O impensável aconteceu. Praticamente quinze anos após a criação da Taça da Liga, o FC Porto finalmente vence, pela primeira vez, uma competição que parecia estar, aos olhos dos seus adeptos, autenticamente amaldiçoada. Fora, é factual, criada precisamente a meio de um período de extraordinário domínio dos dragões – que foram acumulando campeonatos, Taças de Portugal, Supertaças e até, pasme-se!, uma Liga Europa sem por uma só vez provar o néctar dessa, como chegou a intitulá-la o próprio Pinto da Costa, “Taça da Cerveja”. Repudiada constante e fervorosamente por adeptos e responsáveis do clube e sendo fomentadora de um sem-número dos mais negros momentos da história recente dos azuis-e-brancos, só um milagre permitiria ao Porto escapar deste inglório destino. Esse milagre chama-se Conceição. O historial dos dragões na Taça da Liga confunde-se com a do declínio do próprio clube; e a heroica recuperação do mesmo por parte do actual treinador está perfeitamente espelhada nas suas prestações recentes nessa competição – recuperação essa que atingiu o seu auge na passada final.
À data da edição inaugural da Taça da Liga, o FC Porto era um clube manifestamente dominador. Após um percalço que sucede imediatamente após o fim da dourada era de Mourinho, parte logo o clube numa imparável série de conquistas nacionais que marcou o futebol português da segunda metade da década de 2000. Surge então em 2007 uma nova competição nacional; e pese embora a sua (sempre) duvidosa adequabilidade, esperava-se, naturalmente, que constituísse, aos olhos dos dragões, mais uma oportunidade para exercerem o seu poderoso domínio – afinal, era este o conjunto que sempre “jogava todos os jogos para ganhar”. O calendário graças a essa nova competição congestionado serviu, nos primórdios da mesma, de desculpa para as péssimas prestações portistas (que se tornariam logo evidentes aquando da eliminação no jogo de estreia do FC Porto na Taça da Liga ante o Fátima da segunda divisão); viam-se os dragões obrigados a resguardar os seus titulares para as competições mais importantes – nacionais e europeias. Até a super-equipa de Villas-Boas, que gloriosamente cumpriu todas as missões que assumira, não era super o bastante para lograr ser sequer competitiva na Taça da Liga. No rescaldo da era Vítor Pereira – esse que conseguiu a singular proeza de num par de temporadas perder mais Taças da Liga do que encontros do campeonato!…- desaba o Porto. À anterior sublime gestão desportiva e financeira segue-se o desnorte do pânico; e, qual karma, eis que a carência de competitividade que tão clássica já era no âmbito da jocosamente rejeitada “Taça da Cerveja” se estende e passa a abranger o futebol portista por inteiro – e se torna óbvia em todas as competições. O FC Porto, que sempre fora, aos olhos dos adeptos e responsáveis portistas mais aburguesados, “superior” ao mais recente troféu do futebol nacional, quedava-se então manifestamente inferior às demais: e desagua esse aburguesamento numa aristocracia decadente e imprestável.
É provável que a contratação de Conceição fique para a história como uma das últimas geniais decisões de Pinto da Costa. Abundantemente criticada, genial de facto foi – porque o presidente portista, mais do que ter contratado um técnico, revolucionou, com uma só pincelada, toda uma mundividência. Conceição reabilita o fervoroso, orgulhoso e dedicado espírito tão típico dos mais ilustres conjuntos portistas da era Pinto da Costa e das próprias gentes da cidade – achando futebolistas de nível apropriado onde eles dificilmente existiriam, resgatando elementos aparentemente irresgatáveis e fazendo das tripas coração para criar uma equipa digna desse nome. Tudo transforma o profundo desespero: e a superação do mesmo depende do apaixonado aproveitamento do que ainda resta; o aristocrata decadente teve então de virar operário de faca nos dentes para garantir a sua sobrevivência. E se a recuperação do FC Porto de Conceição foi evidente em toda a linha, do plano nacional ao internacional, ela foi, como sempre, manifestada igualmente pelas prestações do clube nessa tal Taça que não interessa a ninguém. Os azuis-e-brancos granjeiam uma regularidade nunca antes vista; discutem o título quase sempre até ao último cartucho; e finalmente sagram-se Campeões de Inverno pela primeira vez em 2023. O real mérito dos dragões, que jogaram, é um facto, um futebol muito menos agradável do que o Sporting na passada final, foi o de tê-la disputado, pela primeira vez, do apito inicial ao final, como quem disputa a final de uma Liga dos Campeões: um Porto a “jogar à Porto” – em plena Taça da Liga: conquista-a, porque se reconquistou a si mesmo.
Tiveram então os dragões de descer ao inferno para reavivar a alma portista que se esgotara; mas desse inferno só saíram, já munidos desse recuperado espírito, comandados pelo salvador Conceição. Tem-se pedido ao agora operário Porto que conserve e nutra o seu património de vitórias com a sagacidade do burguês e a fleuma do aristocrata – sem com isso, por se crer que aprendeu a lição, se entregar à arrogância, ao desleixo e à imprudência do passado. Mas o salvador Conceição é, afinal, meramente humano: a sua heróica revolução pode ter logrado verdadeiros milagres, mas apenas disfarçou graves deficiências de gestão que se quedam ainda irresolvidas e prementes como sempre. Precisará o clube de uma direcção “à Conceição” – ou de uma liderança que mergulhe ainda mais no espírito das gentes do Norte e alie, como elas, o espírito abnegado às mercantis virtudes? Nem os adeptos saberão dizer ao certo. Seja como for, por enquanto, Conceição está condenado a continuar a ser o Atlas que sustém sozinho o mundo portista – mas quando esse Atlas, como diria Ayn Rand, “encolher os ombros”, é de crer que nada haverá entre o clube e um medonho destino que parece iminente. Cabe ao clube louvar o salvador portista e aproveitar condignamente os frutos da sua obra, assim fugindo a sete pés do anunciado apocalipse.
Visão do Leitor: Miguel S. Rodrigues


6 Comentários
JR41
Sempre achei piada à constante desvalorização do adepto portista à Taça da Liga.
No entanto, foi aquela clássica desvalorização por não conseguirem ganhar. E bem que tentaram, há vários jogos em que o porto perde a contar para a Taça da Liga em que o FCP se apresenta na máxima força e o adversário roda a equipa.
Mas a competição não interessava!
poborsky7
Não vou mentir..deu-me graça ver o Porto a festejar efusivamente esta conquista quando durante anos a chamavam de Taça da Carica e outros nomes que tais menosprezando-a por completo
Syd Barrett
Comparando com os outros troféus foi certamente o menos festejado. Acho que o Conceição foi mesmo o mais “efusivo”. E falando com qualquer adepto do clube tens a percepção do pouco/nada que isso vale. Tão pouco, que nem um simples buzinão com o carro se ouviu hehe
Silvarinni
Normal, o desgaste das buzinas ao passar por um certo viaduto foi tal que não deu para tudo…
Neves
Tudo o que vos apraz dizer sobre este texto é isso?
É só triste e um desrespeito por quem o escreveu.
Xyeh
Para mim será sempre a taça da cerveja, é uma competição que não ligo nada e que foi feita para os grandes vencerem.