No dia 24 de fevereiro de 2025, Pedro Proença tomou posse como 32º presidente da Federação Portuguesa de Futebol, após vencer Nuno Lobo com 75% dos votos. Ao assumir o cargo, deixou vazia a liderança da Liga Portugal, órgão que chefiava desde 2015, apenas cinco meses depois de se retirar da carreira de arbitragem. A sua carreira de árbitro, algo que se orgulha de ser um elemento diferenciador para a sua eleição, tanto fica marcada por ter apitado a final do Campeonato da Europa e a final da Champions League, ambas em 2012, como pela estreia atribulada no primeiro escalão, em 2000, (teve de ficar barricado no balneário durante duas horas e sair sob escolta policial) e um polémico Benfica-Porto, em 2012, onde os encarnados se queixam de um golo fora-de-jogo de Maicon, que permitiu a vitória dos dragões e um passo gigante para o bicampeonato.
Em três mandatos na Liga Portuguesa de Futebol, são visíveis as lacunas que o nosso campeonato apresenta: falta de competitividade, espetáculos fracos, horários desajustados e questões administrativas marcantes. Sobre a falta de competitividade é notório o contínuo agravamento do fosso entre os três da frente, o Braga e o Vitória SC e o restante pelotão. Apesar de esta época os “Três Grandes” até terem perdido alguns pontos onde menos esperavam, isso parece refletir mais a fragilidade das suas equipas técnicas do que um real equilíbrio competitivo, uma vez que, todavia, a esmagadora maioria das equipas ter na sua SAD um grande investidor/consórcio que lhes concede jogadores com relativo estatuto e de os mesmos serem vitais no seu crescimento/evolução, os coletivos apresentados pelos três maiores clubes em Portugal ainda fazem a diferença. A sensação que transparece ou transparecia em muito destes anos é que bastava ao clube superior marcar o primeiro para o marcador se avolumar e que seria sempre uma questão de tempo. Esta questão tem muito peso nas prestações europeias em que fomos perdendo o lugar para os Países Baixos e sendo estes e a França uma miragem em questão de ultrapassagem de ranking temos que começar a olhar para o facto de a Bélgica começar a estar cada vez mais perto da nossa posição.
Relativamente à questão do espetáculo e do jogo, quem quer comprar o produto oferecido pela Liga Portuguesa? Embora sendo imposta legalmente em 2028, a centralização dos direitos será mesmo uma realidade? Portugal, a par do Chipre, é a única liga em que os seus direitos audiovisuais não estão centralizados. No entanto, apesar das críticas ao Benfica por ser o clube que mais alertou para o facto de poder ser oposição a esse modelo, foi o Moreirense quem deu uma machadada nas aspirações de Proença em ter a centralização antes dessa data. Será que isso pode incentivar os clubes a ignorarem a lei ou dar força aos “Três Grandes” de rejeitarem o processo alegando perdas financeiras? Além disso, a direção da Liga Portugal sempre quis transferir a Taça da Liga para o Médio Oriente, sem saber a viabilidade dessa decisão ao nível da afluência e do interesse, apenas visando patrocínios e o aumento de receitas. Paralelamente, temos a questão dos horários dos jogos das competições nacionais. Não há qualquer critério no agendamento dos jogos, onde há equipas que podem fazer grande parte dos seus jogos às sextas e às segundas em horários indignos e outras que fazem grande parte dos seus jogos às 14h de sábado e de domingo, por exemplo na Segunda Liga, para darem maior visibilidade a esse campeonato, visto que nesse horário passa em sinal aberto. No mesmo sentido, marcam-se jogos ao sábado e ao domingo, em ambas as ligas às 18h ou depois das 20h entre duas equipas que distam geograficamente e, portanto, não podem ter uma forte presença de apoio por conta desses horários. As horas de início dos jogos são escolhidas em detrimento de não conflituar com os horários dos outros jogos dos campeonatos detidos pela estação televisiva que transmite as nossas ligas profissionais. Se a Liga não valoriza o próprio produto e não agenda os jogos em horários que favoreçam a afluência e a visibilidade, quem o fará? É preciso lembrar que para o terceiro mandato na Liga Portugal, colocou os adeptos como pilar fundamental, mas seguiu a linha das promessas sem efeitos práticos. Por último, não podemos esquecer que sob a direção de Pedro Proença, sendo que desde o ano 2023 também é presidente da Associação das Ligas Europeias, deram-se casos que envergonharam o futebol português como o penoso final de época do Desportivo das Aves em 2019/2020 e do Vilaverdense em 2023/2024, as constantes notícias que clubes não estão a cumprir o controlo salarial e o facto de a cada época as descidas serem motivo para tentativas de impugnação judicial devido a acusações de determinados clubes não cumprirem.
Se este é o legado que Pedro Proença deixa na Liga Portuguesa, o que podemos esperar agora que assumiu a presidência na Federação? O que fará no Conselho de Arbitragem e no de Disciplina sendo que parece que existe dualidade de critérios e de resolução de casos e em que a arbitragem é visada sempre que alguém se sente prejudicado? O que fará quando o nosso país tem a seu cargo a organização do Mundial 2030? O que fará quando for preciso potenciar ainda mais as seleções jovens de futebol masculino e a seleção de futebol de praia, que parecem estar estagnadas ou alavancar ainda mais o futebol feminino? Como efetuará a tão proclamada profissionalização do setor da arbitragem? As respostas a estas e outras questões resultarão da atuação de Pedro Proença, mas se a amostra que obtivemos ao longo desta década for representativa do seu modo de ação então maus tempos se avizinham no futebol português.
Visão do Leitor: Pedro Torres


15 Comentários
Antonio Clismo II
Depois de gamificar a Liga, segue-se a gamificação do futebol de alto a baixo em Portugal.
A partir de agora vamos ver multiplicadas as máfias de tráfico de seres humanos a operar em Portugal, vamos ver multiplicas as lavandarias, e até vamos ver o campeonato nacional de iniciados com golos “estranhos” e apostas estratégicamente metidas… Parabéns Proença e a todos os envolvidos!
filipe19
Muitas vezes, seja na indústria ou na política, chegam pessoas incompetentes a cargos importantes, essas depois instalam no seu seio pessoas ainda mais incompetentes para as pessoas importantes poderem disfarçar a própria incompetência. O resultado: incompetência por todos os lados. É assim que o nosso mundo está a ser gerido.
Os direitos televisivos são de facto um grande problema. Eu sugeria três horários fixos durante a época toda. Sábado e domingo à noite (20h) ficava reservado para os “jogos de topo”, o resto jogava ao domingo às 16horas como era dantes. Na segunda divisão o mesmo. Dois jogos ao sábado e ao domingo (18h), com o bloco a jogar ao domingo (14) antes da primeira divisão. Na Alemanha e na Inglaterra também não existem mais slots. Os alemães têm quatro hórarios disponíveis. Sábado às 15.30h e 18.30h e domingo 15.30h e 18.30h, como também sugeria de reduzir a liga para 16 participantes os três slots seriam suficientes. Desse modo também se pudia agendar muitos jogos de forma antecipada e policia e serviços de segurança podiam planear com antecedência.
Infelizmente o dominio dos “Três Grandes” não dá para diminuir, uma vez que o dinheiro na champions é tanto que o fosso para os “pequenos” ficará sempre gigantesco. De resto não consigo avaliar o trabalho dele, a taça da liga eu considero completamente desnecessário, mas se trazer receitas positivas assim o seja. Eu acredito mais que os resultados da seleção dependem do trabalho na formação dos clubes. Sinceramente nem sei o que um presidente de uma federação de futebol faz. Deve ser um dos empregos mais bem pagos para o tempo sem fazer nada.
Rated R
Incompetencia, tachos, padrinhos e afins…
Tudo para continuar como estava ou pior.
Este salta de tacho em tacho…
Jasomp
É muito isto. Como é possível haver alguém a fazer um trabalho tão mau e mesmo assim subir na hierarquia?
Nunca a Liga Portuguesa foi tão interposto de empresários. Uma Liga com assistências baixíssimas, espetáculos pobres, horários vergonhosos, treinadores a serem despedidos a uma velocidade única na Europa, a percentagem de jogadores estrangeiros é das mais altas do mundo e não há um único projeto formativo que sirva de exemplo. E é isto que vai para a FPF?
Rodrigo 77
Quando é que neste século tivemos assistências mais altas que a época passada?
Vai procurar antes de dizeres a cassete do costume.
Espetáculos pobres? Então porque se vende mais jogadores e por preços mais altos se os jogos são assim tão maus?
Qual é a diferença dos horários para Itália, Alemanha, Espanha, Países Baixos ou França diz me lá?
Valentes Transmontanos
Na Alemanha não há jogos segunda à noite nem jogos às 20:30.
Rodrigo 77
Aí não? Todas as sextas jogam às 20:30h, olhas para o horário de Portugal aí aparece 19:30h.
manel-ferreira
Acho que as pessoas misturam várias coisas nestas avaliações, coisas que são realmente da responsabilidade desta presidência com coisas que são mais inerentes ao futebol português.
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A questão dos horários é, sem dúvida, o grande falhanço da presidência do Proença, sobretudo depois de ele ter prometido que não ia haver mais jogos à sexta e segunda (exceto de equipas que jogam competições europeias). Aqui, o user disse tudo. É que é mesmo daquelas coisas que não têm qualquer defesa.
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Agora, há outras questões em que acho que o Proença tem as costas demasiado largas.
A questão do “fosso” entre grandes e o resto não só não é recente, como está longe de ser típica de Portugal, e nem se pode dizer que seja surpreendente num país onde esses mesmos 3 grandes têm uns 98% dos adeptos, e por conseguinte muito mais condições de se perpetuar nesse top (depois, coisas como receitas da Champions ainda contribuem mais para isso, portanto acaba por ser um ciclo). Não me lembro de alguma vez não ter sido assim, portanto é difícil achar que é “culpa” de X ou Y.
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Já agora, meter o V. Guimarães na parte de cima do fosso parece-me bastante generoso para os vimaranenses, que nos últimos 10 anos têm mais épocas abaixo do 5° lugar do que dentro do top-5 (neste momento até estão em 8°). A divisão é muito mais entre top-4 e o resto (em vários sentidos é mesmo 3 grandes vs resto).
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A questão do ranking também me parece difícil de colar a uma gerência em particular. Devido ao seu caráter cíclico, acabou por afetar todas. Nem é preciso irmos ao início do século, em que Portugal chegou a estar em 14° lugar do ranking e nem o campeão ia diretamente à LC. Mas mesmo em 2010, Portugal chegou a estar em 10° lugar do ranking, atrás da Roménia, por exemplo. É cíclico, sempre foi, sendo que Portugal até acabou prejudicado em relação à Holanda devido ao ranking dos dois paises na altura da criação da Conference que fez com que o top-4 holandês fosse parar a esta competição, enquanto o top-4 português andava a jogar com colossos na LC.
Parece-me também exagerado dizer que os Países Baixos são “uma miragem” quando Portugal até pontuou mais do que eles este ano (e mais do que França e Alemanha também, já agora).
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Continuo na minha: muito do que as pessoas consideram “problemas atuais” do futebol português são coisas de que já ouvia as pessoas queixarem-se na velhinha “Bancada Central” no anos 90. Se calhar porque muitos deles são inerentes ao futebol português (e ao pais, no geral) e portanto quase impossíveis de resolver.
Rodrigo 77
Muito Manel mais um artigo a dizer as banalidades do costume, estávamos melhor com os antigos presidentes de Liga, Valentim Loureiro ou Hermínio Loureiro ou o mesmo Mário Figueiredo que deixou a Liga com saldo negativo.
Quem manda nos horários é a Sport TV, são eles que metem o dinheiro, até 2028 é assim.
Mas pergunto na Alemanha todas as sextas há jogos às 20:30, em Itália 20:45, em França às 21h em Espanha igual, na maravilha que é os Países Baixos jogam todos os jogos da segunda Liga às 20h todas as sexta feira.
Somos assim tão diferentes?
Ainda li estes dias a queixarem-se do horário do Elvas. Todos os países estão a jogar nestes horários por toda a Europa as suas Taças. Parece que ninguém vê isto.
Dazzz
Mas é comparável sequer um Barcelona vs Atlético ou um Real Sociedad vs Real às 21h30 em que os estádios estão cheios com um Rio Ave vs São João de Ver às 20h45?
Ao fim de semana, na Liga Alemã os jogos não passam das 17h30 (hora PT) com grande parte dos jogos a serem jogados às 14h30 (hora PT). Em França os jogos mais tarde que tens são geralmente o PSG e o Marselha, todos os outros jogos não passam das 18h. Em Inglaterra os jogos não passam das 17h30 com grande parte dos seus jogos às 15h. Em Portugal se um dos cinco primeiros jogar às 15h30 é um ultraje. Eu sei que falaste dos jogos às segundas e sextas, mas se a base de apoio em Portugal está concentrada em três clubes, coisa muito diferente de todas as outras ligas, então porquê ainda prejudicar mais os adeptos dessas equipas e fomentar para que vão ao estádio e assim valorizar as ligas. Eu também defendo a ideia que o user do texto diz, que em Portugal os jogos às sextas e segundas, se é mesmo necessário como se diz (mas Proença prometeu que teria fim), tivessem de ser entre equipas que estão próximas geograficamente ( infelizmente o nosso futebol está concentrado em três distritos).
BatEagleVision
Bom comentário, concordo na íntegra.
O povo gosta muito de atirar culpas de forma avulsa, sem fazer uma análise crítica e imparcial dos factos.
Dazzz
Não concordo também que os Países Baixos seja uma miragem, mas é factual que os Belgas são um problema e que se fala pouco. Também acrescentaria que o quinto clube europeu nos últimos anos em Portugal tem sido sempre diferente e meia equipa vai embora após a temporada acabar, nos Países Baixos tem se mostrado relativamente estável a “seleção” de clubes.
_Mushy_
Post do Manuel “amorim lover”
Proença tenta fazer o melhor que pode, ao contrário de Amorim que nada faz no Man Utd, continua a ser um Deus para muitos utilizadores, e digo mais, blablablabla Amorim blabla Amorim
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Estou a tentar ver como é conseguir falar do Amorim em qualquer post do VM
BatEagleVision
Não sou (de todo) um grande defensor do Proença, mas este artigo está repleto de fantasias. Pela primeira vez nos últimos 7 anos tivemos sempre um campeão diferente, isto não é tornar o compeonato competitivo? Preferem o tempo dos Tri e dos Tetras?
Sobre a competitividade das restantes equipas, mas em que mundo vivem? Isso acontece nos melhores campeonatos da Europa? Há sempre clubes que se vão destacar, devido ao seu poderio.
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Sobre os direitos televisivos, sem dúvida que é um grande avanço para o futebol português e foi conseguido no tempo da sua direção.
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Depois, quem conhece o Proença e pessoas ligadas ao futebol, reconhecem-lhe a elevada competência, tal como reconheciam ao Fernando Gomes. Mas a malta que só liga às críticas nas redes sociais tem uma visão distorcida dos factos. Por isso o titulo e a narrativa deste artigo não tem fundamento.
kaka
Podemos falar, entre outros, do aberrante caso da B SAD e dos compadrios que permitiram que no extremo, a FPF lhe chamasse B SAD e a Liga Belenenses SAD…