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Viver e desfrutar

O que leva as pessoas a visionar um espetáculo? Provavelmente a necessidade de se sentirem realizadas, de se distraírem, de se divertirem. 

E a um jogo de Futebol? A começar no pré-jogo, a imperial, a bifana ou a sandes de courato nas roulottes com amigos a discutir as eventuais opções do treinador, esse momento maravilhoso de comunhão indescritível. Depois, a ida para o estádio, o afinar a voz, cantando e gritando pelo clube do coração, preparando o momento que irá acontecer momentos depois. Após passar a segurança, o caminho para a porta correta, o lugar, ver o 11 inicial, confirmando teses ou criticando uma eventual escolha. A entrada da equipa, um momento apoteótico que contagia tudo e todos, desde adeptos, dirigentes a jogadores, sente-se a adrenalina no ar. O início do jogo, o acalmar da multidão. O golo, o momento mais bonito, onde se abraça desconhecidos, se eleva os braços, cachecóis, onde as cordas vocais fazem um esforço que pensávamos não ser possível, um momento mágico. O final do jogo, que pode ter momentos distintos, o prazer de uma vitória, aplaudindo os nossos “heróis” ou criticando quando vergados a um empate ou uma derrota, por vezes, também se aplaude o esforço, quando se percebe que apesar de um resultado negativo o não houve nem mais uma pinga de suor por deixar em campo. O voltar para casa, com um sorriso na cara, evidenciando orgulho após uma vitória, ou um ar triste e desiludido após um mau resultado. Por fim, o deitar na cama, a reflexão sobre o que poderia ter sido feito de diferente. Resumindo, um misto de emoções, com alguns rituais, onde reina a imprevisibilidade de sabermos o que vai ocorrer durante e no fim daquelas horas. 

Mas será que é mesmo assim?  Talvez para a chamada velha guarda, que viveu verdadeiros “infernos” no sentido bom da palavra onde reinava a paixão pelo seu clube, e a necessidade de sentir que não se conseguia fazer mais, porque no tempo dos nossos pais e avós, segundo histórias que me contam, documentários que assisti, tudo era diferente. 

O que mais me entristece a ir ao estádio ver um jogo atualmente é essa falta de ambiente. Onde a grande maioria da nova geração está mais preocupada em filmar ou tirar fotografias para colocar nas redes sociais, do que viver o momento, e parece que esse, se tornou o principal objetivo de “ir à bola”. Entrei no estádio, foto para o instagram. Está a tocar o hino, vídeo para o instagram. Começa o jogo, foto para o instagram. É golo, foto para o instagram. É intervalo, é melhor colocar o resultado e uma foto no instagram. O jogo está aborrecido, é melhor jogar candy crush. Final do jogo, foto para o instagram. E atualmente é isto, a necessidade de perpetuar momentos em formato de ilusão é tanta que se esquecem de viver e de usar aquele, que é, o instrumento mais poderoso que temos para guardar momentos, a nossa memória. E esse é o instrumento que de facto, nos permite viver, sorrir ou chorar por momentos, nos permite arrepiar por relembrar do que quer que seja, no futebol e na vida. 

E se o meu telemóvel se estragar e perder tudo o que tenho em formato digital? É azar, mas é possível, o que guardo para mim? A recordação das fotografias e vídeos que outrora existiram, os momentos? Esses já passaram e eu estava tão preocupado com uma tentativa ilusória de eternizá-los que me esqueci de vivê-los. 

São essas memórias, que nos dão força, e nos fazem ter a certeza daquilo que queremos, e tendo essa certeza, é ir à luta. À luta por ter de volta ambientes infernais, de se sentir a energia e adrenalina no ar. E disso, nunca vou desistir. 

Agora… Larguem os telemóveis, aproveitem a memória, e sobretudo, vivam a vida!

Visão do Leitor: Miguel Rosa

5 Comentários

  • Post Author
    Visão de Mercado
    Posted Março 24, 2020 at 1:22 pm

    Link para quem pretende enviar textos https://blogvisaodemercado.pt/2020/03/visao-do-leitor-3/

  • MuchoG
    Posted Março 24, 2020 at 1:26 pm

    O último jogo que fui ver foi o Benfica-Braga para a Taça de Portugal e fiquei estupefacto com o ambiente, só há barulho nos golos ou para assobiar o árbitro, até as claques me pareceram mais caladas (podia ser um protesto ou de onde eu estava sentado).
    Sim não somos como os turcos ou argentinos mas a Luz já teve grandes ambientes e agora é muito raro, mesmo o Benfica-Porto desta época foi muito fraquinho para o tipo de jogo que é.
    Claro que não ajuda o futebol ser fraco e a malta estar habituada a ganhar todos os jogos contra os pequenos mas isso não explica tudo.

  • briosa
    Posted Março 24, 2020 at 1:35 pm

    acho que isso acontece mais em grandes clubes europeus, que atraem muitos estrangeiros e o ambiente perde-se. Bernabeu e Camp Nou são exemplos disso. Em Portugal o problema é outro, falta de adeptos!

  • Daniel Rosa
    Posted Março 24, 2020 at 2:26 pm

    O preço dos bilhetes e passe de época faz com que as pessoas nos estádios dos grandes tenham forçosamente de ser mais abastadas e com um padrão social diferente. Padrão esse que faz com que seja impossível um maior convívio e o apoio vocal constante.

    Depois há o problema de muitos clubes quase não terem adeptos e portanto nem sequer se dá a hipótese de um pessoa ter de puxar do orgulho para calar os forasteiros.

  • Joga_Bonito
    Posted Março 24, 2020 at 2:42 pm

    A solução passará por duas medidas que considero serem importantes tomar. Os estádios devem reservar apenas 10% da bilheteira no máximo para turistas ou para qualquer público indiferenciado, onde os bilhetes possam ser mais caros. Esses lugares devem estar todos próximos para que não haja aquela situação de essas pessoas que pagam bilhete e não serão adeptos de nenhuma das equipas posam ver o jogo sentadas se quiserem e não terem de pedir ou mandar a quem se levanta para cantar para que se sente.
    O resto dos 90% tem de ser taxado da seguinte forma, onforme a capacidade de cada clube a nível de lugares no estádio. Nos estádios acima de 50 mil lugares (no caso dos três grandes os únicos que têm adeptos para fazer esta política) deve-se taxar assim: para sócios do clube da casa os bilhetes anuais não devem exceder metade de um salário mínimo nacional do seu país. Devem haver três grupos de bilhetes: os mais baratos,os médios e os mais caros. Dê-se a volta que se queira dar, num país com este salário mínimo bilhetes caros expulsaram os verdadeiros adeptos do estádio e lá enfiaram tias de jet-set que não querem saber de futebol e só lá vão ocupar os lugares de quem quer apoiar. Porque o que se está a fazer com esta política de bilhetes é expulsar os adeptos colocando lá turistas e clientes de produtos consumidos no estádio, isto é a morte do futebol, não perceber isto é suicídio.
    Os bilhetes mais caros deveriam ser no total metade de um salário mínimo mensal e ocupar apenas 30% do estádio. O mais barato devia ser 3 vezes mais barato que o mais caro e o médio ficar no meio entre os dois. Pelas minhas contas isto daria que um bilhete caro na Luz deveria custar no máximo 15 euros, o médio 10 euros e o barato 5 euros. Imaginem uma família de dois filhos, era 20 euros os bilhetes para todos (o mais barato ), já dava outra hipótese de ter o estádio mais cheio de adeptos e não turistas.
    Nos clubes mais pequenos, o mais barato deveria ser 2 euros e o mais caro 7 euros.
    Depois, para os adeptos do outro clube que viria lá jogar, o que se fazia era estabelecer o preço máximo que se paga nos grandes, os 15 euros. acabava-se as vergonhas que roubos que se pedem nos estádios pequenos aos adeptos dos grandes e isto pressionava os pequenos a arranjarem receitas por si. A maioria depende de cravar a unha nos grandes quando lá vão e não se preocupam em encher mais o estádio em outros jogos.
    Esta política deveria ser implementada mundialmente.
    Para quem venha alegar que isto levaria a quebras económicas em clubes como o Real, MU (em bilheteira) esclareço desde já que a grande questão é que esses clubes estão a ser pressionados a cobrar cada vez mais por conta da inflacção salarial.
    Um dos efeitos negativos da inflação dos salários é que levou os clubes a terem de pedir balúrdios aos seus adeptos e com isso os estádios ficaram cheios de turistas.
    É preciso parar com essa especulação, é preciso restringir as transferências sem nexo, impedir a injecção de fundos de dinheiro sujo e tabelar os salários nos clubes para que não excedam 90% das receitas. Também se devem limitar o número de inscritos nos clubes nas equipas A e nos escalões de formação. Deve-se também restringir as transferências de adolescentes abaixo dos 21 anos. Com isso os clubes não estavam tão necessitados de pedirem balúrdios nos bilhetes e poderiam voltar a ter políticas de bilhteiras para os adeptos.
    A única solução para termos um futebol com estádios a abarrotar e infernos loucos como o da Luz, da Bombonera e outros, é tabelar mundialmente os preços dos bilhetes para que não excedem metade do salário mensal mínimo do país em questão. Não sou contra os turistas, acho até que certos turistas podem ser apaixonados por futebol que só querem ver um grande clássico. Nada há de errado num japonês querer ver ao vivo um Barça-Real no Camp Nou. O que não pode é querer-se encher os estádios de turistas (apenas porque pagam mais) e expulsar os adeptos que amam os clubes.
    Isto é um pouco como o turismo de massas, demasiados turistas mata a própria essência da cidade, no Porto se os portuenses forem expulsos da cidade que ambiente, que beleza, que essência do Porto verão os turistas? A beleza da Invicta faz-se com os portuenses, não para ver uma cidade gentrificada!
    Darei um exemplo. Um dos jogos que mais fascínio teria para mim ver ao vivo seria um Corinthians-Palmeiras na Arena Corinthians, ver todo o espectáculo das torcidas a vibrar, a paixão pelo clube, aquele momento louco em que se marca um golo e o estádio entra em polvorosa! Agora para ver uma seca de turistas a comer pipocas, sem paixão nenhuma, valha-me Nossa Senhora, que seca!
    Futebol é paixão, é magia no campo e nas bancadas, não perceber isto é matar o futebol!

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