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UFC: a imprevisibilidade enquanto factor de atração

O que hoje é uma certeza no UFC, amanhã já não o é, e Dana White fez questão de o mostrar mais uma vez. Numa live do Instagram o patrão da companhia fez um conjunto de anúncios que deixou os fãs de MMA empolgados, agitou as águas, criou expectativas e semeou as dúvidas. No fundo foi deixada a semente para o questionamento do futuro e isso merece ser analisado.

Em suma, Dana White anunciou que Ilia Topuria subirá de divisão, deixando o título dos featherweight vago; que haverá um Volkanovski vs. Diego Lopes pelo título; que Paddy Pimblett irá defrontar Michael Chandler; e a contratação do duplo ex-campeão do Bellator, Patrício Pitbull, que irá defrontar Yair Rodriguez, quinto classificado da sua divisão. Cada um destes anúncios merece uma análise e é isso que será feito.

  • Ilia Topuria, o homem que agitou as águas

Topuria tem direito a ter todas as pretensões. É legítimo e quer-se mais lutadores assim. O facto de ter sido, juntamente com Alex Pereira, o lutador do ano de 2024 deu-lhe toda a capacidade para reivindicar o que lhe parece melhor para o seu futuro, para consolidar uma carreira e colocá-lo no Monte Olimpo do MMA. Mas não será cedo para tamanha ambição?

Vamos aos factos: Topuria só teve uma defesa de cinturão e conta com oito combates no UFC (5 vitorias por KO/TKO; 1 vitória por submissão; 2 vitórias por decisão). Embora se tenha afirmado como o melhor dos featherweight, parecia ainda necessário afirmar o estatuto que arroga para si com mais uma ou duas defesas de cinturão. A vitória sobre Max Holloway dissipou dúvidas. O detentor do título BMF vinha com balanço depois da vitória sobre Justin Gaethje e nunca tinha perdido via KO/TKO. Topuria deu espetáculo e com o seu striking acutilante arrumou a questão.

Para consolidar o seu estatuto e desafiar Islam Makachev directamente, poderia ser necessário conceder uma desforra a Volkanovski (que também foi batido por Islam) e defender o título contra Diego Lopes. Não o veremos e permanecerá a dúvida se o brasileiro não teria sido um grande desafio para o espanhol-georgiano. Convenhamos que do top 5 do ranking dos featherweight, ainda lhe faltava Diego Lopes (3.º), Movsar Evloev (4.º) e Yair Rodriguez (5.º).

Para subir de divisão, a equipa de Topuria invocou dificuldades no corte de peso. A justificação parece pouco verosímil. O agora ex-campeão tem 1,70 cm e dificilmente teria dificuldades em atingir os 66 kg na altura da pesagem. É também aqui que entram mais variáveis para a análise.

Ao que se sabe, precisamente pelo baixo número de defesas de títulos, Islam Makhachev não quer dar já uma oportunidade a Topuria, não o considerando merecedor no imediato. O UFC precisa, no entanto, de um bom pay per view para o International Fight Week que acontecerá em Junho. Poder-se-ia considerar Alex Pereira para cabeça de cartaz desse card, mas há a luta contra Magomed Ankalaev a 9 de Março, o maior desafio para “Poatan” até ao momento, é difícil imaginar uma luta sua contra Du Plessis já que este lutou há duas semanas, ou contra Aspinall ou Jones, porque Dana White não parece interessado. Jones vs. Aspinall podia também ser uma hipótese, mas o campeão parece estar a evitar o campeão interino por um variado conjunto de razões.

Por esta razão, um combate entre Topuria e Islam parece um cenário provável. O público tem interesse e a promoção do combate poderia assemelhar-se a Conor McGregor contra Khabib Nurmagomedov. No entanto, pela lógica, Islam tem razão no que diz respeito à oportunidade que deve ou não ser dada ao ex-campeão dos featherweight. Para Topuria, subir para os lightweight significa bater-se com Charles Oliveira que tem 1,80 metros, com Justin Gaethje que também tem 1,80 metros, ou com Dustin Poirier que tem 1,75 metros. O reach faz a diferença e importa, sendo certo que Arman Tsarukyan, assim como Topuria, tem 1,70 metros.

O mais lógico seria Ilia Topuria poder enfrentar Charles Oliveira. O brasileiro, depois de Arman Tsarukyan, era neste momento o principal candidato a um combate pelo título. Enquanto ex-campeão, dava mais legitimidade a Topuria a reclamar um combate com Islam Makhachev e as dúvidas podiam desaparecer. Charles “Do Bronxs” procura voltar aos tempos de glória, é o maior finalizador da história da organização, e o que mais venceu lutas por submissão. Num plano prático era o adversário ideal.

Veremos qual o futuro para Ilia Tuporia na divisão que para muitos é a mais competitiva, onde o reinado de Islam Makhachev, o número um do ranking pound for pound, é soberano.

  • Alexander Volkanovski vs. Diego Lopes: o homem que quer voltar ao trono contra o homem que pode construir um legado

Há motivos de interesse. O que aqui temos é a lenda da divisão dos featherweight, ex número 1 dos pound for pound contra Diego Lopes, um lutador claramente merecedor de uma oportunidade pelo título. Apesar de ser um combate pelo cinturão da divisão, este não significa o mesmo para os dois lutadores e poderá definir a carreira de ambos.

Apesar de ter o segundo colocado no ranking dos featherweight, Alexander Volkanovski vem de duas derrotas seguidas, ambas por KO e ambas contra campeões (Makhachev e Topuria), e nos últimos 4 combates só ganhou 1. A oportunidade de lutar pelo título é única, mas perder contra Diego Lopes poderá significar que “Volk” nunca mais terá uma chance igual e significará que o fim da sua carreira poderá estar próximo, dados os seus 36 anos.

Para Diego Lopes, este combate pode significar o início de um novo reinado. Em 6 combates na companhia, o brasileiro só perdeu na sua estreia na companhia e desde então somou 5 vitórias seguidas, alcançou duas performances da noite e uma luta da noite. Deste 5 combates, arrumou 3 no primeiro round. É um lutador empolgante que dará trabalho a Volkanovski. Num combate pelo título vai apanhar um lutador na fase descendente da carreira, não vai apanhar um campeão em título e pode sentir que está a uma curta distância de entrar para as páginas de história do UFC. Um comboio assim só passa mesmo uma vez, sendo que nada diz que em caso de derrota não surgirão mais oportunidades.

  • Paddy Pimblett vs. Michael Chandler: para o inglês mais um degrau, para o americano algo que pode ser um presente envenenado

Paddy “The Baddy” Pimblett é o que se pode considerar um fenómeno de popularidade. Apesar de estar somente colocado no 12.º lugar no ranking dos lightweight, o carisma e o «trash talk» fazem dele um dos lutadores mais populares. Resta ainda saber se terá um real valor que corresponda à dimensão que ganhou.

Para o inglês, apanhar Chandler pela frente é uma oportunidade para calar algumas bocas. A sua vitória contra Tony Ferguson não convenceu, até porque foi por decisão e o ex-campeão vinha de 6 derrotas seguidas, estava numa evidente má forma e já não era visto com o prestígio que outrora teve. Já a última vitória de Pimblett contra King Green, via submissão no primeiro round, deu boas notas, sendo que as dúvidas subsistem. Apanhar Chandler permite-lhe subir no ranking, em caso de vitória permite-lhe aspirar a um combate contra alguém do top 5 da divisão na segunda metade do ano e a um possível combate pelo título em 2026.

Por outro lado, para Chandler, uma derrota não o colocaria em bons lençois. Chandler foi refém da própria ambição, quis um combate com McGregor porque sabia que isso lhe daria notoriedade e dinheiro. Meteu as fichas todas nesse combate, deu-se ao trabalho de ser treinador no The Ultimate Fighter e tudo em vão. Ficou à espera, à mercê da instabilidade de McGregor e perdeu tempo. A verdade é que em 5 combates, Chandler só tem uma vitória, contra Tony Ferguson. O estatuto com que chegou ao UFC está a evaporar-se e perder contra o Paddy “The Baddy” pode ser um prego no caixão. Em 6 combates na companhia, Chandler só tem duas vitórias. Pode-se concluir que o americano joga o futuro.

  • Yair Rodriguez vs. Patrício Pitbull: a nova contratação que terá que contraria a imagem deixada por Chandle

Patrício Pitbull foi campeão em duas divisões no Bellator. A ida para o UFC confirma também que a PFL, companhia que adquiriu o Bellator, está a ser uma promessa não cumprida, que tarda em empolgar e em competir com o UFC. Para Dana White, que sempre criticou a PFL e o seu modelo de negócio, a contratação de Pitbull é uma forma de provar que não há competição.

Este combate interessa, precisamente para ver qual o nível do Bellator/PFL, e se um ex-campeão dessa organização tem realmente valor de elite. Importa lembrar que Chandler também veio do Bellator com o mesmo prestígio, mas não conseguiu estar à altura do mesmo.

Patrício Pitbull terá pela frente Yair Rodriguez, 5.º colocado no ranking dos featherweight e que vem de duas derrotas seguidas. Um adversário que, caso venha a ser superado, permitirá ao brasileiro instalar-se confortavelmente na divisão e apontar a voos maiores.

Visão do Leitor: António Azevedo

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

4 Comentários

  • Mantorras
    Posted Fevereiro 21, 2025 at 8:14 pm

    O Topuria tem um boxe excelente e aquele “touch of death” que, no peso dele, nem sequer e nada normal, no entanto lutar ja com o Islam e dar um passo maior que a perna. O UFC tem interesse em manter as divisoes com campeoes que vendam, dai que o Topuria para subir, nao pode estagnar featherweight. Assim faz todo o sentido (e segundo li sera regra a partir de agora, ou seja, nao ha ca manter 2 cintos ao mesmo tempo e quem quiser subir tem que deixar o cinturao que tem) ter Volk ou Diego como campeao, um Goat da divisao ou um dos contenders mais entusiasmantes de ver lutar. Em WW, Belal nao reune propriamente uma legiao de fas, imagino que tenha um reinado estilo Strickland, perde na primeira defesa e nao volta a reinar, e tendo o Islam referido que gostaria de lutar acima, o UFC tem todo o interesse em que o Islam suba antes de lutar com o Topuria, digo eu, se isso for serio da parte do Russo.
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    Logo, em principio, vejo Topuria a lutar com Dustin, Justin ou Charles. Dustin como uma luta de final de carreira contra um campeao, Justin pelo apelo da luta “interessante”, mas sinceramente nao meteria alguem que foi curto para o Max a lutar contra o primeiro a nockautear o Max, e Charles porque e o main contender, e qualquer um deles, e uma lenda da divisao ao dia de hoje, e como tal, um welcome interessante para o Ilia. Se o Ilia nao vencer um destes, convenhamos, nao passaria no Islam, e se vencer, cimenta a sua posicao como contender, fazendo mesmo com que o Islam olhe para ele de forma diferente, porque o legado de vencer o campeao de featherweight sem qualquer luta em LW e pequeno, vao dizer o mesmo que disseram quando venceu o Volk, mas se o Ilia arrumar com um Charles, entao a defesa ja se tornaria algo importante no legado do Islam.
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    Eu imagino que a ideia do Dana e ter Topuria como campeao de LW e Islam de WW, ou entao caso o Islam nao suba, faz a luta entre Topuria e Islam se o Topuria vencer um contender em LW, mas primeiro tera que dar esse passo para descobrir o passo seguinte.
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    Quanto a international fight week, acho que sera Jon vs Aspinal, ou pelo menos assim quero acreditar. E a luta mais apetecivel do momento, e faria todo o sentido em termos de timing. Espero que o Chandler de KO ao Paddy e que o Yair de o show do costume, e venca.

    • Citizen_Erased
      Posted Fevereiro 22, 2025 at 4:25 pm

      Essa ideia dos cinturões parece-me boa, até porque depois podias ter potencialmente um efeito McGregor – basta o gajo querer mais condições e empata duas divisões.

      Não sei sinceramente se o Belal perde tão facilmente – entrou num novo regime (!!!) que além de o tornar um Adónis, ainda lhe deu um gás do outro mundo. Acho que só perde mesmo para o Islam (embora este não queira lutar porque costumam treinar juntos) ou, com muita sorte deste, com o Rakhmonov. O resto amassa tudo.

      Quanto à IFW, fala-se ou de Jones vs Aspinall, o que duvido, ou em contrapartida a possibilidade do Poatan subir se passar pelo Ankalaev. Parece-me justa a segunda opção, dado que ele ganhando já limpou praticamente a divisão toda (ou em alternativa um Du Plessis vs Chimaev… Não me parece descabido dado que acho que o Chimaev já consegue visto americano):

      • Mantorras
        Posted Fevereiro 23, 2025 at 2:19 pm

        Em relacao ao Belal, sim, ele ta melhor, mas continua sem capacidade de fazer grandes estragos nos adversarios, e muito controlo, mas o finish rate dele e demasiado fraco para um campeao, e por isso, o proprio UFC nao o quer ter como champ. Considero o Durinho melhor que ele e nunca foi campeao… vamos ver. Venceu o Leon fair and square, mas o Shavkat e mais completo, mas mesmo o Usman ja velhinho, se nao tiver lesoes (impossibel), consegue anular os pontos fortes do Belal.
        Quanto a IFW, sim, Du Plessis vs Chimaev era grande luta, espero mesmo que o Chimaev entre numa fase com menos lesoes e problemas de cortes de peso, doencas, etc, porque prometia muito e tem lutado muito pouco.

  • Citizen_Erased
    Posted Fevereiro 22, 2025 at 4:19 pm

    Mais um excelente artigo, numa semana em que houve estas novidades todas que expões, e ainda outras informações adicionais (Edwards vs Brady e o Belal vs Maddalena – Não sei que raio se passa com o Rakhmonov mas claramente ele e o Belal andam desencontrados).

    Quanto às novidades, adoro o estilo do Topuria, mas acho que contra o Islam ele não se safa, a não ser que acerte um daqueles certeiros (e vamos ver se o poder também se traduz no peso acima. Terá sorte se for um Poatan em miniatura). Não fiquei muito convencido com a desculpa do corte de peso, dado que ele não é especialmente alto para a categoria, e nos pesos leves é praticamente tudo de 1.75 para cima e com mais wingspan, o que pode dificultar o jogo (apesar de ele ter um jogo de boxe – esquiva e entradas – excelente e do mais alto nível no UFC). Nos pesos pena, de alto nível, com mais altura ele só enfrentou o Holloway, e apesar deste ter 1.80m tem uns braços que fazem um T-rex parecer ter a amplitude de um pterodáctilo.

    Adicionalmente, também queria ver o rematch com o Volk, dado que ainda tenho dúvidas se na primeira luta; apesar da exibição excelente, este ainda não estava afectado pelo KO contra o Islam (4 meses para um chuto daqueles parece-me muito curto..).

    Quanto a Volk vs Lopes, não sei se o brasileiro consegue ganhar, apesar do estilo mais espectacular. Ainda me parece bastante inconsistente (as lutas com Ige e o Ortega foram mais apertadas); e passar destes para o Volk é um degrau bastante alto. A favor dele a idade, e o facto do adversário vir de dois KO’s, apesar de ter feito uma pausa substancial desta vez.

    Chandler vs Pimblett para mim parece-me que seja apenas para vender devido à quantidade de fãs dos dois lados… O Pimblett melhorou muito ultimamente mas duvido que chegue alguma vez ao título (para ser sincero até tenho duvidas que consiga ser top 5 consistentemente; provavelmente será no render desta guarda), e o Chandler, que para mim é um lutador melhor, deve ser dos gajos mais burros (para não falar de batoteiros) que já vi dentro do octógono. Deve ser muito solitário o estado do único neurónio que vagueia naquele cérebro cada vez que ele cruza o portão…

    Pitbull vs Rodriguez, apesar de achar o Pitbull melhor, tem o contra da idade, mas acho que aqui a UFC tem dois cenários de sonho; se ele ganha passa a ser top 5 e pode disputar o título numa divisão que ficou um bocado orfã ultimamente (subiram Ortega, Max e Ilia); se perde, toda a gente quer ver Chandler vs Pitbull pela animosidade entre os dois.

    A juntar a isto felizmente os cards começam a melhorar daqui para a frente – depois de um ou dois (até o 312 o foi..) bastante fracos em termos de nomes, hoje temos por exemplo um fight night recheado de potenciais boas lutas.

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