Há qualquer coisa de profundamente irritante na normalidade com que Vangelis Pavlidis destrói defesas. É uma falta de educação, diria eu, para com os avançados modernos, esses rapazes cheios de tatuagens, penteados aerodinâmicos e celebrações ensaiadas no TikTok, que precisam de três oportunidades flagrantes para encostar uma bola para a rede. Pavlidis não. O nosso grego é de outra cepa, uma espécie de operário fabril do golo que chega ao escritório, pica o ponto e, no final do dia, apresenta uma folha de obra com 42 golos neste ano da graça de 2025.
Quarenta e dois. Leram bem? É preciso recuar a um tempo em que a televisão era a preto e branco e os calções dos jogadores pareciam roupa interior para encontrar tal desfaçatez. Há sessenta anos, meus caros, que ninguém no Benfica ousava profanar os registos sagrados de 1965. Nessa altura, o Pantera Negra, Eusébio da Silva Ferreira, marcava 43 golos num ano civil, depois de no ano anterior ter feito 53, lado a lado com o “Bom Gigante” Torres e os seus 49 tentos. Eram tempos em que os defesas podiam usar machados e a relva era, na melhor das hipóteses, um conceito teórico. Desde então, passámos um deserto de seis décadas. Tivemos artilheiros finos, tivemos o Tacuara e o seu pé de chumbo, tivemos o “Pistolas” Jonas a espalhar perfume, mas nenhum deles teve a audácia, a suprema lata, de chegar ao Natal com 42 “batatas” no saco.
E quem é o culpado desta heresia estatística? Um rapaz que veio do AZ Alkmaar, daquela liga holandesa que os céticos dizem ser defendida por bonecos de queijo Gouda. Diziam que ele não tinha velocidade para o nosso campeonato, que não tinha o “glamour” de um astro sul-americano. Pois não. Pavlidis tem o “glamour” de um tractor em dia de colheita. Ele não corre apenas, ele persegue; ele não remata, ele executa sentenças. Onde outros veem um muro de betão, ele vê uma frincha; onde outros pedem falta, ele levanta-se, sacode o pó e mete a bola na gaveta.
A ironia disto tudo é deliciosa. Andámos anos a chorar por um “matador”, a gastar milhões em promessas que acabavam emprestadas ou a aquecer bancada, e a solução estava num grego discreto, que jogou no Willem II e no Bochum B (sim, leram bem, Bochum B), construindo a carreira a pulso, longe dos holofotes das superestrelas. Pavlidis é a antítese do jogador moderno de plástico. Ele joga de costas, joga de frente, pressiona o guarda-redes como se a sua vida dependesse disso e, com uma frieza de bradar aos céus, finaliza com a esquerda, com a direita, de cabeça ou de barriga se for preciso.
Ver Pavlidis igualar registos que estavam guardados num cofre desde que os Beatles lançaram o “Help!” é a prova de que o futebol, por muito que a tecnologia tente estragar, ainda pertence aos que têm faro. Ele não veio para ser o novo Eusébio – isso seria uma blasfémia que nem os Deuses do Olimpo perdoariam -, mas veio sentar-se à mesa onde, durante 60 anos, só havia cadeiras vazias à espera de quem tivesse estofo para as ocupar.
Neste final de 2025, enquanto brindamos ao ano novo, convém levantar o copo de Ouzo (ou de tintol, que isto é Portugal) a Vangelis. Porque ele fez o impensável: transformou a baliza adversária numa tragédia grega para os guarda-redes e numa comédia divina para nós. Que continue assim, chato, trabalhador e goleador, a mostrar que, às vezes, para se fazer história no Benfica, não é preciso ser-se um mágico; basta ser-se um grego com a mira afinada e a fome de uma águia. Eusébio, lá em cima, deve estar a sorrir e a pensar: “Finalmente, alguém que percebe disto.”
Valter Batista


7 Comentários
Mike-UK
Pavlidis é, ao dia de hoje, o melhor ponta de lança a actuar em Portugal – por motivo simples e inequivoco: é, entre os demais, o mais inteligente.
Em execução nem Pau Victor, nem Clayton, nem Suarez nem Samu lhe ficam a dever grande coisa. Diria até que no esforço e entrega quer o Uruguaio quer o Espanhol do FCP têm indices de dedicação e participaçao superiores ao Grego (Pavlidis não se dá ao jogo a meio campo como Suarez, nem se movimenta em largura como Samu).
Em inteligência dá, simplesmente, goleada a toda a concorrência.
Rosso
O jogador com mais golos num ano civil pelo Benfica desde os anos 60? Não tinha ideia. E pensar que há um ano havia quem dissesse que era um dos maiores flopes de de sempre do Benfica…
Joga_Bonito
Só espero que isto sirva para calar a cassete riscada que não se deve comprar ninguém com mais de 23 anos porque já vem sem fome de vencer, não vai dar lucro na revenda e que se deve apostar cegamente em qualquer sub-21. Com o Gyokeres o paleio foi “é uma excepção e foi um num milhão”. Juntamente com o Pavlidis e outros mostra que o foco dos clubes deve ser criar plantéis vencedores e não mercados de venda de peixe para todos os anos saírem 20 e entrarem 20.
Flavio Trindade
Há muito bons avançados na liga portuguesa.
Tem sido histórico até Portugal comprar ou revelar(mais que produzir, mas ainda assim há bons exemplos) excelentes avançados.
E recentemente os grandes têm tido avançados de grande qualidade.
O Porto com Samu, o Sporting com Luis Suarez e Ioannidis, o próprio Braga com Pau Victor, e podemos dar os exemplos de Clayton, Pablo Felippe ou de Zebiri em clubes médios que teriam números ainda melhores caso jogassem em clubes mais fortes.
De todos Pavlidis é claramente o melhor.
Curiosamente é o melhor, não sendo o melhor em nada.
Não é o melhor finalizador, não é o melhor cabeceador, não é o que se movimenta mais, não é o melhor tecnicamente, não é o fisicamente mais imponente.
Mas consegue fazer tudo isso bem o que faz com que tenha uma gama de recursos que outros não têm.
Felizmente para o Benfica, o grego não é o ponta de lança mais jovem do mercado (o que retira muito do apetite dos tubarões), mas seria titular ou backup de rotação e com rendimento em qualquer clube do mundo.
Só não tem um rendimento ainda maior e é ainda mais decisivo, porque o Benfica desde que conta com o grego não soube mecanizar o seu jogo ofensivo para servir (e ser servido, porque o grego nos apoios é muito forte) o seu melhor avançado.
Amorim fez isso muito bem potenciando o seu model táctico e o jogo ofensivo mais em profundidade com Gyokeres, o Porto sempre o soube fazer quando teve matadores como Jardel ou Falcão que necessitariam de extremos que os alimentassem.
O Benfica ainda não chegou à conclusão que para retirar o melhor de Pavlidis e por consequência marcar muito mais golos, não será com extremos de linha que vai lá (não será cruzando bolas que o grego será mais efetivo), mas sim com médios interiores que consigam combinar por dentro, e uma segunda linha próxima do ponta de lança.
Curiosamente o crescimento da importância de Leandro Barreiro tem a ver com isso. Jogando mais subido consegue aproveitar para recuperar alto dando mais oportunidades ao grego, ou aproveitar os espaços que ele abre.
Sudakov deveria ser esse jogador mas tem jogado muito baixo ou flanqueado.
Caso o Benfica consiga melhorar o seu jogo interior, Pavlidis terá números muito melhores bem como toda a equipa.
Pavlidis é esse jogador. Não propriamente um finalizador, mas alguém que torna o jogo ofensivo melhor e os colegas melhores.
Mantorras
É o mais inteligente, o melhor taticamente e o que melhor le e liga o jogo.
Petrol
Isto. E mesmo ao nível de movimentações não sei não. O único que vejo a um nível semelhante é Suarez. A questão é que Pavlidis faz movimentações mais na procura de ligar o jogo da equipa e Suarez movimenta-se maioritariamente para pressionar o adversário.
pg1960
Pavlidis tinha uma grande probabilidade de ser um sucesso enorme aqui por duas razões.
Tem perfil físico que aqui faz mossa e acima de tudo …
Tinha números que o provavam
Enquanto que a aposta ganha de Suarez pelo Sporting foi na minha opinião muitooooo mais arriscada apenas por uma época fora do normal ( o mesmo se aplica a Ioannidis que também vai ser uma aposta ganha), Pavlidis tinha 3/4 épocas de grande nível já antes de ingressar no Benfica
Era óbvio !!! Que ia resultar. Parabéns ao Benfica pela movimentação inteligente