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O Santo Sacramento do Deserto: João Félix, o Novo Apóstolo

A opinião pública no futebol português é uma coisa absolutamente maravilhosa: tem a elasticidade de uma pastilha elástica mastigada por um adolescente ansioso e a memória curta de um peixinho de aquário. Até há bem pouco tempo, falar de João Félix nas tertúlias do contra – essa associação de caridade que sofre de uma urticária crónica ao vermelho – era o equivalente a uma heresia em plena missa solene. O rapaz carregava o pecado original de saber tratar a bola por “tu” desde os tempos do Seixal. Para os tribunais do ódio partidário, Félix era um “flop” de passadeira vermelha, um menino bonito com demasiado gel no cabelo que só servia para gastar o orçamento de cosméticos da Federação. Exigi-lo fora da Seleção era o prato do dia de dez em cada nove comentadores que se acham mais importantes do que o próprio selecionador.

Mas eis que o futebol, esse grande encenador de milagres operados pela geopolítica e por contratos nababescos, resolveu dar uma lição magistral de contorcionismo intelectual aos nossos brilhantes analistas. Bastou o miúdo mudar-se para as aragens do deserto, sentar-se à mesa onde o mestre Jorge Jesus dita as leis do universo com o seu verbo iluminado e, acima de tudo, receber o santo sacramento da “Team Ronaldo”. Pronto. Fez-se a luz nas redações, acenderam-se os ecrãs e operou-se uma conversão em massa digna de entrar nos anais da hipocrisia nacional. Os mesmos que queriam ver o Félix banido para as profundezas das distritais hoje descobrem, lavados em lágrimas de comoção e com os olhos marejados de crude, que o rapaz afinal tem uma fada em cada bota e um padrinho nas Arábias.

O que mudou? O talento? Ora, a magia sempre esteve lá, intacta, daquela que faz o esférico chorar de alegria, como já mostrava com Bruno Lage quando fazia defesas inteiras parecerem figurantes de telenovela da tarde. O que mudou foi o colete à prova de bala. O Félix adquiriu o melhor seguro de vida do futebol moderno: o visto de conformidade da corte de Riade. Como o patrão da imprensa desportiva informal – que por acaso até manda no consórcio da Media Livre – passou a carimbar a parceria com o seu selo real, criticar o Félix virou crime de lesa-majestade. Tocar no rapaz agora dá direito a excomunhão imediata, perda de microfone e um convite vitalício para ir comentar o campeonato distrital de matraquilhos.

É uma delícia ver esta cambalhota coreografada. O homem joga numa liga que, com todo o respeito pelos camelos e pelos xeques, ainda não é propriamente a Champions League, mas os elogios agora fluem mais rápidos do que o petróleo a sair das condutas. Os que o acusavam de preguiça agora descobrem, maravilhados, que ele é o parceiro ideal para o capitão. Bastou o “Graúdo” vir a público chamar idiotas aos críticos e – pimba! – operou-se o milagre da multiplicação dos elogios. A azia anti-Benfica, essa doença incurável, cura-se facilmente com uma colher de xarope de Ronaldo bem doseada. Que o feitiço dure, porque se um dia o miúdo perde o visto real e decide voltar para a Europa, o peixinho de aquário recupera logo a memória e a pastilha elástica volta a esticar-se no sentido contrário. Amén.

Valter Batista

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