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Rum, Ska e muito futebol

Carlisle, 1976. Viv Anderson é um jovem jogador, forte no tackling, rápido a subir pelo flanco. Viria, mais tarde, a ser um terror para os adversários. Por esta altura tinha 19 anos e o Nottingham Forest era uma modesta equipa da Division Two do futebol inglês. “Pensava que tinha dito para aqueceres”, disse-lhe Brian Clough. Clough. Um super treinador, campeão nacional anos antes pelo grande rival Derby, a treinar o Forest, da League Two. “E estava, mister, mas eles estão a atirar-me bananas, peras e maçãs”. O incidente não é bonito, mas para Clough não havia desculpas: “Então leva esse traseiro de volta para o aquecimento e traz-me uma banana e um par de pêras”. Três anos mais tarde, Viv Anderson, lateral implacável, era o primeiro negro a ser internacional pela Inglaterra. Seria, anos mais tarde, uma das figuras do Forest bi-campeão europeu. Era assim com Clough. Nada é impossível.
Os tempos não foram fáceis para Viv Anderson, como não o foram para Laurie Cunningham, Luther Blisset ou John Barnes. Estes eram os primeiros passos de uma geração de descendentes de emigrantes jamaicanos que muito dariam ao futebol inglês, e que em muito o ajudariam a alcançar estatuto de excelência. Da Jamaica veio futebol, veio rum, veio música. Dos Rude Boys nasce o movimento Skinhead, ainda de postura apolítica, e os The Beat, os Specials e os Madness inventam o 2 Tone ali pela zona de Coventry. Kingston estava por todo o lado. Era futebol, era rum, era ska, era reggae, era rocksteady.
Em 2014 a coisa é natural. A família Sturridge vai na sua terceira geração de jogadores profissionais e, Daniel, é uma presença assídua nas convocatórias da selecção inglesa. Tal como Oxlade-Chamberlain, Raheem Sterling, Theo Walcott, Ashley Young, Townsend, Lennon. Tal como foram Andy Cole, Ian Wright, Sol Campbell, Darren Bent, Darius Vassel, Wright-Phillips. Jogadores descendentes de pais jamaicanos, com dupla nacionalidade jamaicana, estão presentes pelos vários escalões do futebol inglês. Scott Sinclair, Jermaine Pennant, Nathan Dyer, Garath McCleary, Simon Dawkins, Wes Morgan, Jermain Beckford, Kevin Lisbie, Junior Hoilett, entre muitos outros, e já não vem fruta da bancada para alimentar jogadores em aquecimento.
Nos sonhos destes jogadores estarão sempre leões. Não o Lion of Judah, simbolo Rastafari, mas sim os três leões. Apesar de várias abordagens da federação jamaicana, é difícil convencê-los do contrário (McCleary, Morgan, Rodolph Austin, Mariappa, serão as principais figuras que se renderam). Onde ficam os Reggae Boyz? Em 1998 os Jamaicanos conseguiram a sua, até agora, única presença nos Mundiais de Futebol, numa selecção onde homens como Marcus Gayle, Ricardo Gardner, Deon Burton, Daryll Powell ou Frank Sinclair eram figuras. Os comandados de René Simões, contudo, não passaram a fase de grupos. Para 2014, na quarta ronda de qualificação da CONCACAF não venceram nenhum dos seus 10 jogos.
Nos sonhos dos adeptos do futebol, na Jamaica, estará outro sonho. O sonho em que vários destes jogadores tinha optado por jogar pelo país dos seus pais. Um sonho em que a Jamaica era figura assídua nos principais palcos do futebol Mundial. De uma maneira, ou de outra, assim o é, em Inglaterra. “On Top”, tal como cantam os Heptones.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar no VM aqui!): João Pedro Cordeiro

0 Comentários

  • Gonçalves
    Posted Março 20, 2014 at 11:56 pm

    Mais um brilhante post do João Pedro Cordeiro. Não tinha a noção que a maior parte dos jogadores da selecção inglesa tem raízes na Jamaica…é pena não jogarem todos pela Jamaica pois iam fazer uma selecção muito forte.

    FORÇA no vosso trabalho VM. Não desistam deste projecto…percebo que tenham pouco tempo pessoal e profissional mas por favor não acabem com o VM. Vão ver que os clicks na publicidade e comentários vão aumentar. Não desanimem este é de longe o melhor site de Desporto em Portugal e não pode acabar.

  • NFM
    Posted Março 21, 2014 at 12:10 am

    Grande texto (pessoalmente acho que estas "lições de história" enriquecem ainda mais o blog…

    Eram outros tempos felizmente e como em tudo é preciso alguém ver mais a frente.. No Basebal por exemplo aconteceu ainda pior…

    Brian Clough era um génio e é sempre bom recordar uma das personalidades mais marcantes do futebol inglês.. Para quem não conhece tão bem há um filme sensacional sobre os 44 dias que passou no Leeds num periodo dificil

    • João-Pedro Cordeiro
      Posted Março 21, 2014 at 12:18 am

      Acrescentar ao "The Damned United", o "42", história de Jackie Robinson, o primeiro Africano-Americano da MLB, portanto.

    • NFM
      Posted Março 21, 2014 at 12:56 am

      Sim era esse caso do Basebal que falava.. O filme é sensacional e uma lição de vida de alguém que mudou o curso da história para sempre

    • Pedro Chambel
      Posted Março 21, 2014 at 11:33 am

      Dois grandes filmes, que me marcaram, Brian Clough era um doido, levou o Derby County a campeão de Inglaterra, numa altura que o Leeds dominava o campeonato, e se não me engano e bi-campeão europeu com o Nottingham.
      Estes textos de historia, são muito bem escritos, e são uma grande lição.Parabéns

    • Johnny W.
      Posted Março 21, 2014 at 1:54 pm

      Segundo a antiga gloria do Tottenham e do Arsenal, Sol Campbell, os tempos não mudaram assim tanto. No auge da sua carreira, com 73 internacionalizações (de 96 a 07) pelos 3 leões nunca chegou a capitanear a selecção chegando mesmo a ser preterido para o "rookie" Michael Owen. Isto, segundo ele, porque a FA não queria um capitão preto. Não foi assim há tanto tempo…

    • João-Pedro Cordeiro
      Posted Março 21, 2014 at 2:06 pm

      O Sol Campbell veio com acusações completamente infundadas, só para levantar poeira porque tem uma auto-biografia para promover. Não só o Campbell foi capitão inglês, como antes dele já o Paul Ince tinha sido capitão e o Rio Ferdinand também o foi. Ninguém concorda com ele, nem o Ince, nem o John Barnes, ninguém. E isso diz muito do carácter do Campbell e se calhar do porquê de não ter sido "capitão durante dez anos".

    • João-Pedro Cordeiro
      Posted Março 21, 2014 at 2:13 pm

      Aliás, estamos a falar de um tipo que nem no Arsenal era capitão. Também acha que o Wenger era racista? Durante o período em que jogou na selecção, foram capitães Seaman, Shearer, Ince, Keown, Adams, Beckham, Ferdinand, Adams, etc, todos eles figuras e líderes muito mais relevantes que Campbell. Esta questão nada tem a ver com racismo.

    • NFM
      Posted Março 21, 2014 at 2:45 pm

      Essa questão do Sol Campell não faz sentido até porque a Inglaterra já teve vários capitães negros…

      O próprio Sol Campell chegou a ser capitão em alguns jogos.

  • IS
    Posted Março 21, 2014 at 3:50 am

    The Damned United, um dos meus filmes favoritos, com um dos meus actores preferidos!

    Grande post

  • Miguel Guerreiro
    Posted Março 21, 2014 at 9:21 am

    Bom post João Pedro Cordeiro. Sinceramente os teus conhecimentos de futebol britânico dão 10-0 a qualquer um que aqui opine.
    No entanto, já me tinha lembrado nesta situação da Jamaica que é um pouco semelhante às Suriname, que por exemplo poderia ter tido jogadores como Gullit e Rijkard.
    Tenho uma questão porque é que grande maioria das equipas da Escócia têm orçamentos muitos superiores às equipas portuguesas no entanto têm planteis muito mais fracos? Assim como o Celtic que é uma equipa que não dá para muito mais que consumo interno (na minha opinião).

    • Nelson Mohr
      Posted Março 21, 2014 at 11:55 am

      Miguel, esse aspecto das equipas escocesas terem planteis mais fracos, deverá ser porque os jogadores não tem muito interesse em ir para a liga escocesa, que neste momento é completamente dominada pelo Celtic.

      Agora, o Celtic é uma equipa que potencia ao máximo jogadores desconhecidos. Por exemplo, Wanyama, Hooper, Forster… Ou seja, jogadores que não tem espaço em certas equipas inglesas, acabam por ir parar ao campeonato escoces, e relançam a carreira.

    • João-Pedro Cordeiro
      Posted Março 21, 2014 at 12:48 pm

      Miguel, não estou muito certo em relação à questão do terem orçamentos superiores às equipas portuguesas. E volta e meia lá surge uma equipa Escocesa a entrar em falência. Este ano foi o Hearts, por exemplo. De qualquer maneira, deve ser uma tarefa quase herculea para qualquer direcção que o Celtic, ou o Rangers quando voltar, a conseguir convencer alguém a jogar pelos clubes deles. A última vez que alguém foi campeão que não um destes dois já foi há quase 30 anos e a nível de projecção qualquer equipa é completamente engolida. Não deve haver grande motivação. Ainda assim, Aberdeen (que até bateram o Celtic no campeonato e os eliminaram da Taça) e Dundee United têm equipas interessantes, já tive possibilidade de falar sobre o Dundee algures por aí. (já agora, hoje às 19.45 jogam com o Hearts, num stream perto de ti). Mas pronto, não estou certo de terem orçamentos superiores e não terão capacidade de convencer ninguém a jogar lá.

      Agora… o Celtic é um clube que admiro profundamente e que tem uma estratégia de mercado exactamente ao meu gosto. Acho que às vezes acabam por pagar a factura da falta de competitividade da sua liga, nos jogos das competições europeias, porque eu não acho que a equipa actual do Celtic seja tão mais fraca que o Milan e que o Ajax, falando desta época. Há pouco tempo compraram o Griffiths que é um jogador de quem gosto muito. Se alguém não conhecer, tome nota.

  • Wonderkid
    Posted Março 21, 2014 at 10:24 am

    Mais um excelente post! Gostei da referência ao Ska! ;)
    Não fazia ideia de que alguns desses jogadores que mencionaste tinham ascendência Jamaicana. Extremos então é mato! Many thanks João Pedro Cordeiro.

  • Ruben Pinheiro
    Posted Março 21, 2014 at 12:00 pm

    Excelente post Joao Pedro. Para alem da aprendizagem deu-me tambem vontade para ver outros filmes para la do Damned United de Clough. Na nossa realidade Cabo Verde sera um pouco a nossa "jamaica"

  • Fábio Teixeira
    Posted Março 21, 2014 at 1:26 pm

    Acho que esse filme é mítico. Muitos parabéns.

  • Sideshow Bob
    Posted Março 21, 2014 at 2:14 pm

    A aposta em descendentes de emigrantes por parte da Inglaterra parece me que não foi bem conseguida comparando com outros países europeus. Dois exemplos:

    A Holanda no inico da década de 80 promoveu uma aposta nos filhos de emigrantes da década de 60, provenientes do Suriname, aposta essa que teve como expoentes máximos a conquista do Europeu de 88 (Gullit, o capitão que levantou a taça era filho de pai surinamês) e a Liga dos Campeões conquistada pelo Ajax em 1994-95, equipa composta maioritariamente por jogadores com sangue caribenho.
    Não esquecer que o jogador com mais Ligas dos Campeões conquistadas é um filho adoptado da Holanda proveniente do Suriname.

    O outro exemplo é a França do final da década de 90, que numa equipa composta basicamente por descendentes de magrebinos e caribenhos (Martinica, Guadalupe) conseguiu dominar o futebol de selecções ao conquistar o Mundial e o Europeu de futebol.
    A própria Alemanha hoje em dia tem nas suas fileiras jogadores com as mais variadas descendências.

    Talvez em Inglaterra a aposta não tenha tido o sucesso suficiente por preconceito, mas isso só o autor me poderá responder.

    Grande Laurie Cunningham, 1º britânico a jogar no Real Madrid.

    Um abraço

    • João-Pedro Cordeiro
      Posted Março 21, 2014 at 2:53 pm

      Eu não acredito na "carta racial" para justificar esse menor sucesso, ou menor aposta, em descendentes emigrantes. Primeiro, não creio que haja uma menor aposta. Desde que Viv Anderson foi internacional e, especialmente, nas últimas 2 décadas, não há muitas selecções com tantos jogadores mixed-race como a Inglesa. Não existe nenhum grande jogador que nunca foi internacional e que seja mixed-race. No máximo o Vince Hilaire (uma espécie de Aaron Lennon), o Ruel Fox ou o Paul Davis. Mas ao mesmo tempo O Mortimer, o Gary Shaw, o Paul Warhurst, o Tony Coton, o Billy Bonds ou o Steve Bruce também nunca o foram. Por uma simples razão: Havia sempre alguém melhor na sua posição.

      Tipos realmente talentosos como o Ox, o Walcott, o Sturridge, o Sterling, só começam a surgir agora. A Inglaterra nunca teve jogadores como o Seedorf, o Gullit, o Rijkaard, o Davids, Zidane, Djorkaeff, etc. A França e a Holanda tiveram mais sucesso com essa aposta, porque simplesmente os jogadores eram mais talentosos.

      De resto, a selecção inglesa será sempre um problema ela própria. A matéria prima existe, a qualidade está por todo o lado, mas por algum motivo falham sempre. Ou por sobranceria, ou por incompetência, ou porque simplesmente o estilo inglês e a forma de jogar do jogador inglês, nunca se impõe contra as equipas continentais. A nível individual é díficil encontrar um jogador britânico que tenha sido uma super estrela fora do Reino Unido, por exemplo.

  • NFM
    Posted Março 21, 2014 at 3:14 pm

    É uma excelente questão…

    A própria França foi campeã do Mundo somente com um françês

    • Kafka I
      Posted Março 21, 2014 at 10:50 pm

      Isso é tão mas tão mentira, já por diversas vezes aqui no Blog demonstrei que isso é talvez das maiores mentiras inventadas pela Comunicação Social, no desporto Mundial…eles eram TODOS Franceses

    • João Lains
      Posted Março 22, 2014 at 12:54 am

      Só para esclarecer:

      Nascidos em França (18): Barthez, Blanc, Zidane, Deschamps, Lizarazu, Djorkaeff, Henry, Dugarry, Anelka, Petit, Wiltord, Candela, Pires, Trezeguet, Leboeuf, Micoud, Lama e Ramé

      Nascidos no estrangeiro (4): Desailly, Vieira, Thuram e Karembeu

      Outras ascendências (9+4): Zidane, Lizarazu, Djorkaeff, Henry, Anelka, Wiltord, Pires, Trezeguet e Lama

  • Sideshow Bob
    Posted Março 21, 2014 at 3:25 pm

    O talento é relativo, a Holanda também teve "barretes", desde Babel, a Drenthe passando por Hasselbaink., tudo jogadores que com qualidade mas que nunca (pelos mais diversos motivos) atingiram o auge do seu futebol.
    O que poderás dizer é que tiveram a "sorte" de terem bastantes bons jogadores ao mesmo tempo, aí concordo, não é fácil juntar Seedorf, Kluivert, Davids, Winter, Bogarde ou Zidane, Thuram, Djorkaeff, na mesma equipa.
    Creio que existe um certo conformismo por parte dos jogadores ingleses (nativos ou descendentes) em relação a aventuras no estrangeiro, preferem invariavelmente permanecer no seu país a abraçar uma transferência para o estrangeiro, a qualidade deles só tinha a ganhar com a aprendizagem de novos métodos e culturas, talvez seja por aí a solução.
    Assim de cabeça só me recordo do Souness, do Keegan, do Waddle, do Platt, do Trevor Francis,do Lineker, do Mcmanaman e do Beckham. Ou seja, a grande maioria na década de 80. Muito pouco para o potencial apresentado.

    Um abraço

  • Urso
    Posted Março 21, 2014 at 9:58 pm

    Grande, grande texto.

    Parabéns!!!

  • João Lains
    Posted Março 22, 2014 at 12:11 am

    Excelente texto, um dos mais enriquecedores e que mais prazer me deu ler neste blogue. Só gostava de deixar um reparo, para a próxima não precisas te nomear tantos exemplos sobretudo aqueles que não são conhecidos para a grande maioria de nós.

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