Comecemos pelo início – João Pereira é demitido do cargo de treinador principal do Sporting a 26 de dezembro, após somar 3 vitórias, 1 empate e 4 derrotas. Um triste desfecho, pelo que João Pereira representava para a massa associativa dos leões, mas absolutamente necessário. A bola queimava nos pés dos jogadores, o futebol desapareceu, assim como a liderança que vinha do banco. Joao Pereira escondia-se no banco de suplentes enquanto o jogo lhe escapava, e a voz tremia sempre que era chamado a intervir. Neste seguimento, a direção do clube deparou-se com duas escolhas difíceis: despedir ao fim de um mês um treinador que era aposta direta do Presidente, que tanto o elogiou, e encontrar alguém com a capacidade de agarrar o balneário e salvar a época. Em mais uma demonstração de coragem e de competência, a decisão de demitir João Pereira foi tomada, e Rui Borges, o homem humilde que construiu a sua carreira tijolo a tijolo, foi o escolhido.
Começa aqui a difícil missão de Rui Borges. O balneário está desmotivado, a equipa não consegue jogar, os passes saem curtos, os remates desenquadrados, a desorientação impera. E 3 dias após a sua apresentação, há jogo, e é contra o eterno rival. Nas primeiras 10 jornadas como treinador, vence o Benfica e empata no Dragão, com um golo sofrido nos últimos minutos. A equipa melhora, mas sofre quando Rui Borges insiste em jogar no 4-2-3-1 que apresentava no Vitória. E, acima de tudo, é assolada por uma vaga de lesões sem precedentes, ao ponto de um central da equipa B ser o titular no meio campo em vários jogos. Perante esta situação, vem uma prova de inteligência e de humildade do treinador – voltar ao 3-4-3 a que a equipa estava tão habituada. E fê-lo com um enorme sucesso. Rui Borges vence o campeonato e a Taça de Portugal. Parece, por vezes, que as pessoas se esquecem disto. Venceu tudo o que tinha para vencer, com metade (literalmente, metade) da equipa lesionada. Quantos treinadores teriam conseguido fazer o que Rui Borges fez o ano passado, nas circunstâncias em que o fez? Ouve-se constantemente a conversa do mérito do Rúben Amorim, do Gyokeres + 10, do demérito do Porto e do Benfica – conversa típica de pequenice e que não faz sentido absolutamente nenhum. Rara é a conversa do treinador que entrou a meio, para pegar num balneário destruído e lidar com uma das maiores vagas de lesões que há memória, e venceu o que tinha para vencer, com a exceção de uma Taça da Liga perdida nos penáltis.
Chegamos depois à presente temporada. Sai Viktor Gyokeres, que pelo discurso de alguns ganhou dois campeonatos sozinho. O 3-4-3, no qual “Rui Borges ganhava porque se limitava a imitar o Ruben Amorim”, deixa também de ser utilizado. Rui Borges instaura o seu 4-2-3-1, e mais uma vez demonstra os seus méritos como treinador. Começando, desde logo, pela forma como reforços como Suárez e, pouco a pouco, Ioannidis, estão integrados na equipa. É verdade, vieram por valores que pedem um impacto significativo e imediato na nossa liga, portanto estão apenas a fazer o que se pedia. Mas e os outros, têm esse impacto? Os outros treinadores conseguem retirar o rendimento, ainda por cima imediato, que Rui Borges conseguiu tirar dos seus reforços bomba? Passemos, depois, ao futebol. Trincão largou a ala e reinventou-se como 10, formado um trio composto por Pote, Trincão, e Geny/Quenda, atrás do novo homem golo. Montou-se um Sporting com identidade, fortíssimo no jogo interior e nas combinações, e que se não fosse uma derrota no jogo que podia ter caído para qualquer lado e um empate resultante de uma paragem cerebral do seu capitão, seria líder destacado. E na cada vez mais competitiva liga dos campeões, leva 10 pontos, ocupando um dos lugares de apuramento direto para os oitavos de final.
Mas parece que, apesar disto tudo, este Sporting de Rui Borges é imune ao elogio e ao reconhecimento de mérito. Este Club Brugge, ainda há umas semanas, não venceu o Barcelona porque lhe foi (mal) anulado um golo aos 90’. Goleou o Mónaco por 4-1. Mas a vitória de ontem será tratada simplesmente como o evitar de uma surpresa. Logicamente que o Sporting tinha de vencer, mas isso não quer dizer que o fosse fazer. E venceu, por 3-0, num jogo que dominou. Enquanto isto, outros são bajulados pela imprensa por vencer um clube que levava 1 vitória nos últimos 9 jogos, e o seu treinador, segundo o Jornal Record, “volta a ser feliz” e é “muito elogiado no balneário”.
Termino, então, com a seguinte pergunta: se o Sporting tivesse estes exatos resultados, mas o seu treinador fosse o Vasco Botelho da Costa, ou o De Zerbi, ou outro treinador da moda, o que seria dito? Não seria um super Sporting, de um super treinador? Chegou-se ao absurdo de se falar numa crise, por o Sporting perder em Nápoles contra o campeão italiano, e ter empatado em casa com o Braga. Onde está a crise de José Mourinho? Ou o Sporting é tão maior que o Benfica, que os níveis de exigência também são completamente distintos? O Rui Borges estará sempre em zona de critica, ou na sua iminência. Acredito profundamente que este ano será tricampeão. E que, quando esse dia chegar, vai se falar nas eleições do Benfica, dos árbitros, do Suárez que marcou muitos golos. E Rui Borges vai-se manter nas sombras, imune ao elogio. Acredito, contudo, que isso não lhe faça comichão. É um vencedor, e os vencedores não precisam de palmadinhas nas costas, precisam de vitórias! Confio totalmente no que é, por mais que custe dizer, o melhor treinador do nosso campeonato.
Visão do Leitor: Manuel Abecasis


19 Comentários
justocomentador
Excelente texto! E neste momento, a chegar aos 50 jogos e com o único treinado com mais racio de vitórias foi o Amorim. Antes dele, só o Malcolm Allison. Factos.
Tyrion
Concordo com quase tudo, exceto a menção ao jogo com o Braga, que faz parecer que o empate surgiu do céu. Nesse jogo, apesar do erro clamoroso do nosso capitão, a verdade é que o Braga dominou grande parte do jogo e mereceu sem dúvida o empate em nossa casa. E exigia-se bem mais nesse jogo, uma vez que, para além de ser em Alvalade, tivemos mais tempo de descanso após as competições europeias (jogo em Nápoles, num jogo que rodámos a equipa vs jogo em Glasgow do Braga) e o Braga estava em baixo de forma no campeonato. Esse jogo ficou-me atravessado, talvez por ainda por cima ter sido no mesmo dia do Porto x Benfica. Mas lá está, é só um jogo.
Pela positiva, reforço ainda a capacidade do Rui Borges em utilizar a equipa toda durante este início de época, inclusivamente lançando, e da forma correta, vários jovens da formação, mantendo a qualidade de jogo. Destacar ainda a nossa exibição em Nápoles, perdemos mas estivemos por cima por um longo período, e em Turim. Nota-se cada vez mais estaleca europeia.
Antonio Clismo II
ORui Borges tem que construir valor, desenvolver e potenciar jogadores, ganhando jogos.
Fica a parecer que está a treinar o Quenda a jogar no meio para que ele tenha mais chances de ter um papel no próximo ano no Chelsea uma vez que o lado direito já terá dono (Cole Palmer e Estêvão).
Ou seja, o Sporting não pode ser um tubo de ensaio e equipa de desenvolvimento do Chelsea… A aposta concreta do João Simões na Champions está a parecer-me que oSporting se prepara para fazer um encaixe com o João Simões… eu preferia que o Sporting começasse a cortar as gorduras como o Pontelo, Sotiris, etc em vez de andarem a vender as jóias da coroa…
_Mushy_
Aqui está as estatísticas da crise do Sporting e de Rui Borges, feito até a paragens da seleção.
E sim, continuam a pecar na finalização e na tomada de decisão no ultimo 1/3 de campo que tem complicado muita vezes os jogos, mas aí a culpa é da capacidade dos próprios jogadores.
(Retirado do Playmaker do ZeroZero, com uma gralha sobre a equipa com mais posse de bola, que desconheço o resultado)
As equipas + da Liga 🇵🇹:
+ golos: Sporting, 27
Menos golos sofridos: FC Porto, 3
+ remates: Sporting, 226
+ remates enquadrados: Sporting, 85
+ remates dentro área: Sporting, 150
+ remates fora área: Sporting, 76
+ expected goals: Sporting, 25.35
+ remates ao poste: CD Tondela, 8
+ grandes oportunidades falhadas: Sporting, 30
+ cantos: Sporting, 84
+ faltas cometidas: FC Famalicão, 210
+ passes certos: SC Braga, 5659 (87%)
+ posse de bola: 64% (média/jogo)
+ cruzamentos certos: AFS, Benfica, 53
pg1960
Rui Borges, treinador do Sporting, entrou num momento muito difícil e encontrou um grupo completamente destruído. Olhou para os jogadores e perguntou se queriam ser campeões. A partir daí tudo mudou. Herdou uma equipa em ruínas e logo teve de enfrentar jogos de alto nível contra Benfica e Porto, além de iniciar a Liga dos Campeões. Ao contrário do treinador anterior, que teve quase todos os jogadores disponíveis, Rui Borges perdeu de imediato o Pote e, noutros momentos, também o melhor avançado e o melhor médio, chegando a utilizar centrais no meio-campo. Mesmo assim manteve o ritmo e, no momento decisivo, aguentou a pressão e foi campeão. Depois disso também ganhou a Supertaça.
Esse percurso, somado ao trabalho que já tinha feito noutras equipas, provou que era realmente um grande treinador. Percebeu que na primeira fase não conseguia implementar tudo o que queria, mas na pré-época seguinte, apesar de perder o melhor jogador do campeonato, reagiu rapidamente e contratou dois jogadores com perfis diferentes, um mais experiente e profundo, outro mais técnico e maduro. Acabou por acertar nas escolhas.
Com isso conseguiu finalmente implementar a sua ideia principal. Hoje o Sporting tem várias armas ofensivas e continua defensivamente estável. O mais impressionante é a enorme quantidade de oportunidades criadas, as trocas constantes entre avançados e médios e a inteligência coletiva nas movimentações. Isto é mérito do treinador.
ManuelFAlbuquerque_
O Sporting do anos passados estava mais dependente de um jogador (Gyokeres). O Sporting deste ano já se pode dar ao luxo de ir rodando os titulares.
Também porque, sejamos sinceros, Harder é e era um jovem com muito para aprender, com um potencial muito bom, mas Suarez e o grego já são homens feitos com bastantes jogos nas pernas.
Agora toda a gente diz bem do Borges mas ainda me lembro quando disse que o Sporting estava cheio de viúvas vinham com a conversa que sou benfiquista e não sei que mais.
A culpa não é deles, a culpa é de quem tinha obrigação de os educar e provavelmente meteu tudo em cima dos professores e nos tempos livres estava na cartada e no tinto com os amigos.
São vidas, hey, a culpa no fundo não é deles.
Quando eu dizia que as viúvas estavam demasiado agarradas ao passado praticamente toda a gente dizia que até era bom o Borges sair no fim da temporada apesar do título.
Agora já é muito bom, e este “bom” sai todo salivado da boca.
É uma anedota. Mas que grande anedota.
Borges ao mudar para os 3 quando teve necessidade disso já tinha mostrado ser um tipo com algumas capacidades.
Não sei onde está a surpresa.
Pode ser campeão, claro que pode. Sai Gyokeres mas o Core da equipa manteve, e os outros jogadores também são bons.
brunosilva
Um excelente texto.
No inicio critiquei o RB por ele ter mudado uma táctica vencedora para passar para a táctica dele a meio da época para não ficar preso ao Rúben Amorim. Mudou, mas não foi teimoso como fazem muitos treinador, viu que não estava a resultar, voltou atrás e colheu os frutos.
Depois com tempo, ai sim, alterou para a ‘sua’ táctica e aos poucos os jogadores estão a interiorizar a táctica de quatro centrais.
Não é muito bom na comunicação, mas no banco, onde é o mais importante está a levar o seu barco a avante. Vamos ver o que vai acontecer nos próximos jogos, que vão ser muito complicados, assim de repente: Bayern e SLB (fora) Guimarães (casa) e depois Santa Clara para a taça (fora).
Tiago Silva
Tenho dito e pensado exatamente o mesmo durante esta temporada. Fiquei muito reticente se o Rui Borges era o treinador certo para o Sporting, os resultados na época passada foram bons mas as exibições foram muito pobrezinhas. Mas a verdade é que o Rui Borges fez a transição entre o sistema do Amorim e o sistema dele muito bem! Sabe que o plantel tem as suas qualidades e que estavam a ser potenciadas pelo sistema do Amorim, mas está a conseguir moldar esse sistema e ter um toque seu. Trabalho de autor na minha opinião e esta época mudei completamente de opinião em relação a ele. Penso que é neste momento o melhor treinador em Portugal, sendo que outros como o César Peixoto e o Vasco Botelho da Costa têm potencial para chegar ao nível do Rui Borges tendo ainda que provar noutros patamares.
Luke Skywalker
Um dos melhores texto que já li por aqui no VM. Excelente!
Apessoa
Em primeiro lugar é inquestionável que a massa adepta e a comunicação social não dá o crédito que merece ao Rui Borges.
Quero só deixar uma achega ao texto, a vitoria do Porto é inquestionável, podia ter caido para qualquer lado? Exagerado. À parte disso, o Sporting tá a fazer um belo campeonato, a jogar bom futebol. No final faz-se as contas.
E já o disse neste blog, a isenção de responsabilidade do Mourinho por toda a comunicação social é doente.
Neville Longbottom
A vitória do Porto é inquestionável como teria sido a do Sporting se tivesse vencido. Podia perfeitamente ter caído para qualquer um dos lados.
Apessoa
Para cair para qualquer lado era preciso o Sporting ter algumas oportunidades, o que não foi o caso, marcou numa carambola. O Porto venceu e venceu com justiça.
Neville Longbottom
Não tenho nada a contra argumentar nesse caso.
LeaoDoNorte1906
Nao teve oportunidades? Ia jurar que o pote falha isolado em frente à baliza, que o Suarez rematou para uma grande defesa do Diogo Costa nos últimos minutos, só assim de cabeça, mas devo estar a confundir o jogo. O Porto ganhou bem, mas se tivesse empatado ou até perdido não era de todo injusto.
Jan the Man
Impossível não estar de acordo com o texto, mas há que deixar uma ressalva: usando o “se” para justificar o atraso interno está temporada, o mesmo poderá ser feito tanto para a final da Taça como o jogo do título do ano passado. E, caso ambos tivessem tido resultados distintos, será que hoje estaríamos a ter sequer esta conversa? Provavelmente não, mesmo considerando que a grande vitória dele foi ter conseguido manter a equipa na luta até final pelas decisões, contra todas as adversidades.
Penso que o que mais se pode apontar a Rui Borges era a incapacidade nos jogos de grau elevado (tirando o 1o jogo com o Benfica, não venceu mais nenhum clássico nem nenhuma das partidas chave da Liga dos Campeões do año passado), algo que está finalmente a conseguir fazer.
Shurza
Grande texto, concordo em absoluto e ontem logo a seguir ao jogo comentei com um amigo exatamente isto: temos treinador!
Já sem ir ao fácil que é comparar com o rival do outro lado da rua, mas mesmo vendo a evolução do Sporting na Europa – contra o Nápoles (ok que era um jogo contra um adversário superior e fora de casa) a equipa insistia em sair a jogar pelas faixas numa primeira fase de construção, e quando o Nápoles começou a apertar os laterais o Sporting foi-se abaixo. Ontem, quantos lances de perigo são criados por bolas a entrar no corredor central, com os 4 da frente a deixarem marcadores diretos pelo caminho com movimentos de aproximação/rutura ou mesmo derivando para posições diferentes e criando sobreposições nos vários corredores?
O meu ponto é: há evolução, há claramente o estudar de um adversário que vinha balanceado para a frente e com um meio campo que não oferecia grande coisa em termos de ocupação de espaço à frente da defesa (Tzolis então sempre mal colocado), há fluidez e coordenação de movimentos que vem com treino, etc etc. No final, habemus treinador, que não sendo perfeito, está a evoluir a olhos vistos e a equipa cria que se farta e joga um futebol ofensivo (já para não falar na gestão de plantel e jovens jogadores, que para mim tem sido exemplar!)
Obrigado por trazeres esta opinião, muito menos expressada e mediática (talvez pela conotação de “tabernice”, ou melhor dizendo humildade e simplicidade de RB), mas para mim
muito válida!
FVRicardo
Espero que fique muitos anos no SCP e a pouca midia que tem ajudará a que isso aconteça.
Subscrevo tudo, resfriando um pouco, pois ele vai fazendo o seu percurso lado a lado com o clube. Ainda não é um grande treinador, mas entretanto será. O Sporting ainda não é um clube da alta roda da europa, mas a continuar neste caminho, no médio-prazo será (Porto e Benfica também o podem conseguir). O objetivo será estar frequentemente no nível competitivo de Napoles, Juventus, Atalanta, Dortmund, Newcastle, Villa, etc; apenas claramente atrás do top6 inglês, top3 espanhol, PSG, Bayern e Inter.
Ontem entramos pela primeira vez(que me lembre) no top20 do ranking da UEFA.
Temos mais uma vez de falar em Varandas que não vai em novelas, em mediatismo de mercado, criou um plantel-base (e que ótimas notícias seriam as renovações de Trincão, Diomande e Inácio!) e vai reforçando aos poucos até ao nível de hoje em que tem um onze-tipo imaculado e apenas 1 falha óbvia no plantel (4o médio ofensivo ao nível dos titulares).
In a Silent Way
É, sem dúvida, um grande treinador e tem muito mérito nestes 11 meses de SCP. Não há sportinguista que não reconheça isso
Alex Matos
Muito bem escrito!
É verdade que o futebol é o momento e que amanhã o Sporting pode entrar numa má fase e voltam as críticas ao Rui Borges. Mas isso só não acontece ao Guardiola (e mesmo assim…).
Não estamos no amanhã e é preciso dar mérito ao trabalho que tem feito no Sporting. Fui cético em relação ao Rui Borges até ver o Sporting a jogar esta época. Os resultados podem ou não aparecer, mas a verdade é que dá gosto ver a equipa a jogar e o responsável por isso é o Rui Borges.
Muitos parabéns pelo texto.