Não, não estou de volta com mais um artigo da rubrica Neuer’s e Kralj’s da Jornada. Reconheço a falta que faz nas vossas vidas, mas desta vez, sou obrigado a deixar os guardiões de parte para me despedir de um dos meus jogadores favoritos que alguma vez vestiu a camisola verde e branca.
O conceito de “jogador favorito” no futebol é naturalmente subjetivo e afasta-se, quase sempre, da mera contagem de golos/assistências ou do mediatismo ruidoso que alimenta o espaço público. Nem sempre escolhemos o goleador implacável ou o extremo vertiginoso que faz levantar o estádio com fintas incríveis. Muitas vezes, o nosso favoritismo recai sobre aqueles mais “silenciosos”, frequentemente subestimados ou esquecidos pelo público geral, mas que possuem qualidades tão refinadas que o jogo parece fluir de forma inteiramente diferente quando a bola lhes passa pelos pés ou pela sua simples presença em campo. No meu caso, é uma ligação puramente emocional, assente na admiração pela subtileza e pela mestria discreta. Desde a partida de Matías Fernández que não sentia este tipo de magnetismo por um jogador de campo no Sporting CP. Agora que este ciclo chega ao fim, sinto a necessidade de processar a despedida daquele que preencheu esse espaço com uma dignidade invulgar: Hidemasa Morita.
A verdade é que, a seguir ao impacto avassalador de Bruno Fernandes, Morita foi o melhor número oito que vi jogar no meu clube. Embora as suas caraterísticas sejam distintas do pendor puramente rematador de outros médios, o internacional japonês trouxe para o relvado de Alvalade uma harmonia rara. Morita nunca foi o atleta que corre desalmadamente atrás de tudo e de todos, numa agressividade vistosa, mas por vezes inconsequente. Uma das suas grandes virtudes reside no posicionamento exímio, tanto no momento defensivo como no plano ofensivo. O nipónico está, quase invariavelmente, no local exato onde a equipa precisa que esteja. Dotado de uma ambidestria notável e de uma classe intemporal, a sua capacidade para descobrir linhas de passe e desenhar saídas limpas sob pressão tornou-o no motor invisível do meio-campo leonino. Pode não marcar com frequência, mas a quantidade de assistências e, sobretudo, de pré-assistências que saíram das suas chuteiras reflete um entendimento do jogo que poucos conseguem acompanhar, trazendo uma mestria inegável a cada partida.
Como adepto que assume abertamente as suas preferências, reconheço que existe sempre aquela tentação humana de defender o nosso jogador predileto a todo o custo, relativizando qualquer exibição cinzenta. Contudo, rejeitando visões cegas ou análises absolutas, nunca neguei as fases menos fulgurantes de Morita ao longo do seu percurso. Afinal, o futebol vive de momentos. Dito isto, o balanço final destas quatro épocas revela uma regularidade impressionante, com um rendimento consistentemente acima da média e, na maior parte do tempo, num patamar de verdadeira excelência. Os seus erros, sejam estes grassos ou leves, contam-se pelos dedos de uma mão.
Podemos debater infinitamente as suas competências técnico-táticas, comparar com outros médios com melhores estatísticas ou se é ou não “bom jogador”, mas pessoalmente, foi a dimensão humana de Morita que o elevou ao estatuto de figura consensual e exemplar. O respeito absoluto que sempre demonstrou pelos colegas de equipa, pelos adversários, pelas regras do jogo e pelos adeptos nas bancadas transformou-o num modelo do desportista ideal (e raro) dentro das quatro linhas. Num meio tantas vezes contaminado pelo ruído e pelo conflito, o médio manteve-se completamente imune a polémicas, agindo sempre com uma correção extrema — por vezes até excessiva para a crueza competitiva do desporto. O seu afeto pelo clube construiu-se de forma moderada, longe dos holofotes e dos discursos populistas. Esse amor, guardado no recato do seu profissionalismo impecável, tornou-se finalmente explícito na sua carta de despedida, ao garantir com todas as letras que jamais vestirá a camisola de outro clube em Portugal. É uma declaração de fidelidade belíssima, que sela uma ligação afetiva inquebrável com Alvalade.
Não sei verdadeiramente quando voltarei a sentir este sentimento de favoritismo perante outro futebolista, nem quando voltará a surgir alguém capaz de preencher o meio-campo com tamanha elegância e clarividência. Os grandes jogadores passam, mas os laços que criamos com a forma como interpretam o desporto permanecem intactos na nossa memória. Morita despede-se do meu clube deixando um vazio difícil de preencher, mas também a certeza absoluta de que a sua classe e o seu respeito deixaram uma marca indelével na história recente leonina.
Nunca me esquecerei de Hidemasa Morita, pois o seu futebol inteligente e o seu caráter exemplar são a prova maior de que a grandeza de um jogador não se mede por estatísticas, mas sim pela nobreza com que honra a camisola que carrega ao peito e pela classe com que trata a bola.
Obrigado. Muito obrigado.
AdeptoImparcial


3 Comentários
Stravinsky
Diretamente do Japão, Arigato gozaimasu, Morita!
Jeco Baleiro
O Matías Fernandez era um grande craque (aquele golo ao Everton ou aquele de livre ao City) mas veio numa época negra do Sporting. Era um farol de criatividade no meio daquele marasmo.
O Morita chegou em silêncio mas foi um jogador absolutamente preponderante nestes 4 anos, teve um rendimento absurdo e sai com títulos (espero que se despeça com mais um no domingo no Jamor) e com grande reconhecimento de todos nós. Grande craque e um jogador muito querido pela curva. Obrigado Morita.
Christian Benítez
Um dos meus jogadores preferidos do Sporting, e ponho-o mesmo à frente do capitão Hjulmand nas preferências.
Chegou de mansinho, brilhou silenciosamente no relvado, sai como bicampeão e, espero eu, como uma “bitaça” no palmarés.
Só tenho mais uma coisa a dizer: arigato Morita-san 🙏