Mas eis que o futebol, esse grande encenador de milagres operados pela geopolítica e por contratos nababescos, resolveu dar uma lição magistral de contorcionismo intelectual aos nossos brilhantes analistas. Bastou o miúdo mudar-se para as aragens do deserto, sentar-se à mesa onde o mestre Jorge Jesus dita as leis do universo com o seu verbo iluminado e, acima de tudo, receber o santo sacramento da “Team Ronaldo”. Pronto. Fez-se a luz nas redações, acenderam-se os ecrãs e operou-se uma conversão em massa digna de entrar nos anais da hipocrisia nacional. Os mesmos que queriam ver o Félix banido para as profundezas das distritais hoje descobrem, lavados em lágrimas de comoção e com os olhos marejados de crude, que o rapaz afinal tem uma fada em cada bota e um padrinho nas Arábias.
O que mudou? O talento? Ora, a magia sempre esteve lá, intacta, daquela que faz o esférico chorar de alegria, como já mostrava com Bruno Lage quando fazia defesas inteiras parecerem figurantes de telenovela da tarde. O que mudou foi o colete à prova de bala. O Félix adquiriu o melhor seguro de vida do futebol moderno: o visto de conformidade da corte de Riade. Como o patrão da imprensa desportiva informal – que por acaso até manda no consórcio da Media Livre – passou a carimbar a parceria com o seu selo real, criticar o Félix virou crime de lesa-majestade. Tocar no rapaz agora dá direito a excomunhão imediata, perda de microfone e um convite vitalício para ir comentar o campeonato distrital de matraquilhos.
É uma delícia ver esta cambalhota coreografada. O homem joga numa liga que, com todo o respeito pelos camelos e pelos xeques, ainda não é propriamente a Champions League, mas os elogios agora fluem mais rápidos do que o petróleo a sair das condutas. Os que o acusavam de preguiça agora descobrem, maravilhados, que ele é o parceiro ideal para o capitão. Bastou o “Graúdo” vir a público chamar idiotas aos críticos e – pimba! – operou-se o milagre da multiplicação dos elogios. A azia anti-Benfica, essa doença incurável, cura-se facilmente com uma colher de xarope de Ronaldo bem doseada. Que o feitiço dure, porque se um dia o miúdo perde o visto real e decide voltar para a Europa, o peixinho de aquário recupera logo a memória e a pastilha elástica volta a esticar-se no sentido contrário. Amén.
Valter Batista

