Dinamizador e criador do famoso Tiki-taka, Guardiola sempre se quis desprender deste termo que considera algo vago. “Passar a bola apenas por passar” não traduz o jogo que pretende dos seus pupilos.
Desde o Verão de 2017, o Manchester City muitos milhões em reforços, especialmente nas laterais. Kyle Walker, Benjamin Mendy e Danilo estão entre os defesas mais caros da história do futebol. Desta forma, e após um ano em branco (o seu primeiro), Guardiola reforçou este sector mais necessitado, substituindo a debilidade física dos veteranos que teve na 1.ª época por elementos que apresentavam outra frescura e potencial. Assim, finalmente, Pep estava pronto para os retoques finais à sua adaptação do grupo ao modelo de jogo pretendido.
A tática de Pep consiste fundamentalmente num jogo posicional à base da posse de bola, com o objetivo primário de obrigar o adversário pressionante a deslocar os jogadores da sua posição e esquema defensivo, de forma a criar desequilíbrios e espaços para colocar a bola. Neste modelo, os laterais e alas são cruciais. Para Guardiola, quer seja um sistema a 3 ou 4 defesas, as peças mais versáteis do jogo em ambos os momentos defensivo e atacante são os chamados “full back”, dos quais se requer tanto a progressão na ala em apoio ao ataque por cruzamento e movimentos na linha como deslocações para o interior do jogo em apoio aos médios conforme é necessário abrir ou fechar a formação.
Para quem não segue regularmente os jogos do City, o que acontece de forma muito ilustrativa é uma distribuição muito geométrica dos jogadores em campo, existindo uma série de triângulos à volta do portador da bola e poucos jogadores a sobreporem-se à linha de passe para terrenos mais adiantados, permitindo sempre o passe rasteiro ao invés de levantar a bola (que acontece quando existe 1 jogador entre o portador da bola e o colega desmarcado na vertical). O facto de haver também o favorecimento do passe rasteiro é importante numa equipa onde no último terço não existem jogadores de grande porte físico mas que primam pela capacidade técnica. De uma forma muito simplificada podemos distribuir o ataque e defesa do Manchester City em dois blocos, 5 defesas e 5 atacantes, não sendo sempre necessariamente os mesmos elementos. É aqui que entra uma das funções mais importantes dos alas da equipa dos Citizens.
Num dos esquemas de saída de bola, os dois laterais (p.e. Walker e Mendy) movimentam-se para o interior aproximando-se dos médios-centro ao invés de atacar a profundidade, nas costas dos extremos. Este é o primeiro passo para o jogo posicional de Guardiola onde com uma simples movimentação de cada lateral consegue superiorizar o meio-campo e fazer uma melhor retenção de bola enquanto cria os tais triângulos (que no seu conjunto formam um retângulo composto de 4 jogadores nos vértices + o portador da bola ao centro) representativos das linhas de passe no interior do campo. Dada a superioridade numérica no centro de jogo, é possível ter sempre um jogador livre para deambular e diminuir a necessidade do portador de bola ter de procurar soluções mais longínquas ou tecnicamente mais difíceis de executar. Estes laterais invertidos permitem que os médios ofensivos ou os extremos ataquem mais a largura e subam no terreno sem tantas preocupações defensivas, o que permite passar o jogo de posse para o último terço.
Desde o guarda-redes plenamente capaz de jogar com os pés, são muitas as opções de começo de construção de jogo desde trás com os extremos subidos ou mais recuados e com os laterais mais ou menos abertos, permitindo desde já uma fluidez e versatilidades características da tática do espanhol (embora uma equipa servida de um guarda-redes como Ederson também se possa dar ao luxo de colocar a bola desde a baliza até ao PL). Em qualquer caso de subida dos laterais ou movimentação interior, existe sempre um apoio importante do médio recuado (Fernandinho p.e.) ao nível de jogo dos centrais e do guarda-redes, muitas vezes também ele em função de “terceiro central”.
Além do favorecimento óbvio da circulação de bola da equipa, também há um bónus nesta forma de jogar, pois o aproximar dos laterais ao centro do terreno obriga a que o adversário tenha de puxar para dentro os jogadores que, por norma, se encontram encostados à linha de modo a compensar a inferioridade numérica criada na zona de posse ou subindo os médios interiores para a zona de pressão do portador da bola. Em ambos os casos, ocorre um reposicionamento de 2 jogadores adversários. Numa das situações 2 atacantes que auxiliam a defesa mas descompensam um futuro contra-ataque no caso de recuperação ou, noutra situação, 2 médios que por optarem pela pressão mais alta nos 2 alas invertidos vão deixar as costas com mais espaço para os jogadores ofensivos do City e colocação de passes de ruptura para uma defesa provavelmente em inferioridade numérica. Em qualquer das situações enunciadas, feita a destabilização no último terço existe apenas um critério (enunciado por Thierry Henry quando questionado sobre a tática de Pep) a cumprir: “Liberdade” de circulação, que se traduz em movimentações e deambulações mortíferas na área que quase sempre dão golo, fruto do exigente rigor tático até aí e fluidez que conduziram a uma situação de perigo praticamente inevitável a partir deste momento no jogo.
Daqui se retira também uma característica bastante óbvia das equipas de Guardiola: a polivalência e competência extrema exigida aos jogadores para jogarem “fora” de posição, quer sejam os laterais com movimentos interiores ou médios ofensivos com perfil playmaker e/ou extremos, assim como os defesas e guarda-redes com bom jogo de pés.
Mas não se entenda que o futebol do Manchester City é um composto híbrido de todas as funções originais dos jogadores, sendo que quando no sistema de 4 defesas também se observa Walker e Mendy subir no terreno para procurar zonas de cruzamento na linha de fundo ou na lateral, tal é essa a sua tendência natural e possivelmente onde se sentem mais confortáveis. A típica subida dos laterais no campo oferece mais liberdade aos médios criativos da equipa no meio, (sejam eles David Silva, De Bruyne ou Bernardo Silva) de modo a causar mais triangulações perto da área e furar a defesa para que jogadores como Leroy Sané e Sterling possam usar a sua verticalidade para receber a bola já perto da baliza de modo a marcar golo ou jogar em apoio ao ponta-de-lança.
Em suma, os conceitos básicos do futebol de Guardiola podem ser mencionados em alguns pontos:
- Posse de bola;
- Superioridade numérica no centro de jogo;
- Consequente destabilização do posicionamento adversário e criação de espaços nas costas;
- Linhas de passe sempre disponíveis e nunca sobrepostas;
- Liberdade após o último terço.
Analisada a receita vencedora da BPL, é possível ver a importância dos, inicialmente exorbitantes, valores envolvidos na renovação da defesa dos Citizens e, acima de tudo, a capacidade de Guardiola trazer um modelo de jogo que muitos achavam não se adequar ao poderio físico da liga mais competitiva do mundo.


Francisco Torgal


49 Comentários
Red John
Excelente artigo. É por aqui que o VM se diferencia dos restantes.
Fernando neves _36
Grande texto. Fantástico.
Tiago Silva
Os laterais são talvez a posição mais importante no sistema do Guardiola. Jogam de maneira bastante diferente, vão para o meio construir, fazem muitos movimentos interiores.
ederzituh
Excelente artigo. Para os apreciadores do Pep e do avassalador City da última época, saiu agora em Agosto um bom documentário acerca da história recente da equipa e focado em particular na época de 17/18, “All or Nothing: Manchester City”. Recomendo
ThatMan
Excelente, dos melhores que li por aqui.
Os meus parabéns. Só acrescentava o que o Henry falou à algum tempo num programa (não me recordo do nome) em que explicava a filosofia de Pep com a “tática” dos três P’s.
Continuem o bom trabalho.
Kostadinov
Muito bom sem dúvida Francisco, isto até é um tema que tem sido bastante explorado recentemente e é bom lermos algo de qualidade aqui sobre isso.
Para quem estiver interessado e ainda não tiver visto, deixo aqui um video onde o próprio Kyle Walker explica nas suas próprias palavras o que é que Guardiola exige dele numa defesa a 3 ou a 4, e como ele próprio percebe o que pode trazer ao jogo. Por aqui também se vê que porque é que a inteligência é o atributo futebolístico mais valorizado pelo Guardiola. Se eu não conseguir postar aqui o próprio video, como a plataforma do VM não permite o copy/paste de texto basta procurarem no youtube por “Kyle Walker’s Wing-Back Masterclass”.
https://www.youtube.com/watch?v=9DQPcxO6Tx0
CraqueTuga
Muito obrigado pelo vídeo. Conteúdo espetacular.
BadPitch
Se em vez de andar a analisar minuciosamente erros de arbitragem nos focassemos mais na criação deste tipo de conteúdo no nosso país, a cultura futebolistica poderia melhorar imenso. Muito obrigado pela sugestão do video
Sobe Alges
Ia colocar o vídeo aqui também. Vi há umas semanas e é uma entrevista muito boa.
Fernandes35
Acho que a adaptação de Delph foi um autêntico achado porque permite muita variabilidade. Provavelmente haverão jogos onde Delph vai para dentro e deixa o corredor para o Sané ou então Mendy para fazer o corredor todo e deixar o jogo interior para Sterling. Do lado direito ajusta-se consoante o esquerdo já que Walker cresceu imenso com bola e associa-se muito melhor por dentro do que Mendy, permitindo maior equilibrio e diversidade na troca de bola e movimentações!
SenyorPuyol
Muito bem explicado Francisco. Espectacular. Os meus parabéns!! ;)
De facto, a versatilidade que Guardiola pede aos laterais é incrível, isso e a pressão alta, na minha opinião, são as influências mais claras de Bielsa na sua filosofia. Mas onde superou o “mestre” foi na forma como os conseguiu aproveitar e articular com os médios, e isso foi uma das chaves dos sucesso daquele Barcelona.
Em relação ao City, acho que não é muito comum nele inverter os dois laterais em simultâneo (mas confesso que não tenho oportunidade de ver todos os jogos do City) por isso ia já fazer um reparo aos GIFs mas depois reparei que se referiam ao Bayern. Já agora, muito obrigado também por essa adição pois enriquece bastante a sua explicação, já de si completa.
Por último, para quem quiser complementar com imagens e esquemas simples a excelente explicação do Francisco, visitem o canal de Youtube Tifo Football e procurem pelos vídeos sobre Guardiola, há vários e estou convencido de já ter visto um que se focava precisamente neste aspecto dos laterais.
Mais uma vez, e porque nunca é de mais, obrigado Francisco Torgal.
Francisco Torgal
É verdade, o Guardiola pelo que vi por vezes sobe um dos laterais (quem tem Walker e Mendy tem de aproveitar essa característica) e deixa o outro fechar junto aos centrais (quando não é o Fernandinho a descer). Todo o esquema é demasiado complexo para conseguir abrangê-lo e obtei por não o esmiuçar mais porque provavelmente haveria mais probabilidades de “meter água” haha.
Também já vi esse canal, os videos são muito bons e até abrangem equipas portuguesas.
Ao teu conselho recomendo verem “All or Nothing: Manchester City”, um documentário espetacular sobre os bastidores desta equipa.
Obrigado SenyorPuyol!
SenyorPuyol
Exactamente Francisco. É precisamente isso!!
Nota-se que entende as diversas variáveis neste sistema, por isso, na minha sincera opinião, dificilmente “meteria água”. Mas entendo o receio, eu também não sou profissional desta área e sempre que debato táctica percebo que há qualquer coisa que me passou despercebida ou que tinha interpretado mal, mas por isso é que estes posts são tão bons, para poder debater e completar ideias.
Exacto, tem vídeos para todos os gostos.
Quanto à sua recomendação, apenas tinha visto um trecho (o do “Sit Down! Nobody Talk” haha), mas sem dúvida que verei o documentário completo. Obrigado!
Rodrigo Ferreira
Bom texto, Francisco. O Walker cresceu muito com bola (ao contrário do Danilo), mas o Mendy por exemplo ainda tem de aprender porque tem poucos jogos ainda. Se repararmos no golo do Newcastle vemos que estava mal posicionado porque não tem essa cultura de corredor central ainda. O Delph, que é um médio, dava mais qualidade nesse aspecto, mas o Mendy tem outras valências e acredito que vai crescer.
Estigarribia
Belo artigo, Francisco.
Ainda assim, há um lateral-direito que penso que também encaixava muito bem no Manchester City, de Pep Guardiola: Héctor Bellerín.
Saudações Leoninas
Kacal
Não diria que encaixa bem, mas diria que teria o potencial para vir a encaixar lindamente, tendo que trabalhar e melhorar uns aspectos, a chamada evolução. Nas mãos de Guardiola poderia virar top!
Estigarribia
Exato, Kacal. Nas mãos de Pep Guardiola poderia evoluir muito bem e lutar pelo lado direito com o Kyle Walker (na minha opinião, o Danilo é jogador com muito hype).
O problema de Bellerín foi ter sido treinado por um Arsene Wengere já ultrapassado.
Aliás, o espanhol é um dos meus jogadores preferidos e não me importava de o ver no meu Barcelona.
Saudações Leoninas
Kacal
Nisso estou totalmente de acordo, Estigarribia. Com Guardiola o Bellerín iria evoluir imenso e tornar-se top. Seria um concorrente de luxo para o Kyle Walker. O Danilo esperava mais dele e cá no Porto era máquina, mas não evoluiu o suficiente até ao momento. Eu também gosto muito do Bellerín.
Saudações DesPortistas
Turiacus
Estes são os meus tipos de posts favoritos, falam do futebol propriamente dito e é isso que os apaixonados do desporto mais querem ler e ver! O Guardiola é um dos meus treinadores favoritos, é um treinador fantástico, um visionário e a forma como ele põe as suas equipas a jogar são um regalo e o futebol que tem praticado com o City tem sido, para mim, o mais espetacular de todas as suas equipas. Triangulações constantes e rápidas, todos os jogadores têm linhas de passe ,sempre a jogar curto e apoiado e a trabalhar os lances e as jogadas desde trás, é lindo! O documentário feito pela Amazon sobre o Man City mostra algumas das palestras que ele faz antes dos jogos, nomeadamente em jogos contra o Man Utd e o Liverpool, e aí já podemos ter um bocadinho da forma como pensa e como trabalha o Guardiola. Dá para ver que o homem pensa futebol, respira futebol e constantemente procura formas de melhorar-se a si próprio e aos seus jogadores.
Praticamente todos os jogadores subiram de rendimento e cresceram imenso com o espanhol, o Walker é um dos exemplos mais flagrantes disso na minha opinião. Ele era bom mas um bocado bruta-montes, tudo mais à base do físico mas acho que se tornou um jogador bastante mais inteligente dentro do campo.
Uma vez mais, obrigado pelo post Francisco e espero que venham mais destes! Espero isso de ti porque eu sei que não conseguiria escrever e pôr este tipo de pensamentos em “papel” embora os perceba e os entenda minimamente.
Francisco Torgal
Obrigado Turiacus! Eu vou tentar escrever mais sobre estes assuntos sempre que o tempo o permita, pois também gosto de escrever textos de cariz mais simples e de opinião como fiz até agora. Não me sinto muito seguro a falar de tácticas apesar de estar confiante no meu conhecimento porque não sou profissional de futebol, em todo o caso arrisquei e, felizmente, o feedback está a ser bom! Acho que seria bom não só para mim mas para mais pessoas “arriscarem” tomar as rédeas desta temática, quem sabe um mini-projeto ou rubrica pontual sobre cada clube/treinador. Há muitos que comentam aqui que julgo serem bem capazes de apresentar textos muito bons.
Turiacus
Desde já incentivo-te a repetir a dose, gostei muito do texto e acho que conseguiste descrever o futebol do Guardiola muito bem e estes tipo de posts são do melhor que há! Seria um projeto certamente interessante, ainda por cima aqui no blog existem várias pessoas diferentes a acompanharem várias ligas diferentes, o que só por si seria útil para poder abranger mais equipas, mais treinadores, mais estilos de jogo diferente. Análises sobre a Juve do Allegri, do Atlético do Simeone e do Liverpool do Klopp seria interessante porque são formas de jogar e de ver o jogo bastante distintas.
PS: Recomendo-te a ver o All or Nothing que está espetacular!
Francisco Torgal
Boas sugestões de equipa que vou ter em conta!
Quanto ao “All or Nothing” comecei a ver há 2 dias haha
A melhor parte é o Guardiola dizer que, mesmo quando não tem a resposta para o problema, fala aos jogadores como se tivesse a solução para pelo menos transmitir confiança mesmo quando “não sabe do que fala”.
Turiacus
Olha, pensa nisso e quando tiveres mais tempo ataca em força ahah
É fantástico ele, não só a nível futebolístico como a nível pessoal. A equipa e o staff a viajar de avião, tudo a dormir menos ele, a viagem toda
a estudar mais futebol, sempre a procurar formas de melhorar ainda mais, sempre a respirar futebol.
ACT7
Bom artigo do Francisco, parabéns.
Já se notava esta tendência no Bayern de Guardiola (algo que não se via no Barcelona), no Bayern tinha 4 excelentes jogadores para fazer a posição nas alas Lahm e Alaba que são bons tecnicamente e muito capazes de jogar por dentro (tanto que o Lahm chegou a ser utilizado no meio campo e o Alaba desempenha esse papel na seleção), depois tinha à sua frente o Ribery e o Robben (muito forte a jogar colado à linha e a fazer aquele movimento que todos conhecem).
No City, a ideia foi a mesma, daí a adaptação do Delph a lateral esquerdo (que esteve bastante bem), o Walker adaptou-se bem a este estilo e fez uma época muito boa. Na minha opinião, o Mendy parece que ainda não está familiarizado com esta forma de jogar (a lesão explica muita coisa), também me parece que o francês lhe falta alguma capacidade de passe, mas é um jogador muito rápido e muito forte fisicamente.
SenyorPuyol
No Barcelona também aplicava esta ideia, principalmente com Dani Alves, mas tendia a fazer a inversão para dentro em zonas mais avançadas do campo e não tanto na primeira fase de construção.
Nesse caso, em vez de recuar Busquets para a linha dos centrais, o lateral oposto fechava no meio e os centrais deslocavam-se para equilibrar a linha de três, Busquets actuava como um dos interiores (usualmente com Xavi), para dar a tal “Liberdade” de circulação ao terceiro médio no último terço.
De resto, concordo com tudo, e também acho que a adaptação de Delph correu muito bem precisamente pela adaptação à ideia que Pep procurava implementar.
ACT7
Sim, mas o que o Dani Alves fazia era mais para aproveitar a capacidade do Messi, Iniesta, Xavi, etc. em colocarem bolas entre o central e o lateral adversário, por isso se via muitos golos do Barcelona onde o Dani Alves cruzava rasteiro para trás. Acho que é isso que te referes não?
SenyorPuyol
Em parte. Isso que referiu é a exploração da profundidade que por exemplo Jordi Alba também fazia na época passada por ter Iniesta a fixar as marcações do lado direito da defesa.
O que me referia com Dani Alves era mesmo o jogar por dentro do bloco defensivo e posteriormente sim, invadir essa zona entre o central e o lateral na fase de definição.
No City, como o Francisco apresentou, os laterais adoptam esse posicionamento mais interior na primeira fase de construção, no caso do Dani Alves no Barcelona, a inversão ocorria já na fase de ataque organizado para criar o desequilíbrio necessário para uma eventual ruptura da estrutura defensiva adversária.
A tal primeira fase de construção no Barcelona ficava, em termos de modelo, a cargo de Busquets e Xavi.
Ze Maria
Obrigado pelo artigo Francisco.
Engraçado que eu já estudei vezes sem conta este City do Guardiola e também reparei na ocupação do espeço central por parte dos laterais.
Este artigo enuncia bem o início da construção ofensiva do City, mas penso que, na hora de finalizar, há um trabalho muito forte que é feito pelos avançados (nomeadamente quando Jesus e Aguero coincidem no 11), nomeadamente a capacidade deles em baixar um pouco no terreno para explorar o espaço criado anteriormente (algo difícil de fazer com pontas-de-lança diferentes como Lewandoski ou Benzema por exemplo).
A outra grande chave do City foi a abordagem ao mercado. Cada jogador foi pensado para construir este modelo. O City de há 6/8 anos contratava à parva. Hoje é muito criterioso e isso também faz a diferença.
Gundogan é também um excelente movimento nesse sentido (fora os laterais claro). Gabriel Jesus idem.
A questão do GR também me parece relevante. Melhor que o Éderson só mesmo Ter Stegen para este estilo de jogo, mas o Éderson é também um dos melhores do mundo e não deve muito (ou nada) ao alemão entre os postes. Outros grandes GR (estou-me a lembrar de Oblak e De Gea por exemplo) já seria um downgrande neste estilo de jogo, sendo que acrescentariam noutras vertentes claro. Sendo que Ter Stegen é inatingível, Éderson foi excelente também.
SL
Pedro Almeida
Parabéns pelo excelente texto, sempre bom ver estas análises no Visão de Mercado.
Pessoalmente não acreditava que o Guardiola fosse tão bem sucedido na Premier League e não porque o seu estilo de jogo não se adequar à liga, nem por falta de qualidade obviamente. Tinha quase a certeza que iria ganhar a liga eventualmente mas fazê-lo da forma que fez foi impressionante pois numa Liga em que todos os jogos, mesmo contra equipas mais fracas, poderiam cair para cada lado o espanhol criou uma equipa capaz de arrasar qualquer adversário.
Também verdade seja dita tem o melhor plantel da Premier mas potenciou jogadores para níveis competitivos não antes alcançados por estes. De Bruyne, Sterling, Fernandinho, Otamendi, Walker são os casos mais evidentes.
É verdade que na Champions não esteve tão bem mas perdeu para o finalista vencido e muitos dos seus jogadores não tinham grande experiência a jogar numa fase a eliminar na Champions, mas penso que este ano são capazes de chegar às Meias se continuarem a jogar como têm feito.
Tenho pena é que se o domínio em Inglaterra continuar, a liga vai perder imprevisibilidade de quem poderá ser o vencedor mas pelo menos este ano o Chelsea e o Liverpool parecem dispostos a contrariar isso. Já o United para muita pena minha, pois é o clube que mais gosto em Inglaterra, parece estar a ficar para trás porque o Mourinho não está a conseguir potenciar os seus jogadores para aquilo que sabem.
O plantel tem muito talento que não está a ser utilizado da melhor forma e cabe ao Português contrariar isso. Espero que abra os olhos a tempo e volte a colocar o United no topo do futebol Inglês.
Por fim deixo o vídeo do Guardiola a falar do posicionamento dos seus laterais que fez recentemente.
https://www.youtube.com/watch?v=_PwpdV82F3A
Ze Maria
ahah repara que o Guardiola só menciona o Klopp e o Pochettino.
Os únicos com eles no sítio para enfrentar o Pep olhos nos olhos.
É lindo ouvir este gajo falar de bola.
Brutal, obrigado mesmo!
Pedro Almeida
Enganei-me no video era este.
https://twitter.com/footballscruti1/status/1035258123391561728
Ze Maria
Eu percebi, ele fala da vertente táctica, mas não menciona os laterais.
De qualquer forma é bom perceber o que ele espera da próxima época, haver sempre espaço para os jogadores evoluirem, falou também do jovem Foden e das variantes tácticas que vai assumir (eles queriam muito falar do 541, embora o Pep tenha frisado no fim que vai priveligiar o 4231).
Perdi 15 minutos do meu trabalho a ver o outro! Está fantástico. É muito bom quando ouves os melhores do mundo falar daquilo que sabem, sobretudo quando tem a arte oratória que este menino tem.
Agora só quando chegar a casa é que vejo este.
Ze Maria
Acreditavas que ele ia vencer a liga mas ao mesmo tempo não ia ser bem sucedido?
Pedro Almeida
“tão bem sucedido”
Eu não esperava que dominasse a Liga da forma como fez.
Ze Maria
Peço desculpa, percebi mal.
Turiacus
Vi esse vídeo recentemente, o homem sabe tanto! Em Inglaterra existem programas tão bons em que se analise o jogo e os pormenores tácticos do mesmo ao pormenor e ao detalhe, é uma pena que em Portugal não haja disto e, muito provavelmente, nunca irá haver.
Pedro Almeida
Em Portugal é mesmo muito difícil acontecer quando maior parte dos adeptos prefere falar sobre arbitragens e casos extra futebol.
Mas online já se vê mais gente interessada nestas análises o que é sempre bom mas o problema é que os jornais continuam a tentar “agradar” a maioria e a produzir um produto com pouco conteúdo informativo e útil.
Talvez um dia aconteça, por agora é apenas uma miragem.
Turiacus
Sim, cá acredito que seja praticamente impossível fazer uma coisa semelhante! O Luís Catarino por vezes faz algumas análises tácticas na Sporttv e deve ser dos poucos que o faz aqui em Portugal, muito sinceramente. E certamente que as audiências desse programa não são nem 1/10 dos programas do género do prolongamento.
A mentalidade e a cultura desportiva tem que evoluir imensamente para uma coisa dessas ser possível cá em Portugal!
Ze Maria
Em Portugal, este programa tinha uma audiência que era 1/10 da do Prolongamento.
masterDC
Obrigado por este post Francisco! Estes posts são de qualidade e é devido a estes também que torna o VM num excelente blog. As coisas que se aprende aqui são fantásticas.
Kacal
Que artigo fantástico, Francisco! É este tipo de posts e discussões que queremos no blog, isto sim é futebol. E eu bem preciso de posts destes para aprender mais, nunca seria capaz de escrever algo assim. Não que não tenha conhecimento porque muita coisa percebi e sei até, mas as designações direitinhas, tudo tão bem explicado e os gifs a acompanhar dão uma qualidade enorme ao artigo e isto ajuda imenso a aprender mais. Muito Obrigado e venham mais destes Francisco!
Walker evoluiu imenso com Guardiola, não que ele já não fosse imponente e rápido fisicamente e que não subisse bem no terreno em profundidade, mas aprendeu a ser mais inteligente a jogar, a cansar-se menos em certos momentos e também a nível de jogo anterior, isso tornou-o mais completo e evoluído, neste momento é sem duvida um lateral mais forte e um dos melhores na sua posição. Mão de Guardiola também.
Acabo a dizer que a força da técnica ganha à técnica da força, a meu ver. Neste caso a inteligência e capacidade técnica e táctica sobrepõe-se ao físico e daí o domínio do City de Guardiola, muito bom.
PS: Pediste David e aqui tens um post do Francisco, eheh.
David Gomes
É verdade ahah. Um obrigado ao Francisco! Post bastante esclarecedor. No final de contas o cérebro sobrepõe-se ao físico, sendo que Guardiola é o exemplo máximo disso neste século. Ninguém tem um modelo de jogo com um cunho tão pessoal mas ao mesmo tempo tão competitivo. É fantástico explorar estas nuances que ele implementa na equipa. É fácil ver que existem sempre várias linhas de passe para o portador da bola poder tomar a melhor decisão mas perceber como isso é conseguido (e ainda mais explica-lo) já é bem mais difícil. Isto é muito bom.
Kacal
Lá está, David. Concordo que o cérebro sobrepõe-se ao físico, não apenas no futebol. Cá em Portugal o meu Porto foi campeão com mérito, mas também houve demérito dos rivais, havendo um Guardiola no Benfica não teríamos sido campeões, daí que ache o RV um bom treinador, mas só. É muito bom noutros aspectos, mas no técnico-táctico não é acima da média.
Mas sim, perceber e explicar é muito mais difícil de fazer, daí que eu diga que sei e até tenho conhecimento, mas perceber ao pormenor e explicar já teria mais dificuldades e este post foi excelente nesse sentido e todo o mérito vai para o Francisco. Um Obrigado a ele realmente! Ahah
Francisco Torgal
Obrigado! Eu li o feedback de algumas pessoas no outro artigo do VM e tinha este artigo meio parado e não sabia se o havia de enviar pois também eu não me sinto plenamente confortável a falar de tácticas não sendo profissional da área.
Kacal
Uma coisa que te aconselho é não pensares assim, se tens algo na mente e queres publicar, vai em frente e força. Cá estaremos para debater se acharmos que algo está mal ou menos bem. Não é só os profissionais da área que percebem e podem falar, por isso sempre que tiveres artigos destes,
publica!! Nós só agradecemos.
Francisco Torgal
Pode ser que fique mais confortável daqui para a frente, obrigado pelo incentivo! Dada a tua “paixão” nos comentários acho que devias dar uma oportunidade ao Visão do Leitor também. Se quiseres fazemos um artigo conjunto sobre o teu Porto hehe
Kacal
Espero que fiques porque tens todo o conhecimento e inteligência para fazer destes artigos, foca-te no que te sentes mais confortável, mas continua! Não tens de quê, só fui sincero!
Quanto ao resto, agradeço mas sinceramente não acho que seja a minha “praia”. Sei lá, eu considero ter conhecimento, mas fazendo uma analogia, sou mais aquele jogador que chega ao topo por uma junção. Há aqueles que têm só talento (conhecimento), outros têm só mentalidade e raça (inteligência e parte humana), outros têm uma junção de tudo e eu considero-me esta última e foi devido a tudo que cheguei ao topo (sou dos mais reconhecidos aqui), mas considero que foi mais pelas minhas partes mentais e humanas, embora tenha o meu conhecimento.
Mas há pessoas conhecedoras que não dão bons treinadores e eu apesar de conhecedor talvez não desse um bom escritor do “Visão de Leitor”, prefiro estar por aqui nos comentários a ler os visões de leitor e aprender mais e mais. Mas estou sempre disposto a experimentar coisas novas e aventurar-me por isso fazer um artigo em conjunto seria algo que até aceitaria de bom grado e daria o meu melhor, seria até divertido. Sobre o tema certo e em que pudesse contribuir bem, obviamente que sim. O meu Porto talvez, eheh. Mas gosto também de estar por aqui e aprender mais e tornar-me mais forte nesse sentido. Mas muito Obrigado pelas palavras!
RafaMota97
Kacal, o teu texto fez me pensar no Bellerin um jogador rapidíssimo que se enquadra bastante no ataque mas depois falha nas decisões
Kacal
Sem duvida, Rafa. Pensaste e pensaste bem. É por isso que discordo quando chamam de banal ao Bellerín e digo sempre que nas mãos de Guardiola iria tornar-se um super lateral, até por ser ainda jovem.
Tem a qualidade e a capacidade física para ser top, sobretudo a velocidade. Mas precisa de evoluir. Com Guardiola iria tornar-se mais inteligente a jogar, ou seja, saber quando deve atacar e quando deve manter a bola, jogar mais simples, saber quando deve imprimir a sua velocidade e quando deve resguardar-se. E ainda aprenderia outras valências como o jogo interior. Juntar ao seu potencial a essa aprendizagem seria o “casamento perfeito” e aí sim poderia ser top. Mas não o considero banal, o potencial está lá e apenas precisa de trabalha-lo e um treinador que o ajuda nesse sentido seria excelente.