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Os Neuer’s e Kralj’s da 27.ª jornada

Todos os adeptos de futebol reconhecem a posição de Guarda-Redes como a mais ingrata do desporto. Encontram-se familiarizados com a lenga-lenga do costume: se um avançado falhar vários golos cantados, mas marcar um, mesmo que não seja o golo da vitória, a bola no fundo das redes é rapidamente elogiada ao passo que os falhanços caem no esquecimento; se um guardião passar os noventa minutos da partida a defender “tudo e mais alguma coisa”, mas sofrer um único golo onde falha de alguma maneira, mesmo que com culpas partilhadas, leva com críticas avassaladoras em cima e o resto da equipa é ignorado.

Muitos sonham em defender um penalty na casa de um ‘grande’… mas três?!

Da mesma maneira que ninguém contesta a afirmação de que Hugo Souza (Chaves) foi dos piores guarda-redes da primeira volta, ninguém argumentará contra o facto do guardião ter conseguido dar a volta ao texto e transformar a segunda volta numa sequência de jogos muito positivos, uns atrás dos outros. A sua exibição na Luz foi apenas a confirmação da forma surpreendente que já vinha a demonstrar – mais um caso das dezenas esta época internamente que comprova a minha teoria pessoal de que a qualidade de um jogador, seja de campo ou de baliza, não pode levar com um carimbo vitalício de ‘estrela’ ou ‘flop’. Abre com uma estirada fantástica com a ponta dos dedos aos 4’, defende três (!) penalties – de Di Maria aos 25’ e dois de Arthur Cabral aos 63’ e 65’ – e mantém a hipótese de um choque forasteiro vivo aos 83’. Uma daquelas prestações que merecia melhor resultado coletivo, mas não se pode pedir muito mais a um guarda-redes que impede três grandes penalidades…

Fases, formas, sorte, azar…

Nos últimos dois meses, os guarda-redes dos três habituais candidatos ao título têm tido dificuldades em ‘não dar casas’. Franco Israel até tem conseguido excelentes defesas a remates “de golo” que Antonio Adán estava com problemas em resolver, mas errou em cruzamentos básicos nas últimas duas jornadas (2’ x Boavista, 15’ x E. Amadora). Diogo Costa (Porto) tem estado a um nível consistentemente alto durante a época toda, mas a sua caraterística já conhecida de parecer sempre desconfiado da sua própria qualidade – relembro aquele vídeo do Mundial’22 após o jogo contra Gana terminar, em que o guardião se encontrava devastado por uma distração que não deu em nada e Portugal venceu – tem levado a falhas incomuns (64’ x Estoril) ou incertezas (90’+3 x Gil Vicente). Trubin (Benfica) parece estar a deixar os ‘frangos’ consecutivos que vinha a sofrer para trás, mas os encontros contra Estoril e Porto mantêm-se recentes. Numa altura onde o campeonato entra na fase decisiva, os três ‘grandes’ enfrentam a mesma sem a confiança do passado no ‘homem das redes’… Veremos como tudo acaba.

Um desabafo pessoal sobre um aspeto quasi-cultural da baliza…

Longe de mim querer entrar no campo de ‘eu não sofria isto’ ou ‘eu abordaria o lance melhor’, mas existe uma caraterística da geração atual – e da imediatamente anterior também sinceramente – dos guarda-redes que me causa uma frustração tremenda. A ideologia terrível de enfrentar remates e, principalmente, cruzamentos de punho cerrado, como se esta fosse a abordagem ‘default’. Não compreendo, nem nunca compreenderei esta tendência técnica cada vez pior. Guardiões totalmente sozinhos a socar cruzamentos simples que treinam dezenas de vezes durante a semana – e que agarram! – mas chegando a hora do jogo, a mentalidade é de ‘socar primeiro, agarrar logo se vê’. O mesmo cenário se vê em remates ‘à figura’ ou num raio de ação que não envolve qualquer tipo de salto ou movimento de pés. Recordo o grande Marco Tábuas do Vitória de Setúbal que fazia jus ao seu apelido ao realizar as defesas mais ‘para a foto’ da época que levava mesmo adeptos a ficarem impressionados com a sua qualidade… que originava inúmeros golos de recarga ou no subsequente canto que este desnecessariamente oferecia ao adversário. Com a avanço da tecnologia e as luvas absolutamente incríveis que existem no mercado – nunca mais me vou esquecer de quando ‘calçei’ pela primeira vez as Adidas Predator de 2014 e que pareciam ‘batota’ comparada com todas as outras, não fosse essa ser a altura que Neuer dominava – é inaceitável que a vasta maioria dos guarda-redes de hoje em dia pensem primeiro em socar do que agarrar…

Defesas Neuer da Jornada:

– Hugo Souza (Chaves): já seria difícil impedir o livre de Di Maria só por si, mas logo a abrir o encontro aos 4’ revela uma concentração e preparação impressionantes.

– Kosuke (Portimonense): estirada fenomenal aos 87’ que literalmente levou as mãos do adversário à cabeça.

– Ricardo Velho (Farense): em mais um (!) encontro com meia dúzia de defesas soberbas, destaco o 1×1 aos 63’, mas qualquer outra parada contra o Arouca facilmente podia caber aqui.

Falhas Kralj da Jornada:

– Diogo Costa (Porto): não é uma falha direta para golo, mas a sua péssima receção aos 64’ leva à inevitável expulsão e livre perigoso que… origina o tento da vitória.

– Franco (Israel): terrível leitura do cruzamento aos 15’ que até auto-golo podia ter dado não fosse o poste.

Visão do Leitor: AdeptoImparcial

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

8 Comentários

  • Slayer666
    Posted Abril 5, 2024 at 12:31 am

    Desculpa a correção, mas Hugo Souza defendeu 2 penaltis!
    O que foi repetido simplesmente não contou e se não contou é porque não existiu…
    É o mesmo que um jogador marcar 2 golos e ter +1 anulado pelo arbitro/var, diz-se que marcou um hat trick? é claro que não, logo aqui é literalmente a mesma situação.

  • SENSEI
    Posted Abril 2, 2024 at 3:34 pm

    Obrigado pelas tuas análises. É bom saber a perspectiva de alguém que foi GR, mesmo que nem sempre se concorde.
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    Quanto à questão de agarrar/socar, deduzo que seja o cálculo dos riscos em ambas as abordagens que lhes será aconselhado nos treinos, mesmo que nestes eles tentem naturalmente agarrar (que, com êxito, naturalmente é eficiente). E que bonito que é ver estiradas em que um GR agarra a bola como se nada fosse.
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    Tenho ainda outra questão para ti, semelhante a essa do agarrar/socar a bola:
    Vejo que no Sporting os GR parecem ter instruções claras em tentar intercetar cruzamentos rasteiros/atrasados. Já se via bastante com o Adán, e agora com o Franco. Esta é uma abordagem algo arriscada, mas que por norma tem grande recompensa, na minha opinião. O risco é de facto elevado, como aliás aconteceu com a Atalanta… Contudo, considero o Adán teve uma boa abordagem nesse lance, com a infelicidade de a bola ir cair nos pés do adversário.
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    Penso que se trata de uma abordagem bastante “underrated”, já que na realidade não se trata de uma defesa a um remate, mas sim uma interceção de um passe. Gostaria de saber a tua opinião sobre isto.

    • AdeptoImparcial
      Posted Abril 3, 2024 at 7:44 am

      Como dizes e bem, é um risco tremendo por várias razões. Se se falha o timing de saída, deixa-se a baliza aberta para um avançado se antecipar à bola. Se não for para agarrar, obrigatoriamente irá desviar-se a bola para o meio, arriscando recarga fácil também. É muito difícil de tomar essas decisões, por alguma razão é que os jogadores lá metem a bola. É aquele espaço entre GR e defesa que leva a faltas de comunicação ou simplesmente complicações de posicionamento.

      Dito isto, depende muito de caso para caso. Ainda ontem, o segundo golo do Benfica nasce de um cruzamento que, se o Israel arriscasse a interceção, teria evitado o golo. Mas análises à posteriori são sempre fáceis de se fazer. Neste aspeto em concreto, Adán é superior a Israel pela simples razão que tem mais facilidade em cair para a frente – mesmo o agarrar bolas centrais eles têm técnicas diferentes. Mas é uma abordagem muito underrated, sim. Tal como o GR evitar lances como líbero, ao sair da grande área. A quantidade de jogadas perigosas e eventuais golos evitados por uma simples saída bem atempada da baliza para evitar um passe longo que são desvalorizadas… Neuer realmente mudou muito o paradigma do futebol nesse aspeto.

      Obrigado pelo comentário e leitura :)

      SL

  • Paulo Roberto Falcao
    Posted Abril 2, 2024 at 11:50 am

    Bom se o Hugo Souza foi o herói em muito o deve ao árbitro Hélder Malheiro e às decisões surrealistas e inacreditáveis do VAR, que marcando o segundo penalty, quer insistindo no erro repetindo-o. Se aquele livre não resulta em golo, ele certamente iria tentar uma quarta gracinha

    • AdeptoImparcial
      Posted Abril 2, 2024 at 1:09 pm

      Com todo o respeito, mas podiamos fazer um esforço e deixar as arbitragens de lado num artigo de uma rubrica dedicada aos guarda-redes? Ou isto é algo tão complicado de se fazer para um adepto tuga?

    • Gato das Bolas
      Posted Abril 2, 2024 at 1:02 pm

      Como benfiquista tenho de concordar. O segundo penalti é uma aberração total de ser assinalado. Já com a repetição, enfim, o jogador do chaves entra na área antes do penalti ser batido e tira partido disso para depois cortar o lance. Teria de ser sempre repetido. Mas felizmente que não deu golo e conseguimos vencer o jogo na mesma. Honestamente, pedi que falhasse porque se não gosto de ver outros ganhar assim, também não queria que o mesmo sucedesse neste jogo.

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