A época de 2021/2022 fica marcada como mais uma de desilusão para os lados de Paris. Após um mercado de Verão bastante movimentado, com aquisições para todos os setores, todas de alta gama, o sonho da conquista da Liga dos Campeões ficou-se por Março. Mesmo com a chegada de Messi, Donnarumma, Nuno Mendes ou Wijnaldum, o Paris Saint-Germain não conseguiu o seu objetivo maior, nem ficar próximo dele. A mais que provável conquista da Liga Francesa não pode ser suficiente para uma equipa com este armamento. A facilidade em derrotar a maioria das equipas que a disputa (pelo menos no papel) leva a que se torne um campeonato banal, praticamente sem possibilidade de surpresa, como a que ocorreu em 2020/2021. Esta superioridade do PSG em relação aos demais, faz questionar inclusive se ainda tem sentido continuar a considerar o número de grandes campeonatos europeus: se são 5 ou se são apenas 4 (na Bundesliga também vive um vencedor crónico, mas o futebol e as equipas têm muito mais qualidade que no país vizinho). A Ligue 1 necessita urgentemente que algum dos seus clubes vença uma competição internacional e o PSG é o que revela mais condições de cumprir esse objetivo a curto prazo.
A isto levanta-se a seguinte questão: será o plantel bem construído? Na teoria sim, tem jogadores de classe mundial em praticamente todas as posições e como o clube não tem prejuízo financeiro, já que injeção de capital está longe de ser um problema, o investimento poderá continuar mesmo com o fracasso. Apesar disto, o desperdício é uma constante. A quantidade de jogadores que são formados em Paris e vendidos a um custo baixo ou cedo demais é demasiado grande para não ser explorada e criticada. Estas ações são provocadas pelos constantes “all-in” realizados por Nasser Al-Khelaïfi, desesperado por ganhar a “orelhuda”. O ex-tenista deveria ter aprendido com os exemplos do passado recente. O Manchester City, detido pelo seu primo, é um “novo rico” há mais tempo e também não alcançou esse objetivo. O Chelsea teve que ter alguma paciência para chegar à conquista da Champions. A equipa de Roman Abramovich venceu a competição no ano passado e contava com muitos elementos oriundos da sua base como Mason Mount, Reece James, Hudson Odoi ou Billy Gilmour. Se foram/são titulares indiscutíveis? Não, mas para serem alternativas eram/são o suficiente, pelo menos aos olhos de Tuchel.
Que jogadores se pode dizer que o PSG desperdiçou? Ao passarmos os olhos pelos planteis do passado recente, podemos construir a seguinte tabela:
| Nome do jogador | Valor da Venda | Valor de Mercado (atual) |
| Christopher Nkunku | 13M | 55M |
| Moussa Diaby | 15M | 45M |
| Timothy Weah | 10M | 15M |
| Mitchel Bakker | 7M | 10M |
| Tanguy Nianzou | 0M | 11M |
| Yacine Adli | 5,5M | 9M |
Dados Transfermarkt
Em todos estes casos, o jogador em questão tem um valor de mercado atual maior do que o da sua venda, sendo a todos reconhecido um potencial bastante grande. Os jogadores, na atualidade, estão mais velhos e desenvolvidos, porém esse processo poderia ter-se realizado em casa, ou através de empréstimos, não deixando as suas promessas nas mãos de outros bons clubes europeus. Possivelmente estes jogadores teriam lugar no plantel dos parisienses, mesmo não sendo titulares. Nkunku está a ser dos melhores jogadores da Europa, com exibições fulgurantes em Leipzig. O mesmo se pode dizer de Diaby no Leverkusen. Simplesmente não houve paciência para os fazer explodir e optou-se por contratar mais jogadores, sem conseguir chegar ao objetivo primordial do projeto. Esta falta de crença leva a que os mais jovens abandonem cada vez mais cedo o clube. Nianzou é o exemplo mais flagrante, rumando ao Bayern a custo 0, mas nomes como Kays Ruiz ou Abdoulaye Kamara poderão ser casos sérios no futuro e não vão ser aproveitados na sua “casa mãe”. Adli apesar de estar no Bordéus, pertence ao AC Milan é é outro atleta a crescer a olhos vistos, com somente 21 anos.
O plantel do Paris Saint-Germain em 2021/2022 tem alguns jogadores que não demonstram qualidade para o projeto ou já estão numa fase descendente das suas carreiras. Kurzawa, Kehrer, Herrera, Rafinha (emprestado), Draxler ou Dagba não têm mais qualidade que muitos dos nomes apresentados acima na tabela, muito menos potencial a longo prazo. Adivinham-se algumas saídas no Verão, que poderiam ser acauteladas com jovens da formação. Nkunku, na forma em que está, seria uma excelente mais valia esta época. Para ganhar a Ligue 1, não é necessário ter os melhores a jogar de uma maneira constante, podendo colocar certos valores para se crescer, permitindo algum descanso aos verdadeiros protagonistas, de modo a estarem preparados para jogarem a principal competição da UEFA. Os adeptos do PSG aparentemente estão igualmente cansados de ver super-estrelas a desfilarem pelo Parque dos Príncipes, sem sentirem a camisola que representam.
O aproveitamento da formação é absolutamente desastroso, podendo nomes como Xavi Simons ou Pembélé vir a sofrer com isso. A “sorte” do PSG é ter um poderio económico gigante para contratar “qualquer um”, permitindo que os adeptos se esqueçam de certas saídas, embora outros tubarões apostem na formação sem grandes problemas e tenham resultados bastante interessantes.
Se a culpa dos resultados menos conseguidos é somente do desperdício? Naturalmente que não. Há questões como a má forma de certos jogadores ou a qualidade do treinador que podem ser apontadas como as causas principais, no entanto há que dar algum relevo ao aproveitamento que o PSG não tem sobre os seus jogadores da formação. Somente Presnel Kimpembe foi aproveitado com qualidade, mostrando dotes para a sua posição. Se outros conseguissem as mesmas chances e paciência, poderiam ter mais elementos da sua escola (ou adquiridos em fase formativa) no seu plantel. É possível que até Maio, já sem grandes objetivos e com a Ligue 1 no bolso, a equipa técnica coloque atletas mais jovens no 11 titular, de modo a entranharem as dinâmicas da equipa. Com um treinador distinto a partir de Julho, como Zidane, a política poderá ser diferente da aplicada até este momento.
Estamos a viver o fim de um contexto pandémico e a passar por um conflito armado cujo fim não parece estar perto. A economia irá ressentir-se bastante. O futebol não estará imune à crise que se está a preparar (já a vivemos, na verdade), sendo obrigatória a poupança na maioria dos casos. O PSG poderá ser imune a tudo o que acontecer, tal como foi à pandemia, onde fez contratos megalómanos para conseguir as melhores opções a “custo 0”, mas a aposta na formação será cada vez mais uma constante em todos os países.
Num país com algumas das melhores escolas de formação do Mundo, mesmo em divisões secundárias (como o Sochaux), a consecutiva aposta em valores da casa levou a que a França atingisse como seleção o estatuto da melhor do mundo e com várias opções, causando a impressão aos adeptos do desporto rei de que existe tanto talento que nunca mais acaba, tanto nos seniores, como nos outros escalões mais jovens. O PSG parece praticar o caminho inverso, apostando no de fora e deixando para os outros o que tinha dentro.
Visão do Leitor: Ricardo Lopes


14 Comentários
Francisco Ramos
O problema do projecto do PSG é a falta de um projecto (formação), visto que o objectivo a curto prazo (vencer a Liga dos Campeões) os “obriga” a comprar jogadores já feitos. Assim sendo, todos os jovens acabam por sair visto que sabem que não irão ser aposta e quanto muito irão ter uns minutinhos aqui ou ali.
Lembrar que Ferlan Mendy saiu nos juniores, Nkunku, Weah, Aouchiche e Edouard andaram pela equipa B até serem vendidos por tuta e meia, Coman saiu após a formação tal como Somaré e Nianzou a custo zero, Maignan foi vendido ao desbarato que nem contava tal como Ikoné ou Adli. Referir que Bakker não é formado no PSG mas no Ajax.
Não estou a dizer que todos podiam ser aposta ou que acrescentariam valor a uma equipa que se quer a ganhar tudo mas alguns destes jogadores têm claro valor para jogar pelo clube e, nalguns casos, para serem titulares indiscutíveis se não fossem estas compras malucas.
Flavio Trindade
O PSG é o exemplo perfeito que o dinheiro não compra tudo.
Por mais voltas que se dê, os clubes mais famosos do clube dos novos ricos, só o Chelsea ganhou algo relevante a nível europeu.
Ao City falta-lhe claramente a Champions.
Mas quer num caso quer noutro a ascensão do Chelsea e do City deveu-se a dois fatores.
Estarem na hiper competitiva Premier League onde o ritmo é alucinante e a qualidade abunda, e terem tido no seu auge os melhores treinadores do mundo.
Mourinho no Chelsea (a somar a Ancelotti ou Conte) e Guardiola no City (onde já tinham passado Pellegrini e Mancini).
O PSG vive numa pouco competitiva liga francesa, onde ninguém os obriga a melhorar e que vencem com maior ou menor dificuldade (e mesmo assim não têm a dominância em França que o Bayern tem na Alemanha por exemplo, Jardim e Galtier que o digam…), e limitam-se a injectar dinheiro para criar uma montra de vaidades.
Neymar é um ex jogador de futebol em atividade, sem o mínimo de vontade, Messi convenhamos está a ser um mega flop, e até Mbappé que vai rendendo tem a cabeça noutros sítios (poderia ter números bem mais avassaladores).
O jogador referência deste projeto foi e continua a ser Marco Verratti.
O projeto PSG a manter-se assim estará sempre condenado ao insucesso.
Como o Ricardo referiu e bem, é quase criminoso não aproveitar o talento de jogadores formados na casa como Nkunku, Adli ou Diaby, apenas Kimpembe se safou mais pela conjectura (acabou por beneficiar de Thiago Silva) do que por crença.
E num clube cheio de cristais e vedetas, a formação seria a pedra base para fundamentar o projeto e dar-lhe clareza.
Junte-se a isto um treinador de nível e talvez o PSG cresça pars o nível pretendido.
Neville Longbottom
Nao está intimamente ligado ao post mas acho que quem o PSG desperdiçou foi mesmo o Tuchel. Era o treinador ideal. Não é forte em maratonas (mas o PSG não teria dificuldades em vencer internamente com ele) e tem aquela capacidade tática e mental para decidir em mata-mata. Foi ele quem levou o PSG à sua primeira final da Champions.
Kacal
O PSG devia aproveitar melhor a formação que tem e apostar mais nestes jovens numa mescla com os craques, mas mesmo ao contratar tem que ser com mais critério. Sei que é aliciante contar com jogadores como Neymar, Messi e quem sabe CR7 mas não faz sentido. A apostar forte tem que ser em Mbappé e nos Haalands. Hakimi e Nuno Mendes foram duas contratações com critério, por exemplo. Ambos com muitos anos pela frente correndo tudo dentro da normalidade e com margem de progressão, mas sendo já dos melhores na sua posição. Outros o critério não foi tão bom. Mas realmente estes nomes desperdiçados foi muito mau. Pelo menos Diaby e Nkunku (este está a um nível altíssimo) seriam claras mais-valias no plantel neste momento, arrisco dizer que o segundo seria indiscutível.
Santos David
Nao sei se é erro meu mas como o Nasser pode ser primo do dono do City se um é do Qatar e outro da Arabia Saudita ? Entre estes dois paises ha muita rivalidade portanto nao acho que possam ser primos
Ricardo Lopes
Mas a verdade é que são primos e julgo que amigos.
Santander
Certo mas não acho que seja líder de balneário.. Ronaldo era a estrela do Real mas os líderes de balneário eram Casillas e Sergio Ramos.. Messi era a estrela em campo mas os líderes eram Puyol Xavi ou Iniesta.. Lewandoski é estrela em campo mas os líderes são Neuer ou Muller.. O Mbappe pode ser a estrela, mas nunca o líder sobretudo quando quer deixar o clube à força toda.. o mais próximo de líder que têm são o Marquinhos ou Verratti e nenhum deles é francês
Santander
*resposta ao xyeh
Santander
Não sou um hipernacionalista mas defendo desde de sempre que todas as equipas devem ter jogadores nacionais de referência.. qualquer colosso os tem e o PSG é mesmo a única excepção… Basta olhar para os vencedores da Champions nos últimos anos para ver que a principal ou algumas das principais figuras do balneário são jogadores nacionais ou com muitos anos de casa.. O PSG ainda mais precisa disto uma vez que a liga e o próprio clube não têm o peso de outros, por isso a possibilidade de haver jogadores que se acham maiores que o próprio clube acaba por ser muito grande
Joga_Bonito
O Mbappé é francês e é um dos melhores do mundo. Contudo até percebo a tua ideia, ele tem todo o ar de uma vedeta sem o mínimo de carisma. Atenção que não nego que seja muito empenhado e tudo o mais, mas carisma é outra coisa. O PSG não tem mística neste momento porque é tudo plástico, falta-lhe criar alma. O caso italiano foi a grande excepção parcial, onde os clubes foram comprados ainda no tempo do futebol romântico e conseguiram criar mística, até porque nesses tempos era mais fácil manter os melhores jogadores.
Hoje todos querem ir para o Real ou Barça, que goste-se ou não são clubes cuja mística e prestígio têm pouco paralelo no mundo, a única excepção foram os clubes italianos nos anos 80-90, onde um Milan e Juventus rivalizavam com o prestígio dos colossos ibéricos.
Fora isso, o PSG não tem o mesmo ar de prestígio e é por isso que o Mbappé quer ir para o Real, decerto não será para ganhar mais, porque o PSG bateria qualquer proposta dos merengues, mas pelo prestígio brutal que o clube tem.
Até mesmo o MU, City não têm o mesmo prestígio que um Barça ou Real e basta ver que tudo o que é jogador que lá joga se pudesse jogava no Real ou Barça. O Liverpool é o único colosso que rivalizaria em Inglaterra com os colossos a nível de prestígio e mesmo esse nao creio ser visto da mesma forma que os colossos ibéricos. Estes últimos parecem-me ser vistos pelos jogadores como clubes de um patamar de prestígio acima.
Ricardo Lopes
Concordo. Acho que a base tem de ser da nacionalidade do clube (ou pelo menos por jogadores com a mesma língua. O PSG tem em Mbappé e Kimpembe os jogadores franceses que jogam com mais frequência. O número deveria ser maior.
Xyeh
O Mbappé é francês, mas percebo a tua ideia.
Goncalo Silva
Curioso que todos os jogadores referidos na tabela estão na Alemanha (exceto Weah), e 3 deles estão no Bayer Leverkusen. Espero que Xavi Simons seja o próximo a rumar à BayArena ahah. Também não me importava de ter o Ebimbe por lá.
Tinha referido isto no outro dia, o PSG tem de aproveitar melhor a sua academia, com certeza que haverá sempre muito talento nas ruas de Paris.
Ricardo Lopes
Seoane de certeza que os aproveitaria com excelência. Dos melhores técnicos da Bundesliga, na minha opinião.