1. Prólogo – Comparando por curiosidade
Estávamos em 2011 e o Chelsea, sempre atento aos indícios de emergência de jovens promessas, decide investir cerca de 17 milhões para resgatar Thibaut Courtois e Kevin De Bruyne ao Genk. Seguindo uma política que tem sido apanágio do clube, os belgas foram emprestados após assinarem pelo clube inglês, entabulando-se aqui as primeiras divergências.
Na época 2011/2012 o gigante guarda-redes seguiu para o Atlético Madrid, ao passo que de Bruyne permaneceu ao serviço do Genk. Enredado na transição Manzano – Simeone, no introito do super-Atlético, Courtois, inicialmente suplente de Asenjo, destronou o espanhol e manteve a baliza colchonera inviolável em quatro dos seus primeiros seis jogos. Culminando, o Atlético venceu a Liga Europa com uma clean-sheet na final ante o Athletic Bilbao, 3-0. Sobre De Bruyne pouco se ouvia.
Na temporada seguinte a história de Courtois é familiar a todos. Permaneceu ao serviço do Atlético e o seu primeiro jogo foi precisamente contra o Chelsea, na Supertaça Europeia que os espanhóis venceram por 4-1. Esteve 820 minutos consecutivos sem sofrer golos no Vicente Calderón, metendo ao bolso tal recorde. O Atlético derrotou ainda o eterno rival de Madrid na final da Copa del Rey e Thibaut foi nomeado homem do jogo. Kevin, por esta altura, fora emprestado ao Werder Bremen e a própria Wikipedia, tudo o que nota sobre o belga nessa temporada é o primeiro golo ao serviço dos alemães. Apesar do eco menor, com 21 anos, De Bruyne foi figura do Bremen, consumando 10 golos e 10 assistências em 34 jogos.
Em 13/14, contrariando as expetativas e o furor da imprensa, Courtois prorroga o seu vínculo com o Atlético, ao passo que De Bruyne regressa ao Chelsea. Nesta altura José Mourinho, o auto-proclamado “Happy One”, estava outrossim de regresso ao clube londrino. Foi nestas condições que o guardião prosseguiu na sua senda de prosperidade, sendo eleito o melhor guarda-redes da Liga espanhola, que o Atlético venceu de forma inédita desde 1996, sendo também vice-campeão europeu. O médio ofensivo, por sua vez, estreia-se num amigável contra o Malaysia XI, marca um golo, mas, vitimado pelo infortúnio. lesiona-se num joelho. Do langor do sofá, vi-o jogar pela primeira vez e constatei que era daqueles craques que se confirmam com dois toques na bola. De Bruyne regressa a tempo da primeira jornada e assiste para um dos dois golos na vitória (2-0) sobre o Hull. Tudo levava a crer no capitólio do belga, mas alavancando mais uma cambalhota nas expetativas, Mourinho fá-lo jogar em somente 3 encontros da Premier League e em Janeiro aceita 22 milhões do Wolfsburgo em troco do passe do jogador. Para colmatar, contrata Juan Cuadrado, que em poucos meses se revela um flop.
O resto da peripécia é recente e fresco. Na época de estreia, De Bruyne contribui fortemente para o 2º lugar do Wolfsburgo na Bundesliga e marca na final da Taça da Alemanha, em que os Lobos batem o Dortmund por 3-1. Em 14/15 Courtois regressa ao Chelsea e dita o término da longa hegemonia do checo Cech, fazendo o caminho oposto de KdB e findando também a analogia que os unia. Ainda assim, De Bruyne – principal dínamo dos Lobos – de forma não menos incrível, numa equipa de segunda linha de um campeonato recheado de estrelas, arrecada o prémio de melhor jogador da competição. Disputado por meia Europa, abandona o Wolfsburgo com 73 jogos, 20 golos e 37 assistências e ruma ao City por 74 milhões no verão seguinte.
Até aqui seguimos uma ordem cronológica. Vamos agora a uma
2. Analepse
No passado sábado, Kevin de Bruyne regressa de lesão para defrontar o Everton. Até a injúria muscular forçá-lo a sair da equipa, o City venceu 10 jogos em… 10 disputados. No primeiro jogo que o belga falha, contra o Celtic, os Citizens, com odes altíssimas nas casas de apostas, cedem o primeiro empate da época. Para a Premier League, dias depois, o Tottenham domina o meio-campo num duelo em que os azuis de Manchester averbam a primeira derrota.
Coincidência? Ora vejamos, se na época que decorre o Everton apadrinhou o regresso do belga, na temporada transata o jogador lesionou-se justamente contra os Toffees, a 27 de Janeiro, num embate que estava a ser muito adverso para os pupilos de Pellegrini e que teria ditado o afastamento da Capital One Cup, não fosse a entrada de De Bruyne aos 66 minutos, que forjou um 3-1 ao assinar um golo e uma assistência em 10 minutos, antes de ficar a contas com o joelho. Nessa altura, o City era segundo na Premier League, pleno na peleja pelo título, seguira para a final da Taça da Liga (após o tal último jogo que o belga disputou e decidiu), estava na meia-final da Taça e nos oitavos da Champions – tudo em aberto para uma época feliz. Na ausência de KdB, os Citizens sofrem uma quebra abrupta em praticamente todas as frentes. Na Premier League vencem apenas 2 jogos, empatam 1 e averbam 4 derrotas, caíndo assim para um dececionante quarto posto. Na quinta-ronda da Taça, são vergados perante o Chelsea com um copioso 5-1. Com isto e no que concerne a competições internas, o City sofreu tantas derrotas em 2 meses de ausência de KdB como em 5 meses de competição até então. O melhor que conseguiram foi eliminar o Dínamo Kiev num confronto desnivelado dos oitavos da Champions. Numa terra em que Aguero é rei, Silva o principal Conselheiro e alguns como Touré tentaram ameaçar a coroa, todos esperavam o regresso do princípe.
Debelada a lesão, apesar de não ter conseguido reverter o quarto lugar na Premier League, o City venceu a Capital One Cup e alcançou, pela primeira vez na história, as meias-finais da Champions, sendo De Bruyne decisivo com um par de golos na eliminatória milionária ante o Paris Saint-Germain. O príncipe regressou e salvou uma época que ameaçava um epílogo catastrófico.
3. De volta ao presente – prolepse
Esta época chegou Guardiola ao Etihad. Potencialmente o melhor treinador do mundo – desde que iniciou a carreira como coach, apenas por uma vez o catalão não foi campeão. Depois de contratar Nolito e Sané e surpreendentemente manter Navas no plantel (não descurando Sterling), a equipa parecia excessiva em opções para os flancos, justamente onde jogava KdB com Pellegrini. Para o miolo chegou Gundogan e Silva, principal Conselheiro, é elemento preponderante na saúde do reino. Depois era necessário o pêndulo que seria Fernandinho ou, menos provavelmente, Fernando. Com isto, Pep, algures entre o evidente e o que ninguém vê, descortina que De Bruyne não é só um médio ofensivo/extremo com potência, velocidade, vertigem, golo e último passe. De Bruyne mune-se sobretudo de valências ímpares no que toca à inteligência e tomada de decisão, que, aliadas à sua agressividade, conferem-lhe uma polivalência capaz de contribuir em todos os momentos da equipa. Nesta altura, KdB é – num meio-campo a três com o inesgotável Fernandinho e os engenheiros, ora Silva, ora Gundogan – algo entre o box-to-box que recupera, galga metros e aparece na área, um pivot ofensivo que calcula todo o jogo da equipa e, quando a instância assim o pede, um avançado sombra cirandante entre linhas. Quando não é todos.
– De facto, se voltarmos a olhar a números, as estatísticas de Kevin De Bruyne são assombrosas. Em sete jogos, KdB marcou 2 golos e ainda acertou 3 vezes nos ferros. É o jogador com mais assistências na liga (4) e o que mais chances de golo criou (5, metade das 10 que criou em toda a época passada). Juntando a esta capacidade criativa, o belga tem uma eficácia de tackle de 86% e soma 38 recuperações de bola. É certo que marca menos que Aguero, mas o argentino, com uma média de 22 passes por jogo é infinitamente menos participativo em todo o teamwork que permite que a bola lhe chegue em condições idóneas. Também é certo que é ligeiramente menos interventivo que Silva (51 passes por jogo contra 64), mas faz mais golos, tem melhor eficácia de remate, de cruzamento e acaba por criar mais chances perto da baliza. –
Se no início da época estranhei o reposicionamento de De Bruyne, receei um afastamento pejorativo das zonas de perigo e cheguei até a ponderar que estaria em vias de perder influência, à data, com Guardiola, o príncipe dos Citizens é um faz-tudo indispensável aos motores e engrenagens da equipa.
4. Uma última ligeira analepse
O apogeu desta reconfiguração do belga terá deixado Mourinho de orelhas quentes. – Ainda se lembram do setubalense aparecer neste texto? – Dois meses antes, o Manchester United bateu o recorde de transferências de toda a História e pagou mais de cem milhões para resgatar Pogba (que não deprecio) à Juventus. Esperava-se que o francês dominasse o meio-campo e passeasse classe em Old Trafford. Porém, à data da reedição do duelo de titãs entre Mou e Pep, foi Kevin de Bruyne quem encheu o campo e decidiu o dérbie de Manchester com um golo e a arquitetura da jogada do outro, permitindo ao City vencer por 2-1. Por certo, nem de um piscar de olho KdB precisaria para recordar Mourinho da decisão de vendê-lo ao Wolfsburgo para contratar um colombiano que lhe fica a anos-luz.
Com gáudio de vencedor e o grumo babado da tutela bem sucedida, Guardiola veio a público afirmar que “Messi senta-se numa mesa sozinho, mas na seguinte mesa dos melhores que treinou, De Bruyne tem lugar cativo”.
Messi é a bem dizer um extraterrestre, capaz de decidir qualquer jogo a qualquer instante e todos os demais detalhes são dispensáveis. Também é factual que jogadores como Ronaldo, Iniesta, Modric ou Suárez já muito provaram e são reis em suas terras. Mas, neste momento, em Terras de Sua Majestade, quantos lugares consegue De Bruyne sozinho ocupar numa mesa? E quantos outros terão convite para a mesa do príncipe?
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Moniztico


19 Comentários
Pedro o Polvo
Texto engraçado, parabéns! Gosto muito do Belga! E acho que tem tudo para ter um grande futuro! No entanto, no presente, ainda o acho inferior a Otamendi, Aguero e (talvez) Silva, na globalidade. No início da época também diria que Bravo era melhor, mas para já ainda temos de dar tempo para ver como o guarda redes se adapta de vez. Mas obviamente que se nota (e muito!) quando não joga… É o tipo de jogador que todas as grandes equipas queriam ter, dos melhores e com mais potencial da sua posição.
RodolfoTrindade
Excelente post, gostei muito!
Parabéns ao autor.
Quanto ao De Bruyne, pouco tenho a acrescentar. É craque, e convém lembrar que ainda tem muitos e muitos anos de futebol pela frente.
John
Muito bem observado!!
Manuel Teixeira
Na mesa do KdB só o Silva, o Coutinho e o Ozil.
Benficasempre
Agüero e Alexis
Daniel Moreira
Simplesmente o melhor jogador da BPL e o mais influente do City
NormalmenteSouOSilva
Dá gosto ver jogar !!
Contudo confesso que tenho medo que durante a carreira possa ter vários problemas no joelho, mas esperemos que não.
Nuno Silva
Texto incrível! Ele é uma das maiores razões que não dispenso ganhar(nunca perder) 90min do meu fim-de-semana.
Ruben Pinto
É apenas mais um criativo queimado pelo Mourinho da longa lista que já têm.
Sempre mostrou muita qualidade.
Esperemos daqui a 2 anos ou assim não surgir uma crónica do género sobre o Depay ou o Miktharyan.
Joao moreira
Depay no ano passado também nem cheirou….
Gonçalo Moreira
Deco, Ozil, Sneijder, Willian, Fabregas época) . Todos queimados, sem dúvida.
Kafka
Excelente texto, que corroboro inteiramente
Francisco Magalhães
Para mim quem se senta com DeBruyne:
Silva e Aguero (estes claríssimos para mim)
Pogba (pelo que pode vir a mostrar)
De Gea (top GK)
Hazard
Numa segunda mesa
Ibra (noutros tempos sentava fácil na primeira, era top mundial)
Mata
Otamendi
Sterling
Alexis
Ozil
Coutinho
Kane
Mikhy (também pelo que pode vir a mostrar)
Outra coisa, KdB, um jogador fenomenal, bem pode agradecer a Mou pela sua carreira. Quando ele foi vendido Mou acusava o de não ter uma atitude condizente com um jogador de top, a verdade é que ele mudou e vai ser um dos Reis do futebol nos próximos anos! Mou esteve bem ao ser sincero com ele e dar lhe guia de marcha, ninguém gosta de ter um jogador destes, eu também o vendia!
Provavelmente se Mou não tivesse sido sincero com ele talvez nunca tivesse mudado e mostrado o que mostra agora.
Bem lhe podes agradecer Kevin, e todos nós adeptos do futebol também.
Manuel Teixeira
Faz-me lembrar aquele que agradece à ex mulher por o ter traído, que assim ele aprende a nunca mais confiar em ninguém.
Menos.
Numero 10
Parabéns pelo grande texto!
Kevin de Bruyne é mesmo um predestinado. Classe pura. Prevejo que daqui a uns anos ande a lutar pela bola de our.
José S.
Excelente post.
Diz tudo.
Apenas uma constatação pessoal, quadrado para mim não é flop, apenas, como KdB, não “encaixou” no chelsea.
Mas sim longe do belga absolutamente.
Cumps
Tiago Silva
O De Bruyne é sem sombra de dúvidas o melhor jogador da Premier League, o melhor médio ofensivo do Mundo e o melhor jogador belga do Mundo. Ele é um mágico: leva a equipa para a frente, é muito esforçado nas tarefas defensivas, mete a bola onde quer… classe pura!
Paulo
Melhor jogador Belga do mundo. Gostei.
GN2193
Excelente texto, parabéns ao autor!
KDB é incrível, tem bom futebol e estatísticas. Joga e faz jogar.
Uma pequena correção. O substituto de KDB no Chelsea foi Salah, entrou em Janeiro, estávamos na época de 2013/14. O juan Cuadrado entrou igualmente em Janeiro, mas da época seguinte, e substituiu André Schurrle que foi para o Principado de KDB (Wolfsburgo).