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Uma Arte Chamada Culto da Personalidade

Tenham alguma calma com os fanáticos de Cristiano Ronaldo.

Não digo isto por condescendência. Muito menos para os desculpar de tudo. Digo-o porque talvez estejamos a olhar para o problema do lado errado.

Quando vemos alguém defender Cristiano Ronaldo contra toda a evidência, relativizar qualquer comportamento, atacar quem o critica ou colocar um jogador acima da própria seleção que diz defender, a reação mais fácil é chamar-lhe irracional, fanático ou simplesmente estúpido.

Mas a história da humanidade está cheia de milhões de pessoas perfeitamente normais que fizeram exatamente o mesmo perante figuras submetidas a processos muito profundos de construção simbólica. O ser humano não nasceu imune à propaganda. Pelo contrário.

Somos extraordinariamente permeáveis à repetição, aos símbolos, à autoridade, à pertença, à emoção, à identificação coletiva, à memória afetiva e à validação social. É precisamente por isso que o culto da personalidade existe há séculos e continua a funcionar. E aquilo que foi construído em torno de Cristiano Ronaldo merece, pelo menos, ser analisado através dessa lente.

Não estou a comparar Ronaldo aos atos, aos regimes ou aos crimes de figuras políticas que protagonizaram alguns dos maiores cultos da personalidade da História. Isso seria intelectualmente absurdo. Estou a comparar mecanismos. Porque os mecanismos são reconhecíveis.

Durante mais de vinte anos, Cristiano Ronaldo deixou progressivamente de ser apresentado apenas como um futebolista extraordinário. Passou a ser apresentado como outra coisa.

Portugal, o capitão, o símbolo, o exemplo, o orgulho nacional. O homem que nunca desiste, o homem que carregou um país, o homem que fez tudo por nós. O único, o inigualável, o melhor, o eterno capitão.

Isto interessa porque a propaganda eficaz raramente funciona através de uma grande mentira lançada de repente sobre uma população. Funciona, sobretudo, através de milhares de pequenas associações repetidas durante anos.

Ronaldo com a bandeira, Ronaldo com o hino, Ronaldo com crianças, Ronaldo emocionado, Ronaldo com a mão no peito, Ronaldo a olhar para o céu. Ronaldo e Portugal, Portugal e Ronaldo. Vitória e Ronaldo, sacrifício e Ronaldo, orgulho e Ronaldo.

Repetir. Repetir. Repetir.

Até chegar o momento em que já não é necessário explicar a associação. O cérebro completa-a sozinho.

Na psicologia existe um fenómeno chamado illusory truth effect: a repetição aumenta a familiaridade de uma mensagem e essa familiaridade pode contribuir para que ela seja percebida como mais verdadeira. Existe também a processing fluency: aquilo que o cérebro processa facilmente tende a parecer mais natural, familiar e intuitivamente correto. Depois entra o efeito halo, a identificação de grupo, a dissonância cognitiva, o raciocínio motivado, o viés de confirmação e aquilo a que a psicologia social chama identity fusion.

É aqui que a coisa deixa de ser apenas futebol.

Quando uma pessoa associa Ronaldo à narrativa da infância difícil e das dificuldades familiares, ao Europeu, às bandeiras, ao orgulho de ser português, às festas na rua e aos golos que celebrou durante vinte anos, Ronaldo deixa de ocupar apenas o compartimento mental de “futebolista”. Passa a ocupar pedaços da própria identidade.

E quando isso acontece, criticar Ronaldo pode deixar de ser psicologicamente recebido como “estão a criticar um jogador” e começar a ser recebido como “estão a atacar uma coisa que também é minha”.

É por isso que algumas discussões parecem completamente impossíveis. Não estamos todos a discutir apenas os mesmos factos: uns estão a avaliar um comportamento, outros estão a defender uma identidade.

E duas pessoas podem olhar exatamente para a mesma imagem e ver coisas completamente diferentes.

A transformação do homem em símbolo

A própria linguagem institucional ajuda a perceber o processo. Cristiano Ronaldo já foi apresentado pela Federação Portuguesa de Futebol como “o capitão de onze milhões de portugueses”, “insuperável”, “inigualável” e “único”. É oficialmente tratado como símbolo internacional de Portugal, tem um aeroporto com o seu nome e a sua figura é utilizada como instrumento de projeção internacional do país.

Já pararam para pensar na raridade deste tipo de consagração ainda em vida e, mais do que isso, ainda durante a carreira ativa e no auge da projeção pública da própria personalidade?

Não é inédito homenagear figuras vivas, mas é relativamente invulgar assistir a uma acumulação tão densa de mecanismos de monumentalização antes sequer de a carreira terminar: aeroporto e praça com o seu nome, um museu dedicado à própria vida e até a academia de formação do Sporting rebatizada como Academia Cristiano Ronaldo. O próprio Sporting justificou a mudança dizendo que pretendia “imortalizar” o nome daquele que considera o maior símbolo formado pelo clube.

É quase uma monumentalização em direto. Em vez de a memória pública se formar depois da carreira, a figura começa a ser inscrita fisicamente no espaço, nas instituições e na paisagem enquanto ainda está ativa.

A relação entre a marca CR7, a Seleção, a Federação, Portugal e a identidade nacional tornou-se progressivamente mais difícil de separar.

Nada disto significa que exista uma sala secreta onde meia dúzia de pessoas controla tudo aquilo que os portugueses pensam sobre Cristiano Ronaldo.

A propaganda moderna não precisa de funcionar assim.

Uma narrativa suficientemente poderosa torna-se auto-reprodutiva: instituições repetem-na, jornalistas repetem-na, marcas repetem-na, comentadores repetem-na, adeptos repetem-na, algoritmos amplificam-na, e o próprio protagonista começa também a reproduzi-la.

É aqui que aparece outro mecanismo particularmente interessante: a auto-mitificação.

Ronaldo já não precisa que sejam exclusivamente terceiros a dizer que é o melhor. Ele próprio o diz, explica porque considera ser o mais completo, apresenta os números e define os critérios segundo os quais considera que a grandeza deve ser medida. E quando surge um critério que lhe é menos favorável, como a ausência de um Campeonato do Mundo, questiona a importância desse mesmo critério.

Isto é comunicação. É framing.

Não se altera necessariamente o facto; altera-se a moldura dentro da qual o facto deve ser interpretado.

O herói precisa do antagonista

Há depois outra característica recorrente da propaganda personalista: a narrativa torna-se extraordinariamente simples. Existe o herói, existe aquilo que o herói fez pelo povo, existe a dívida moral que esse passado cria e, quando surge um conflito, aparece o antagonista.

Ao longo da construção deste herói foram surgindo vários; o mais recente chama-se Jorge Jesus.

É também aqui que entra o personalismo: o atleta deveria servir a instituição; na narrativa personalista, começa a parecer que é a instituição que existe para servir a grandeza do atleta.

O herói também pode ser a vítima

Outra técnica extremamente eficaz é aquilo a que podemos chamar hero-victim narrative.

A figura é simultaneamente poderosíssima e vulnerável: é o maior, indestrutível, extraordinário, mas está constantemente a ser injustiçado; não o respeitam, não reconhecem aquilo que fez, tentam derrubá-lo, tratam-no mal, perseguem-no, invejam-no.

Esta combinação é extraordinariamente poderosa porque transforma praticamente qualquer conflito numa nova confirmação do mito: se vence, vence porque é extraordinário; se perde, alguém o prejudicou; se é criticado, estão contra ele; se reage mal, estava magoado; se rompe com alguém, foi provocado.

O mito torna-se difícil de falsificar porque quase qualquer resultado consegue ser incorporado dentro dele.

Tivemos esta semana um pequeno exemplo que, para mim, é quase perfeito. Uma notícia publicada nestes dias dizia:

“Proença, Jesus e staff de Ronaldo estão alinhados, falta convencer o próprio Cristiano, que ainda está muito afetado.”

Leiam devagar.

A frase é extraordinariamente trabalhada enquanto construção narrativa. Todos estão disponíveis, todos querem resolver, mas falta Cristiano. E porquê? Porque Cristiano está “muito afetado”.

Num único título conseguimos fazer várias coisas: transformar Ronaldo de potencial agente do conflito em alguém emocionalmente ferido por ele, contextualizar a sua resistência através da dor, colocar o presidente da Federação, o selecionador e o próprio staff a movimentarem-se em torno da decisão de um único homem e reforçar, voluntariamente ou não, a ideia de que Cristiano não é apenas mais um jogador dentro da estrutura, é alguém com quem a própria estrutura tem de negociar.

Há aqui victim framing, centralização personalista, deslocação de responsabilidade e aquilo a que a teoria da comunicação chama image repair.

Agora convém fazer uma distinção importante. O título possui claramente a gramática de uma peça favorável à reparação da imagem de Ronaldo. Dizer que foi diretamente “plantado” pelo seu staff exigiria conhecer a fonte da informação, e essa prova não temos.

Mas há uma pergunta jornalisticamente deliciosa: quem explicou ao jornalista que Cristiano Ronaldo está “muito afetado”?

O estado emocional privado de Ronaldo não é observável da bancada. Ou estamos perante interpretação editorial, ou alguém suficientemente próximo transmitiu essa informação. E é precisamente através destas pequenas formulações que as narrativas públicas são construídas.

A propaganda moderna já não precisa de fronteiras

Talvez seja aqui que muita gente ainda esteja presa a uma ideia antiga de propaganda. Propaganda não são apenas cartazes soviéticos, discursos de ditadores e jornais controlados pelo Estado.

Hoje existem televisão global, Instagram, Facebook, TikTok, YouTube, jornalistas, influencers, algoritmos, marcas, federações, campanhas digitais e audiências de centenas de milhões de pessoas. Uma figura construída em Portugal pode ser reproduzida no Médio Oriente, na Ásia, em África ou chegar ao Camboja com uma velocidade e uma escala que nenhuma máquina propagandística do século XX poderia sequer imaginar.

A escala tecnológica mudou. O cérebro humano não mudou assim tanto.

Continuamos a responder a símbolos, a procurar líderes, a copiar grupos, a proteger identidades, a racionalizar contradições e a transformar pessoas em histórias, e histórias em mitos. Talvez seja por isso que não vale a pena olhar para um adepto completamente absorvido por Cristiano Ronaldo e perguntar:

“Como é possível esta pessoa não conseguir ver?”

A pergunta mais interessante é outra:

“O que aconteceu durante vinte anos para que esta pessoa aprendesse a ver desta maneira?”

Porque nenhum culto da personalidade começa quando alguém coloca a fotografia do líder na parede. Começa muito antes: quando o homem deixa lentamente de ser apenas um homem, transforma-se num símbolo, depois num símbolo nacional, depois num exemplo moral, depois numa memória coletiva e, finalmente, numa identidade.

Chega então o momento em que, para milhões de pessoas, atacar o homem já não parece atacar apenas o homem. Parece atacar tudo aquilo que aprenderam a associar-lhe. É aí que o culto da personalidade revela verdadeiramente o seu poder.

E não, essas pessoas não são necessariamente menos inteligentes do que nós. São seres humanos, como os milhões que vieram antes delas.

E talvez seja essa a verdadeira inquietação: Cristiano Ronaldo é apenas um caso. Se estes mecanismos conseguem moldar durante décadas a perceção coletiva em torno de um futebolista, vale a pena perguntar o que conseguem fazer quando o objeto já não é futebol, mas poder, política, guerra ou a própria perceção da realidade.

Visão do Leitor: Marco Dias

18 Comentários

  • em09179
    Posted Outubro 6, 2026 at 9:59 am

    Os últimos textos sobre o CR mostram que os que não gostam dele são exatamente o mesmo tipo de pessoas que gostam dele. É que não há diferença…

    Qual é o problema de alguém se rever no CR? Eu vejo nele (ou via nele), alguém com uma capacidade de trabalho e de superação fora do normal, e é essa a imagem que guardo dele. Como todos na vida, temos momentos bons e momentos menos bons. Não o estando a defender, (até porque não existe qualquer defesa possível a este tipo de atitudes), ele deveria ter sabido sair pela porta grande, ou, se efetivamente quisesse ajudar a seleção como tanto diz, ficar para ajudar, fosse entrando ou simplesmente como figura maior, através do exemplo, lá está, de superação, de motivação, de capacidade de trabalho.

    Se acho que deveria voltar à seleção? Obviamente que não, mas cansa este tipo de comentários, textos, a falar do homem, do culto… É que todos temos as nossas crenças, sejam religiosas, políticas, filosóficas, sobre a alimentação, e isso não significa que se possa andar a atacar porque não acreditamos/gostamos da mesma coisa.

    • batalha34
      Posted Outubro 6, 2026 at 10:19 am

      Nao percebi a ultima frase. Não se pode atacar porque não se gosta? Mas voltou a pide e não sabiamos?

    • L_Higuita
      Posted Outubro 6, 2026 at 10:30 am

      Curiosamente, acho que perdeste precisamente o ponto central do artigo. O artigo não é verdadeiramente sobre Cristiano Ronaldo. Ronaldo é o caso de estudo. O tema é a forma como nós, seres humanos, construímos relações identitárias com determinadas figuras.

      Aliás, o teu próprio comentário acaba por ilustrar parte do fenómeno. Quando dizes “é essa a imagem que guardo dele”, estás precisamente a descrever uma representação construída ao longo de anos, associada a trabalho, superação e exemplo. Não há absolutamente nada de errado nisso. O artigo procura perceber o que acontece quando essas associações se tornam suficientemente fortes para fazer parte da forma como interpretamos informação nova sobre aquela pessoa.

      E ninguém te atacou por te reveres em Ronaldo. Pelo contrário, o texto termina precisamente a dizer que estas pessoas não são menos inteligentes nem inferiores. São seres humanos, como todos nós.

      Também é curioso trazeres religião, política e filosofia para a comparação, porque esses são precisamente alguns dos campos onde identidade, crença, pertença e raciocínio motivado estão mais estudados. Uma crença ser importante para nós não a torna imune a análise, sabias disto?

      E dizer que “quem não gosta é igual a quem gosta” também não refuta nada. Naturalmente que os críticos podem sofrer dos mesmos enviesamentos. O texto nunca afirma o contrário.

      E talvez a reação imediata de sentir um texto analítico como um “ataque”, quando ele não atacou ninguém, seja precisamente uma das perguntas mais interessantes que o artigo deixa em cima da mesa.

      Ou seja, estás a defender-te de uma acusação que o artigo nunca fez. E talvez seja isso o mais interessante. Foste o primeiro comentário publicado e caíste, quase de imediato, precisamente no centro do fenómeno que o texto descreve.

      Ninguém te atacou, ninguém disse que não podias admirar Ronaldo, ninguém te chamou menos inteligente por te reveres nele. Ainda assim, reagiste como se uma análise aos mecanismos de identificação, propaganda e culto da personalidade fosse também uma acusação pessoal contra ti, e sabes que mais, tu nem te apercebes disto ;)

      E é exatamente essa passagem, da análise de uma figura para a sensação de que algo em nós próprios está a ser atacado, que o artigo procura explicar.

    • Stravinsky
      Posted Outubro 6, 2026 at 11:43 am

      Esta resposta está totalmente ao lado daquilo que é o artigo de opinião.
      Se não conseguiste perceber os mecanismos evidenciados neste texto (que já agora aproveita o Cristiano Ronaldo para nos alertar para algo muito maior) então tenho pena e aconselho-te a ler e reler mais algumas vezes. Pode ser que te alerte para coisas realmente importantes.

  • batalha34
    Posted Outubro 6, 2026 at 10:18 am

    Ronaldo, Trump, Elon Musk, Ventura, etc etc etc etc.. todos a mesma tatica, todos controlam imprensa e comunicação, todos têm legiões de bots pelas redes sociais a debitar o mesmo vomitado, todos utilizam IA massivamente para criar ainda mais confusão (é ver aqui no blogue os bots que já foram apanhados a usar a IA para defender o Ronaldo por exemplo, uma pequena amostra do que se passa na internet). Isto é um ciencia nos dias de hoje.

    É a moda dos 2020’s. Utilizar as redes sociais para criar eco-chambers, criar confusão e boogeymans e depois dar um simbolo de super-homem que vai resolver tudo se o seguires, e quem estiver contra ele é porque gosta e apoia tudo o que é mau. O texto acerta na mouche, e é um assunto muito relevante nos dias de hoje e muito longe de ser só no futebol, portanto parabéns ao Marco por ter trazido este topico.

    Criticar o Ronaldo hoje não é criticar o que o Ronaldo fez em 2014 quando jogou contra a Suécia. Mas quem lê algo nas redes sociais parece que sim. Que criticar Ronaldo é criticar Portugal, é criticar a patria, é criticar a sua carreira. Não é. Criticar Ronaldo hoje é so isso, criticar Ronaldo hoje. Um pino de 41 anos que não se mexe e é insuportavelmente narcissista.

    • L_Higuita
      Posted Outubro 6, 2026 at 10:41 am

      Há um ponto em que discutir factos deixa de ser suficiente, porque já não estamos apenas perante uma opinião sobre um futebolista. Estamos perante uma representação emocional construída durante anos, ligada a identidade, memória, pertença e, neste caso, até à própria ideia de Portugal.

      É precisamente por isso que tentar “obrigar” alguém a ver aquilo que nós vemos pode tornar-se uma luta quase impossível. Quanto mais uma figura se funde com a identidade de uma pessoa, mais facilmente uma crítica à figura é recebida como uma crítica à própria pessoa, ao seu grupo ou àquilo em que acredita. A discussão deixa de ser apenas racional e passa a ser também identitária.

      A História dá-nos exemplos extremos deste mecanismo. Stalin governou um sistema responsável por milhões de mortes, perseguições e deportações e, ainda assim, quando morreu, multidões choraram genuinamente por toda a União Soviética. Em Moscovo, tanta gente tentou aproximar-se do seu corpo que pelo menos uma centena de pessoas morreram esmagadas pela multidão.
      Não digo isto, obviamente, para comparar Ronaldo a Stalin enquanto homens ou nas suas ações. Comparo o mecanismo psicológico no ser humano. Décadas de construção de uma figura como extraordinária, indispensável, paternal, vencedora ou inseparável da própria nação podem produzir uma ligação emocional que sobrevive até a factos profundamente contraditórios com o mito. Contra Ronaldo existem muitos factos, mas ele sobrive a todos.

      Chega-se ao ponto de duas pessoas verem exatamente as mesmas imagens, uma agressão do Ronaldo deliberada em campo, e uma delas ainda assim encontrar forma de a minimizar, justificar ou negar. Os olhos recebem o mesmo acontecimento, a identidade decide o que fazer com ele.

      E talvez seja essa a parte mais difícil de compreender: um culto da personalidade não precisa que uma pessoa desconheça os factos. Precisa apenas que a imagem construída seja emocionalmente mais poderosa do que eles.

      Por isso sim, criticar Ronaldo hoje, para algumas pessoas, já não é simplesmente criticar aquilo que Ronaldo fez hoje. Parece-lhes criticar Portugal, vinte anos de memórias, uma carreira inteira e até uma parte delas próprias. É precisamente aí que termina a discussão sobre futebol e começa o tema do artigo.

      Chamaste-lhe ciência, e é. Mas eu prefiro chamar-lhe arte, porque a propaganda não vive apenas de mecanismos psicológicos conhecidos, vive da capacidade de os combinar com símbolos, timing, emoção, imagem e narrativa até a construção parecer espontânea. A ciência explica porque funciona. Mas a verdadeira arte? Essa está em fazê-la funcionar sem que se veja a mão de quem a construiu.

      • batalha34
        Posted Outubro 6, 2026 at 10:57 am

        Concordo com tudo, não estava a tentar dizer que o texto estava errado, concordo com o texto a 100%, estava apenas a tentar simplificar e desmistificar a narrativa que se vê aqui recorrentemente fruto dessa mesma “arte” ao dizer que criticar o Ronaldo hoje é so mesmo isso, criticar Ronaldo hoje. O resto é tudo consequência da arte de que falas.

      • Stravinsky
        Posted Outubro 6, 2026 at 11:48 am

        100% de acordo com tudo o que dizes neste comentário.

  • Kacal
    Posted Outubro 6, 2026 at 10:36 am

    Aceito e respeito a opinião do post, nada mais a dizer sobre isso.

    Foco apenas num ponto geral. Vejo muita gente a falar dos fanáticos de Ronaldo e bem em alguns casos, mas e os “haters” que também existem? Haverá uma diferença tão grande entre as duas partes? É que não vejo tanta critica à outra parte, mas percebo que a narrativa atual não permita.

    Qual a diferença entre quem apoia o Ronaldo incondicionalmente e só apoia a Selecção por causa dele indo contra o representante do País no futebol e a favor dele, que não me identifico minimamente com isso. E a outra parte que deixa de apoiar e ver a Selecção por causa do mesmo Ronaldo que acontece e também não me identifico minimamente? Para mim é tudo farinha do mesmo saco!

    No meu caso que é aquele que posso falar, podem-me acusar de tudo mas nunca deixei de apoiar incondicionalmente e ver a Selecção esteja lá Ronaldo ou não e tenho vibrado igual com esta ausência dele estes jogos. Para mim Portugal é Portugal, é o meu Pais, a Selecção é representante no futebol e como Orgulhoso Português vejo os jogos e apoio incondicionalmente e vibro imenso independentemente do Ronaldo portanto há muito fanatico aí, mss também o seu oposto!

    • batalha34
      Posted Outubro 6, 2026 at 10:49 am

      Como é que a seleção pode simultaneamente representar Portugal e os portugueses e ao mesmo tempo ser controlada por um individuo particular? Isso só funciona se não fores coerente.

      Eu apoio a seleção (e sempre apoiei) quando de facto tentam representar o país e são um conjunto de pessoas que estão ali de “sacrificio” a representar a nação e a cumprir os seus sonhos de o poderem fazer. Apoiei e muito nestes dois ultimos jogos por exemplo, até porque tinham uma pressão extra completamente injusta em cima deles.

      Não podes é pôr a cabeça na areia e dizer que isso é sempre incondicionalmente verdade porque a ideia é bonita. A seleção está obviamente minada por um individuo que faz uso da mesma para aumentar a sua marca pessoal e para proveito proprio. E isso já só apoia quem quer.

      Apoiar as coisas incondicionalmente não olhando para condições particulares sem qualquer espirito critico, não é uma virtude.

    • L_Higuita
      Posted Outubro 6, 2026 at 11:05 am

      Kacal, obrigado pelo comentário. Infelizmente, o artigo já era demasiado extenso para ainda conseguir abordar este e vários outros pontos. Mas tocaste numa questão muito importante e, para mim, particularmente interessante. E há aqui bastante mais ciência do que pode parecer à primeira vista.

      A propaganda e a construção personalista não produzem apenas seguidores incondicionais. Podem também produzir a reação inversa. Na psicologia existe um conceito chamado psychological reactance, (reactância psicológica). Em termos simples, acontece quando uma pessoa sente que alguém está a tentar condicionar a sua perceção, impor-lhe uma narrativa ou limitar a sua liberdade de julgamento. A resposta pode ser uma necessidade intensa de recuperar autonomia, rejeitando essa mensagem e, por vezes, deslocando-se até na direção oposta.
      É um fenómeno estudado há décadas na psicologia da persuasão e talvez ajude também a perceber porque convém termos alguma calma com os chamados haters de Ronaldo.

      Quando começamos a reconhecer repetidamente uma determinada construção de imagem, o enquadramento favorável, a proteção, a repetição de determinadas mensagens e aquilo que interpretamos como tentativa de persuasão, podemos passar da simples resistência à narrativa para uma verdadeira aversão à própria figura que passou a simbolizá-la.

      Depois entra aquilo a que a psicologia social chama polarização afetiva. Já não estamos apenas a discordar de determinados comportamentos, começamos a sentir emocionalmente o “outro lado” como um grupo adversário. E aí o fanático e o hater podem tornar-se, em certa medida, imagens invertidas um do outro.
      Um passa a justificar praticamente tudo porque ama aquilo que a figura representa. O outro corre o risco de começar a interpretar praticamente tudo da pior forma porque odeia aquilo que essa mesma figura passou a representar.
      Eu próprio reconheço que, em determinados momentos, senti essa raiva. E isso também merece análise, porque perceber os mecanismos da propaganda não nos torna automaticamente imunes aos mecanismos psicológicos que estamos a estudar.

      Talvez esta seja até uma extensão importante do artigo, Kacal. Um culto da personalidade pode colocar a figura no centro tanto da devoção como da rejeição. Uns constroem parte da sua identidade a defendê-la, outros podem acabar por construir parte da sua identidade a combatê-la.
      A diferença saudável está precisamente em conseguir regressar aos factos, avaliar cada comportamento pelo que é e não precisar nem de proteger o homem nem de o destruir.

      Portanto, sim, pode existir fanatismo dos dois lados. Uma figura suficientemente polarizadora consegue organizar emocionalmente não apenas os seus seguidores, mas também os seus opositores.
      Por outras palavras, num extremo temos: “amo-o porque representa tudo aquilo em que acredito.” No outro: “detesto-o porque representa tudo aquilo contra o qual passei a lutar.”

    • L_Higuita
      Posted Outubro 6, 2026 at 11:07 am

      No entanto, aproveito para acrescentar uma leitura mais pessoal sobre aquilo a que chamamos “haters” de Cristiano Ronaldo. Suspeito que uma parte importante desse fenómeno se enquadre melhor no conceito de moral outrage (indignação moral).

      É aquilo que acontece quando deixamos de interpretar certos comportamentos apenas como erros pontuais e começamos a vê-los como violações repetidas de valores que consideramos importantes: arrogância, injustiça, manipulação, abuso de estatuto, falta de respeito, entre outros. Aí pode surgir uma forma de raiva moral.

      Essa indignação não é necessariamente irracional. Pode ser uma resposta perfeitamente compreensível a comportamentos que alguém considera moralmente errados. O problema surge quando deixa de estar ligada aos atos concretos e se transforma numa hostilidade permanente contra a pessoa ou contra o grupo que a defende.

      Mas atençaõ kacal, existe uma investigação a mostrar que tendemos a sobrestimar a indignação moral dos outros online, o que pode fazer-nos perceber o ambiente como mais hostil e polarizado do que realmente é. O próprio culto à personalidade do Ronaldo gosta de amplificar isto para reforçar o a narrativa héroi-vítima que falo no artigo…

      É por isso que teria também cuidado com a perceção de que existe uma massa gigantesca de “ódio” a Ronaldo. Acredita que a dimensão da rejeição está bastante abaixo da dimensão da identificação e da devoção que se construiu em torno da sua figura, mas aqui já estou claramente a entrar numa apreciação minha, não numa conclusão científica. Posso estar errado e aceito perfeitamente essa discussão.

      O ponto essencial para mim é outro: nem toda a crítica é ódio, nem toda a admiração é culto. O problema começa quando deixamos de conseguir separar a pessoa dos factos. E talvez seja aí que os dois extremos finalmente se encontram.

    • Lopes da Silva
      Posted Outubro 6, 2026 at 11:43 am

      Mas tens noção que a maior parte das pessoas que critica o Ronaldo sempre torceu pela Selecção mesmo estando ele lá, não tens?
      Estás a pôr no mesmo saco quem prefere o Ronaldo à selecção/país e quem não quer saber da selecção devido ao Ronaldo, ok até aqui tudo bem.
      Mas o maior grupo são os críticos do Ronaldo que ainda assim apoia a selecção. O que tens a dizer destes? Pois são estes que realmente importam para a discussão.

      E foste cair logo no ponto principal dos texto, como já referido também pelo Higuita a outro user. Entraste logo na defensiva, fizeste logo jus ao objecto do texto: “Concordo com o texto, mas e os outros…?”
      “Mas e os outros” não interessa. Quando há este tipo de feedback, o importante é ouvir e fazer uma introspecção. E não contra-atacar logo. Caíste logo na armadilha.

  • filipe19
    Posted Outubro 6, 2026 at 10:44 am

    Monumentalização ou monetarização, eis a questão

    • L_Higuita
      Posted Outubro 6, 2026 at 11:19 am

      Filipe, talvez não possamos olhar como conceitos concorrentes, mas fases do mesmo processo: monumentaliza-se para legitimar, monetariza-se para capitalizar. O símbolo vem primeiro, o mercado chega logo a seguir.

      A história mostra que monumentalização e monetarização raramente são fenómenos totalmente separados. O que muda é qual aparece primeiro e qual é o objetivo dominante.

      Nos cultos políticos clássicos, como Stalin, Mao ou vários regimes autoritários do século XX, a monumentalização servia sobretudo legitimidade, poder e permanência simbólica: retratos, estátuas, nomes de cidades, slogans, museus, cerimónias, reescrita da memória. O “lucro” principal não era comercial, era político: transformar a pessoa numa instituição viva, quase numa entidade histórica inevitável.

      Mas quando esse mesmo mecanismo entra numa sociedade de consumo, acontece algo diferente: o capital simbólico torna-se capital económico. Depois de a figura ser convertida em símbolo, o símbolo pode ser vendido, licenciado, reproduzido, associado a produtos, lugares, experiências e marcas.

      É um processo muito antigo: primeiro cria-se valor simbólico, depois esse valor pode ser convertido em poder, dinheiro ou ambos.

      A monetarização também retroalimenta a monumentalização. Quanto mais a imagem aparece em produtos, edifícios, museus, campanhas, cerimónias e espaços públicos, mais parece “natural” que aquela pessoa seja extraordinária ;) tens aqui um win win…

      Historicamente, este ciclo aparece de formas diferentes em reis, líderes políticos, santos, estrelas do cinema, músicos e atletas. O que muda é o contexto, a lógica de transformar uma pessoa em símbolo, para depois explorar o valor desse símbolo é muito antiga.

      Obrigado pela tua intuição e contribuição Filipe, e espero ter contribuído.

  • papasx
    Posted Outubro 6, 2026 at 10:57 am

    Falando de futebol, o problema existente (falta de noção) reside na cabeça do jogador Cristiano Ronaldo. A partir daí tem sido ao longo dos anos um desenrolar de paródias constrangedoras a faltas de noção alimentadas pela entourage que vive às custas dele. O JJ fez o que um treinador normal costuma fazer, toma as decisões que pensa serem as melhores para a equipa. Até agora nada a apontar. Em meu nome, fico agradecido, já tinha perdido o entusiasmo de ver a seleção jogar à bola. Noutros tempos não trocaria um Inglaterra-espanha por um Noruega/dinamarca-portugal.. agora, amuar por aquecer e não entrar? só nao aconteceu a quem nunca jogou, mesmo com a promessa de “se der hoje jogas”. A realidade é que o jogo não estava para o Ronaldo entrar porque felizmente não precisámos de ir atrás. Adiante, a federação é que está a pôr os pés pelas mãos ao fazer dele mais do que um jogador de futebol, el rei deus sol não precisa de cumprir regras… é este o exemplo e o tipo de comportamentos que se quer passar aos jovens e crianças deste mundo ou até aos restantes colegas de profissão? Certamente que não. Nos regulamentos não entra estatuto, mas a visibilidade que o caso tem é inegável.

    Percebo que queiram terminar isto a bem, há um mundial há porta e ninguém melhor que o Ronaldo para ser porta estandarte do mesmo. Igualmente tenho a percepção de que, se não acabar a bem, a parceria Ronaldo federação poderá nunca mais ser a mesma. Daí a termos um Proença a abrir as pernas assim também não havia necessidade, mas outros valores de levantam.

    Cumprimentos

    • L_Higuita
      Posted Outubro 6, 2026 at 11:30 am

      Este teu comentário liga diretamente ao ponto que respondi ao Kafka mais acima sobre moral outrage. Eu olho para o teu comentário e não vejo “ódio ao Ronaldo”, mas sim indignação moral.
      Fundamentas a tua visão na tua perceção de que determinadas regras, responsabilidades e padrões de comportamento deixam de ser aplicados da mesma forma quando a figura em causa adquiriu estatuto suficiente para parecer estar acima da própria instituição.

      Não falas nem criticas apenas aquilo que Ronaldo faz, mas a sensação de que o sistema à sua volta reage de forma diferente por ser Ronaldo. Quando as pessoas interpretam isso como privilégio, injustiça ou erosão das regras comuns, a crítica deixa de ser apenas futebolística e passa a ser moral.

      Mas Papas, quando a identificação com a figura já é muito forte, o julgamento moral pode tornar-se assimétrico. A psicologia fala em identity-protective cognition, raciocínio motivado e redução da dissonância cognitiva. Não gosto muito de trazer a dissonância cognitiva, mas vemos muito isso com o Ronaldo.
      O comportamento continua à frente dos olhos, mas aceitá-lo pelo seu valor facial obrigaria também a rever uma imagem construída durante anos. O cérebro procura então compatibilizar as duas coisas: relativiza o ato, questiona a intenção, desloca a culpa, procura contexto ou aplica ao ídolo uma tolerância moral que provavelmente não aplicaria a outra pessoa, nem da sua própria família.

      É por isso que, para ti, o problema evidente é a violação da regra. Para outros, a prioridade psicológica do cérebro deles passa a ser preservar a coerência do mito. Não é necessariamente ausência de valores morais dessa pessoa, é a aplicação desses mesmos valores através de uma identidade que já deixou de ser neutra.

  • Stravinsky
    Posted Outubro 6, 2026 at 11:40 am

    Se calhar sou um bocadinho suspeito porque estes são os temas que mais me movem e me interessam: comunicação, psicologia, jornalismo, teoria de massas, tecnologia digital, sociologia, propaganda, filosofia… São temas que fazem parte do meu dia-a-dia e por isso, para mim, este é o melhor texto de opinião alguma vez publicado aqui no blog.

    É muito pertinente e creio que muitos de nós (os chamados “haters” do CR7) já alertamos várias vezes para este fenómeno que se foi construindo durante os últimos 20 anos em Portugal. Não é só “criticar por criticar” os amantes de Cristiano Ronaldo como se fossem cegos, mas alertá-los que todos os dias ao longo de duas décadas se tratou tudo o que fosse relacionado com o jogador como a construção de um mito.
    Se calhar não o fizemos sempre com as melhores palavras mas esteve sempre esse alerta de que, independentemente dos feitos de Cristiano Ronaldo, havia a construção de um mito diante dos nossos olhos. Eu, o Kafka e muitos outros, fomos sempre dizendo que tudo à volta de Cristiano Ronaldo e à forma como o tratavam estava a levar a uma construção napoleónica de um jogador de futebol.
    Por ventura, não foi só aqui, mas também na nossa vida “real”. Sei lá eu quantas vezes tentei alertar os meus próximos para toda a propaganda em torno de Cristiano Ronaldo, a esmagadora maioria das vezes sem qualquer sucesso.

    Creio que o texto coloca todas as questões mais importantes, sendo que há outra que ao longo dos últimos anos me tem inquietado também (mas que provavelmente já sai do escopo deste texto) que é, quão “necessitado”, “esfomeado”, “desnutrido”, “ávido” de símbolos, figuras e cultura, tem de estar um país para elevar uma figura como Cristiano Ronaldo (com todas as suas virtudes e com todos os seus defeitos) a herói (mais do que herói até) nacional?
    Mas lá está, isso será conversa para uma outra discussão.

    Parabéns Marco Dias e já agora, escreve sempre que puderes, pois julgo que este espaço fica ainda mais rico.

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