Sadio Mané está na sua terra natal, na aldeia de Bambali, onde realizou um amigável, que teve a presença de El Hadj Diouf, Papiss Cisse, Mbaye Diagne e Desire Segbe para agradar ao seu povo, sendo que depois do jogo, que foi disputado num lamaçal, anunciou que irá construir um estádio com relvado sintético.
Match de gala organisé par Sadio Mané à Bambali avec El Hadj Diouf, Papiss Demba Cissé, Mbaye Diagne… 😍🇸🇳https://t.co/oH84RQA1Ly pic.twitter.com/ZP1cLyFNz0
— wiwsport (@wiwsport) June 14, 2022


21 Comentários
TOPPOGIGGIO
A lembrar-me a minha infância em que jogávamos num pelado muito pior, com pedras e espinhos e sem sapatilhas; às vezes lá tinhámos sorte dos adultos deixarem por lá as suas sapatilhas que já não prestavam e tentávamos – porque nos ficavam grandes no pé – amarrar cordas para não ficar tão mal; durava pouco porque ainda era pior que jogar desclço e partir um dedo pela 3ª vez nesse mês…
Para o Mané (e os outros craques) deve saber muito bem reviver essa realidade sempre que podem. Muitos jogadores já têm uma estátua algures, mas o Mané (e outros com a mesma postura) que merece uma a meu ver, pelo seu futebol e pelo que faz fora dele, insiste em acções muito mais do que honrarias e esse altruísmo está ao alcance de poucos. Que hajam mais Manés.
Neville Longbottom
As vezes eu próprio não sei o privilégio que tive ao jogar sempre em relva boa ou em pavilhão a minha infância toda com chuteiras boas.
Pelo teu comentário percebi que tiveste uma infância longe dos luxos mas nem por isso menos feliz?
Um grande abraço
Aurinegro
Penso que o Toppo já referiu aqui que tem origens Africanas e acabou por vir para Portugal. Se bem me lembro disse que estudou na Universidade de Aveiro, tal como eu.
A mim parece-me um meio termo entre os dois. Jogava em campos literalmente inclinados, com erva em vez de relva, mas com muitos espaços com lama. A maior parte das vezes em que joguei num campo com balizas foi sempre em pelado, um deles parecia pedra por baixo. Nunca joguei descalço mas tive umas chuteiras que tinham de durar a época toda.
E aproveitando a tua pergunta, muitos de nós tivemos condições muito diferentes, mas arrisco a dizer que a correr atrás da bola, dar umas tesouras nos amigos e a marcar uns golos, qualquer criança / jovem é feliz ehehe
Abraço aos dois !
TOPPOGIGGIO
Aproveito o teu comentário para responder também ao Neville, tentando não me alongar, pois qualquer um de nós, quando fala da infânci são memórias que nunc maiss acabam…
Sou caboverdiano (descobri há dias que o nosso “colega de blog” The Process também é) e fui para Portugal com 18 anos, para a Universidade de Aveiro. EM Cabo Verde não tive luxos, porque além de Cabo Verde ser um país pobre, eu sou de uma ilha que é maioritariamente rural, de uma aldeia ainda mais rural que a própria ilha. Para terem uma ideia, o mis próximo que os carros chegam da minha aldeia são 4km. esses tens de os fazera pé e estamos a falar da ilha mais montanhosa, logo, é a subir e a descer e o caminho está mais próxio do de cabras do que propriamente de ser asfalto. Para chegar à vila normalmente são 7km a pé. Contudo, quando cresces nessa realidade, não é nada transcendente; outros já passaram por isso e tu és mais um.
O facto de ser uma aldeia tão remota, obrigava a que, não tendo acesso aos brinquedos modernos ou normais para uma criança europeia, tivéssemos de ser nós a fabricá-los: carrinhos de madeira, carrinhos com duas caixas de fósforo e uma linha, que permitia construir “camiões” que até levantam a carroçaria para despejar a areia, o cimento, ou outra mercadoria fictíca, botes de pesca fabricados com latas de azeite, tirávamos os aros dos tambores de metal (ficava uma roda fininha) e com um arame dobrado na ponta a fazer uma argola – que permitisse ao aro rodar e dar a direcção – faziamos um “veículo, e depois competíamos entre nós para ver quem chegava primeiro…
Mesmo para ter uma bola, apanhávamos uma meia velha de alguém, enchiámos de trapos – para ter consistência – dávamos as voltas necessárias para o acabamento ficar redondo, cosiamos com uma agulha (ou mandavamos coser, para não levar raspanete, uma vez que por essa altura ainda tinha 5/6 anos) e estava a bola feita. Mais crescidinho já haviam bolas de plástico e de vez em quando uma bola de “capchute”, que são as bolas como vocês as conhecem, com camera de ar e o revestimento exterior.
O campo que eu referi no comentário anterior, arrisco dizer que as medidas serão à volta de 30m x 10m (ou menos); é muito estreito, por baixo de uma ladeira, e muitas vezes – para mostrarmo-nos um central à Fernado Couto ou Mozer (na aldeia era 95% Benfica e os outros 5 do Porto, exceptuando um indivíduo que, não ligando patavina ao futebol, dizia-se do Sporting, para garantir representatividade) – mandáva-mos um chutão pela ladeira acima e depois ficávamos a espera da bola descer para o campo novamente – sem que o jogo parasse, porque isso fazia parte – e cada um tentava posicionar-se à frnte do adversário par ser ele a ganhar a bola para a sua equipa. Nesse procedimento era quando mais partíamos os dedos, porque no direcção da linha (imaginária) do meio campo, onde a bola muitas vezes caía, havia um bocado de rocha (que não terão conseguido desfazer quando lá fizeram o “estádio”). O resto do campo também tinha pedras, mas menores (faz de conta que eram os tufos de relva), espinhos e algum vidro partido, embora os vidros, por estarem por lá há muito tempo, já fossem muitas vezes polidos, de tanto serem pisados, e não eram o principal receio…
O JOGO (falando já na era das bolas de “capchute”).
Creio não ser necessário dizer que, uma bola “moderna” num campo desses, apenas tinha aparência normal de uma bola, apenas no primeiro jogo, pois o desgaste era tanto que, ao fim desse 1º jogo ficava pelada, o que fazia com que ficasse uma bola castanha, precisamente a cor do interior, que reveste a camera de ar; acresce um problema: há a tal ladeira, o campo fica logo abaixo, e abaixo do campo tem um ribeiro plantado (a água corre para o mar 24 horas por dia) com inhame (um tubérculo que eu gosto muito) e as folhas têm altura muitas vezes acima de 1.70m. As folhas faziam uma espécie de floresta e sendo ainda miúdos tapava-nos completamente.
O campo não tem vedação propriamente dita; tem umas pedras colocadas à volta, mas isso não impede que a bola muitas vezes saia do campo. Num só jogo, a bola, já castanha, ia molhar-se na no ribeiro 30 ou 40 vezes, ficando ainda mais castanha, mais pesada, e era cada vez mais difícil encontrá-la quando ia ao ribeiro, não só pela cor, mas porque por muito que se visse em que parte da folhagem tinha caído, ao penetrar no interior desta, batia no solo, também ele cheio de pedras, e ia para outros locais; os jogos não tinham duração definida, era até acabar, e o acabar era muitas vezes depois do lusco fusco, outro factor que ainda atrapalhava mais encontrar a bola “perdida” no ribeiro.
A regra era simples: foste tu o último a tocar na bola antes dela cair no ribeiro, vais tu buscar, mas isso levantava duas questões (havia de ser bonito com o VAR e a intensidade..): aqueles lances em que a bola tocava de raspão, quase imperceptível, uma vez que quem chutou dizia com toda a certeza que a bola tinha batido no outro e o outro jurava a pés juntos que bola não lhe tinha tocado. O jogo ficava parado largos minutos às vezes e entre os mais fuminhas (os mais famintos para jogar) muitas vezes ia alguém buscar a bola, acabando com a teimosia entre os 2 interveniente s directos.
Ainda acordados? :D
A 2ª questão que levantava – e para acabar porque já vai longa esta lembrança – era quando jogavamos balizona (baliza como vocês a conhecem”. Normalmente jogávamos balizinha (sem ser preciso guarda redes e a baliza teria uns 50cm de largura) e aí rematávamos mais de perto, por ser mais difícil acertar. Havia miúdos que eram resistentes os estoiros e irritavam muito durante o jogo porque a função deles era tão somente ficarem especados na baliza, tapando-a completamente, e o adversário, com os nervos, mandava-lhe estoiros onde apanhasse, para ver se, com medo, subia um pouco no terreno. Os resistentes levarem estoiros era como pregar no deserto.
A BALIZONA
Muitas vezes as equipas eram 3 contra 3 ou 4 x 4, e se chegassem mais miúdos (a aldeia tem menos de 200 habitantes e eramos pouco mais que alguns miúdos) faziamos 5 x 5 e aí já era com baliza grande. Os postes muitas vezes faziamos à europeia, com paus a fazer a baliza, e chegamos a ter rede, mas na maior parte das vezes a baliza eram 2 pedras e ficava (mais uma vez ao critério do VAR) delimitar os postes e a barra, virtualmente. ra o VAR eram os próprios intevenientes, juízes em causa própria.
Hoje, umas 3 décadas depois, consigo achar graaça, mas na altura nem tanto. Imaginem uma baliza virtual e diálogos como:
– Foi golo; não não foi;
– Passou por cima;
– foi ao poste;
– foi ao ângulo
– foi à barra; esta é a que gosto mais porque a barra era imaginária e muitas vezes fazia com que a altura “baliza” fosse dependente da altura do guarda redes. A justificação era “eu saltei e não consegui chegar” logo, com toda a certeza, não foi golo, passou por cima, como quem diz se viesse “dentro” da baliza eu teria defendido…
Adiante: lembram-se dos miúdos resistentes aos estoiros e que irritavam quando jogávamos balizinha por a taarem completamente? A jogar a balizona tinhámos a oportunidde de vingar deles pois muitas vezes eram eles que ficavam à baliza (embora o normal fosse revezar porque quem ia a baliza era o cristo).
Como na balizona a regra era que, se a bola fosse golo e fosse ao ribeiro, era o guarda redes que a ia buscar, muitas vezes podíamos apenas encostar, mas havia miúdos tão mauzinhos, que em vez de apenas encostar – porque já tinham fintado o redes – mandavam um balázio de propósito, com a maior força possível, para fazer o desgraçado do redes (que já o chatera na balizinha) ir procurar a bola castanha, molhada, entre a folhagem do inhame (que ainda por cima dá muita comichão), depois de ainda por cima ter sofrido um golo. Bons tempos, hoje em dia estamos todos espalhados e quando calha de nos encontramos nas férias (nem sempre regressamos nos mesmos anos), é um fartote de lembranças; da bola e das pescarias, mas isso fica para outra altura porque mesmo histórias da bola esta é apenas uma pequena lembrança.
Quem quiser visualizar, e não tendo encontrado melhor, fica este vídeo para verem o desafiante que a natureza é na minh aldeia.
Não dá para ver o campo, mas aos 8.03 conseguem ver a esquina de uma das balizas (na altura havia) e por baixo o tal ribeiro com inhames (poucos, porque ao que parece foi depois das cheias, que levam tudo para o mar, e depois tem de se plantar tudo de novo). O campo está do lado direito do caminho de quem está a filmar e por cima do campo, está a tal ladeira…
Um abraço.
TOPPOGIGGIO
https://www.youtube.com/watch?v=kYt0akgbewM
Achei um vídeo que mostra o belo estádio da aldeia: aos 24’52” da para ver na perfeição o cenário, embora a essa distânca pareça muito perfeitinho o pelado, só que não…
A Aldeia hoje está infelizmente mais deserta porque os velhotes form morrendo e os mais novos foram mudando para a vila…
Pablo
Somos 3 então hehehe…chutar a bola nas “calcetas” e sair com a ponta do dedo todo ferido com sangue kkkk
TOPPOGIGGIO
Olha outro ehehe Muito bom! Eu sou de Santo Antão, e tu? Abraço.
Pablo
Interior de Santiago, aqui tem grogue mas não como de lá! Abraço
LANDERS
pelo que fui lendo, pensei que eras de Ribeira da Barca ?
Aurinegro
Obrigado por este testemunho. Incrível a maneira como o futebol nos liga.
Vejo aqui tantas semelhanças, com o devido distanciamento europeu. As balizas eram pedra também, havia um lago (no final da tal inclinação) e o jogador mais perto tinha de correr o máximo que pudesse para apanhar a bola antes de chegar ao lago. Algumas vezes a baliza era uma árvore e uma pedra. Recordei agora todas as discussões sobre se passou por cima da pedra ou se era golo. Uns 25 anos atrás também.
Obrigado Toppo ! :)
Mr. Mojo Risin'
Grande comentário.
BrunoAlves16
Man, li este comentário de fio a pavio com um sorriso que nem consigo descrever. Suspeito ser dos melhores de sempre que li aqui no blog. Da minha parte muito obrigado pela partilha!
SV Lima
Também sou.
És de Figueiras?
Marcio Ricardo
Podia seguir a sua vida e esquecer o passado, mas volta às origens e, de uma forma ou de outra, ajuda as suas gentes. Um homem com H grande. Felizmente existem alguns no futebol e no mundo.
Kacal
Como não gostar de Mane? É mais missão impossível que a de Tom Cruise! Craque dentro e fora dos relvados. Espero que o Liverpool não seja demasiado intransigente caso ele queira seguir outro rumo na carreira, ele merece por tudo!
Football Scene Investigation
O que mais me faz feliz e ter paz neste mundo imundo e ao contrário são estes episódios.
Estes episódios transmitem esperança e felicidade.
Homens como este contamos poucos.
lipe
Podem não ser os melhores africanos de sempre no futebol, mas Drogba e Mané para mim são os maiores de sempre.
Marcio Ricardo
São sim, junto com Salah, Weah, Etoo e Yaya Touré.
lipe
Isso já é um lote de 6 jogadores, só um pode ser o melhor africano de sempre. Drogba e Mané são dos melhores mas não acho que algum dos dois seja o melhor.
Para mim são é os maiores africanos de sempre por tudo o que vêm mostrando fora de campo.
Pedro Yelton
Nunca nos devemos esquecer das nossas raízes e de quem nos criou, por esse mesmo motivo não tenciono sair de casa dos meus pais
Red Punisher
Numa palavra: HUMI(L)DADE!