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Ronaldo e as Idades do Homem

A eternidade está reservada aos deuses. Os homens, esses, por divinamente inspirados que sejam, decaem – todos: até os que valorosamente desafiam um destino inescapável. Conquanto recorrentemente se confundem esses mortais primeiros com os imortais segundos, o mundo nunca deixou de sublinhar, desde os imemoriais tempos de Gilgamés, um divino e incontornável desígnio: podendo até cruzar-se no plano terrestre, o mesmo destino nunca poderão humanos e divindades partilhar. Nós, homens, não somos deuses.

O moderno mito de um progresso inquebrantável que desaguará inevitavelmente numa utopia terrena é hoje um pilar fundamental da nossa civilização, permeando-a em todas as suas vertentes. Chutando para canto a aferição da veracidade dessa perspectiva, enquanto aguardamos há mais de duzentos anos por esse prometido paraíso, a mesma não deixa, porém, de ser uma invenção relativamente recente. A doutrina cristã, que de resto vigorou no nosso país durante a maior parte da sua existência e desde a sua fundação, abrange, no seu fatalismo, tempo e espaço por inteiro: da expulsão do paraíso terrestre ao também terrestre domínio de Satanás, o Homem será, adiante, definitivamente vingado – ainda que no plano espiritual. Esta mundividência melancólica e pessimista, embora transpirando uma esperança de que outras perspectivas mais anciãs careciam, não deixava de com elas partilhar um tipo de narrativa que parecia, aos olhos das gentes, adequar-se perfeitamente à realidade que as mesmas discerniam. O processo de paulatina decadência previsto pelos cristãos e já anteriormente por Hesíodo e Ovídio nas suas Idades do Homem ter-se-á inspirado na própria Natureza – do Homem e das coisas; e se a moderna visão utópica imagina o ser humano percorrendo um caminho ascendente até à perfeição terrena, essoutras visões imaginavam precisamente o real oposto. E tal como o homem e as coisas nasciam e adiante experienciavam o lustroso pináculo da sua juventude, seguia-se, à fleumática maturidade, a inevitável, porque destinada, decadência – antes da igualmente incontornável morte.

Se há homens que a certa altura se nos parecem destinados a uma eternidade terrena, dos maiores conquistadores da história aos grandes desportistas dos tempos modernos, todos, no fim de contas, perecem. Mas quanto mais alto eles voam, mais óbvio tornam esse destino que, sendo por todos partilhado, é sublimemente sublinhado pelos heróis feitos de barro de um mundo que, ele mesmo, diriam os antigos, está igualmente condenado. Cristiano Ronaldo é um dos maiores heróis dos tempos modernos – e o capítulo mais recente da sua odisseia terrena mais não é do que a continuação da descrição, em forma de mito, que a sua carreira e até vida têm feito dessa sina humana. Este herói, qual rapaz espartano, cedo abandona o regaço familiar para provar a sua virilidade e fazer-se homem. Com a provocadora irreverência da juventude desafia o mundo inteiro a render-se ao poderio da sua criatividade; e, acompanhado por sábios mentores, vinga nos palcos maiores. Goza do brilho natural da sua Idade de Ouro, dessa abundância que pelos deuses lhe fora outorgada – mas a imatura felicidade gera a imprudência da soberba, materializada no Fruto Proibido das paixões – e relações…- descontroladas. A Ronaldo transmite-se a ciência das responsabilidades que passa a assumir: e lá ele encarna no homem por excelência da laboriosa Idade de Prata, qual Adão expulso do Paraíso e obrigado a lutar pela, e já não meramente a gozar da, sua vida na Terra. Mudam as idades, muda o homem: o jovial e irreverente Ronaldo mergulha de corpo e alma na sua nova missão, faz da sua insuperável dedicação religião e transforma-se: o seu semblante e pose endurecem, cultivando uma cuidada presença que, por não ser deus, não lhe é inata – embora sendo sinal de que o menino se fez, realmente, homem. E esse homem, já pai, abandona as jovens veleidades dos malabarismos e abraça um fervente desejo de vencer: esse “general” da guerreira Idade de Bronze sacrifica todo o seu talento em prol da vitória ante os seus rivais, perseguindo obsessivamente uma perfeição, mais do que somente profissional, até pessoal que faria corar os caçadores de utopias dos últimos duzentos anos. Ronaldo foi Ícaro: tentou penetrar no Céu por meios próprios. E enquanto o Messias do futebol aguardou paciente e mansamente pelo cumprimento da profecia que lhe fora destinada, essa que no momento certo o elevou ao Olimpo e escreveu um dos capítulos finais da sua divina Obra, trai Ronaldo a sua humana, demasiadamente humana essência – que, afinal, nunca o abandonara, mero homem que é. Representa e cumpre, mais uma vez distintamente, o declínio das Idades: escorrega para a tenebrosa Idade de Ferro – e tudo mal lhe corre. Mentores e benfeitores desabam – até a família contribui negativamente!; as antigas e mais saudáveis guerras declinam em meras quezílias; e os deuses abandonam o seu futebol: esse que já perdera a dourada criatividade da juventude, a prateada impenetrabilidade e a brônzea ferocidade da maturidade, e que finalmente perdia também toda a sua inspiração e até essência, enferrujando-se definitivamente o ser nessa final Idade de Ferro – antes da dissolução da raça pelos deuses: antes do fim. Na última das batalhas por Ronaldo travada, este encarna perfeita e visivelmente – como habitual – no espírito da Idade que experiencia: desprovido de ouro, entrega-se à desinspiração; de prata, à moleza; de bronze, à indolência; e, enferrujado, à decadência. Desaparece, não sem antes deixar mais um rasto de destruição da sua lenda, do continente em que construíra o legado que então decaiu, rendendo-se, finalmente, à férrea ganância num árido Inferno futebolístico – Paraíso terrestre do(s) Príncipe(s) deste Mundo embora.

Prever o seu futuro dependerá, agora, da perspectiva que se prefira. Ao sombrio “Kali Yuga” do ciclo hindu seguem-se tempos mais propícios; Cristo, afinal, é o Deus ex Machina redentor da narrativa do Homem; e, qual Odisseu em plena jornada do herói na sequência da Guerra de Tróia, Ronaldo poderá muito bem, depois da decadência decorrente do seu inicial auge, exceder-se por uma última vez num final acto heróico e vingar esse declínio. A inevitável sequência das Idades do Homem parece, no entanto, dedicar-lhe uma final missão: a de se render ao cumprimento do tal divino e incontornável desígnio, também pelos heróis partilhado, ao fim da narrativa do seu legado; passará o testemunho para os futuros heróis que, como sempre os houve e haverá, lutarão árdua, mas ingloriosamente, por esse Céu na Terra que estão condenados, porque humanos são, a jamais alcançar.

Visão do Leitor: Miguel S. Rodrigues

2 Comentários

  • Njord666
    Posted Janeiro 9, 2023 at 8:30 am

    Excelente texto! Parabéns.

    Numa curta análise, o texto evidencia o porquê de muitos gostarem de Ronaldo e outros de Messi: a história de alguém que subiu na vida e atingiu feitos incríveis à custa do seu trabalho e suor e que após isso caiu no pecado é para muitos mais interessante (mais humana também) do que a narrativa do génio que com pinceladas de talento chegou ao topo do futebol (uma profecia que se cumpre como o autor revela) .

    Se Ronaldo é Hércules, o da força bruta e desmedida que por vezes magoa os entes queridos nas suas missões, já Messi é Ulisses, que com toda a sua manha e arte chega finalmente a rei na sua terra natal, mesmo que tenha andado toda uma vida a navegar em águas estrangeiras.

    Uma boa semana todos.

  • Paulo Roberto Falcao
    Posted Janeiro 9, 2023 at 7:45 am

    Bom texto Miguel, interessante o ponto de vista.

    Pessoalmente acho que o primeiro sintoma da deificação dele foi a história dos filhos por encomenda e sem mãe, nascidos por obra e graça do espírito santo, mesmo tendo ele uma relação na época( ou pelo menos dizendo aos sete ventos que tinha…), com a modelo russa. Só uma pessoa profundamente egoísta e doente age assim, ter uma mulher e recorrer a uma barriga de aluguer define o que és, e a forma como recusas a partilhar com os outros até as coisas mais elementares.

    Podia ter adotado um filho, se quisesse ajudar alguém, mas não. O único foco de Cristiano Ronaldo é Cristiano Ronaldo, como aliás se viu bem na entrevista com Piers Morgan.

    Já sei que houve uma evolução, e que a Georgina teve oficialmente filhos dele, mas ele obrigou-os a só ter apelidos dele. O narcisismo levado ao seu extremo, nisso como em tudo o resto. Sempre EU, EU, EU e depois EU.

    Por tudo isto culpo os cúmplices da tentativa de deificação. Passaram década e meia a tentar convencê-lo que era um Deus, quando era apenas um jogador de futebol. E sim ele convenceu-se disso, porque se quis convencer disso e porque o deixaram sempre escapar a pagar pelos seus erros e pecados- fossem eles uma violação ou fugir aos impostos.

    Ora para seres um Deus tens que ter qualidades que ele não possui como ser humano. Tens que ser humilde, misericordioso, omnisciente e omnipotente. Mas sobretudo omnibenevolente, ou seja teres uma bondade infinita. E a Cristiano Ronaldo falta muita coisa para isso. É só um jogador de futebol, que já foi bom e agora está em decadência. Como todos os grandes jogadores antes e depois dele, TODOS. É um igual, não tem absolutamente nada de diferente, e se tiver é a falta de qualidades humanas que humanizem a sua derrocada.

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