O futebol holandês sempre foi conhecido pelo talento dos seus jogadores, o bom futebol e a qualidade da sua formação. De Cruyff e a Rinus Michels, os grandes bastiões da célebre Laranja Mecânica, passando por Van Gaal ou jogadores superlativos como Bergkamp, Marco Van Basten, os irmãos De Boer, Van der Sar, Rijkaard, Seedorf, Davids, Sneijder ou Van der Vaart, a arte, criatividade e técnica sempre fizeram parte dos padrões futebolísticos da Holanda. Em comum, todas estas personalidades têm um nome: Ajax. Tida como a mina de ouro neerlandesa, o Ajax tem contribuído fortemente para produção de jogadores em série, que fazem parte da história não só dos Godenzonen, como posteriormente de outros clubes de topo na Europa. Os títulos são muitos, as memórias ainda mais. No entanto, esta época tem provado que nem só de Ajax se faz a história no país das tulipas. Apesar do actual domínio que exerce na Eredivisie, onde lidera o campeonato depois de o ter reconquistado já este ano, os holofotes começam a dividir-se por outros pontos, nomeadamente Alkmaar, que ameaça fornecer igualmente uma geração que permita à Holanda reerguer-se.
Com o 2.º melhor ataque e a melhor defesa do campeonato, o AZ Alkmaar tem aproveitado a quebra do PSV Eindhoven para se tornar no principal perseguidor do Ajax. O duelo entre ambos na jornada 17 já deixa água na boca, sobretudo porque a turma de Arne Slot, antigo adjunto do clube, tem realizado uma recuperação notável nas últimas semanas e praticado um futebol entusiasmante, que se estende além fronteiras. Além do 2.º lugar na Eredivisie, o AZ emperrou o Man Utd na sua casa (0-0) e segue em zona de apuramento do Grupo L da Liga Europa, com 8 pontos, menos 2 que os Red Devils, ainda que com um saldo de golos amplamente superior (13-2 contra 5-0). Nas últimas cinco partidas, o AZ esmagou todos os adversários que lhe surgiram pela frente (saldo de 21-0), com particular destaque para uma goleada em Eindhoven (0-4).
No entanto, mais do que os resultados, surpreende a aposta que o clube tem feito em jovens e a forma como tem aliado essa política a resultados incríveis para a dimensão do clube. Importa salientar que o AZ foi campeão em apenas duas ocasiões, a última das quais em 2009, sendo que desde aí não termina no pódio do campeonato. Nessa equipa figuravam nomes sobejamente conhecidos do futebol europeu como Graziano Pellè, Stijn Schaars, Ari, Klavan, Demy de Zeeuw, Sergio Romero ou os jovens Jeremain Lens, Moussa Dembelé (que na altura era avançado) e Héctor Moreno, mas pode-se dizer que esta geração actual será a mais promissora do século.
Sem surpresa, Ronald Koeman, seleccionador holandês, está atento e convocou Calvin Stengs e Myron Boadu para os próximos compromissos da Holanda com Estónia e Irlanda do Norte. O primeiro trata-se de um extremo de 20 anos, com um pé esquerdo diabólico e muita qualidade em zonas de criação e finalização. Recentemente destruiu a selecção sub-21 portuguesa, onde é figura de proa do escalão, sendo que leva já nove golos pelo clube esta época. Já Boadu é a nova coqueluche dos Cheeseheads. Tem 18 anos, é rápido e possui um instinto predador herdado dos grandes matadores holandeses. Leva 14 golos no AZ e promete não ficar por aqui. São ambos produtos da formação do clube e mais poderão estar a caminho da selecção principal. O próximo poderá ser Teun Koopmeiners, capitão de equipa aos 21 anos e um médio de muita elegância, qualidade de passe e competência nas bolas paradas, bem como Owen Wijndal, um lateral esquerdo de 19 anos que oferece muita profundidade ao corredor. Noutro patamar estão já Guus Til, que rumou à Rússia no Verão, ou Dani de Wit, criativo que não pertence à formação do AZ, mas que foi repescado esta época e que, aos 21 anos, começa a mostrar o seu melhor futebol. Por outro lado, nota ainda para o marroquino Oussama Idrissi, o grego Pantelis Hatzidiakos ou o japonês Yukinari Sugawara, proveniente da equipa B, que se vêm igualmente destacando e permitem ao AZ entrar muitas vezes com um 11 com uma média de idades baixíssima, abaixo dos 23 anos. O AZ domina habitualmente o 11 da Holanda sub-21 e, por outro lado, mais poderão estar na calha para a equipa principal, tais como os internacionais sub-17 Mohamed Taabouni e Soulyman Allouch, presentes na caminhada actual até à meia-final do Mundial, onde medirão forças com o México, bem como o central Maxim Gullit, filho do mítico Ruud Gullit, o médio Kenzo Goudmijn, que foi chamado num jogo da época passada, tal como Zakaria Aboukhlal, virtuoso “roubado” ao PSV no início da época e que já soma seis partidas.
Neste sentido, parecem existir claros sinais de que há talento na Holanda além do Ajax. O futebol holandês viveu tempos complicados nesta década, com os clubes a atravessarem crises que pareciam permanentes e a selecção a ficar de fora do Euro 2016 e do Mundial 2018, mas aos poucos a Laranja Mecânica vai-se reerguendo (a presença na fase final da Liga das Nações foi um primeiro sinal) e, perante a qualidade da formação de Ajax (além dos consagrados Matthijs De Ligt, Frenkie de Jong ou Van de Beek há ainda Schuurs, Eiting, Lang ou os meninos Ekkelenkamp, que já jogou Champions, Gravenberch ou Sontje Hansen, melhor marcador do Mundial sub-17), PSV (muita atenção a Ihattaren, Malen e Gakpo) ou AZ há razões para estar crente de que o futuro será risonho. Quem sabe se não voltaremos a ver a Holanda a discutir uma grande competição internacional brevemente.
Rodrigo Ferreira


14 Comentários
Fantantonio
Com Malen e Boadu será que a seleção holandesa vai voltar a ter um ponta de primeira linha como sempre teve? Do que pouco que vi, tem-me parecido que têm todas as condições para isso. Excelente leitura.
De Carvalho
Questiono se algum dirigente de Rio Ave, Portimonense, Maritimo, Santa Clara por exemplo leu este artigo.
Fantantonio
Acho um pouco injusto colocar Rio Ave e Marítimo nesse lote, já que os vilacondenses têm sempre jogadores da formação a fazer parte do plantel e de há uns anos para cá têm formado equipas fortes nas camadas jovens e os insulares acho que são a única equipa portuguesa que nunca se desfez da equipa B e continua a utilizá-la como recurso para lançar jogadores no plantel principal (portugueses ou não, isso já é outra discussão). Porém, consigo compreender o propósito do comentário e respeito.
Berardo
Stengs é um craque e bem que podia entrar no radar do Benfica para a próxima época, tanto joga a partir do lado direito como no meio, com um pé esquerdo de muita qualidade e uma visão de jogo acima da média.
Com as devidas diferenças obviamente, mas é um jogador na linha de Hakim Ziyech e caía que nem uma luva no plantel do Benfica, mas como jovens só os do Seixal ou quem tenha 10/12 anos para poder evoluir no “Benfica Lab” e ser vendido… passa à frente, não interessa!
Kwyx
Excelente texto. Só uma pequena nota, quando referiste as promessas do Ajax, penso que te esqueceste de referir o que mais promete, Naci Unuvar.
Rui Miguel Ribeiro
Texto muito interessante e gratificante para mim, fan como sou da Holanda desde pequeno!
Antonio Clismo
A forma com que a dupla Stengs-Boadu destruiu Portugal no escalão de sub21 mostra bem o potencial destes jogadores.
Por vezes é preciso ir ao fundo para construir bem feito. Foi o que aconteceu com a Holanda e talvez é o que é preciso acontecer em Portugal. O futebol da nossa liga está a um nível deprimente. 18 equipas e nenhuma consegue fazer uma jogada decente num jogo de 90 min… Se era para isso não se percebe porque são investidos milhões e milhões todos os verões a trazer todos esses estrangeiros que depois se vai ver e não são superiores a ninguém de cá, que sem espaço têm que sair do futebol…
FVRicardo
Há muito talento na Holanda porque ao contrário de nós eles formam a pensar no jogador e não no resultado.
Hoje em Portugal nos escalões de petizes e traquinas (6,7 e 8 anos) já estamos muito mais focados na organização das equipas e na tatica ao invés de metermos em primeiro lugar a evolução da relação com bola por parte dos atletas.
Antonio Clismo
Os treinadores holandeses não têm medo de apostar nos jovens da formação, aliás, até são encorajados a isso.
Já em Portugal, parece que existe um estigma generalizado em que os treinadores evitam ao máximo apostar na formação… Os resultados deprimentes estão à vista.
centopeiaapatica
de facto, o az tem uma grande geração, estou em crer que o stengs e o wijndal vão acabar no ajax. e o de wit é tudo menos criativo.
Antonio Clismo
o capitão koopmeyners é um jogador tremendo também. Uma equipa toda ela muito jovem.
centopeiaapatica
esse é um jogador já mais maduro e creio que o ajax já está servido na posição, acredito que vá direto para itália ou para a bundesliga. certamente estará nas proximas convocatorias da holanda. o az alkmar está a produzir talento em massa.
Tiago Silva
Esta época tenho acompanhado este AZ de perto, estão a jogar muito bem! Gosto especialmente do Koopmeiners, um jogador carregado de classe, um 6 que escassa, muito forte a manter a bola na sua posse e a libertar sempre com qualidade. Mas a estrela maior é mesmo o Stengs, um jogador à parte nesta equipa é por ele que passa todo o jogo ofensivo do AZ, teoricamente ele é um extremo direito, mas está constantemente no centro do terreno a desequilibrar onde faz mais mossa, é muito inteligente e tem uma qualidade técnica e de definição fabulosas! Há poucos jogadores como ele, acredito que poderá ser um grande destaque num clube do topo. O Boadu é uma espécie de bulldog, pequeno mas muito potente e poderoso e com um instinto matador muito bom. O Wijndal também é muito interessante e com a escassez de grandes laterais esquerdos em equipas como o United, o Chelsea, o Inter, o Bayern, não acredito que fique muito tempo na Holanda.
André Dias
Leitura interessante, principalmente para alguém como eu que não costuma estar a par do futebol de formação. Bom texto, Rodrigo.