105m x 68m. Estas são sensivelmente as medidas de um campo oficial de futebol. Dimensões que impõem respeito, mas que quando englobam 22 jogadores, parecem tão pequenas. Afinal, nos dias de hoje, com o posicionamento tático tão estudado e analisado, o espaço para jogar parece cada vez mais pequeno.
Em 2019, os grandes clubes sentem muitas dificuldades para superar algumas equipas que renunciam ao jogo, preferem sair em transição uma ou duas vezes, mas que se organizam bem atrás. É por isso imperativo que estes conjuntos deem muita atenção à forma como devem atacar o adversário, e muito disso passa pela forma como vão ou não conseguir desmontar o posicionamento dos seus jogadores.
Pep Guardiola, em entrevista recente, afirmou que há umas zonas do campo que são muito difíceis para defender, mas que ao mesmo tempo só existem se houver um certo altruísmo de alguns elementos. O espanhol não se abriu muito mais sobre o tema, mas quem vê as suas equipas jogar sabe bem àquilo que se refere.
Os sistemas defensivos são geralmente ocupados por 3 linhas, não mais do que isso, com a primeira linha (a mais ofensiva) a limitar-se a ativar a pressão ofensiva à defesa contrária ou marcar os construtores recuados. Com isto, a organização sem bola das formações baseia-se muito em duas linhas, uma de 4 ou 5, e outra de 3 ou 4. Ora, quanto menor o espaço entre estas duas linhas melhor se defende, mas é tarefa de quem tem a iniciativa fazer esticar este espaço.
Aqui surgem as variantes x e y. O campo de futebol, bem como qualquer retângulo da geometria que conhecemos, é constituído por largura e comprimento. E quem quer gerar espaços nos adversários tem de trabalhar bem ambas as componentes. Se não houver largura no jogo da equipa, o adversário afunila-se facilmente no meio, defendendo bem a sua baliza; se não houver profundidade, os setores podem estar próximos e não permitir chegadas ao último terço.
Com isto patente, ficam determinadas duas ideias-chaves para um bom funcionamento do jogo posicional: 1) Ter jogadores bem abertos por fora, prontos a receber a toda a largura, e que ao mesmo tempo prendem a atenção dos laterais, obrigando-os a ficarem longe dos centrais; 2) Atacar a profundidade com os elementos ofensivos, para arrastar as marcações da última linha defensiva e estender o espaço para o setor intermédio. Cumprindo e executando bem estas regras, chegamos àquela que é a zona mais letal do futebol: o espaço entrelinhas.
Vamos analisar um recente encontro de pré-temporada entre o Man City e o Kitchee (campeão nacional de Hong Kong), em particular o lance do primeiro golo, marcado por David Silva. É certo que o adversário não era o mais exigente, mas vai dar para entender porque é que estas zonas são tão perigosas e ardilosas de proteger.
A parte fulcral da jogada começa com a bola em Angeliño Tasende, lateral esquerdo que está a pisar um terreno mais interior (algo frequente no modelo de Guardiola). Sané está bem aberto pela esquerda, fixando os laterais adversários, Bernardo faz o mesmo pela direita e Sterling, o avançado, prende a atenção dos dois centrais. No meio, entrelinhas, estão De Bruyne e Silva.
No momento em que Angeliño tem a bola é impossível que ela chegue a qualquer um dos médios, não porque estão a ser marcados, mas porque ambos têm linhas de passe intercetadas. Em teoria esta parece ser uma boa forma de bloquear os médios contrários, mas é exatamente aquilo que o City pretende encontrar, isto porque não é o onde que importa, mas sim o quando (os fãs de Dark vão perceber a referência). Por estarem atrás da linha média, impossibilitam que estes jogadores os consigam ver, uma vez que estes estão focados na bola, e começam então a aplicar a corrida do 3.º homem.
Na verdade, a bola vai chegar-lhes, mas não é agora. Para isso têm de surgir os dois V (variabilidade e verticalidade), que vão ser dadas pelo avançado. Angeliño (1.º homem) identifica o espaço onde a bola pode chegar, Sterling (2.º homem) vai ao encontro desse espaço para a receber e, ao mesmo tempo, Silva (3.º homem) ataca a zona deixada nas costas da defesa contrária, esperando só que o colega respeite o seu movimento e o deixe cara-a-cara com o guarda-redes para fazer golo.

No final de contas, de nada adiantava ter De Bruyne, Silva e Sterling entrelinhas sem ameaça da profundidade, e o mesmo se aplicava face às presenças de Bernardo e Sané em zonas tão largas do campo. Porque, mesmo tendo estado longe de tocar na bola, estes dois elementos, por terem sido tão altruístas, foram peça chave no desenrolar do golo e permitiram que fosse possível gerar espaços por dentro para os médios.
Pep refere no vídeo que não é fácil convencer certos jogadores que, por não estarem aparentemente a fazer nada, possam ser influentes nas jogadas, pois o adversário tem de ter a perceção que a bola lhes pode chegar a qualquer momento e temer que estes, por estarem a correr de fora para dentro, se tornem autênticas setas em direção à baliza. Só assim vão ser capazes de os respeitar, abandonar os seus posicionamentos interiores e conservadores, desproteger a cobertura aos companheiros e permitir que a zona entrelinhas se torne, de facto, o espaço mais letal do futebol.
Fábio Teixeira


22 Comentários
Rodrigo Ferreira
Referência a Dark, priceless. Post tremendo.
Kacal
Ou seja, o Angeliño mete a bola em Sterling que recebe e mete na profundidade no Silva no espaço? Fica simples de entender assim quando é bem explicado e simplificado. Que delicioso! Excelente texto Fábio, como sempre! Sempre um gosto ler e aprender contigo!
Footfan
Grande post !
Como é que recomendariam defender uma jogada destas? O central do lado direito fixar e o do esquerdo seguir o Sterling encostando sem dar espaço para se virar ou seguindo-o, mas dando algum espaço? Ou outra opção?
Eu sei que em jogo é muito dificil os jogadores perceberem isto em segundos, mas gostava de saber do ponto de vista de teórico
kurt
No meu ponto de vista falta um medio a vir ajudar na transição defensiva.
Fabio Teixeira
Boas! Por alguma razão é que o Pep diz que é muito difícil defender estes movimentos, porque se puxas de um lado, destapas do outro.
Mas isto era o que eu faria numa equipa minha: tinha sempre um 3o elemento (médio centro) à frente dos dois centrais em triângulo para não permitir que o adversário povoe aquele espaço entre linhas no meio!
Fixar o central da direita e ir o da esquerda ia dar ao mesmo, permitia a run behind do KDB. Agora, o que me parece que nunca pode acontecer é o Sterling receber e enquadrar. Se não dá para parar é preferível recorrer à falta. Naquela zona enquadrar nunca!
Footfan
Certo! Não pensei no lado oposto e até era óbvia que se não entrava no Silva, entrava no KdB.
Certo! O mais difícil é defender um jogador vindo de frente. Obrigado pela opinião e ao kurt também!
SenyorPuyol
Na minha opinião, não é aos centrais que se devem dar indicações nesta situação.
“Duplo lateral” (para algumas equipas até já é sem aspas) e/ou linha de 5 médios.
Footfan
Obrigado! Ainda não tinha ouvido falar da denominação duplo lateral
w0bbly
Do ponto de vista teórico é não te deixares arrastar por movimentações sem bola do 2º e 3º homem. Basicamente os dois centrais ficam no mesmo sitios com apoios orientados para a subida e um médio no espaço entre eles. Caso a bola entre no avançado que se move tem duas opções:
– ou baixas a defesa para não permitir a bola nas costas (dás espaço ao portador)
– ou condicionas o portador subindo a linha tentando colocar o oponente em fora de jogo ou sem condições para colocar a bola limpa
Do que eu aprendi e da experiência que tenho é a forma de condicionar este tipo de movimentação. Acho que a acção dos extremos é fulcral e a nivel defensivo podes fazer com o que os teus laterais estejam mais por dentro dando sempre a linha e nunca o corredor central. assim impedes entrada entre lateral e central e forças o afunilar do jogo pelos corredores
Footfan
Para mim esta solução também faz sentido. Obrigado!
Fake Plastic Fans
Esse último gráfico está giro, mas acho que nenhuma equipa no mundo se encontraria a defender 4vs5 na última linha da defesa contra o City :P
SenyorPuyol
Exactamente.
Fabio Teixeira
Isso não é verdade. Ainda ontem o Atlético fartou-se de meter jogadores entrelinhas, com risco de profundidade pelos avançados e onde andava a linha média? Também estão 6 contra 5…
Situações como estas acontecem várias vezes durante os jogos.
SenyorPuyol
Talvez por isso levaram 7.
Zidane e um Real Madrid com um meio campo Kroos-Modric-Isco não são propriamente um exemplo defensivo… Para não falar da abordagem dos laterais.
kurt
Que excelente texto, dos melhores posts sobre o jogo jogado que li nos últimos tempos. Muito muito bom, parabéns Fábio. Continua.
Antonio Clismo
Bom post. Sem os alas abertos é impossível ter espaço no interior onde a acção acontece.
E mais importante do que os extremos abertos é a agressividade dos atacantes, a velocidade execução dos lances.
Se demorem meio segundo a definir um lance, a defesa já se recompõe e perdem-se oportunidades de ferir o adversário.
ShutterIsland
Bom texto Fábio.
E mais uma lição de futebol, do maior pensador do jogo de sempre!
RicardoFaria
Dos melhores textos que li aqui!
Excelente Fábio, parabéns.
Saudações DesPortistas!
Flavio Trindade
Texto delicioso Fábio como já é apanágio.
De referir que para o Jonas Kahnwald seria facílimo desmontar qualquer sistema defensivo, já que metia a bola num lado e ia busca-la por outro…
Curiosamente e apesar do modelo ofensivo do Guardiola estar retratado na perfeição e teres isolado as virtudes do modelo face ao posicionamento defensivo adversário, o exemplo geográfico nao é contudo o melhor.
O City expõe-se muito mais às transições adversárias e apesar das goleadas que costuma aplicar na Premier League sofre muito mais do que por exemplo um dos grandes portugueses que em 90% dos seus jogos ficam instalados no último terço do adversário.
Curiosamente é bem diferente a forma de abordar os posicionamentos defensivos extremos dos adversários, quer por Benfica, quer pelo Porto ou pelo Sporting…
Fica a dica para a próxima análise!
kanjy6
Tudo isto para dizer que a posição que tem vindo a ser extinta é importantíssima, ora falo do TRINCO (não médio defensivo) na verdadeira forma da palavra!
Tal como em tudo, o futebol não foge e é cíclico, o que hoje deixou de estar em uso vai voltar a ser usado muito em breve…
kanjy6
P.S. no meu ponto de vista, para defender actualmente a melhor tática é um 433, em que sem bola a equipa fica num 4-1-4-1, pois permite teres alguma pressão na linha mais avançada, povoas muito bem o meio campo, tem os 4 defesas lá atrás, e o trinco fica o ocupar o espaço entre-linhas
André Dias
Óptimo texto. Quando li que o espaço entre linhas era o mais letal lembrei-me imediatamente de João Félix, é onde ele se sente melhor e joga com uma tremenda facilidade. Também gostei da referência a Dark. Tenho imensa pena que Guardiola esteja no clube errado de Manchester, estes posts do Fábio Teixeira seriam ainda mais apelativos (para mim) se fossem sobre o United.