de Firmino, ou em Portugal o hocus pocus ou o autotúnel de Salvio mas é cada vez mais incomum aparecer um novo profeta da finta.

Relaciono este fenómeno com a cada vez menor expressão que o futebol de rua tem no futebol de alto rendimento. Neste momento em grande parte do mundo do futebol os jogadores já são ratos de laboratório desde muito novos, sendo rapidamente formatados para os parâmetros que levam ao rendimento em alta competição, sendo que actualmente muito poucos jogadores jogaram na rua com regularidade. A irreverência e a chamada ratice são cada vez mais preteridas em função de parâmetros como a movimentação táctica, o posicionamento ou a compostura. E a perda dessa malandrice e dessa irreverência entristece-me porque me faz perder uma ligação emocional com o jogo que surgiu da minha própria prática.

Resta-me então esperar pelos loucos, aqueles que recusarão a robotização, aqueles que serão rebeldes e se quererão destacar dos demais pela loucura da técnica. Esses terão sempre a admiração de muitos como eu que vemos neles nós próprios depois da escola num qualquer campo com duas pedras a servir de baliza e uma bola velha a contar as cuecas e os cabritos feitos nessa tarde.

Zé Lobo

VM
Author: VM

34 Comentários

  • JC31
    Posted Julho 21, 2019 at 6:49 pm

    Lembrei-me que o Ajax (penso eu) implementou uma medida na academia que consistia em levar os miúdos para a rua e colocá-los a jogar futebol em terrenos acidentados. Porque perceberam que os jovens estavam a perder a capacidade de reação e antecipação.
    Isto para dizer que talvez a falta de criatividade também já possa ter sido notada. Acredito que existam academias a incentivar a finta e a “brincadeira de rua”.

  • Joao Silvino
    Posted Julho 21, 2019 at 1:25 pm

    Sinceramente não consigo entender grande parte desta discussão… Como é que os miúdos de hoje em dia começam a jogar à bola? Não é na rua principal lá do bairro, com balizas marcadas com tijolos, “não vale bujardas” e boladas em janelas e carros dos vizinhos que vêm cá fora aos berros? Com ‘fucice’, querer fazer tudo sozinho, fintar os outros todos, marcar golo e ser o herói do bairro? Não percebo.

    • Kafka
      Posted Julho 21, 2019 at 3:18 pm

      Onde é que isso hoje em dia acontece? Só se for na terrinha e nas grandes cidades é uma clara minoria de crianças que joga na rua, ao contrário do que acontecia há 25/30 anos atrás onde se via imensas crianças a jogarem na rua

  • paulopinheiro
    Posted Julho 21, 2019 at 12:53 pm

    Djalminha e a sua lambreta, Okocha e o seu ‘turn’, Kanchelskis e os dois pés sobre a bola, Bergkamp e o seu contorno sobre Dabizas, Denílson e a sua pedalada (ou o toque de calcanhar com que deitou o Puyol)…e Gravesen e a sua ‘gravesinha’

  • Super Simas
    Posted Julho 20, 2019 at 4:19 pm

    Ronaldo Chop, Berba-spin, Bolasie Flick, Messi feint, Trivela, Rabona, etc…

  • hugo7
    Posted Julho 20, 2019 at 3:25 pm

    E depois há aquelas pessoas que lamentam o desaparecimento do futebol de rua em contexto de jogo e criticam o Neymar ou outro artistas por “serem brinca na areia”….

  • Kafka
    Posted Julho 20, 2019 at 1:05 pm

    O fim do futebol de rua na sua génese é uma coisa boa, porque significa o decréscimo da pobreza e um aumento do número de pessoas da classe média e média alta que passaram a viver nos meios urbanos e com melhores condições de vida… Tanto que o futebol de rua actualmente só existe onde? É nas favelas do Brasil, Argentina restante América do Sul e África, ou seja, zonas onde a pobreza ainda é grande

    Outro ponto para o fim do futebol rua é que as crianças hoje têm muito mais oferta para se distrairem o que leva a que muitas crianças hoje em dia já não tenham o futebol como actividade preferida, e muitas delas até preferem jogar playstation a jogar futebol a sério com os amigos, se bem que mesmo que o quisessem não tinham espaço para jogar no meio dos prédios das grandes cidades

    Mas isto é como tudo, nada é eterno e o futebol também não será, acredita que o futebol neste momento está no ponto mais alto da sua “existência” mas que começará gradualmente entrar na curva descendente, não é que venha a acabar mas acredito que não terá tanto impacto na população mundial como tem actualmente dentro de uns 80/90 anos, porque cada vez mais o futebol terá de dividir protagonismo com muitas outras coisas e hoje isso já se nota nas crianças onde muitas delas não ligam nada a futebol, antigamente numa turma de 20 miúdos, descontando as meninas que essas nunca gostaram de futebol, mas nos miúdos havia no máximo 1 ou 2 miúdos da turma que não gostavam de futebol, já hoje em dia atrevo-me a dizer que metade gosta de futebol e a outra metade não gosta ou se gosta não liga grande coisa e só vê a seleção nos europeus e mundiais e nada mais

    A sociedade está a mudar, e o futebol fazendo parte da mesma também vai mudar ou desaparece, claro que isto é mera suposição e impossível de ser provado pois acredito que só daqui a uns 80/90 anos se irá notar o declínio do futebol, na linha de vida do futebol o mesmo ainda está no topo, na sua fase de maturidade

    • Gio Silva
      Posted Julho 21, 2019 at 11:38 pm

      Apesar de o post ser mais na vertente relativa à ousadia e habilidade dos miúdos enquanto jogadores, não posso deixar de concordar contigo.

      Caminhamos a passos largos para uma realidade em que o futebol vai ser mais jogado nas consolas do que na ‘rua’

    • Gil Rodrigues
      Posted Julho 21, 2019 at 1:28 pm

      eu não diria 80 ou 90 anos… acho que em 20 ou 30 já vais ver uma diferença abismal. basta os actuais “putos” de hoje (que preferem a os e-sports e Twich à SportTv) chegarem à idade de influenciarem os filhos e perderemos a maioria da paixão pelos clubes e futebol.

    • Lopes da Silva
      Posted Julho 21, 2019 at 12:28 pm

      Este é o Kafka que a malta gosta de ler. Analista e conhecedor. Procura mais vezes este teu lado e não aquele tipo de comentários de acusação que fazes em posts de certos clubes e sobre certos jogadores.
      Grande comentário e concordo com tudo!

    • porra33
      Posted Julho 21, 2019 at 11:45 am

      O objectivo deste texto não era reflectir sobre o futebol de rua em si, mas já que por aí foste até acabo por concordar com grande parte do que dizes. Daqui a 40 ou 50 anos se calhar o futebol já dividirá muito mais a atenção das crianças com por exemplo os e-sports, uma vez que é o que se está a tornar mais popular, e tornando-se mais popular criará uma industria de milhões.
      Se a popularidade do futebol irá diminuir tanto como prevês, espero que não até porque há um lado emocional que se passa de geração em geração ou pelo menos eu gostaria que se passasse e que fizesse com que o futebol continuasse a ser dos desportos mais populares.
      Saudações!

    • offtopicguy93
      Posted Julho 20, 2019 at 6:29 pm

      Kafka o futebol não é só treinos e jogo, aliás este texto nao é sobre isso… eu não cresci no meio da pobreza e sempre joguei futebol de rua… o que o texto quer dizer é que os putos hoje em dia já só jogam à terça e à quinta no clube da terra ou no clube onde jogam… os restantes dias possivelmente nao tocam na bola.

      No meu tempo eu ia jogar à bola depois dos treinos, eu queria era jogar… até me sentia mais à vontade a jogar no alcatrão ou areia do que no sintético do clube da minha terra… é na rua que se aprende a malandrice do futebol… a sacar faltas, a fintar, as primeiras rivalidades…. no treino é tudo formatado…

      Foste a um assunto muito mais profundo, a uma realidade… mas este texto não é sobre isso!

      • porra33
        Posted Julho 21, 2019 at 11:40 am

        Sim offtopicguy93 o texto não é tanto uma reflexão sobre o futebol de rua em si. O texto é mais uma reflexão sobre uma falta de irreverência que parece verificar-se no futebol actual e que é até mal vista actualmente. Essa irreverência no entanto é um espelho do que alguns como eu e tu experienciámos a jogar à bola na rua e nesse aspecto identificamo-nos com ela. É até uma reflexão mais saudosista do que outra coisa..
        Saudações

  • Dca
    Posted Julho 20, 2019 at 12:49 pm

    O futebol de rua cada vez existe menos e diga-se também com tantas fintas que existem é difícil criar mais.
    Hoje em dia as pessoas preferem ver highlights, jogar fifa e aí fazerem as tais fintas porque aí no fifa conseguem fazer (na realidade não). Agora jogar na rua? Isso só para quem mora em bairros de rua. E o problema? É que alguns deles não têm o rendimento de outros (pois são muito mais anárquicos taticamente) e são excluídos em detrimento do rendimento.
    Depois é a questão do adepto que também está muito mais exigente/rigoroso. Hoje em dia numa final da Champions quem saca um panenca no penalti decísivo é maluco. Se falha é uma vergonha, desrespeitou o clube etc, se marca é um génio mas “arriscou-se a falhar e depois queria ver”. Dos poucos que vi ultimamente a fazer panencas em penaltis decisivos foi, lá está, o El Loco Abreu.
    A culpa é nossa que agora, queremos é alguém que fisicamente leve a bola, seja extremo ou não, do que alguém que esteja a tentar uma finta porque cada vez que falha “Fdm, vai mas é fazer fintas para a rua, isto aqui não é o teu antigo clube”. Mentalidades.

    • porra33
      Posted Julho 21, 2019 at 11:50 am

      Relativamente à parte das fintas muitas vezes não é preciso inventá-las basta por vezes um jogador aplicar as já existentes com frequência, mas por vezes já nem essa irreverência há, há mais medo daquilo que dizes, que é se falha é inconsequente e brinca na areia. Eu gostarei sempre de ver aqueles que tentam nem que seja mais por me rever neles!

    • T. Pinto13
      Posted Julho 20, 2019 at 5:49 pm

      Alexis na copa América.

    • NCM
      Posted Julho 20, 2019 at 1:07 pm

      É verdade. Os adeptos também estão formatados com esse pensamento. Mas a verdade é que o Messi (considerado por muitos qui na VM) como o melhor jogador da história, não é conhecido por nenhum dessas fintas / malabarismos mas tem a técnica mais importante de todas: aquela que está ao serviço da equipa para obter golos e assistências da forma mais simples e directa possível. O futebol é um jogo belo na sua simplicidade e muitas vezes essas fintas parecem mais momentos para o YouTube e pouco importantes para o desenrolar do jogo. Provavelmente também eu já estou formatado.

      • porra33
        Posted Julho 21, 2019 at 11:54 am

        Para mim a finta é o gesto técnico que mais gosto, o que não significa que o ache o mais decisivo do jogo. Para mim é o passe e aí Messi é superlativo, mas a criação de desequilíbrios através da finta ao invés de movimentos colectivos e de passes também é importante numa partida mas parece cada vez perder mais destaque em função dos outros dois!
        Saudações!

  • Kacal
    Posted Julho 20, 2019 at 12:04 pm

    Excelente post, Zé Lobo! Penso que começa a existir menos porque os treinadores exigem mais a nível físico e táctico do jogador querendo foca-lo mais para o desempenho colectivo e retirando-lhe algum brilho e criatividade. Liberdade para fazer as coisas. Além disso hoje em dia é logo com entradas violentas quem ousa fazer isto.

    Acrescento a vírgula de Ronaldinho, não sei se foi ele a inventar mas pelo menos para mim foi quem a tornou celebre! O Bolasie tem também uma finta própria (“Bolasie 360 Flick”), até entrou no FIFA (videojogo).

    • porra33
      Posted Julho 21, 2019 at 12:12 pm

      Obrigado Kacal! Concordo com o que dizes, neste momento há mais medo das fintas inconsequentes e de ser chamado de brinca na areia! É muito difícil para um virtuoso ter a sua criatividade e ser quase sempre efectivo a aplicá-la em jogo. Os treinadores também procuram desequilibrar de forma mais “segura” com movimentações ofensivas e através do passe.
      O Bolasie não sabia que também tinha a sua finta característica, mas sempre que vir o Palace passarei a tomar-lhe atenção, o Bolasie assim é cá dos meus!

      • Kacal
        Posted Julho 21, 2019 at 1:28 pm

        Não sabia que o post era teu, conheço-te daqui por porra33, mas agora passo a saber eheh, não tens de agradecer e gostei bastante do teu post. Mas não surpreende agora que sei de quem veio!

        De resto, concordo totalmente. O futebol mudou e perdeu-se essa “magia”, alguns ainda a vão tendo mas no geral perdeu-se. Acho que deve haver um meio-termo de “brinca na areia” e o resto, mas nunca perder esse lado totalmente. Mas subscrevo o que disseste.

        E sobre Bolasie, tem sim. Procura “The Bolasie 360 Flick” e vais encontrar, é engraçada. Até teve direito a entrar no FIFA (videojogo), por exemplo!

    • Daiuca
      Posted Julho 20, 2019 at 11:54 pm

      No meu Benfica vejo o Jota com essa irreverência. E faz muito bem
      Mas gosto que ele seja mais pragmático certas vezes. Pq no fundo o objectivo é marcar, se for bonito melhor ainda..

      • Kacal
        Posted Julho 21, 2019 at 1:29 pm

        Percebo e acho que o Jota deve manter esse lado e equilibrar com o lado táctico, um meio-termo é o ideal, sem nunca perder totalmente esse lado.

      • porra33
        Posted Julho 21, 2019 at 12:14 pm

        Aí está já se ouve falar muito que o Jota se arrisca a tornar-se num brinca na areia, já se tenta castrar essa sua característica. Se calhar até se tornará melhor jogador mas também lhe poderá tirar perfume que o diferenciaria..

        • Kacal
          Posted Julho 21, 2019 at 1:30 pm

          Sim, por vezes tornam-se melhores jogadores, mas noutras até ficam piores porque perdem a sua “identidade” e acabam por não render o mesmo. Há exemplos disso. O Jota terá que fazer um equilibrio e ficar no meio-termo.

    • Fantantonio
      Posted Julho 20, 2019 at 1:33 pm

      No Brasil a vírgula chama-se elástico e foi o Ronaldo Fenómeno a torná-la popular antes do Ronaldinho, mas sem dúvida que era um signature move.

      • Kacal
        Posted Julho 21, 2019 at 1:22 pm

        Tinha a duvida de quem inventou daí não falar com certezas, mas pelo menos para mim foi em Ronaldinho que a conheci mais e a vi ser popularizada, mas agora que falas, sim o Ronaldo “Fenómeno” já utilizava e acredito que outros antes também. Agora sim, concordo que era uma “signature move” do Ronaldinho, eheh.

      • Filipe Ribeiro
        Posted Julho 20, 2019 at 3:40 pm

        Já o Rivelino fazia décadas antes.

        • Kacal
          Posted Julho 21, 2019 at 1:23 pm

          Admito que sim, Filipe. Mas como eu só comecei a ver futebol a sério por volta de 2003, acabou por ser em Ronaldinho que a vi ser popularizada.

          • Filipe Ribeiro
            Posted Julho 21, 2019 at 11:42 pm

            Eu respondi ao comentário acima de que o Ronaldo popularizou primeiro.
            Já o Rivelino a fazia em mundiais.
            Maradona a fazia imensas vezes tal como o Mágico González que está a comentar mais abaixo.
            Até digo mais,maior parte das fintas que estou a ler por aqui de jogadores recentes já o “Mágico” as fazia há 40 anos.

            • Kacal
              Posted Julho 22, 2019 at 1:37 am

              Sim, concordo. Como disse, não vi esses jogadores a jogar mas acredito que seja como referes. Seja como for, por vezes não é quem criou a finta, mas sim quem a popularizou!

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