Alejandro Grimaldo deve ser o futebolista mais subvalorizado da atualidade. Ninguém se lembrará dele quando for feita a lista das Bolas de Ouro, mas poucos ou nenhum terá realizado uma época tão perfeita: decisivo em praticamente todos os jogos da caminhada invicta do Bayer Leverkusen, campeão da Alemanha pela primeira vez, finalista da Taça e provável finalista da Liga Europa.
São 11 golos e 18 assistências, além de inúmeras oportunidades criadas, em 46 jogos – mas o mais importante é a dinâmica, a iniciativa, a velocidade, o entrosamento e a objectividade das suas ações, encaixadas na perfeição da máquina montada por Xabi Alonso, desde o primeiro dia da sua vida longe do Benfica. E numa posição “nova”, mais adiantado no terreno, num sistema de três defesas, libertando-o do desgaste brutal das 20 “piscinas” por partida que lhe exigiam por cá.
A necessidade de procurar um novo desafio pode ter sido incontornável, não se lhe podendo negar ao fim de oito anos no clube o que se considera natural para a carreira dos jovens formandos do Seixal, após meia dúzia de jogos acima da média. Grimaldo justificou com serviços relevantes uma venda lucrativa no final do ciclo, mas saiu a custo zero. Porque foi mal cuidado por uma direção negligente e com dificuldade para hierarquizar prioridades na gestão do plantel.
Há uma exuberância discreta no futebol de Grimaldo, uma capacidade de tecer a manta entre os intervalos do espaço, de aparecer onde ninguém o espera, de decidir antes de piscar o olho. É agora um futebolista total, capaz de definir em todas as zonas do campo, muito além do lateral habilidoso que se revelou na escola do Barcelona mas não tinha espaço na sombra de Jordi Alba. Talvez tenha sido por causa deste indefinível talento para executar sem dar nas vistas que demorou tanto tempo a chegar à seleção espanhola, onde também rapidamente começa a fazer a diferença e na qual poderá ser uma das figuras do próximo Europeu.
A continuidade de Grimaldo custaria ao Benfica muito menos do que um Jurasek qualquer, com quem se cruzou recentemente num Leverkusen-Hoffenheim, cujo filme podia bem documentar a incompetência gritante do departamento de escolha e decisão do Seixal.
A sua saída, a par da de Gonçalo Ramos, é o factor mais influente para os sucessivos fracassos da temporada encarnada e um enorme álibi para a culpa de Roger Schmidt. A “força G” que tem faltado ao Benfica e que tem sobrado ao Sporting de Gyökeres.
João Querido Manha (http://joaoqueridomanha.blogs.sapo.pt)


19 Comentários
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Mais valia ter lhe pago o que pedia e poupava se nos flops e afins afinal e no final de contas os custos ficaram ela por ela… e mais… se tivesse renovado e feito uma epoca como a que fez o benfas vendia o Grimaldo no fim de esta epoca por uma pipa de massa.
Meshuggah_SLB
Ponto prévio: eu gostava do Grimaldo e faço um balanço positivo da mais de meia década em que representou o Benfica e não vou tecer qualquer consideração acerca de rumores de que fazia parte de um gangue com Almeida, Pizzi ou Rafa a desestabilizar o plantel.
Dito isto, já chega de bater na tecla Grimaldo. Isto é simples, quer da parte dele, quer da parte do Benfica.
O Grimaldo teve um rendimento inconstante, sem prejuízo do tal balanço positivo que faço.
Nos anos fortes / de sucesso em que nos representou – 2 primeiras épocas do Rui Vitória, meia época do Bruno Lage, ano passado com o Roger Schmidt – foi sempre dos melhores da equipa, enquanto nos piores anos, ele também não contribuiu para melhor e em algumas alturas até foi dos focos de maior crítica.
Ele tem o virtuosismo de um ala/extremo com escola Barça – conforto de bola no pé, joga bem por dentro e por fora, qualidade técnica a rodos, compensação no meio campo, forte nos cruzamentos e bolas paradas – com lacunas irremediáveis a defender, tanto pela falta de altura e de estampa física, como por não ter velocidade de ponta que permita recuperar a posição rapidamente.
Em coletivos fortes do Benfica e como o do Bayer esta época, sobressai, especialmente com centrais e trincos que dobrem muito bem e num coletivo bem oleado, deixando espaço para a sua magia e qualidade técnica virem ao de cima. Na verdade, ele até é um desequilibrador nato e melhor que muitos extremos que andam por aí, rendendo bem no Benfica em contextos onde podia combinar com um Gaitan, Rafa ou Aursnes a virem para dentro (isto falando de parceiros de ala que teve em bons anos).
Em contraponto, com um extremo que não defende, nem combina, um meio campo em que ninguém cobre e centrais pouco rápidos e fortes na antecipação, ele era uma auto estrada.
Mas por tudo – títulos conquistados, algumas boas prestações europeias – o balanço é positivo porque ele contribuiu muito e é dos principais nomes do Benfica na última década e devemos estar gratos pelo que deu (ou ajudou a dar) ao clube.
No que toca à saída dele: ele já tinha uma relação de algum desgaste, foram 8 anos no Benfica desde que saiu do Barcelona, e conforme notei, também chegou a ser alvo de duras críticas. Noto, contudo, que ele nunca se escondeu, ao contrário de outros jogadores, tivesse ou não razão no que dizia, mas ao menos vinha dar a cara normalmente.
Aliado a isto, fizesse ele o que fizesse (e a época passada dele já foi de grande nível), a porta da seleção espanhola nunca se abria.
Por isso, na perspetiva dele, entendo que aos 27 anos, estando desde os 19 no Benfica, quisesse experimentar uma liga mais competitiva e espetacular, com um treinador da sua nacionalidade (e ex jogador histórico), ganhando mais dinheiro e com maior probabilidade de se abrir a porta da seleção. Ele certamente já tinha a sua sensação de dever cumprido para com o Benfica, até porque, lá está, também havia levado com muitas críticas (às vezes justas, é certo em cima).
Mas também não nego que ainda lhe tenha passado pela cabeça continuar, porque aqui estava na sua zona de conforto, e que pediu ao Benfica para refletir o seu peso/influência na equipa no salário.
E aqui chega a parte em que também não acho totalmente correto acusar o Benfica. Como eu disse, não obstante o Grimaldo ser um jogador muito bom, o rendimento foi algo inconstante e no ano passado tanto se reconhecia isso que muita gente por aí até dizia que ele só jogava bem quando era para renovar o contrato. Daí que a direção tivesse direito a fazer um balanço sobre se se justificaria aumentar brutalmente o salário dele, sob risco de ele voltar a descer de forma e não justificar, ficando um problema por resolver. Engraçado que fizeram o mesmo a jogadores como Pizzi, André Almeida ou João Mário e depois é vê-los arrastar até à pré reforma (e se é defensável que nenhum tem a qualidade de Grimaldo, menos verdade não é que também chegaram a ter sua influência em anos positivos e estatísticas).
Por isso entendo que o Benfica possa ter pensado que a renovação por altos valores se viesse a revelar um erro.
Verdade seja dita: este ano, mesmo com Grimaldo, poderia ter sido o mesmo falhanço, porque para mim o problema está na má gestão do balneário, na invenção de posições, em Di Maria e Rafa (mas muitos não estão preparados para esta conversa). Grimaldo sem Aursnes à frente poderia ter baixado novamente o rendimento, o que nunca saberemos, e a esta hora estaríamos a criticar o erro histórico do Benfica em dar mais meia dúzia de anos de contrato pagos a peso de ouro a um elemento que não justifica.
O erro do Benfica esteve sim na contração de Jurasek (nem vou comentar), Bernat para o estaleiro, Carreras muito verde, Ristic dispensado quando sempre que jogou, jogou bem. E o Schmidt por ir insistindo em Morato meses a fio.
Resta-me dizer que a saída do Grimaldo foi algo natural, fico feliz pelo sucesso enorme que está a ter no Leverkusen e por ter chegado à seleção espanhola, e agradeço os anos que defendeu a nossa camisola. Também acho que noutro coletivo poderia estar mais exposto e poderia não ter rendido o mesmo, e que se calhar o casamento com Xabi Alonso é perfeito.
Aqui não acuso particularmente o Benfica, mas tem de se corrigir o erro no verão, contratando um LE de qualidade e que permita Carreras (acredito muito no potencial dele do pouco que vimos) evoluir com calma.
Flavio Trindade
Das melhores análises que já li ao assunto Grimaldo vs Benfica
Francisco Parrinha Guerreiro
Concordo. Fico mais contente ainda por vir de alguém para quem o Grimaldo sempre foi o elo mais fraco. Fica bem reconhecer o erro.
Flavio Trindade
Francisco tal como explicado e muito bem pelo Meshuggah, o problema nunca foi o Grimaldo per si, mas as circunstâncias que o espanhol encontrou.
Provavelmente quem melhor percebeu a valia do espanhol até foi Rui Vitória que mudou o sistema para um 4x3x3 para libertar ofensivamente Grimaldo e deixa-lo mais cómodo defensivamente com Cervi à frente.
Depois quando tivemos colectivos fortíssimos com Lage e Schmidt em que se defendia muito subido e toda a gente pressionava o espanhol foi sempre dos melhores da equipa. Foi-o com Lage e voltou a ser no ano passado onde depois de Enzo e Ramos ser claramente o melhor.
Isso não invalida que noutros períodos tenha sido um jogador a menos porque sempre teve muito exposto e constantemente a fazer piscinas.
Com Xabi e neste Leverkusen está como peixe na água.
Joga quase como médio, pode deitar cá para fora toda a sua capacidade criativa, contribui com golos e assistências como gosta e tem atrás de si 3 defesas rápidos que o soltam defensivamente e um colectivo fortíssimo (o Leverkusen é para mim até a alguma distância a melhor equipa e melhor projeto futebolístico desta época).
É como o futebol sempre foi, precisas do contexto certo.
Nas vezes que o teve rendeu quando isso não aconteceu era uma fiabilidade.
Eu estou-lhe muito grato pelos anos que passou connosco e desejo-lhe as maiores felicidades.
Valentes Transmontanos
Está a jogar muito. Ainda ontem fez um belíssimo jogo. Mas convenhamos que fez épocas verdadeiramente fracas no Benfica (devido ao colectivo, claro, mas o colectivo também justifica estas duas últimas épocas dele). Foi demasiadas vezes passado a ferro por extremos minimamente rápidos e/ou fortes fisicamente. Hoje em dia joga a avançado (não estou a exagerar, é só verem que os laterais do Leverkusen estão constantemente na área adversária, muitas vezes ao mesmo tempo) e não tem preocupações defensivas quase nenhumas (quando as tem, continua a ser insuficiente, como ainda agora se viu contra o Estugarda). Isto juntando à grande qualidade nas bolas paradas e àqueles cruzamentos tensos justifica a grande época que está a fazer.
Fireball
Nunca me vou esquecer do tratamento que lhe deram nas épocas menos conseguidas do Lage, Veríssimo e Jesus. Ele, o Pizzi, o Almeida, foram todos insultados, acusados de destruírem o balneário e mil e uma coisas. Nunca foi valorizado pelos adeptos do Benfica enquanto cá esteve, fartei-me de ler comentários em como o Telles era melhor porque Grimaldo não sabe defender, como o Grimaldo não tinha qualidade para o Benfica e devia ser vendido. O Grimaldo foi-se embora a custo zero porque nunca se sentiu valorizado no Benfica, e grande parte da culpa é vossa. Sim vossa. De quem vai ao estádio assobiar os jogadores, de quem os insulta e critica jogo após jogo. Podem dizer o que quiserem que era melhor que o Jurasek. Mas se querem manter os melhores, primeiro têm que meter a mão na consciência e pensar se esta forma de tratar os jogadores e treinadores é ou não a melhor para o Benfica.
Gndias
Tb andou muitos jogos a encher chouriços
henry14
O próximo a reinar a Bundesliga depois de ser massacrado, trucidado, humilhado e vilipendiado por alguns adeptos do Benfica é o Senhor Chaimite no Bayern Munique ??
Francisco Parrinha Guerreiro
E entretanto o Mourinho vai chegar ao Natal de dedos apontados ao Rui Costa e afins porque não lhe deram o meia-esquerda que ele queria, nem o analista de primeiras partes.
Ainda tenho alguma esperança que o nosso presidente perceba de futebol e mantenha o treinador, e não vá atrás dos adeptos de bola, mas a cada dia de silêncio me desiludo mais.
henry14
???
Miguel Jack
Concordo e é injusto não ser já este ano Bola de Ouro!!
Já achava isso antes…
É tipo Roberto Carlos, mas mais rápido e melhor a defender
O Comendador
“Influência” nos fracassos é uma maneira muito triste de ver a vida!
Benfica não conseguiu os seus objetivos por uma série de fatores e certamente por mérito dos seus adversários também. Já vimos que no Futebol, só ter muito dinheiro não chega (enviam um abraço os adeptos do Chelsea ao ler isto mesmo), mas depois de uma época onde o novo treinador chegou, viu e venceu ninguém previa que as coisas não corressem da mesma forma na época seguinte. Se o Futebol fosse uma ciência exata tinha muito menos piada, não tinha?
O Grimaldo tem sido absolutamente fantástico e foi um gosto vê-lo esta época. Aproveitemos o momento e há que disfrutar do mesmo.
Aquele abraço!
SL
MuchoG
A história é estranha porque o próprio Grimaldo já afirmou que queria um novo desafio, que iria sempre sair independentemente do contrato oferecido, mas recentemente já disse que o Benfica não chegou aos valores que achava justos. Nunca vamos saber o que realmente aconteceu.
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Se Grimaldo exigiu valores acima do teto salarial do Benfica, acho que tomaram a decisão certa em não aceder. O problema prende-se (como sempre) com os substitutos.
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Jurasek tem argumentos para ser considerado o pior reforço da história do Benfica quando temos em conta performance em campo e o que custou, o que contrasta com Grimaldo que está a ser o melhor lateral esquerdo do mundo em 23/24. Se o Benfica se tivesse reforçado bem, a conversa seria outra.
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O mesmo com Gonçalo Ramos. 65 milhões é uma boa venda, o problema é que foram gastos 50 milhões em pontas de lança no espaço de um ano que juntos não chegam ao total de golos do Gonçalo.
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A % de reforços com sucesso tem sido muito baixa com Rui Costa, com os valores desembolsados a não pararem de aumentar, o que significa baixa probabilidade em substituir os craques vendidos, o que leva a estas situações de contraste e de fracos resultados desportivos. Veremos o que fazem este Verão mas as minhas expetativas estão no lixo.
Fireball
Não tem sido assim tão baixa, acho que estás com a ideia errada da % de acerto em reforços da generalidade dos treinadores / presidentes por esse mundo fora.
MuchoG
Desde 2021 (sem contar com empréstimos):
Di Maria (Sucesso)
Kokcu (Flop ao dia de hoje mas com espaço para melhorar)
Arthur Cabral (Flop)
Trubin (Sucesso)
Jurasek (Flop)
Marcos Leonardo (Esperar para ver)
Prestianni (Esperar para ver)
Rollheiser (Esperar para ver)
Enzo Fernandez (Sucesso)
David Neres (Sucesso)
Aursnes (Sucesso)
João Victor (Flop)
Schjelderup (Esperar para ver)
Bah (Sucesso)
Tengstedt (Flop)
Petar Musa (Sucesso)
John Brooks (Inconsequente)
Ristic (Inconsequente)
Yaremchuk (Flop)
Meite (Flop)
Gil Dias (Flop)
João Mário (Intermitente)
Rodrigo Pinho (Inconsequente)
Em 23 reforços temos 8 flops, 7 claros bons reforços, o resto são jogadores com poucos tempo de Benfica e que ainda é complicado tirar conclusões, ou que acabaram por não ter consequência, maioritariamente pelos valores que custaram e pelo papel que vieram desempenhar.
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Se quisesse ser mauzinho podia ir um ano atrás e ir buscar Pedrinho, Weigl, Everton e Waldschmidt.
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Para não falar que não é só o jogador em si mas o contexto em que vem. Continuar a encher o plantel de extremos e avançados por exemplo, quando há outras lacunas que precisavam de ser tratadas.
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Na minha opinão é um péssimo trabalho.
Francisco Ramos
Vou aproveitar a notícia do Grimaldo para falar de algo que o Porto tem a tendência a nunca fazer… contratar jogadores a chamado custo zero. Obviamente existe um prémio de assinatura mas ele também aconteceria numa transferência com valores envolvidos, apesar de mais baixo, pelo que estando nós em fair-play financeiro novamente e já não reféns dos empresários que foram sanguessugas na direcção portista (e estes coniventes), penso que deveria ser a nossa aposta para as próximas janelas de transferências.
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Por exemplo, o Porto tem a necessidade de um defesa esquerdo (acho que a melhor altura de vender Wendell é no final desta época, valorizado pela recente chamada à selecção), porque não apostar em Juan Miranda? Outro caso é precisarmos de centrais e termos Valentini a acabar contrato em Dezembro de 2024 que pode vir por valores bastante simpáticos e já é internacional olímpico, até se encontra encostado pelo Boca. Não sendo dos melhores mercados para esta aposta é algo que deveria começar a ser pensado.
Angelo GJ
Penso que Pinto da Costa e a sua entourage nunca exploraram esse mercado, pela questão do, não facas aos outros aquilo que não gostarias que te fizessem a ti (recordo-me de uma entrevista em que PdC afirmou que nunca contraria um jogador a custo 0 porque seria um desrespeito para com o seu clube). Felizmente, acredito que a nova direção ira olhar para o assunto de forma diferente, sendo que já se fala em Espanha, no interesse em Juan Miranda (dizem mesmo que é o clube mais bem posicionado, sendo o Benfica um dos outros interessado). Difícil dizer se é verdade ou não, ate porque falta perceber qual o plano de Villas Boas e que treinador deseja para executar as suas ideias.
Francisco Ramos
Pinto da Costa não era grande adepto desta modalidade porque não dava para encher os bolsos com as comissões ao Alexandre, ao Pedro, ao João e a muitos outros. Porque ele dizer que não era adepto era mais uma balela para inglês ver (e ninguém viu como mostram os resultados das eleições) e para piorar, estavam sempre a fazer-lhe a ele ultimamente!
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Ele até pagava regressos, como é o caso de Bruno Costa, só para agradar aos amigos! Ou comprava mais percentagem de passes a jogadores que já nem contavam ou iriam sair, como Quintero ou Aboubakar.
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Infelizmente não é um grande mercado para começar, 2023 foi muito mais forte, mas vamos ver se algo se aproveita.