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Saberá mesmo Rosário quem é Robert Lewandowski?

Saberá mesmo Rosário quem é Robert Lewandowski? Parece-me improvável. O franzino rapaz timorense, que até aparenta não gostar muito de futebol, deve ter outros ídolos, outras referências, que no infinito imaginário de uma criança de 10 anos, com certeza surpassam o avançado polaco do Dortmund. A camisola que ostenta diariamente, todavia, leva-nos a crer o contrário. Vagueando pelas desordenadas ruas de Dili, facilmente nos podemos perder, ou quiçá encontrar, num universo futebolístico paralelo, numa dimensão alternativa de vassalagem ao desporto-rei. Por entre incontáveis Messis e ainda mais Cristianos, de quando em quando lá brota um Iniesta ou um Lewandowski, estampado nas costas de um qualquer transeunte timorense. E tal como próprio futebol se pode resumir na palavra ‘golo’, é também através deste simples termo que podemos perceber a razão das t-shirts dos timorenses. O duelo de titãs goleadores entre ‘A Pulga’ e CR7 justifica a preferência geral, secundada pelo golo de Iniesta que ofereceu à Espanha o Mundial de 2010. Já a opção por Lewandowski, arrisco categorizar como um fenómeno recente, provavelmente originário do infame poker obtido pelo polaco, na semifinal da Liga dos Campeões do ano passado.
Timor-Lorosae, terra do sol nascente. E o sol nasce mesmo durante os grandes jogos europeus, erguendo-se ferozmente sobre uma paisagem de timorenses concentrados sobre um ecrã, perscrutando os seus ídolos, ao desvanecer da madrugada. Contudo, e ao contrário de que acontece no velho continente, aqui o resultado final assume um papel secundário. O que interessa aqui é o espetáculo, o show de bola, a vírgula, a letra, o cabrito ou a cuequinha. É ter o pretexto para gozar saudavelmente com o vizinho, lembrando-lhe que o Real Madrid dele perdeu com o nosso Barcelona. O facto de só na semana passado nos termos convertido de blanco a blaugrana não tem qualquer relevância.
Em Timor-Leste, o futebol tem a si associado um misto de paixão e leviandade, uma áurea de devoção e simplicidade. Os timorenses parecem compreender a essência do desporto melhor que ninguém, a sua capacidade para unir, ao invés de separar. Esta máxima talvez lhes seja intuitiva, tendo lhes sido cravada indiretamente pelas cicatrizes de uma guerra de 25 anos, em busca da independência. Após a queda do regime salazarista em Portugal, e consoante libertação das colónias ultramarinas, Timor-Leste tornou-se num país livre, autónomo. Todavia, e ao contrário do sol que abrasa todos os dias o povo Maubere, este sol foi de pouca dura. Em Dezembro de 1975, a gigante Indonésia invadiu Timor-Leste, anexando o país sobre o pretexto, porventura irónico, de anticolonialismo. Seguiram-se 25 anos de sofrimento atroz de povo Timorense, que mesmo massacrado e vendo a sua identidade despedaçada lentamente pelo vizinho invasor, nunca desistiu de lutar. Cerca de 200.000 timorenses pereceram, enquanto tantos e tantos outros se escondiam nas cadeias montanhosas do país, em lugares como o Monte Ramelau, outrora o ponto mais alto do Império Colonial Português. A resistência durou 25 anos e triunfou finalmente em 1999, após a comunidade internacional finalmente se inteirar do direito, desta pequena metade-de-ilha no Sudeste Asiático, à autodeterminação.
Hoje em dia, a grotesca ferida causada pela invasão indonésia na pele dos Timorenses aparenta já estar sarada. Mas não sem ter deixado cicatrizes. Talvez estas expliquem a postura do povo Timorense para com o futebol, quiçá lhe permitam ter uma perspetiva do desporto totalmente diferente dos europeus. Uma postura de um antagonismo lógico, na qual o futebol tem toda a importância, mas ao mesmo tempo, não tem realmente importância nenhuma.
Saberá Rosário quem é Robert Lewandowski? Parece-me mesmo extremamente improvável. Será que isso é minimamente relevante? Não, de modo algum. Tal como sua a nação, ele é extremamente jovem, e o futuro de ambos reserva-lhes tantas, mas tantas outras coisas muito mais importantes, em que importa pensar. E de qualquer forma, não obstante o que aconteça, nesse tal futuro a bola ainda estará a rolar nos pelados de Timor-Lorosae, dia após dia. É certo. Tão certo como isso, só mesmo o nascer do sol.
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar no VM: aqui!): Miguel Burbach Trêpa

0 Comentários

  • Cabo
    Posted Maio 26, 2014 at 8:53 pm

    Qualidade!
    Parabens, continua!!

  • Tiago Saraiva
    Posted Maio 26, 2014 at 5:36 pm

    Há um ano, por mero acaso e azar, não entrou no site o texto do Guardiola.
    Entrou este agora e que cartão de visita! Continua!
    Parabéns grande abraço!

  • Ricardo Silva
    Posted Maio 25, 2014 at 10:30 pm

    Para quem passou por essas ruas há poucos meses, o retrato é bastante fiel ao que também testemunhei. Estranhei ter visto muito poucas camisolas de clubes portugueses.
    Pena o fuso horário pesar tanto. Mas impressionou-me muito essa identificação com os clubes e o futebol, as balizas colocadas em locais imprevistos. Em Bali não foi muito diferente.

  • Marco Matias
    Posted Maio 25, 2014 at 6:47 pm

    Bom saber que este site também faz confundir o futebol com a vida.Estou pra mandar um texto desses.Obrigado Miguel.

  • Ricardo Ventura
    Posted Maio 25, 2014 at 5:56 pm

    Maravilha de texto? Está bem…

    • Kafka
      Posted Maio 26, 2014 at 8:22 am

      Este Ricardo Ventura é o rei do disparate, limita-se a criticar tudo e mais alguma coisa aqui no Blog…mas é incapaz de apresentar um argumento que seja a fundamentar a sua critica, apenas critica por critica…enfim..

    • Daniel C.
      Posted Maio 25, 2014 at 7:38 pm

      Não é um grande texto? Quem lhe dera escrever metade do que este senhor escreve.

      Sobre o mais importante, quero elogiar e de que maneira a qualidade deste excerto. Muitos parabéns ao VM e principalmente ao autor. Brilhante!

    • Sardão da Noite
      Posted Maio 25, 2014 at 7:29 pm

      Não gostou Ricardo? Isto é prosa criativa da mais elevada qualidade. Nem José Cardoso Pires escreveria melhor

  • Hugo
    Posted Maio 25, 2014 at 4:23 pm

    Grande texto. Vivi 2 anos em Timor e vi a grande paixao pelo futebol. Vivo agora em Macau e os chineses nao tem metade da paixao dos timorenses

  • Anónimo
    Posted Maio 25, 2014 at 3:25 pm

    Belíssimo texto! Isto também é futebol, é sermos capazes de melhorar o mundo através do desporto, trazer a felicidade aos mais carenciados e que tanto dela precisam.
    Viva o Futebol!

    cumps
    Brejnav

  • Anónimo
    Posted Maio 25, 2014 at 3:21 pm

    Maravilha de texto! Uma perspectiva diferente e interessante do desporto rei.
    Continua Xanana Trêpa!

    Manuel A

  • Sardão #99
    Posted Maio 25, 2014 at 2:43 pm

    Uma maravilha, que continues a ter o prazer de escrever sobre o futebol, não faltarão leitores de certeza!

  • Anónimo
    Posted Maio 25, 2014 at 2:34 pm

    Foi um prazer ler esta texto!

    Este blog aparenta ter muita qualidade!

    engraçado que visualizo este texto no dia em que na radio um comentador disse "em Portugal não se fazem bons textso sobre futebol " …
    desconhece os escritores deste blog

    parabéns

    Mr.Green

  • Anónimo
    Posted Maio 25, 2014 at 2:19 pm

    Foi um prazer ler este texto, parabens a ti e ao VM por deixar entrar no seu blog outras perspectivas de outros lugares, esta vindo praticamente do lado oposto do mundo.

    Abraço

    Francisco Espregueira

  • Nelson Mohr
    Posted Maio 25, 2014 at 2:16 pm

    Excelente texto. Os meus parabéns ao escritor! :)

  • Filipe M
    Posted Maio 25, 2014 at 1:59 pm

    Belíssimo. Muitos parabéns.

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