Todos os adeptos reconhecem a posição de Guarda-Redes como a mais ingrata do desporto. Encontram-se familiarizados com a lenga-lenga do costume: se um avançado falhar vários golos cantados, mas marcar um, mesmo que não seja o golo da vitória, a bola no fundo das redes é rapidamente elogiada ao passo que os falhanços caem no esquecimento; se um guardião passar os noventa minutos da partida a defender “tudo e mais alguma coisa”, mas sofrer um único golo onde falha de alguma maneira, mesmo que com culpas partilhadas, leva com críticas avassaladoras em cima e o resto da equipa é ignorado.
É sempre diferente jogar em casa dos “grandes”.
Todas as épocas, sem exceção, há prestações extraordinárias de guardiões de equipas “pequenas” em casa dos candidatos ao título. Daqueles jogos de deixar qualquer adepto caseiro com os cabelos em pé e extremamente frustrado com a “falta de eficácia” da equipa que, muitas vezes, é mais devida à exibição soberba do guarda-redes – naturalmente menosprezado nas análises pós-jogo – que incompetência dos adversários. FC Porto e Sporting tiveram vida difícil contra Estoril e E. Amadora, respetivamente, sendo que Marcelo Carné conseguiu mesmo ajudar a equipa a conquistar três pontos surpreendentes, ao passo que António Filipe esteve perto. Carné começou por defender um penalty aos 6’, mas foi a performance geral segura e mais um par de boas defesas aos 45’+1’ e 49’ que realmente mantiveram o sonho vivo dos visitantes modestos. Começa a demonstrar as razões por detrás da substituição de Dani Figueira que tinha deixado a desejar em alguns jogos. Já António Filipe provou que aos 38 anos ainda é possível brilhar com defesas estupendas – o próprio Carné também já não caminha para novo (33). Não evitou a derrota, mas foi claramente o que mais tentou adiá-la. Boa parada aos 7’, mancha firme aos 56’ e duas defesas monstruosas aos 81’ e principalmente aos 88 – esta última dificilmente não estará presente num Top10 de melhores defesas do campeonato em Maio. Duas prestações que devem servir de inspiração para os guarda-redes da nova geração.
Vamos lá falar de livres diretos…
Muito se tem discutido esta época, principalmente nas últimas jornadas, de bolas paradas, nomeadamente livres diretos encostados à linha da grande área, tanto mais centrais como descaídos para um dos lados, assim como a formação das respetivas barreiras. Comecemos por um esclarecimento importante: contrariamente ao que muitos poderão pensar, os guarda-redes *não* são os responsáveis absolutos por todos os fatores que influenciam a constituição das barreiras, sendo o número de jogadores que a formam e o posicionamento da mesma em relação ao local da bola, os únicos aspetos que podemos admitir serem responsabilidades totais dos mesmos. Outros fatores como quem realmente se junta à barreira, a ordem posicional relativa às alturas de cada membro, se esta salta ou se se mantém colada ao chão, se um jogador se deita atrás da mesma ou até se um jogador é colocado no poste mais afastado do guardião… são aspetos frequentemente definidos em treino pela equipa técnica. Se o guarda-redes pode alterar em campo decisões pré-definidas? Com certeza! Se pode ser este a decidir todos estes aspetos mencionados acima? Sem dúvida! Tal como os jogadores de campo também podem decidir bater uma bola parada de uma forma que lhes apeteça no momento ou passar/rematar quando não é suposto, mesmo que não seja o que foi treinado e pedido pelo treinador. Se é instinto ou desconcentração, acaba por depender no resultado da ação. Como não se sabe ao certo quem toma estas decisões todas em lances específicos – como exemplos recentes, temos o livre do Estoril contra o Porto esta jornada, o do Gil Vicente contra o Braga na anterior e os dois do Farense contra o Sporting na jornada 7 – os adeptos caem no bode expiatório mais fácil, ou seja, o homem das redes. Pessoalmente, acho estranho a falta de uso do jogador por debaixo da barreira para permitir a esta saltar, mas o facto disto continuar a acontecer em várias equipas acaba por ilibar os guarda-redes de alguma forma, comprovando que realmente haverá “dedo técnico” por detrás destas decisões. Agora, porquê? Cabe aos jornalistas perguntarem em conferências de imprensa. Depois, vêm os argumentos banais e exagerados do costume para criticar o guardião: “foi ao meio da baliza” ou “nem foi com tanta força” são comentários comuns para descrever lances de extrema dificuldade para qualquer guarda-redes. Um livre perto da baliza não necessita de ser uma bomba no ângulo superior para se considerar indefensável, muito menos se a equipa adversária fizer uma segunda barreira para bloquear a visão do guardião, empurrando-o ainda mais para longe do poste contrário. Raramente estes argumentos provêm de adeptos que levam em conta todos os fatores acima, mais esta questão da visibilidade, os pés presentes na marcação do livre – é mais difícil prever quem irá bater e, consequentemente, que direção e arco a bola tomará – ou até as condições do terreno de jogo. E, claro, a contestação injusta e até algo hipócrita que mais me deixa frustrado: “está mal posicionado, devia estar um passo mais para o lado de onde a bola entrou”. Estas análises à posteriori de lances como livres diretos em cima do limite da grande área pecam por falta de honestidade desportiva e sentido lógico. Os mesmos que acusam o guarda-redes de estar mal colocado por estar demasiado perto do seu poste num remate que passa por cima da barreira e entra no poste contrário são os mesmos que criticariam esse mesmo posicionamento recomendado se a bola entrasse no seu poste e o guardião estivesse mais próximo do oposto. Pessoalmente, não creio que Diogo Costa, Matheus ou Adán pudessem fazer muito mais do que o que fizeram nos livres sofridos recentemente – e não são os únicos. Entendo a expetativa de adeptos de um candidato ao título que não admitem qualquer golo sofrido por parte do seu guardião que não seja de penalty ou de “encostar” – o que é perfeitamente compreensível – mas não se vê nem um décimo deste rigor e falta de tolerância para com os jogadores de campo quando estes cometem erros bem mais graves, sendo que situações de “talvez pudesse fazer melhor” pouco são debatidas. Ultimamente, até o termo “culpa”, que tem um peso tremendo, é atirado levianamente para cima dos guarda-redes em golos completamente comuns. A análise extrema e frequentemente ignorante do adepto comum para com os guarda-redes não é nova, mas espero que esta série de artigos ajude a, pelo menos, trazer mais complexidade para a discussão que habitualmente se torna injustamente simplista.
Defesas Neuer da Jornada:
– António Filipe (E. Amadora): duas defesas impressionantes aos 81’ e principalmente aos 88’, sendo esta última candidata a uma das melhores da época.
– Anatoliy Trubin (Benfica): passou despercebida a muitos, mas é possível ver pela repetição em super câmara lenta que toca com a ponta dos dedos aos 60’ numa estirada fantástica que ainda leva a bola à trave.
– Matheus (Braga): voo fabuloso aos 84’, parecida com a primeira de António Filipe.
Falhas Kralj da Jornada:
– Vinícius Dias (Gil Vicente): mais uma jornada complicada para o guardião que tem responsabilidades no segundo golo aos 43’ e devia ter coberto melhor o ângulo já por si apertado aos 59’.
– Vinicius Costa (Portimonense): longe de ser o responsável pela goleada sofrida, mas não consegue cobrir eficientemente o seu poste aos 47’ e tem a infelicidade do lance isolado aos 58’ passar por baixo das pernas.
– João Gonçalves (Boavista): talvez o pior jogo da sua época. Falha totalmente a saída aos 36’ e, apesar da excelente defesa aos 46’, tem a mesma infelicidade de V. Costa com a recarga também a passar por baixo das pernas.
Visão do Leitor: AdeptoImparcial


6 Comentários
Neville Longbottom
Então afinal o Trubin sempre defendeu a bola para a trave. Bem me parecia.
AdeptoImparcial
Neville Longbottom,
Já me tinha dado a sensação quando vi as repetições durante o direto e ao rever durante o artigo parece-me claro que toca com a ponta dos dedos. Excelente defesa!
SL
Velho do Restelo
O António Filipe também faz uma boa defesa na 1a parte a um remate à queima-roupa do Bragança (que tinha tentado picar a bola por cima), mostrou óptimos reflexos.
AdeptoImparcial
Velho do Restelo,
Verdade! Uma prestação fenomenal!
SL
Manel Ferreira
O problema do João Gonçalves é mesmo não ter competição nenhuma. Os concorrentes dele são um miúdo de 18 anos e outro de… 16. Ele sente que não tem minimamente o lugar em risco e isso fica na cabeça, mesmo inconscientemente. É que já começa a ser muita intranquilidade que se traduz nestes erros. O que vale é que a equipa continua estável na tabela, mas convinha sacar mais umas 3 vitórias, pelo menos, até ao fim da primeira volta…
AdeptoImparcial
Manel Ferreira,
Entendo a lógica, mas João Gonçalves tem sido um “reforço” fantástico do Boavista. O bom campeonato dos axadrezados deve-se também ao guardião que aproveitou a oportunidade no início da época e tem feito excelentes jogos. Aconteceu fazer nesta jornada o pior, ninguém é perfeito.
SL