Ontem foi o dia das Seleções em Portugal. Estivemos em campo em quase todos os escalões (exceção feita aos Sub-15 e Sub-16). No panorama sénior, o escalão Sub-21 conseguiu uma vitória categórica no apuramento para o Euro da categoria e os AA, ainda que com uma derrota, tiveram um apronto de preparação.
No que diz respeito à formação, os sinais parecem preocupantes. Um dos escalões (Sub-17) conseguiu o apuramento para o Europeu ao derrotar a Alemanha (Campeã Europeia e Mundial em titulo) mas os outros 3 escalões (Sub-18, Sub-19 e Sub-20) perderam, curiosamente todos com o mesmo país (Dinamarca). Nem todas as derrotas são alarmantes, nomeadamente dos Sub-18, sendo um escalão de transição sem competição oficial e olhando ao jogo em si percebe-se que a geração 2006 tem qualidade, mas as derrotas dos Sub-19 e Sub-20 parecem indiciar uma tendência de perda de valor e capacidade.
Relativamente aos Sub-19, no último jogo do grupo, onde se jogava não só a presença no Euro da categoria mas também uma potencial presença no Mundial de Sub-20 de 2025, Portugal foi inferior em quase todos os aspetos de jogo comparativamente à sua congénere da Dinamarca, perdeu por 2-0 e quem viu o jogo, percebeu que foi um resultado que facilmente poderia ter atingido contornos de goleada. A equipa, apesar de ter alguns elementos de craveira técnica, demonstrou uma despreparação competitiva que à partida não se esperaria de um conjunto que nos Sub-17 esteve no Euro da categoria, sendo eliminada nas meias finais apenas por grandes penalidades. Será que houve estagnação? Falta de capacidade de escolha dos melhores elementos (Afonso Moreira não esteve presente, João Cesco valor emergente da AS Roma também não foi convocado, idem para João Muniz)? Incapacidade/incompetência do selecionador (mudou o sistema tático da equipa no ultimo jogo de 4-3-3 para 4-4-2? Na conferência de imprensa, o selecionador referiu “que já tínhamos sido derrotados 2 vezes com esta geração da Dinamarca e… pronto perdemos novamente” denotando um conformismo e um fatalismo nada condizente com o nosso prestigio. Portugal assim falha o 2º Mundial de Sub-20 seguido, já não esteve em 2023 com a geração de 2003 (talvez a mais fraca dos últimos anos) e volta a falhar 2025, interrompendo uma serie de 5 presenças consecutivas (finalista vencido contra o Brasil em 2011, Oitavos de Final em 2013, Quartos de final 2015; Quartos de final em 2017 e fase de grupos em 2019).


9 Comentários
Jasomp
Acho que a principal pecha é mesmo os treinadores da formação das nossas seleções. Ninguém percebe muito bem como lá estão e sinceramente, os que chegam ainda parecem pior que os que já lá estão.
O que provou o Oceano para chgar aos sub-20? O Lima que fez para pegar nos sub-19. Não concebo isto. E isto pesa porque a falta de preparação tática notou-se nos sub-19 contra a Dinamarca.
Flavio Trindade
Não há mal nenhum na formação em Portugal. Continuamos a ser dos países da Europa mais competitivos e a formar com mais e melhor qualidade.
Nos grandes clubes existe uma aposta que pode não ser brutal a nível de números mas é muito mais sustentada do que era há uns anos atrás e existe espaço competitivo para o crescimento e aparecimento dos melhores jovens quer no Benfica, no Sporting, no Porto ou no Braga.
Vitória, Boavista, Famalicão ou Rio Ave têm cimentado essa aposta também.
Contudo (e esse é dos maiores problemas para a formação) essa boa e sustentada aposta não é prática corrente, e mais de metade dos clubes continuam a ser entrepostos de estrangeiros e a beneficiar os negócios obscuros com empresários.
Continuo a achar que essa prática deveria ser imposta e que os clubes da primeira liga (pelo menos) deveriam seguir a lógica Uefa.
25 inscritos máximo (o restante teriam que completar com a formação), 4 jogadores formados no clube, 8 jogadores formados em Portugal (independentemente da nacionalidade).
Por muito que esse espaço competitivo tenha crescido na última década continua a ser manifestamente insuficiente para a qualidade do que se produz cá e para a qualidade do trabalho dos treinadores dos escalões de formação em Portugal.
No que às Seleções diz respeito, há alguns treinadores nos quadros das diversas equipas que foram arranjando uma cunha perpétua sem grandes condições para tal, e os bons quadros acabam por ir saindo para outras paragens.
De resto não há problema nenhum. É tudo meramente conjuntural.
Já vi gerações de enorme talento nem sequer serem apuradas para as competições internacionais, e outras com talento mediano e que se faziam valer de grande espírito de equipa a chegarem a finais. Vale o que vale
Veridis Quo
Parece-me que se está a olhar para a árvore, que neste caso são alguns maus resultados, e não para a floresta.
CABONG
Eu não teria tanta a certeza.
Falhar 2 vezes consecutivas o Mundial Sub 20 não acontecia com Portugal à 20 anos ( falhou 2001, 2003 e 2005 consecutivamente).
São factos
Daiuca
Saudações. Eu tenho de comentor isso. Sempre que há resultados menos bons, vêem sempre os arautos da desgraça, calma, respirem, dêem tempo aos miúdos, porque são apenas.. O pessoal adepto leva o futebol demasiado a sério (não quer dizer que não seja sério), mas por isso vê se situações como o Sérgio e o filho nos visinhos espanhóis.. Já foi um desporto que fui imensamente apaixonado, mas as pessoas estão a estraga la cada dia que passa!
Antonio Clismo
Não se passa absolutamente nada na formação em Portugal, aliás a nível de clubes as coisas estão bem, temos 4 boas escolas de formação (Braga a evoluir a olhos vistos) com equipas técnicas cada vez mais capacitadas e com tranquilidade para fazerem um bom trabalho. Também outras escolas têm evoluído, nos mais diversos níveis etários, por exemplo é inegável que o Estoril tem um esquema muito bem montado para o desenvolvimento e lançamento de talento na última fase de transição para sénior (entre os 18 e 21 anos) e outros clubes como o AD Taboeira por exemplo, têm feito trabalhos notáveis ao nível da triagem em idades sub12.
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A nível de captação é sempre possível fazer melhor. Seja a captar jovens para o futebol ou para outros desportos. Com uma criançada cada vez mais obesa e com um desporto escolar cada vez mais obsoleto é preciso fazer muito mais nesta área. Noutros países cada jovem pratica 2 ou 3 desportos ao mesmo tempo, em Portugal talvez apenas 1 em cada 100 jovens é federado em alguma coisa..
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Depois o acompanhamento a nível de desenvolvimento, é fundamental a gestão de expectativas e a competitividade inter-regional antes de pensarem sequer competir em contextos nacionais.
O Torneio Lopes da Silva continua a ser das melhores coisas que existem em Portugal para os talentos sub15. Pena ser tudo decidido demasiado rápido com poucos jogos entre associações distritais, deveria ser melhor organizado com possibilidade de mais crianças poderem entrar nesses programas de desenvolvimento.
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As competições nacionais de iniciados, juvenis e júniores em geral estão bem ponderadas (crucial terem subido a fase de campeão para 8 equipas em vez de apenas 4 como era antes, onde passavam o ano todo a passear).
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A Liga Revelação também é uma iniciativa pois acaba por ser uma autêntica “Escola Profissional” para os jovens que concluem o 12º ano (o escalão sub19, digamos e ainda não têm nível suficiente para ir para a Universidade (futebol sénior ou equipas B dos grandes).
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Agora, é inegável que a nível de seleções jovens, Portugal teve uma década em altíssimo nível (2010-2020) e nesta década aparentemente baixou o nível pois nota-se que ja não existe o rigor na formação das equipas técnicas que havia antes. Houve claramente um relaxamento e parece que as equipas técnicas das seleções jovens são para os amigos que não conseguem arranjar lugar em mais lado nenhum e quando dão nas vistas (Hélio Sousa, Emílio Peixe, Joaquim Milheiro, etc) saltam logo à primeira oferta que lhe aparece, o que revela que não devem ganhar muito a trabalhar para a FPF. Mesmo nos sub21 o Rui Jorge que tem feito um excelente trabalho tem relaxado, o que é normal, é impossível manter a mesma motivação e capacidade de trabalho depois de 10 anos a fazer a mesma coisa. O diâmetro da cintura do Rui Jorge indicam isso mesmo, aparentemente come-se bem na estrutura da FPF mas parece que não é suficiente para as seleções mais abaixo serem profissionais o suficiente para vencerem um país mediano como a Dinamarca.
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Deram um tacho excelente ao José Couceiro para ele organizar as seleções jovens em Portugal e nos últimos anos as coisas só pioram e os compadrios aumentam de época para época. Porque raio o Oceano foi parar a treinador da seleção sub20??
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AS MINHAS PROPOSTAS PARA MELHORAR O FUTEBOL JOVEM EM PORTUGAL (plano a 3 anos)
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1. Investir na captação (desporto escolar, vida ativa e desporto local)- duplicar o número de praticantes em idades sub12 em 3 anos.
2. Dar mais poder, dinheiro (aumentar o escutínio também) das Associações Distritais na seleção, triagem e desenvolvimento de atletas em idade intermédia (dos sub12 até aos sub16).
3. Acabar com os clubes que usam a Liga Revelação para fazerem de entreposto de jogadores estrangeiros. Está cada vez pior, esta época chegámos ao ponto de termos equipas a entrarem em campo com apenas 2 portugueses, o que não se adequa à missão de haver uma Liga Revelação. Se um clube entra na Liga Revelação apenas para testar 20 ou 30 atletas estrangeiros de agente A, B ou C para ver se alguém lhes pega na Europa isso não é apostar na formação e essas licenças deveriam ser automaticamente revogadas.
4. Maior flexibilidade nas cedências de direitos de formação entre clubes.
5. Despedir com efeitos imediatos o José Couceiro, Oceano, José Lima, Filipe Ramos e colocar nas mãos do Roberto Martínez e sua equipa a responsabilidade de estruturar novamente a pirâmide das seleções jovens em Portugal conforme as melhores práticas mundiais nessa área. Não me importo nada de ter treinadores estrangeiros a gerirem as seleções jovens, desde que os miudos evoluam, aprendam e ganhem jogos, passando para o patamar seguinte o mais bem formados possível.
6. Flexibilizar empréstimos de jovens entre cubes profissionais e cedências de % de passe para que possam ser optimizadas e expenciadas as suas evoluções em contextos profissionais de alto nível.
7. Alterar o regulamento das Ligas Profissionais em Portugal para passarem dos 8 atletas formados no país por plantel de 30 jogadores (mínimo olímpico) para 10 jogadores formados no país já no próximo ano e depois para 12 jogadores no ano seguinte (época 25/26).
CABONG
A formação em Portugal contempla os clubes e a Federação. Não podem ser dissociados.
Ora se está bem nos clubes ( que não está por algumas razões que tu mesmo enumeraste), não significa que esteja bem na Federação.
As tuas medidas são um bom começo a discussão.
1. É talvez de todas a medida mais importante. Tentar recrutar mais jovens a praticar desporto(nomeadamente futebol).A problemática aqui é que hoje em dia tens de largar 30€/mês para colocar miudos a jogar e nem todos tem capacidade financeira para isso.
Além de que é sabido que há muito talento nos miudos de classe media para baixo e são normalmente esses que ficam a margem por razões financeiras.
Outra agravante é que ninguem parece interessado em financiar a formação(a níveis como na Espanha)
2. Este ponto acaba por estar diretamente relacionado com o ponto 1.O financiamento que falo teria de ser obviamente estatal, de preferência através de redução do valor das taxas de jogo e das inscrições dos atletas que são autenticas fortunas.
3. A Liga Revelação tem pouca utilidade e os numeros mostram isso. É residual a amostra de jogadores que usam a Liga Revelação para atingir o patamar da I Liga.
Como dizes e bem estão a utilizar a Liga Revelação como barriga de aluguer para jogadores de empresários.
Extinguir a Liga Revelação parece me mais sensato.
4. O que entendes como flexibilizar? Há normativas FIFA a serem cumpridas das quais não podes fugir.
5. Efetivamente é preciso uma renovação nos quadros técnicos da Federação. Como disseste e bem os resultados na ultima década foram excelentes mas ultimamente começam a demonstrar uma tendência de declinio.
Sobre técnicos estrangeiros concordo plenamente. Competência não tem nacionalidade.
6.Elabora sobre flexibilizar. A mesma dúvida do ponto 4
7.Aqui irás encontrar a maior resistência, especialmente dos clubes.
Os clubes de topo(leia se da principal divisão profissional) não querem saber de futuro e de formação. Apenas querem saber do agora porque como se diz na gíria “futebol é momento”, mesmo que sejam eles os principais beneficiados de uma formação forte(quanto maior e robusta for a base, maior qualidade terá o topo).
Há uma medida que já se aplica nas competições europeias(24 jogadores dos quais 4 formados localmente e 4 formados no clube) que ainda não foi reproduzida domesticamente pelos motivos que enumerei no paragrafo acima.
Ainda que essa medida fosse obrigatória domesticamente e visto que em média, num plantel de 24 jogadores, apenas 15 ou 16 são utilizados com regularidade, qual seria o impacto efetivo?
Em 3 anos consecutivos, estás a propor passar de uma quota de 1 para 4 para 1 para 1 (sensivelmente). Achas que isso não seria pouco tempo e penalizaria competitivamente as equipas mais fortes, nomeadamente nas competições exteriores?
Francisco Ramos
Olhando um pouco a frio, não acho que exista perda de qualidade individual nas camadas jovens, há sim falta de capacidade técnico-táctica nas equipas técnicas nos diferentes escalões de formação.
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Por exemplo, os sub-19 não conseguiram o apuramento para o Euro e consequentemente para o Mundial, contudo temos o Porto nas meias finais da Youth League e o Braga chegou aos oitavos de final da mesma competição. Além disto o Sporting chegou às meias finais a época passada. Logo há talento quando comparado com os rivais europeus, há qualidade juntos dos jovens. E estes sub-19 actuais são os mesmos que em 2022 chegaram às meias finais do Euro Sub-17, pelo que o processo evolutivo principalmente a nível de clubes está lá.
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Já os sub-18 e os sub-20 é mais complicado porque parece-me que não havendo competição oficial a não ser alguns torneios, é mais complicado o fator motivacional, aliado ao facto que por não haver competições oficiais, ser uma espécie de equipa B dos Sub 19 e Sub 21.
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Temos jovens de enorme valor com menos de 22 anos, como Nuno Mendes, António Silva, João Neves, Chico Conceição, Fábio Carvalho, Tiago Santos, Roger, Gustavo Sá, Tomás Araújo, Mateus Fernandes, Dário Essugo, entre muitos outros, o que não temos é técnicos nas camadas jovens (salvo raras excepções) com a mesma qualidade parecendo que todos lá estão por compadrio. Falou-se de Joaquim Malheiro e no seu trabalho meritório mas que neste momento foi para o Qatar, por exemplo!
Antonio Clismo
Concordo com tudo.
Não esquecer o Famalicão que é o atual campeão sub19 em Portugal.
Nas seleções jovens é preciso parar de fazer da FPF a Casa do Artista para os amigos que estão sem trabalho e ninguém lhes pega. Em vez de convites para treinarem seleções jovens deveria ser por entrevista, tal como acontece em todas as empresas privadas.
Esta direção do Fernando Gomes entrou com toda a força e reformulou a FPF de alto a baixo (também não é muito difícil fazer melhor do que nos tempos do Gilberto Madaíl) mas agora parece que se acomodaram e estão todos muito relaxados e esse relaxamento vê-se a milhas.